Mesmo usando a roupa preta de seminarista, ele não sentira tanto o calor. Estava ventando muito na cidade, e o caminho até a arquidiocese foi agradável. Andou numa velocidade razoável, como lhe fora orientado nas consultas com o médico e a nutricionista.

Ao chegar na Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Apresentação, se encaminhou para o subsolo da igreja, na entrada de trás.

Apresentou-se como seminarista e que vinha em nome do reitor Wanderson, com o pedido de que as obras raras por ele requisitadas fossem encaminhadas para o seminário. A secretária da catedral o orientou que fosse até o setor de obras raras e que consultasse algum dos bibliotecários presentes no dia, que poderiam orienta-lo e mostrar-lhe a lista de obras desejadas pelo reitor com detalhes.

Ele sabia que a catedral contava com alguns bibliotecários próprios, e que também recebia apoio das equipes das bibliotecas do seminário, da Faculdade Católica Dom Heitor Sales e da Biblioteca Câmara Cascudo, a principal biblioteca pública do RN e do município. Nunca havia prestado muita atenção neles quando ia para a Dom Heitor ou para a Biblioteca Pública, mas lembrava-se de ter cursado uma disciplina junto com a turma de Biblioteconomia quando ainda estava cursando História. Um pessoal bem simpático. Dois de seus amigos dos tempos de escola, Dandara Marques e Ricardo Paulino, haviam recentemente ingressado no curso superior de Biblioteconomia da UFRN. Ricardo fazia hoje estágio na Biblioteca Municipal, e Dandara na Escola Luminus, uma das principais escolas particulares da zona sul de Natal. Ambos falavam maravilhas sobre o curso, nas poucas ocasiões em que Matthias conseguia ter um tempo para usar a internet e falar com eles seja pelo whatsapp seja pelo instagram.

Chegou ao setor de obras raras da catedral. A biblioteca parecia vazia, mas a secretária lhe indicara que pelo menos um dos membros da equipe estaria presente. Matthias entrou na biblioteca, olhou em volta, mas não viu ninguém.

Começou a vagar pelo meio das estantes de livros, imaginando se conseguiria encontrar sozinho as obras indicadas pelo reitor. Estava olhando para o lado direito, distraidamente, quando colidiu com alguém.

Uma moça estava vindo da esquerda e se chocou com ele, deixando cair alguns livros. Recuperado do susto, Matthias se abaixou rapidamente para apanhar os livros para ajudar a funcionária a recolhe-los, e devolver a ela.

- Peço desculpas — disse ele desajeitadamente.

- N-não tem problema! — disse ela, parecendo um pouco nervosa. — Isso acontece comigo o tempo todo... sou um pouco desastrada, distraída...

Quando Matthias terminou de recolher os livros e se levantou, estendendo os livros para devolver a ela, pôde enfim ver direito o rosto da moça.

Tinha olhos castanhos cor-de-mel, uma pele cujo tom oscilava entre o negro e o pardo, cabelos encaracolados, unhas pintadas nas cores branca e vermelha, e aparentava ser musculosa (as feições de seu rosto eram bem marcadas), embora usasse uma roupa comportada que lhe cobria quase o corpo todo. Parecia medir entre 1,60 e 1,65m de altura, embora usasse um pequeno salto. Não dava para medir a idade dela só olhando, mas o seminarista presumiu que ela devia ter a sua mesma faixa etária... talvez um pouco mais nova ou um pouco mais velha.

Alguma coisa nela prendia o olhar de Matthias. Sentiu-se hipnotizado. Aquilo era estranho, pois não se lembrava de alguém ter causado alguma sensação assim nele antes.

- Ah... o-obrigada, moço! — disse ela, pegando os livros por ela estendidos, e colocando-os numa mesinha próxima. — Me desculpe por eu ter sido tão desastrada. Não vi você chegando... posso ajuda-lo em alguma... coisa?

Ela foi diminuindo o ritmo das palavras, como se notasse o rosto dele pela primeira vez também.

- V-você está bem? — disse ela. Matthias não conseguia abrir a boca, não conseguia soltar nenhuma palavra. De repente, sentiu como se surgisse um animal no seu peito: como se fosse um pequeno leão, rugindo e ansiando por alguma coisa. Matthias certamente não sentia algo assim há tempos... Se é que já havia sentido isso antes.

A moça estendeu a mão como se quisesse tocar o rosto dele, mas se conteve.

- D-desculpe — gaguejou o seminarista, por fim. — Meu nome é Matthias, vim pedir uma lista de obras raras que foi solicitada pelo reitor do seminário... Ele quer que sejam entregues lá, antes do fim de semana.

