Aqueles Seus Olhos Azuis
3 Bro
Notas iniciais
Aqueles Seus Olhos Azuis
Capítulo III — Bro
Dave quase se engasgara com o cereal.
Ele chegou a baixar os óculos escuros para encarar o mais velho, os olhos escarlate arregalados. Por trás daqueles estúpidos óculos de anime, como John os chamava (John não achava que Bro tão legal quanto ele realmente era), brilhava um par de íris laranjas, curiosas, e Dave sabia disso por causa do sorriso de canto de seu irmão.
Este se apoiou na bancada, olhando fixamente para o mais novo, que após um suspiro longo, soltou a colher e baixou a cabeça.
Ele corria o risco de ser julgado, taxado, criticado e chutado de casa. Poderia ser caçoado, zombado, xingado e rejeitado pelo próprio irmão. Poderia receber uma Bíblia ou uma surra de Lil Cal. Mas não é como se ele tivesse escolha mesmo.
Entretanto, depois de tudo explicado em ordem cronológica – desde a pequena admiração, porém crescente, pelo amigo virtual, que se tornara a atual paixão incandescente -, Bro não reagiu de nenhuma das formas negativas que o dos óculos de aviador imaginara. Ele sequer tivera alguma reação durante a narrativa que não fosse arquejar nos momentos certos; ele permanecera sentado, a cabeça numa das mãos e o cotovelo na bancada de pedra, enquanto envolvia Lil Cal com o outro braço. Ele tratava aquele boneco endiabrado como um ursinho de pelúcia, honestamente...
–E enfim –suspirou Dave, chegando ao final- Eu não sei mais o que fazer depois do meu surto de ontem. E foi mal pela parede, aliás... –ele olhou para a mancha amarelada- Vai ficar essa merdinha aí pra sempre. Como se um monstro-maçã tivesse vomitado o almoço de Natal na parede da nossa cozinha.
Bro negou com a cabeça e ergueu a mão que antes lhe apoiava o queixo, num sinal de “não, tudo bem”. Ele ficou em silêncio por mais alguns segundos, como que avaliando a situação, e enfim deu uma risadinha:
–Que situação complicada, pirralho. Parece um dos meus yaois.
–Um dos seus o quê? –Dave ergueu uma das sobrancelhas.
–Esquece –Bro sacudiu a mão- De qualquer modo, foi uma bela enrascada na qual você se meteu, hein? –ele riu- Mas fica tranquilo que o Bro aqui é mais velho, experienciado, sábio...
–Modesto –completou Dave em voz baixa, levando um pedala em resposta.
–Enfim –tossiu seu irmão- Eu vou te aconselhar. Veja bem –ele se debruçou sobre a bancada- Segundo algum peixe idiota de algum desenho idiota para crianças idiotas que cagam em suas fraldas idiotas –ele tomou fôlego antes de continuar- Quando a vida dá as costas, a solução é continuar a nadar. Mas como você não sabe nadar... –Dave revirou os olhos- ...a solução é dar o troco nesse moleque. E sabe o que você faz?
Ele fez um suspense, e o menor se inclinou em sua direção.
–Você faz ciúme. –ele então endireitou o corpo e bateu palmas- É simples!
–Ciúme? –Dave franziu a testa- Bro, eu não acho que essa seja uma boa ideia--...
–Claro que é uma boa ideia! –interrompeu Bro, quase ofendido- Olha, Dave, o que você vai fazer –ele se curvou de novo- Você arruma uma gata, a gata mais gata que você conseguir. Das gostosas, sabe? O Joseph nem precisa a conhecer.
–John –corrigiu o menor.
–Que seja. Enfim, você marca de sair com esse John, e leva a gata. Finge que vocês estão juntos, que você o esqueceu, todo esse teatrinho doente, e faz o cara descobrir os sentimentos que tem por você. BUM! Namorado instantâneo.
–E o que acontece com a garota?
–Você despacha –Bro deu de ombros- Vocês só vão fingir namorar, mesmo.
–Humm, entendi... –Dave mordiscou o canto da unha do dedo indicador, uma mania sua. Tinha a testa franzida e fitava sua tigela de cereal mole em um estado de pura concentração, como se o segredo da humanidade estivesse naquelas rosquinhas embebidas em leite.
A ideia de Bro parecia meio maldosa, mas hey, poderia dar certo. Dave decidiu segui-la; e até já tinha uma gata em mente para o ajudar naquilo.
–Certo, valeu, Bro –ele ergueu a cabeça, dando um sorriso suave- Você é mesmo incrível.
Se irmão piscou um olho e lhe fez um sinal de revólver com uma das mãos, enquanto se levantava e voltava a limpar a cozinha. Dave se levantou, pensando no plano, mas prestes a sair, parou.
–Ah, e Bro. –ele olhou para o mais velho por sobre o ombro- Você não me julgou nem me chutou de casa por causa disso. Obrigado.
Bro deu um enorme sorriso.
–De nada, pequeno. É isso que os irmãos fazem.
–Posso te dar um abraço?
Ele pensou um pouco.
–Não –disse, enfim- Não é legal.
Dave riu.
–Tá bem, certo. A gente se vê mais tarde, então. Eu tenho um plano pra pôr em prática. –e, dizendo isso, saiu da cozinha direto para seu quarto, onde ele faria contato com a primeira gata de sua lista.
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