Sentado em sua carteira, Matthias respondia às questões com tranquilidade, ainda que olhasse de vez em quando para o relógio da sala.

Ali no Seminário de São Pedro, localizado no bairro de Tirol, zona leste de Natal-RN, ele estudava para se ordenar sacerdote. Podia chegar em breve ao posto de diácono.

Naquela tarde ensolarada de quarta-feira, Matthias Rodrigues respondia a mais uma avaliação de Teologia e Filosofia ministrada no seminário. Tinha uma facilidade com memorização, mas por vezes se atrasava nas respostas, seja por nervosismo, seja por procrastinação.

Faltava pouco menos de uma hora para a finalização do exame. Ainda havia outros seminaristas quebrando a cabeça — mas Matthias se concentrou apenas em seu próprio exame.

Medindo 1,73 de altura, com cabelo preto, cortado curto (uma exigência constante de seus pais para que sempre se apresentasse bem diante de todos), uma barba rala ainda por fazer, pele levemente bronzeada, olhos pretos e um aspecto de quem estava perdendo peso aos poucos, o rapaz de 28 anos não parecia muito impressionante à primeira vista.

Tivera alguns relacionamentos antes de entrar no seminário, mas, depois de algumas desilusões amorosas acabou optando por seguir o conselho dos pais e tentar a sorte no seminário. Há tempos não pensava em garotas. Já havia se formado em um curso superior, História, alguns anos antes, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas encontrara dificuldades para se empregar na cidade, conseguindo apenas empregos ocasionais aqui e acolá, a maioria deles como professor de reforço escolar ou substituindo temporariamente outros professores nas escolas particulares da capital do RN. Tentara fazer concursos públicos, mas a oferta de concursos havia diminuído bastante em Natal e na região metropolitana do RN, e nos poucos concursos em que Matthias de fato se inscrevera, não lograra êxito.

Seus pais, funcionários públicos aposentados, moravam no bairro de Ponta Negra, zona sul da cidade. Devido à rotina de estudos e afazeres no seminário, ele não os estava vendo com muita frequência. Conseguiu juntar um dinheiro razoável depois de alguns trabalhos como professor para se manter no seminário, para não depender tanto dos pais. No entanto, nas poucas vezes que os via, eles ofereciam uma pequena ajuda financeira para o rapaz, que acabava por aceitar. Por não saber como estaria no futuro, achou melhor guardar os recebimentos que havia conseguido das experiências na docência (tivera também um breve período como bolsista de iniciação científica na UFRN) e dessas ajudas recebidas dos pais, para alguma eventualidade futura.

Terminou de responder às questões do exame, preencheu todos os espaços de nome e dados e entregou, se levantando da carteira, a prova para o professor aplicador.

- O reitor deseja vê-lo, Rodrigues — anunciou o professor assim que ele se encaminhava para sair da sala.

Matthias assentiu e foi em direção ao escritório do reitor do seminário. Não imaginava do que pudesse se tratar aquele chamado, mas não era nenhum absurdo o reitor chamar algum dos alunos para uma conversa no meio do dia. Um dos antigos colegas de Matthias, chamado Sérgio, era constantemente chamado pelo reitor quando estava no seminário, especialmente por ser um ativista e entusiasta da política progressista — algo que nem todos dentro do seminário concordavam. Sérgio já havia se ordenado e esperava saber para qual paróquia seria designado.

Chegou à porta do escritório do reitor e bateu de leve.

- Pode entrar — respondeu o reitor.

Matthias abriu a porta. O reitor, padre Wanderson Rocha, encontrava-se de pé, de costas para o rapaz, analisando alguns documentos em sua escrivaninha. Wanderson era alto, magro, de cabelos pretos com alguns fios grisalhos já se destacando e com olhos castanhos.

Ao notar Matthias, Wanderson se virou totalmente para o jovem.

- Matthias, como foi o exame?

- Estava muito bom. Horas de noites mal-dormidas que valeram a pena.

O reitor riu levemente.

- Às vezes eu acho que você tem um talento para o drama — brincou. — Mas fico feliz que achou o exame bom. Em todo o caso, preciso de você para outra coisa. Tem algumas obras de que precisamos para as próximas etapas do curso de vocês, para a preparação de algumas aulas. Gostaria de que você fosse até a arquidiocese.

- A catedral?

- Precisamente. Veja se consegue combinar com eles para que entreguem os livros aqui, em breve. Hoje já é quarta-feira e eu gostaria que isso fosse resolvido antes do fim de semana... Se for preciso, fale que veio em meu nome. Certamente que isso os fará apressar as coisas.

- Claro, senhor.

- Se precisar, peça um uber. Podemos te dar uma ajuda de custo para a ida e a volta e...

- Não será necessário, senhor — respondeu Matthias. — Posso ir andando.

Wanderson ergueu as sobrancelhas.

- Mesmo?

- Não fica longe daqui — respondeu o jovem. — A catedral não é distante. Posso ir andando... vai ser bom para meu cardio. O médico disse que eu preciso continuar no ritmo... O senhor sabe, devido ao meu acompanhamento nutricional.

O reitor assentiu levemente.

- Tudo bem, como preferir.

- Irei agora mesmo.

- Obrigado. Espero que dê tudo certo lá.

- Sim, senhor, eu também.

Matthias se virou para sair, mas, antes que pusesse os pés no corredor, Wanderson o chamou novamente.

- Matthias, devo estar muito ocupado de hoje para amanhã e pode ser que não consigamos nos ver ou nos falar. Se for o caso... Um feliz aniversário, filho.

O seminarista piscou. Não saíra divulgando que seu aniversário já era amanhã, e logo quem havia se lembrado primeiro de parabeniza-lo pela data havia sido o reitor. Surpreendente, mas bem bacana.

- Obrigado, s-senhor... Obrigado mesmo.

O reitor assentiu, e voltou a analisar documentos. Mathias saiu para o corredor.

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