- Padre Wanderson? Claro, é pra já, se puder me seguir — disse ela, voltando-se pelo caminho de onde estava vindo quando colidira com Matthias.

Eles andaram lado a lado um do outro enquanto percorriam a biblioteca.

- A propósito, meu nome é Lina Monteiro — disse ela. Matthias percebeu um certo sotaque nela, mas não conseguira identificar de onde.

- Eu imagino que você não seja de Natal?

- Eu nasci em Minas... Belo Horizonte — respondeu ela. — Morei um tempo em Juiz de Fora e no Rio de Janeiro, afora outros lugares aonde tenho família e que eu visitava frequentemente. Mas já estou aqui em Natal há pouco mais de 1 ano. Gosto daqui... é um lugar calmo, tranquilo, nada como as grandes cidades lá do Sudeste. Você conhece algum dos meus antigos locais de residência?

Ela o fitava com um olhar penetrante, como se estivesse mesmo muito curiosa.

- Rio de Janeiro sim — admitiu Matthias. — Tenho uma tia, ela é casada e mora lá faz uns 50 anos. Tenho também um primo do meu pai que conta com mais de 90 anos e também mora por lá. Uma tia-avó minha era natural de São João de Meriti e morou lá a maior parte da vida. Juiz de Fora não cheguei a conhecer. Belo Horizonte... eu tenho um tio, uma tia e 3 primos morando lá, mas não tive ainda a chance de ir visitá-los para conhecer a cidade. Temos também parentes morando em outras partes de Minas, como no Triângulo Mineiro, que também eu ainda não tive a chance de conhecer. Um outro primo nosso nasceu em Minas, vem nos visitar em Natal quase sempre quando vem para disputar competições de surfe, mas hoje mora em Maricá, RJ. Muito embora a origem da minha família seja aqui mesmo, no interior do RN, e depois eventualmente se mudaram para Natal.

- Que interessante! Sua família é bem grande — disse ela. — A minha está mais concentrada no Rio e em Minas mesmo, embora tenha um ou outro parente que estão em outros lugares.

Ela falava com a animação de uma adolescente. O animal no peito de Matthias parecia estar tentando produzir um misto de rugido e ronronar. Ele estava começando a ficar sem jeito. Por que aquela moça mexia tanto com ele? Ele não era de sair falando tudo sobre si mesmo ou sua família assim para ninguém. O que o fazia sentir confiança e abertura com aquela moça, fora aquela sensação estranha no peito ao conversar com ela?

À medida que andavam, Lina o levou até uma outra sala, como se fosse um aquário — paredes de vidro, uma porta anexa lateral que parecia levar a um banheiro, e uma grande escrivaninha.

- É a sala da minha chefe — explicou ela. — Como ela não se encontra, podemos consultar a lista para o reitor por aqui mesmo.

Lina e Matthias se aproximaram da mesa. Lina afastou alguns papeis e apanhou um, olhando-o como se ele fosse promissor.

- É esta a lista — disse ela. — Se quiser, dê uma olhada... Verá que são os livros que o padre Wanderson deve estar procurando.

Matthias estendeu a mão para pegar a lista, mas a mão de Lina ainda estava sob o papel. Por um breve momento, suas mãos se tocaram.

Ele retirou a mão, encabulado, e notou Lina fazendo o mesmo. Dessa vez, porém, ela o olhava com curiosidade.

- D-desculpe, é que... — Ela parecia toda sem jeito, tentando encontrar as palavras certas. — É que você é uma gracinha — disse ela, por fim.

Uma gracinha? Matthias nem podia se lembrar de quando fora a última vez que uma garota o elogiara. Mesmo tendo emagrecido, ele não conseguia se achar grande coisa em termos de aparência.

- V-você é seminarista, não é...? Me perdoe... — disse ela, como se tivesse ficado sem jeito ao finalmente constatar isso, devido às roupas que ele usava.

- É... — Matthias sentiu como se alguém tivesse tirado o ar de seus pulmões. Uma sensação de desânimo se abateu sobre ele. — Eu sou...

Então a moça estendeu a mão para ele e tocou-lhe o rosto, erguendo levemente sua face, pois o rapaz estivera com a cabeça pendendo para baixo aos poucos. Eles se olharam, olho no olho, diretamente, por um longo momento.

Ele sentiu o calor do toque da mão dela.

O animal em seu peito ronronou, num misto de agitado e satisfeito.

Que sentimentos eram aqueles que jorravam de dentro de Matthias naquele momento?