Quando as duas garotas chegam à biblioteca do grêmio do Falcão, Valéria percebeu que encrenca tinha se metido. Não eram somente centenas de livros, eram centenas de caixas cheios de livros.

A dupla tem dificuldade de caminhar por entre as caixas. Jeniffer faz um esforço de empurrar as caixas para abrir um espaço para que ambas possam elaborar um planejamento de organização.

– Quem que fez essa bagunça? – pergunta Valéria retirando os seus óculos e limpando com uma flanela que ela tem no bolso de sua saia.

– O responsável da limpeza. João Magnífico. – responde à ruiva se sentando em uma daquelas caixas. Por mais que possa aparentar um caos, as caixas estão catalogadas. Todas por assunto, mas não por código. Quem vai cuidar disso será a bibliotecária. O que você vai fazer é colocar os livros por assunto nos mesmo lugares indicados pelas etiquetas nos armários. – explica.

Valéria abre uma caixa e começa a folhear um dos livros.

– “Tratado teórico da evolução econômica dos tesouros dragonianos em seus respectivos Reinos.” de Maria Smith... – reproduz o título.

– Economia. – responde a Ruiva Lefou.

A garota de cabelos castanhos e óculos vai em direção de outra caixa e retira mais um livro.

– “A Bruxa moderna e suas manifestações estéticas” de Volgan. – diz a garota com um sorriso nos lábios.

– Moda. Viu?! Moleza! – decreta a ruiva.

A amaldiçoada coloca o livro de volta na caixa.

– Moleza nada! É a parte mais difícil. Colocar de volta a bagunça que aquele João Grandão fez nesta biblioteca. Tadinhos dos livros... Foram estuprados por um membro de oitenta centímetros. – e diz isso de uma forma bem vulgar.

– Qual é Valéria... Vai dizer que não gosta. – provoca a ruiva.

– Sou garotinha, menorzinha. Ele, monstrão! Tô fora! – e mostra a língua. Pega ele pra você!

– Não seria má ideia... – e fica encabulada.

– Jeniffer, você não é lésbica? – pergunta a garota ajeitando os óculos.

– Sou mulher. Só porque gosto fazer também com outras garotas não me impede de provar do que é bom. – e a ruiva.

– OH! Eu estou sozinha com você! DEUSES! Vou ser estuprada! – fingindo horror.

E a linda ruiva se levanta. Depois comenta:

– Você não é o meu tipo. – faz cara de nojo. Não sou pedófila.

Um livro voa na direção da Lefou. Como uma ninja, Jeniffer segura o livro com uma velocidade incrível. Depois a ruiva lê a capa do mesmo.

– “Estudo gastronômico dos Goblins.” De Lucius Drake. Culinária. Seja organizada! Eu volto mais tarde. Tem limite de tempo, querida... Beijinhos... – diz a ruiva toda rebolativa deixando o livro que segurou por cima de uma caixa.

Valéria vomita alguns palavrões. Na verdade, ela estava curiosa em saber como seria ser atacada por uma sapatona. Porém Jeniffer é inteligente o suficiente para não vacilar. Ainda mais sabendo quem ela é...

– Esperta... – diz a garota de cabelos castanhos e óculos.

Sozinha, a garota de aparência infantil, mas com uma mente de uma mulher de uma balzaquiana, começa a ler o conteúdo de caixa e arrumar os livros em seus respectivos lugares.

Quanto mais cedo começa, mas cedo termina.

Uma vez ou outra, a garota folheia algum livro interessante ou descobre textos interessantes. Valéria fica estudando os grimórios dos antigos formandos e ri de algumas conclusões de outros.

Foram seis horas de trabalho e leitura ocasional.

Súbito surge alguém.

– Tudo bem aí?! – pergunta uma voz masculina.

– Tudo. – retruca a garota. Eu estou arrumando a bagunça de um idiota. – provoca a baixinha.

