Arabella

9 The horizon tries, but it's just not as kind on the eyes


Notas iniciais
Possoinhas que estão acompanhando arabella, comentem! Gente, comentem, se não demoro pra postar, sério.

"Claro que dói, mas passa. Pode demorar um dia, uma semana, um mês ou até mesmo um ano, mas passa meu caro, nenhuma dor é eterna."

– Tem certeza de que ainda tem condições de fazer isso? – O homem barbudo perguntou e Travis revirou os olhos. O corredor da Dark Night estava escuro e ele conseguia ver as luzes fluorescentes vermelhas pela brecha da porta no lado direito. O Stoll retirou trinta dólares do bolso e assentiu. – Não vou cobrar dessa vez, na última você fez uma confusão enorme e saiu mais machucado que qualquer outro playboy que já passou por aqui.

– Não sou um playboy. – Travis disse entredentes acirrando os punhos. O homem gargalhou, para Travis, seu sorriso se assemelhava ao som que um porco solta ao abate, aquele som estranho como se quisesse pedir por misericórdia, aquele som agudo que fazia seus tímpanos doerem. Estendeu os dólares para frente, as sobrancelhas arqueadas. – E eu quero pagar.

– Eles vão acabar com você. – Vociferou coçando a barba e pegando o dinheiro, lançou um olhar estranho para Travis antes de abrir a porta. – Isso é masoquismo, é idiotice. Um garoto jovem como você perdendo tempo com isso? Ora essa. Enfim, eu não vi você, você não me viu.

A porta fez um rangido ao ser aberta e Travis deu uma última olhada para trás. Seu coração pulava em ansiedade e então ele se lembrou da primeira vez que foi ali, junto a Nico. Em como achou bizarro as coisas que eles faziam, em como não havia sentindo em algo tão ilógico. Até que experimentou, e jogou as suas emoções ali, no meio daquela sala, ao lado de todos aqueles pivetes ao seu lado apostando quem sairia mais machucado, quem choraria e quem iria ganhar aquela luta.

Luta. Palavra certa para definir o que acontecia nas salas que haviam naquele corredor escuro. Luta. Algo que Travis fazia todas as sexta-feira a noite e resultava em mais hematomas. Luta. Aquilo que fazia Travis esquecer do fato de sua mãe pouco lhe dar importância e lhe castigar por ter reprovado. Luta. A última coisa que ainda o ligava ao seu pai. Luta.

Todos que frequentavam aquele lugar sabiam que as lutas não eram justas. Que haviam trapaças. Que ninguém nunca recebia algo em troca, apenas os ricos mimados que apostavam. Era cruel. Era irreal. O sangue que manchava o chão, as dores em protesto, as lagrimas.

Ora, por que logo Travis, um cara legal, com senso de humor bacana e uma vida perfeita gostava daquilo? De participar daquilo? Nem mesmo ele sabia. Só sabia, que gostava. E talvez, só talvez, aquilo o fazia ter noites melhores, sem pesadelos, sem dores no corpo por motivos desconhecidos para ele, além do motivo por ter lutado.

– Então quer dizer que o Stoll apareceu novamente, uh? – Ethan apareceu em sua frente, colocando casualmente um braço sobre seu ombro, Travis se sentiu desconfortável mas nada disse. No momento, dois garotos de aparência de quinze anos estavam no meio da sala, ambos com os punhos fechados, em posição de ataque ou defesa, os olhos concentrados no adversário. Os “espectadores” ao redor deles tinham dinheiro em mãos, gritando coisas desconexas uns com os outros, risinhos aqui e ali. Travis se sentiu em casa. – Você demorou, cara. Logo após o Chris te dar uma surra, eu o enfrentei e ganhei. Foi fácil, ele estava cansado mesmo. Ganhei por você, cara, achei que você não iria aguentar.

– Ninguém acha. – Travis debochou sentando-se no chão e cumprimentando algumas pessoas. – Eu fiquei uns dois dias sem sair da cama, depois foi moleza. Em horários vagos na escola eu cuidava dos machucados e ficava em repulso. Claro que dói, mas passa. Pode demorar um dia, uma semana, um mês ou até mesmo um ano, mas passa meu caro, nenhuma dor é eterna. E é fácil disfarçar, ninguém percebe, sempre usei roupas compridas mesmo, minha tia não nota nada, minha mãe nem sequer mora aqui e o meu irmão fica mais tempo comendo garotas fúteis do que dentro de casa. Então beleza.

