Arabella
10 As Arabella, oh As Arabella
Notas iniciais
Katie soltou um longo suspiro antes da aula de química se iniciar. Ela estava decepcionada consigo mesma devido aos últimos acontecimentos e seus fracassos. Não conseguiu encontrar o livro anuário na casa de Angel, o que dificultou ainda mais as coisas. Não queria desistir e muito menos voltar para Chicago tão cedo, precisava procurar agora os mínimos detalhes.
O professor falava sobre o processo de radiação quando ela sentiu cocegas na área do pescoço, era James com a respiração irregular, estava dormindo de uma forma desengonçada na cadeira, o rosto para frente e os lábios quase tocando os cabelos da Gardner. Ela deu um risinho antes de se virar e empurrar o garoto para o lado, ele apenas fez um muxoxo e escondeu o rosto na curva de seu braço. James havia se tornando um grande amigo, talvez até mais que isso, se levar em conta a capacidade surpreendente que James tinha de deixa-la feliz com palavras toscas em tom animado.
Ele havia surpreendentemente melhorado, não sentia mais enjoos e sua pele foi voltando a cor normal com o passar do tempo, fazendo assim Stiles dizer sarcasticamente "Eu disse que era apenas uma virose."
Katie estava perdida em pensamentos quando o diretor entrou na sala acompanhado do líder do grêmio estudantil. Provavelmente para avisar de algum evento, projeto ou gincana. Katie revirou os olhos, odiava eventos oferecidos pela escola, nunca saía da forma como ela queria e a pontuação nunca era justa. Os alunos ficaram em silencio quando Wilson começou a falar:
– Bom dia alunos, como todos sabem, no nosso cronograma temos uma gincana no primeiro semestre. A gincana será realizada no próximo mês, com atividades extracurriculares, danças, apresentações, provas, conhecimento geral, desfile e tarefas dividam por cada equipe. Será cada sala por equipe, as cores respectivamente branca, amarela e azul. Vocês ficaram com a cor amarela, o regulamento e provas estão anexados no mural de informações, tenham um bom dia.
Um murmuro se iniciou e logo depois uma gritaria. Estavam todos empolgados, de fato, mas Katie queria que o tal evento pudesse ser cancelado, ela sempre foi mais pessimista de todos.
– Vamos ganhar! – Angelina gritou levantando-se e indo até o professor, que apenas ria diante de toda a situação. – Tudo bem que amarelo não é lá minha cor favorita, mas vou fazer esse sacrifício. – Todos prestavam atenção no que Angel dizia, menos Stiles, que continuava dormindo. – Todos os anos eu organizo tudo, e me digam, quantas vezes nós perdemos? – Um coro gritou "Uma" – É, uma, em que eu tenho absoluta certeza que o panaca do organizador da outra equipe, no caso o Stiles, trapaceou. – Os alunos sorriram e Angel olhou rapidamente na direção de James, a fúria faiscando em seus olhos. – Tudo bem, tudo bem, agora vem a minha parte preferida: O casal.
Annabeth soltou um gritinho empolgada e as meninas começaram a cochichar entre si. Nomes foram ouvidos ao fundo e Angel escrevia no quadro, um sorriso sapeca preenchendo o seu rosto. Katie gemeu e abaixou à cabeça, o barulho cessou e cada um falava o número dos casais selecionados. A disputa estava centralizada entre o quatro e o dois, Katie não levantou a cabeça para responder, apenas ergueu três dedos na direção do quadro. Quando todos terminaram, ela sentiu alguém cutuca-la e quando virou-se para trás, era James com as sobrancelhas arqueadas em sua direção.
– Olha só que ironia. – Falou indicando o quadro. Katie se virou calmamente e quase teve um infarto ao ver que o seu nome estava ali, que os casais formados foram Rachel e James, Annabeth e Percy, Angel e Will e por ultimo Katie e Travis. Sentiu seu rosto automaticamente ficar vermelho e percebeu quando Angelina e Stiles trocaram um olhar suspeito. Ela olhou para Travis e percebeu que o mesmo não demonstrava nada e quando ele olhou em sua direção, apenas deu de ombros, como se aquilo não importasse. E bem, por dois pontos, o casal quatro ganhou do casal dois.