– João ia gostar de ouvir isso. – responde a mesma voz.

Valéria se levanta e vai à direção da voz e descobre quem é.

– Chifrudo. O que faz aqui? – pergunta a garota para o Tapista, Tasso Atripas, o ilusionista do grêmio e um dos cinco antigos.

O sujeito faz uma expressão engraçada e diz:

– O João disse que tem uma série de livros de ficção do Arafat Mistery. Vim pegar emprestado. – e sorri.

Valéria faz uma cara de poucos amigos.

– Acha mesmo que vou deixar te emprestar ou pegar qualquer livro por aqui? – decreta a garota por pura maldade e vontade de provocar a infelicidade o máximo possível.

O Tapista ri.

– João me disse que você ia dificultar as coisas, por isso recomendou-me que te indicasse a caixa C-12, da sessão dos proibidos. – diz o minotauro.

Os olhos da diaba brilham. A palavra “proibido” é como um aroma irresistível para sede de maldades da garota.

– Onde tá?! – pergunta a garota.

– Primeiro... A minha caixa. – negocia Tasso.

– Quem garante que está me dizendo à verdade? – desconfia Valéria.

O minotauro não diz mais nada, ele simplesmente começa a sair do recinto.

– Espera! Espera! – a garota segura a toga característica dos Tapistas. Eu te dou a maldita caixa. Porém vai me devolver depois... – diz um pouco encabulada. Não quero perder pontos na avaliação final.

– São dois livros para esta noite. Amanhã eu te devolvo. João disse que irá assumir que me emprestou antes de você. Pode ficar tranquila. – explica o musculoso ilusionista.

Fazendo um bico de menina má, Valéria vai até o local onde estão os livros e indica a caixa ao minotauro.

– Pode escolher. – diz a garota.

Como um raio, o minotauro começa a revirar os livros.

Valéria morde o lábio inferior. Ela ouviu histórias... Principalmente eróticas dos Tapistas e suas obsessões por mulheres humanas. A garota fica curiosa. Tem coragem para alisar as costas do musculoso espécime masculino.

O toque dela foi como uma pedra de gelo em uma chapa quente.

– O que está fazendo? – pergunta.

–Tô curiosa. Só isso... – responde.

O minotauro fica paralisado e pergunta:

– Curiosa com o que?

A garota se deita nas costas do macho e abraça o pescoço dele.

– Você nunca teve curiosidade de saber como é de uma garotinha? Ainda mais bonitinha como eu. – sussurra. Estamos sozinhos aqui. A Jeniffer não vai aparecer, pois ela deve estar lambendo aquela Qereen loira. Eu sou pequeninha e delicada... Será que nunca sentiu algo pelas meninas daqui?

O Minotauro retira os dois livros e se levanta com a garota agarrada no seu pescoço.

– Você deve estar desesperada para terminar este serviço, não é? – foi a sua resposta.

Valéria explode dando chutes e pancadas no corpo do minotauro. Os seus movimentos faz que a garota caísse sentada no chão.

– MERDA! O que houve com os homens?! Não querem nada uma mulher que quer ter momentos de prazer?! – desabafa. Não sou sexualmente atraente?! Eu tenho seios. – e aperta-os. Eu tenho coxas! – e levanta-se, batendo em suas coxas. EU TENHO BUNDA! – o seu olhar é quase beirando a insanidade.

Tranquilamente, o Tapista vai em direção da saída. A garota começa a tacar os livros em direção do sujeito. A miserável tem uma mira incrível.
Mas o minotauro sai do recinto.

Valéria desaba em prantos. Ela foi humilhada como mulher.

– Ah, sim. A sua caixa é da terceira fileira perto da segunda janela a segunda caixa de cima pra baixo. – informa o Tapista.

Um dicionário pesado acerta em cheio o rosto do minotauro.

– Morra... – diz a garota depois que o sujeito sai de vez do local.