– Mas ninguém nuca nota nada? – Ethan perguntou curioso, uma garota alta robusta apareceu na frente dos dois e estendeu um caderno, ambos anotaram seus nomes. Mais três lutas e seria a de Travis. – Minha namorada sempre percebe, mas nunca pergunta, acho que ela sabe que eu não sou tão certo quanto pareço.

– Você nem ao menos parece ser certo. – Travis gozou da cara que o colega fez e ambos sorriram. De todos ali, Travis era o única que ainda conseguia ser discreto. – Tem a chata da Arabella que fica enchendo meu saco e me vigiando a noite, eu tive que colocar remédio pra dormir dentro do suco dela hoje para que ela não percebesse que eu saí de casa.

– Arabella?

– É. Bom, não. O nome dela não é Arabella, é Katherine, mas eu chamo de Arabella porque ela odeia e eu não acho bonito chamar Katie, apesar de ser sim bonito, talvez seja birra. Enfim, ela é filha do meu padrasto e tá passando uns tempos aqui. E, cara, ela tá no meu quarto, ela vê meus hematomas e fica questionando, fazendo ameaça, como se ela se importasse. E outra, eu já peguei ela duas vezes na minha cama enquanto eu dormia, em uma ela estava apenas me encarando com aqueles olhos verdes grandões e em outra ela estava cuidando do meu braço. Ela é estranha, usa roupas estranhas, tem um papo estranho. Mas é legal, dá pra suportar.

– Que loucura. Mas você deveria ficar feliz que... Wow! Puta merda, quem trouxe essa barra de ferro pra cá? – Ethan gritou, todos se levantaram ao mesmo tempo, observando a cena: Um dos garotos que estava lutando, usou a barra de ferro e lançou contra o rosto do outro, sangue jorrava do seu nariz, seu olho estava roxo e havia uma grande elevação na sua bochecha, bem onde a barra havia pegado. Injustas. Era nisso que se resumia as lutas na Dark Night, injustas. Ninguém ajudou, ninguém poderia ajudar. O garoto choramingava enquanto o outro ria. Ethan tentava acalma-lo, mas era em vão, para ele a dor não era um analgésico como era para Travis. – Alguém pode levar ele para fora, por favor?

A garota alta robusta apareceu novamente e segurou a mão do garoto, lhe direcionando um sorriso um pouco maternal. O puxou delicadamente e saiu pela porta dos fundos, vaias foram direcionadas ao garoto e palmas ao vencedor. Travis já havia recebido muitas palmas, mas também vaias. Em poucos minutos, outra luta começou. Ele sentou-se novamente e observou, gostava de observar os pontos fracos dos adversários, era doentio, ele sabia, mas era inevitável sentir vontade de ganhar de todos.

Não muito tarde, Travis se levantou. Iria enfrentar um garoto ao qual ele não conhecia, era baixo, cabelos loiros e olhos caramelos. Teve a ligeira sensação de que o conhecia e o achou muito parecido do Will, mas deixou isso de lado quando ele se posicionou na sua frente. Suas mãos suaram um pouco, um fogo crescente dentro de si mesmo.

Quando o loiro atacou, Travis apenas foi para o lado e riu quando Lee Flecther apenas acertou o vago. Todos riram, na verdade, mas Lee ficou tão vermelho a ponto de grunhir e atacar novamente, Travis apenas desviou. De alguma forma não queria machucar o garoto a sua frente, mas era preciso. Atacou e Lee não teve a chance de desviar. Um, dois, três socos seguidos. Um, dois, três chutes seguidos. O corpo de Travis esquentou, seu coração acelerou e Fletcher tentava respirar diante do seu estado de vermelhidão, ele estava para explodir. Tossiu algumas vezes, se afastando, mas Travis foi novamente em cima, descontando toda a sua raiva por Johanna ter reclamado mais cedo sobre seu comportamento no garoto. Não sentia pena, as costas dos seus dedos estavam vermelhas, estavam machucadas, ele estava gostando disso, ele sempre gostou de se machucar. Continuou batendo e batendo, o sangue transbordando em suas veias, Lee no chão tentando respirar. Stoll estava finalmente, se sentindo melhor.

Porque de uma coisa o homem barbudo estava certo: Aquilo era masoquismo, e não havia outra coisa que Travis gostava mais do que se machucar.

Notas finais
Capitulo curtinho, eu sei, mas o proximo será enorme. Capitulo respondeu ou gerou mais duvidas?