Em outras circunstâncias, o dia de Mathias poderia ter transcorrido normalmente, sem nada que fugisse da rotina, do previsível, mesmo sendo seu aniversário.

Seus pais vieram ao seminário e estiveram com ele pela manhã, e tomaram café juntos. Seu pai, um homem alto com seus quase 70 anos, de cabelos escuros, olhos castanhos e num meio-termo entre gordo e magro. Sua mãe, um pouco baixinha, uma década mais nova que seu pai, de cabelos escuros recentemente cortados curtos, um pouco acima dos ombros.

Na parte da tarde, após o almoço, um pouco depois que os pais dele haviam partido, veio a comemoração. Organizada pelos demais seminaristas, para celebrar os 29 anos de Mathias. Padre Wanderson veio ter com ele, para dizer que os livros haviam chegado ordenadamente e agradecendo pela disposição de Mathias em ter tido até a arquidiocese.

Aproveitou que todos estavam envolvidos com a festa e deu uma passada na biblioteca. O jovem seminarista constatou que os livros haviam sido todos colocados ordenadamente, como o reitor dissera.

Um arrepio correu pela sua espinha e ele sentiu seu peito bater forte, ao se dar conta de que esperava que houvesse alguém na biblioteca... Biblioteca errada, Mathias, ele repreendeu a si mesmo.

Contudo, lembrou a si mesmo que a pessoa ficara de vir ao seminário ainda naquele dia.

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Ao voltar para o salão de refeições, Mathias se encaminhou para fazer um pratinho para si mesmo. Estava tão entretido ao selecionar a comida que não notou que havia mais pessoas no salão do que quando tinha ido até a biblioteca.

Até que alguém tocou-lhe o ombro.

-Não vai comer tudo isso, vai?

Ele se virou e quase derrubou o prato.

Lina estava ali diante dele, usando uma roupa comportada bem parecida com a de ontem, como se os dois ainda estivessem na biblioteca da catedral.

-Ah... oi.

-Engraçado como você fica quando tá sem jeito, envergonhado — comentou Lina despreocupadamente. — Mas, falando sério... Você não vai comer tudo isso, né? Nem poderia! É coisa demais no seu prato. Não. Deixa que eu vou organizar.

-Mas...

Sem esperar resposta, Lina tomou o prato da mão dele e começou a reorganizar, tirando algumas quantias e aumentando outras. Em seguida lhe entregou o prato, que estava mais balanceado e nutritivo. Até mesmo Mathias podia reconhecer que ela fizera um bom trabalho balanceando a comida.

-Prontinho — disse ela.

-Obrigado...

-Podemos nos sentar em algum lugar? — sugeriu ela.

-C-claro — respondeu ele.

Os dois se acomodaram em uma mesa. Lina não pegou um prato para si. Ficou observando Mathias se alimentar, observando-o cuidadosa e atenciosamente. Ao contrário do dia anterior, dessa vez, ela manteve uma distância pequena, comportada e respeitosa, entre os dois ao se sentarem à mesa.

-Padre Wanderson veio agradecer pelos livros — ela foi dizendo. — Não que seja nenhuma surpresa, claro. Nossa equipe sempre cumpre o que nos é pedido. Mas é gentil da parte dele ter se lembrado de nos consultar.

-Hmm, s-sim — disse Mathias, entre uma garfada e outra.

-Se ele continuar te pedindo favores assim, pode ser que nos encontremos mais vezes... Que bom que eu te dei meu celular.

-A-ah, é... é mesmo. Claro.

-A propósito, não imaginava que vocês teriam uma comemoração assim desse tamanho hoje logo após a hora do almoço. Vocês são sempre assim por aqui no seminário, sempre inventam alguma coisa, ou hoje é alguma ocasião especial?

Mathias quase se engasgou.

-Ah, b-bem, é que...

Um dos outros seminaristas passou por eles e deu um tapinha de leve no ombro do rapaz.

-Parabéns, Mathias... feliz aniversário!

-O-obrigado...

Mas Mathias mal teve tempo de agradecer adequadamente pela felicitação do colega. Ficou reparando em Lina. Assim que ela escutou as palavras do outro seminarista, ela enrubesceu e começou a esquadrinhar a sala. De repente notou o bolo em cima da mesa, com o número 29 em cima.

-Seu aniversário?? É sério? Por que não me contou?

-Eu, hã... acabei me esquecendo... de te falar.

E era verdade. O encontro dos dois havia sido tão surpreendente que Mathias ficou sem reação, de tal modo que não se lembrara de falar do seu aniversário, até que voltou pro seminário e, ao se preparar para dormir naquela noite, foi que a ficha lhe havia caído sobre essa informação.

-Meu Deus — começou ela a dizer — Espera... espera só um pouquinho!! Eu volto já.

-Hem?

Ela se levantou subitamente, se dirigindo para sair do salão.

-Eu volto já, é sério! Só me espera um pouquinho — disse ela para ele, já saindo, num tom como se o tentasse tranquilizar.

-Mas... do que está falan...

Mas Lina já tinha saído. Mathias ficou embasbacado. Esqueceu-se do prato que ela havia feito. Não conseguia entender essa garota.

O animal dentro de seu peito despertou novamente e rugiu, furioso com a saída inesperada da moça, fazendo o peito do rapaz estremecer.