Com a sua face vermelha de raiva, a garota vai à direção indicada pelo minotauro.

– Aposto que mentiu. Homens nunca prestaram mesmo... – balbucia estas palavras por pura mágoa.

Depois de alguns momentos, a guria de óculos retira as caixas que impediam o aceso de seu objetivo e consegue retirar a caixa dos livros proibidos.

Ao abrir, Valéria constata que não tem nada de mais. São livros eróticos, tratados necromânticos profanos, grimórios “vivos” e um livro em especial.

– Necrodemonomicon. Adorei o título. – comenta para si mesma.

A garota começa a folhear o livro. Leu a introdução. Que estava numa língua estranha, mas usando uma magia chamada Efeito Pentecostes o mago pode ler qualquer livro de língua estranha ou estrangeira.

– Anko... Nunca ouvi falar dessa língua. – e a garota lê com afinco tudo que foi escrito naquele livro.

Valéria descobre que é um livro maldito feito por um profeta de outro mundo que foi sobrevivente da Tormenta. Com o poder pactuado com essas forças e potências extradimensionais poderia realizar todo tipo de sonho ou desejo. A capa, feita com a pele de um rosto de um elfo, livro contém a alma do seu criador para instruir mais rapidamente os segredos contidos das potências das profundezas, além de Arton.

– Acho que estou apaixonada... – diz a garota sorrindo de orelha a orelha.

Então, Valéria abre espaço na biblioteca e desenha, com giz, uma imensa mandala.

Depois, dizendo aquela língua tão estranha e sensual as palavras contidas no ritual de invocação do mais poderoso mago que foi conhecido. “O Podre que Caminha”, em Anko, Nyarlathotep. O Senhor da esfera do primeiro planeta da grande estrela que ilumina Arton.

Valéria termina o ritual e luzes iluminam tudo. Aquelas Luzes saídas do círculo tracejado no chão. Toda a realidade é alterada para abrigar confortavelmente o mestre de todos os monstros.

Em todo o seu esplendor, o ser não tem aparência humana. Por mais agradável que possa parecer aos seus olhos, à criatura parece um monte de trapos feito de carne que usa como roupa. O seu rosto é hediondo, pois tem oito olhos enfileirados para o alto de sua testa medonha e reta como num bico de um pássaro. O seu corpo é constituído de pequenos tentáculos que lembram vermes enormes e finos, todos estes fios ligados a sua cabeça que lembra uma tampa de caneta esferográfica.

Uma pessoa normal estaria insana só de ver a criatura, mas estamos falando de Valéria...

– Ô espague! O que tu queres? Vamos fazer negócios? – propõe a garota.

A criatura se vira na direção da amaldiçoada e a olha com aquela fileira de olhos. Numa transformação mágica, a criatura se transforma e assume uma aparência mais humana. Uma mulher similar a Valéria só que adulta. Com uma voz cavernosa, profunda e medonha, inicia um diálogo com a garota.

– Negócios? Você tem encantos e correntes em todo seu corpo. Como conseguiu me invocar? – pergunta a criatura olhando para a alma da amaldiçoada.

– Bah! Sei lá! Sorte talvez... – e ri.

A criatura pensa um pouco. Depois responde para a garota.

– O livro absorveu parte dos encantos. Estava faminto. Posso retirar o resto, pois eu mesmo estou com fome...

– Podemos fazer negócios! – diz a garota toda animada. Gosta de almas? Posso vender um lote inteiro! – Valéria pensou no seu professor e todos os seus colegas.

– Vou pensar... Por ora, quero as suas correntes... É doce... – comenta a criatura.

Valéria sente uma energia envolvê-la como fosse uma lambida de uma língua muito comprida.

– São as minhas maldições. Pode ficar com elas. Porém quero um serviço completo de vantagens além um excelente plano dentário. – e sorri. Eu faço qualquer negócio...

Notas finais
(Conclui.)