– Travis e Katie! Uau, me surpreendi – Angel disse se aproximando e puxando Travis pela jaqueta e depois indicou a Katie que a seguisse. – Voltamos em quinze minutos, professor.
– Desculpa, mas eu não posso fazer isso. – A voz de Travis preencheu o auditório, aparentemente, eles iriam ensaiar. Katie sentia-se estranhamente inquieta, ainda mais pelas trocas de olhares que ela e Travis tinham constantemente. Não queria participar. Não queria desfilar. Não queria deixar de lado seus vestidos meigos antigos para usar outro estilo de roupa em uma passarela. E pior, na companhia de Travis, o idiota de sobretudo preto cobrindo cada centímetro de pele. – Eu não sei desfilar, o Percy e a Annie são profissionais nisso.
– Eu já abusei de todos os anos eles dois representarem nossa equipe – Angel disse com as mãos na cintura, andado de um lado para ao outro, analisando o casal na sua frente. – Precisamos de algo novo, nada de gatinho dos olhos verdes e loirinha gostosa, se fosse permitido, eu desfilaria ao lado da minha namorada, mas obviamente não é. E vocês foram os escolhidos.
– E porque não desfila você e o James? – A pergunta vindo de Katie pareceu inocente, mas na verdade ela estava se divertindo em provocar Angel. Não entendia o ódio que um sentia pelo outro.
– Você tá louca? Não. Não mesmo. Nunca. Credo.
– Quanto amor. – Cantarolou Travis.
– Vocês dois estão desviando do assunto! Vamos logo, quero você do lado direito e a Katie do lado esquerdo. Vamos Travis, não tenho o dia inteiro.
Eles suspiraram ao mesmo tempo e Travis se posicionou onde Angel havia indicado. Por hora, sua única tarefa era passar um astral de superioridade enquanto desfilava seriamente. Katie tentava não rir do fracasso de Travis, pois por mais que tentasse continuar ereto, ele se curvava um pouco e levava tapas na nuca dados por Angel.
Katie seguiu seus passos calmamente, nariz em pé a mãos na cintura. Corava a cada passo que dava, imaginando como iria fazer aquilo na presença da escola inteira.
– Preciso que vocês deem as mãos. E Travis, você deve rodar a Katie três vezes antes de o desfile encerrar, colocar a mão em sua cintura e encará-la.
Os dois se entreolharam e riram. Aquilo iria ser cômico. Eles ficaram frente a frente, Travis pegou as mãos quentes e pegajosas de Katie e a rodopiou, assim como Angel havia dito. Se aproximou, colocou a mão em sua cintura e a encarou. Katie congelou, tudo o que pode fazer foi se inclinar um pouco para trás e passar as mãos em volta do seu pescoço. Não conseguiu desviar o olhar, analisava calmamente a coloração diferente dos olhos de Travis e a seriedade que havia em seu rosto. Uma sensação gostosa fazia seu estomago tremer.
– Uau! Eu não esperava que rolasse tal química! – Angelina exclamou emocionada, Katie tentou se afastar, mas no momento seguinte seus pés se enroscaram no cadarço e ela caiu no chão, arrastando Travis consigo. A posição em que ficaram a fez fechar os olhos, estar tão perto dele era estranho, sufocante, ele era tão aberto e tão fechado ao mesmo tempo que causava angustia em seu peito. Queria tanto poder ajudá-lo, queria tanto poder saber o que o afligia. – Ei! Agarramento e beijo não está no enredo! Vamos lá, levantem-se. Começando de novo em três... Dois.... Um...
Katie suspirou. Aquele seria um longo dia.
***
– A Grace às vezes me irrita – Katie praticamente gritou quando se sentou na mesma mesa que James estava. Esse nem ao menos levantou o olhar, apenas continuou sentado bebendo seu milk-shake – Eu disse milhares de vezes: "Angel, não posso demorar muito, o James está me esperando na sorveteria" e ela fingia não ouvir, sabe o quanto isso é chato? Além de quê, não vejo necessidade de ensaiar na casa dela depois da aula.
