Aqueles que nasceram dentre os livros
7 Capítulo 7
De tão ansioso que ficara, Mathias mal notou que haviam se passado quase duas horas.
Mesmo conversando com os demais colegas de seminário enquanto o tempo passava, ele se perguntara porquê Lina saíra tão repentinamente, o que afinal tinha ido fazer e porque dissera que "voltaria logo", como que para tranquilizá-lo.
Padre Wanderson passou por ele algumas vezes e tocou-lhe o ombro como que para lhe dizer para sossegar. Surpreendeu-se com a amizade entre os dois, mas apenas disse para Mathias que "mantivesse o decoro", que seguisse as regras e que respeitasse a moça. Ele disse acreditar que, o que quer fosse, Lina voltaria para explicar a saída repentina. Conhecia a reputação de Lina e disse-lhe que ela era muito organizada e séria com tudo.
Mathias ia acabando de tomar mais um copo d'água quando enfim, aconteceu.
Lina entrou novamente no salão, suando um pouco, suspirando, e carregando uma cesta enorme.
-Menino! Você poderia ter me dito antes que era seu aniversário — ia dizendo ela, enquanto depositava a cesta em cima da mesa perto do bolo. Já haviam partido, mas a maior do bolo ainda estava intocada. Mathias se recusara a comer mais pedaços antes que Lina regressasse. — Feliz aniversário, menino Mathias!!
-Ah... Obrigado. Não sei o que dizer...
-Aqui — disse padre Wanderson, ajudando Lina, que estava quase tropeçando e derrubando a cesta, a coloca-la na mesa. — Deixe-me ajudar. Mathias, agradeça. Foi um belo gesto.
-Claro, senhor. Muito obrigado, Lina... foi muito bonito da sua parte.
A moça sorriu largamente, e olhou para o bolo.
-Não sou muito de bolos, mas eu aceito um pedacinho.
Mathias se adiantou e cortou um pedaço para ela, oferecendo-lhe um pratinho.
Ela tomou e sentou-se na mesma mesa de mais cedo, onde ela e Mathias haviam ficado antes. Mathias serviu-se de um pedaço também. Olhou de soslaio e notou que Lina o estava observando. Resolveu não cortar um pedaço tão grande, imaginado que isso a tranquilizaria. Pensou em perguntar a ela se ela tinha algum nutricionista rígido na família.
Sentou-se ao lado dela, e os dois começaram a comer ao mesmo tempo.
-Então? O que aconteceu? — indagou ele.
-Quando o senhorzinho se esqueceu de me contar que era seu aniversário e eu tive que saber através do seu colega te parabenizando naquela hora, eu saí correndo e liguei para uma amiga que trabalha com cestas. Ela geralmente monta para cafés da manhã, mas consegue montar para outras situações também. A cesta já estava basicamente pronta, só precisei ajustar algumas coisas no pedido e esperei o motociclista entregar na arquidiocese, onde eu fiquei esperando. Depois pedi um Uber para cá e... cá estamos. Só me promete uma coisa, não vá comer tudo logo hoje. Algumas coisas você vai ter que colocar na geladeira. Só não vá se empanturrar logo de uma vez com tudo... tem umas guloseimas e também algumas comidinhas balanceadas, saudáveis, mas gostosinhas.
-Obrigado. Vou fazer tudo como está dizendo, sim. Geladeira, não comer tudo de uma vez... Certo. Você pensou mesmo em tudo.
-Eu sou rápida para algumas coisas — disse ela, dando de ombros. — Não queria falar isso aqui na frente de todos, ainda mais na frente do reitor Padre Wanderson... mas...
-Mas o que? — indagou Mathias, notando que ela se interrompera e abaixara o tom da voz. Quando Lina retomou, falou tão baixo que Mathias teve que se inclinar: era nítido que ela queria que só ele a escutasse naquele momento.
-Pensa em mim, lembre de mim quando estiver comendo — disse Lina, baixinho e bem rápido.
-O que? — indagou Mathias.
-Nada não... — respondeu Lina, com um sorriso travesso. E voltou a mordiscar o bolo.
Mathias ficou confuso e aéreo por alguns instantes. Depois de um tempinho, Lina terminou de comer antes dele, e passou um pedaço de papel para ele.
-Não abra aqui — disse ela. — Não olhe agora. Abra quando estiver sozinho, no seu quarto.
-Ah... certo.
-Venha, termine logo de comer e eu vou te ajudar a levar a cesta — anunciou ela. — Rapidinho. Deixa eu comunicar com padre Wanderson.
