Enquanto dormia, Mathias se viu envolto em algumas lembranças.

Tivera um professor de Educação Física na escola, que era especializado em vôlei e conduzira a equipe do colégio em vitórias nos jogos escolares estaduais na categoria em diversas ocasiões. Armando era uma pessoa alegre e simpática. Todos gostavam dele. Contudo, sua filha Mayara acabara falecendo, contando com 20 e poucos anos, logo após conseguir um bom emprego na Assembleia Legislativa do estado do RN, vítima de uma grave infecção.

Após o falecimento da filha, Armando aparecia na escola aparentando um ar melancólico, cabisbaixo, seus ombros sempre caídos e andando sem a menor a motivação. Nem para conduzir os treinos ele aparentava ter a mesma dedicação de antes. A morte da filha tivera um impacto gigantesco sobre Armando. Era como se alguém tivesse sugado dele a vontade e a energia para viver.

Mathias se lembrava constantemente dessa mudança no semblante de Armando pois ele mesmo sentia-se por vezes sem motivações ou vontade para continuar, devido a seus insucessos profissionais antes de entrar para o seminário, a pouca frequência com que via os pais, e em particular, o falecimento de suas avós, há poucos anos, pois elas haviam sido suas principais motivadoras. Lembrava-se que Armando era uma inspiração para ele. Contudo, depois da mudança de semblante do professor, Mathias sentira que perdera mais uma de suas referências. Ele se sentia também como se alguém tivesse puxado por completo o ar de seus pulmões, sentia-se como se estivesse vivendo no automático, sem saber ao certo aonde iria chegar.

Até aquele dia, quando se deu o inusitado encontro com Lina na arquidiocese.

O animal em seu peito se debatia muito em meio ao sono de Mathias. Por vezes ficava "rugindo", como se o peito do rapaz fosse explodir a qualquer minuto; por outras, ficava apenas ronronando, como se repousasse, e como se estivesse à espreita, à espera de alguma coisa, farejando no ar por algo que lhe interessasse, algo pelo qual desejava.

Essa sensação de farejar por algo que desejava e que lhe dava um ânimo para se levantar no dia seguinte para encarar as questões do dia-a-dia estava presente dentro de si desde o momento em que batera os olhos em Lina e desde que suas mãos haviam se tocado.

Mathias não estava conseguindo administrar tudo isso que estava sentindo.

Pouco tempo depois, se viu despertado pelo som do alarme no relógio do quarto.

Enquanto tentava vencer o sono e a preguiça, se deu conta de mais algo: estava amanhecendo o dia do seu aniversário, estava completando 29 anos.

Logo, constatou também outra coisa: além de haver uma comemoração simples programada para acontecer no seminário mais tarde em razão da sua data natalícia, era também o dia em que Lina havia lhe dito que iria para o seminário... Um segundo "encontro" entre eles.

Um misto de diversas sensações passou pelo estômago e pelo peito do seminarista. O animal em seu peito também despertou, voltando a farejar o ar em busca de o que quer que fosse satisfazer sua curiosidade... ou daquela que iria satisfazer.