– Você sabe como a cabelo de capim é – Stiles murmurou e sem a permissão de Katie encheu a boca com seu sorvete de baunilha.
– Ei! Seu guloso!
Ambos sorriram e Katie pôs uma mão no queixo observando a forma James relatava os acontecimentos da noite anterior e o motivo de sentir tanto sono na aula. A mãe dele havia pegado uma virose e estava incapacitada de permanecer só. Katie pôde perceber que Stiles, apesar de ser um idiota brincalhão, se importava com a mãe.
– Ela é uma rainha. É mãe e pai ao mesmo tempo. Devo minha vida a ela.
– Gostaria de conhecê-la.
– Ela iria te adorar.
– Por quê?
– Porque você é adorável, oras.
Katie gargalhou e assentiu, sentindo as bochechas ficarem vermelhas. Não estava acostumada com elogios, ainda mais daquele tipo. A única pessoa que a elogiava em Chicago era Abby e por ela ser sua madrasta, Katie tinha a imprenssão de que poderia ser falsidade. Agora, na companhia de James, estava levando aquilo realmente à sério.
– James...
Sua voz foi como um sussurro. Eles estavam na parte mais afastada da sorveteria e Stiles fazia a atividade de química enquanto Katie ainda degustava de seu sorvete.
– Hm?
– Posso fazer uma pergunta?
– Você acabou de fazer uma. Mas eu deixo você fazer outra.
– Então... – Ela hesitou quando James levantou o olhar para encará-la. – O que há de errado com você?
– O que?
– Angel costuma falar para eu me afastar de você porque você é má influencia e...
– Angelina é uma idiota. Você não deve acreditar no que ela diz, nem tudo o que ela fala é verdade. As pessoas não são o que aparenta ser. Quer um conselho melhor que o dela? Abra bem os olhos e analise o comportamento dela. E outra, se você tiver um pouco de sanidade, afaste-se do Travis.
– Que historia é essa? Não veja nada de errado na Angel.
– E em mim? Tem algo errado em mim, Gardner?
O sangue de Katie gelou e o sangue sumiu do seu rosto ao perceber que James estava furioso e magoado com ela, determinada a mudar de assunto, ela desviou o olhar e disse:
– E o Travis?
– Louco.
– Ahn?
– O Travis, é um louco varrido.
– Não fale assim dele! Ele é seu amigo.
– Eu já disse isso pra ele, não se preocupe, ele sabe o que eu acho dele.
– Olha – Katie suspirou, pousou as mãos em cima da mesa e tocou mas mãos de Stiles, apertando com força sem desviar dos olhos do rapaz na sua frente. – Vamos parar de falar deles e nos concentrar em você? Por favor.
– Tá, que seja.
– Primeiramente: Que historia é essa de condicional?
– Eu estava entrando no colegial e tudo mais, ensino médio para mim era o topo, aí eu decidi fazer um trote com os professores. Porém as coisas saíram do controle e... Bem... Eu quase morri queimado.
– Que horror.
James riu da reação de Katie e afastou suas mãos das dela. Sentia uma sensação boa e ruim quando a tocava. Um sentimento de melancolia sempre o invadia quando estavam por perto.
– E por que você e a Angel brigam tanto?
– Se eu disser que já fomos melhores amigos, quase amantes, você acreditaria? Espera, sem isso do amantes porque ela nunca me daria bola.
– Vocês já foram amigos? Serio?
– Sim. Quando ela tinha cabelo na coloração natural e repicado, quando ela e Thalia eram realmente parecidas. Eu não sei bem o que fez a gente se afastar. Foi depois do baile da escola, ela passou a me ignorar e quando nós conversávamos ela vinha com sete pedras nas mãos. Ela subitamente mudou de humor. E depois disso, mudou tudo. Gostava de usar roupas compridas e moletons, então passou a usar roupas bem mais curtas e extravagantes, iguais as atuais. Pintou o cabelo de vermelho, e agora que cresceu, pintou de loiro e fez aquelas mechas estranhas rosas. E em um belo dia, ela apareceu na escola ao lado de Lily e o boato de que elas estavam ficando se espalhou, depois ela ficou com fama de aspiradora de coro e pegou muitas garotas por ai. Uma loucura. Ela havia deixado de ser a minha Angel para ser a Angelina Grace sapata de plantão.