Ainda um pouco confuso e incrédulo, Mathias terminou de engolir rapidamente o bolo (o animal em seu peito ronronou, mas ainda rugia de vez em quando cada vez que Lina se levantava ou se afastava) e por fim se levantou. Lina terminava de falar algo com o reitor e se voltara para a cesta. Mathias fez menção de ajuda-la a carregar, mas ela recusou.
-Não, deixa que eu levo — disse ela, simplesmente. Padre Wanderson levantou uma sobrancelha, mas, quando seu olhar encontrou o de Mathias, ele apenas fez um gesto com a mão como quem diz: "como preferirem..."
-Apenas não demorem — recomendou o reitor. — Mathias, lembre-se do que conversamos.
Mathias assentiu para o padre, apertando rapidamente a mão dele, e acompanhou Lina até seu quarto.
...
...
...
...
-Preciso evitar de darmos bandeira com padre Wanderson por perto — ia dizendo Lina pelo caminho, já quando haviam se distanciado do salão. — Ele gosta do meu trabalho, confia em mim, mas mesmo assim não podemos brincar com a sorte. Ainda mais perto dele.
-Hm, certo, mas... Não estamos fazendo nada de errado.
Lina deu-lhe uma piscadela travessa.
-Você é mesmo uma gracinha, bobinho...
-O que quer dizer...?
-Calma. Logo, logo, você vai entender.
Chegaram até o quarto dele, ainda com Mathias bem confuso. Se surpreendeu mais ainda quando ela adentrou o quarto após ele abrir a porta, e depositou a cesta na cama do rapaz. Depois, Lina voltou até onde ele estava. Mathias ficara tão estupefato que nem sequer pusera os pés no próprio quarto enquanto acompanhava a cena diante dele.
-Prontinho. Não esquece do que eu te pedi. E abra o papel apenas quando estiver sozinho aí no quarto — disse ela.
-Claro.
Ela estendeu a mão para ele. Mathias a apertou.
-Sabe... um pensamento infantil que eu tive. Queria mesmo era te dar um abraço. Ou que você tentasse me dar um abraço. Mas como eu disse, temos que tomar cuidado em alguns lugares aonde estamos nos encontrando...
-Ah... sim. Eu concordo, plenamente.
-Arquidiocese, aqui... São lugares delicados. Vamos tentar tomar cuidado. Não quero perder a sua amizade.
-É... eu também não. Como você sugere que tomemos cuidado? E aliás, o que quer dizer com isso?
-Você saberá quando ler meu recadinho, mais tarde. Está com ele ainda, né?
Mathias fez que sim e tocou no bolso da calça.
-Está aqui, bem guardado.
-Muito bem. Qualquer coisa você pode me ligar ou mandar mensagem, pelo número que eu te dei.
-Certo.
Ela soltou a mão dele.
-A gente se vê logo, gracinha.
Ela piscou novamente e se voltou para sair.
-Só uma coisa... — chamou Mathias. — O que vou encontrar no seu recado? Estou curioso e prefiro te perguntar agora, do que deixar para descobrir só mais tarde...
Ela parou no meio da passada e disse:
-Lembra do que eu falei sobre os lugares aonde estamos nos encontrando?
-Sim.
-Pois bem. O que tem no recado é... uma alternativa.
-Mas, como assim?
Lina deu outra piscadela para ele, e se apressou para sair. Logo sumiu da vista do rapaz.
Mathias depositou o papelzinho em sua cômoda, mas de repente se lembrou de que tinha ficado de pegar mais alguns pedaços do bolo, que sobrassem. Seus colegas disseram que não iria comer tudo, e concordaram que ele ficasse com o restante.
...
...
...
...
Depois de guardar os pedaços restantes do bolo num depósito grandinho, para guardar para si mesmo, e depois que providenciou para que algumas coisas da cesta trazida por Lina de presente fossem colocadas na geladeira, foi que Mathias voltou de vez para seu quarto, já perto de se acomodar para dormir.
Ao colocar o restante das coisas da cesta de Lina e o depósito com o bolo sobre sua cômoda, foi que ele notou o papelzinho e se lembrou de lê-lo.
Fechou a porta do quarto e finalmente se sentou, abrindo o papel na cômoda.
Não entendeu inicialmente o que o papel queria dizer.
Anotado nele havia apenas uma informação.
Era um endereço.
Pouco tempo depois, o relógio bateu meia-noite. O aniversário de Mathias passara, e iniciava-se o dia 26 de janeiro.
Fale com o autor