Aquele que conheci na morte.
1 Começo.
Era um novo começo, a manhã cinzenta me deixava incrivelmente animada, e como o Sol, eu iria aparecer do nada, como uma dúvida, uma ideia original. Minha mochila pesava mais que o normal, e a escada não era mais um desafio. Havia se passado cinco meses, era recente para mim, mas o mundo não ligava.
Tia Jenna cuidava da gente bem, ela ainda era uma adolescente, mas sua disposição me impressionava, o cabelo dela combinava com os olhos azuis. Isso me deixava irritada, porque parecia que todos em New Orleans tinham cabelos claros e olhos cor de céu, e eu, a única morena de cabelo escorrido.
Jer não tinha acordado, subi novamente as escadas para acordá-lo, como de costume, abri a porta pesada, de madeira antiga. Meus pais tinham paixão por madeira antiga... Tinham. Jer estava deitado, com os olhos abertos estranhamente fixos no teto, os braços alinhados ao corpo... Corri até a cama, foi tudo tão rápido...
Não Jer, não, as lágrimas escorriam pelas as minhas bochechas e em questão de segundos, molhei todo o lençol, Jer, eu chacoalhava ele loucamente, mas nem um suspiro ele soltou, seus olhos não eram mais o espelho da alma,Jer, ai para de chorar, Jer por favor Jer, não me deixa....
Tia Jenna, subia afobadamente, ela estava falando com a ambulância, mas era claro que ela estava mais preocupada comigo do que com o Jer, ele já estava... Não, Jer.
A sala de espera de um hospital é o pior lugar do mundo, minhas unhas eram salgadas, e pude sentir meus lábios ressecados, foi como a cinco meses atrás, a diferença era que Jer estava em casa, bom agora... Tia Jenna estava na sala de cirurgia, Jer ia perder um pedaço do fígado, um pedaço dele ia embora, ele estava indo embora. Não importa quantas vezes você vê alguém morrer, você sempre se machuca, a minha alma já estava esfaqueada, mas tudo bem, era hora de me preocupar com o Jer. Meu dia iria ser cinzento para sempre, nada muito de anormal. Um médico se aproximou :
"Você é Elena Gilbert ?"- ele disse sem qualquer emoção.
"Sim."-meus olhos já transbordavam.
"O seu irmão Elena, o Jer, ele faleceu, não resistiu a cirurgia. Meus pêsames." -e foi embora, sem me dar um abraço, uma explicação, não chorou. Mas eu cai, eu desabei, não sou de concreto, como a minha vida ia continuar, meu irmão, Jer não, Jer não... Mãe, Mãe porque ? Mãe... Mãe, Pai, Pai, cuidem do Jer ai, Pai, não é a minha culpa... as lágrimas sujam o chão do hospital, ninguém vinha me ajudar, mergulhei em uma solidão silenciosa, onde a morte reinava, Não Jer, Não Jer. Minha alma doía, era uma dor muito forte, e eu me engasgava com minhas lágrimas, meu nariz escorria e meu cabelo grudava em minhas bochechas, não Jer, Não Jer.
O enterro de Jer foi rápido, cremado, Jer voltou ao pó, pude sentir sua alma sendo levada, e agora, bom o agora era péssimo. Tia Jenna só fumava, não aguentava tudo aquilo, mas tinha que ser forte, muito forte. Meus parentes, bom, a maioria, estava lotando o jazigo dos Gilbert, a morte almoçava conosco todos os dias, e a tristeza era nossa vizinha, eu nunca vou entender. Meus óculos escuros eram a solução para ficar calada, usava eles não para tampar o Sol, que brilhava, como Jer. Jer era o Sol. Jer Sol. Eu os usava para tentar tampar a realidade que me cercava, destruindo tudo aquilo que eu sentia.
Mas, o que ? Um estranho vendo o Jer, não, o que ? Tirei meus óculos, ele invadia o espaço de Jer, não faça isso...
" Quem é você ?"-disse quase sussurrando.
"Damon Salvatore, amigo do Jer, e você deve ser Elena, bem, eu lamento a sorte que teve." — seus olhos azuis cor de céu, meus dias de solidão tinham se mergulhado em seus olhos, e eu via em sua pupila, um Sol.
Um medo tomou conta de mim, e de meu nariz, o sangue jorrava. Talvez meu corpo tinha cansado da água, e agora, como uma doença terminal, ele chorava em sangue.
"Elena, você está bem?"- Perguntou Damon, com um olhar acolhedor.
"Sim...Desculpe!"- Sai correndo com muita vergonha! Droga, não posso perder o Jer... Não! O velório é dele.... Eu, não posso! Pedia para o meu corpo parar, nada acontecia. Mais nada acontecia.
Mas.
Ouvi o barulho do meu telefone, um número desconhecido, mamãe sempre diz que não posso falar com quem não conheço...dizia. Atendi.
"Alô?"
"Elena, você está legal? Onde você está?"
Reconheci a voz. Como um carpete de veludo, ou até nuvens no céu. O estranho Salvatore, enigmático amigo de Jer estava me ligando. Ele me entendia. Tive que responder, e como um assassina, menti sobre qualquer coisa.
"Estou bem, já chego ai!"
"Certo."
E desligou. Sozinha de novo. O silêncio do banheiro me consolava. Nenhum choro, nenhum "você vai ficar bem", apenas o tolerável universo, brincando de esconde esconde comigo, brincando de silêncio.
O final do velório foi como todos os outros, chorei muito, doei abraços e conselhos, e certifiquei a todos que estaria bem. Supostamente. Coloquei meus óculos novamente, Jer voltou a me olhar, a me tirar a vista, e percebi que não podia mudar esta realidade, e já que eu não tinha colírio, usei óculos escuros mesmos.
Á um ano atrás eu era a líder de torcida, a menina mais cobiçada, tinha uma família perfeita. Hoje, o tempo me trapaceou, brincou comida, riu de mim. Destruída por dentro, tenha que fingir que estou bem, que a morte me ajudou a crescer, que superei. Você não supera, você aguenta. A morte de uma pessoa não tem repouso, quem descansa é quem se foi, mas quem fica, é acordado de súbito todos os dias.
Todo dia, vou acordar sem Jer.
Minha eternidade estava com um fim.
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