Katie ficou em silencio e riu da forma como ele deixou escapar um "Minha Angel". Ele nada disse depois disso, na verdade, já estava na hora de Katie voltar para casa, o céu já estava escuro e poucas pessoas se moviam na rua. Despediu-se de James com um abraço caloroso e saiu andando pelas ruas de Vancouver. Cantarolando uma musica qualquer, ela passou o percurso inteiro pensando no pai em Chicago, se ele estava com saudades, se ela deveria visita-lo nas férias. Mil e uma questões. Ela sentia falta do abraço paternal dele, do sorriso saltitante, do bigode de leite que ficava em seu lábio superior no café da manha, das suas piadas em relação a vida amorosa de Katie. Ela sentia saudades de Chicago. Aqueles míseros meses estavam se passado tão lentamente e o sucesso que ela pensava obter ao encontrar a mãe parecia um sonho distante.
Ao entrar em casa e subir as escadas ela deu um longo suspiro. Avistou Connor assistindo TV, mas nada disse. Entrou lentamente no quarto e jogou sua mochila no chão. O quarto estava escuro e ela foi se guiando as cegas para a cama e ao topar na cabeceira, se jogou na cama macia.
Nem tão macia, se levar em conta que suas costas bateram em algo, ou melhor, alguém.
– Droga. – Sussurrou se levantando.
Era pra esse babaca estar dormindo no colchonete!– Pensou em alerta enquanto procurava o celular para iluminar o rosto do rapaz. Ao fazer isso, respirou fundo e tentou controlar os batimentos cardíacos. Ele ficava tão mais normal quando dormia.
Percebeu que pequenas gotas de suor preenchiam seu rosto e sua respiração estava descompensada. Travis provavelmente estava tendo um pesadelo. Calmante, Katie esticou a mão e tocou os fios macios do cabelo do garoto, em uma caricia parcialmente fraternal. Seus olhos percorreram por cada centímetro de pele exposto, eram poucos, raros na verdade, se levar em conta que ele estava de moletom e calças compridas.
Curiosidade sempre foi o maior defeito de Katie, algo que definitivamente não poderia nunca ser consertado. Ela questionava demais, era curiosa demais, pensava demais. Tudo demais. E aos poucos esses seus defeitos foram se voltando contra ela.
Principalmente naquele momento, que estava tomada por uma súbita coragem desconhecida enquanto erguia calmamente a borda do moletom de Travis. Sua respiração falhou ao notar o recém hematoma no tórax do rapaz e seus dedos formigaram, ela ergueu a mão e antes que pudesse toca-lo, sentiu um aperto firme em seu pulso. Olhou automaticamente para cima e se deparou com Travis a encarando seriamente. Estavam quase sem expressão, porem ainda assim lhe causou um frio na espinha e um medo terrível.
– Você tem que parar com isso. – Sua voz saiu grave e seca, como se a muito tempo não estivesse sendo usada. – Ou eu não me responsabilizarei pelos meus atos.
– O que você quer dizer com isso?
Ele respirou fundo e balançou a cabeça para os lados e então fechou os olhos com força. Ele fez intenção de se levantar, mas Katie foi mais rápida e o empurrou para a cama novamente.
–Você está acabado. Pode dormir aí.
– Eu... Mão estou me sentindo muito bem. – Confessou limpando o rosto. — Tive um pesadelo. não sei se irei conseguir dormir novamente.
Katie mordeu o lábio inferior com força. A aparência de Travis estava deplorável e ela sentia que de alguma forma deveria ajuda-lo. Respirou fundo antes de dizer calmamente:
– Vamos fazer assim. Eu durmo aqui com você, um pouco mais afastada e quando algo ruim acontecer, qualquer coisa, seja um pesadelo ou sensação. Avise-me. Eu estarei aqui. Eu prometo.
O sorriso que saltou do rosto do garoto fez todo aquele esforço valer a pena.
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