Era um dia corrido no zoológico. Para qualquer lado havia alguma criança correndo segurando um algodão doce, um casal de mãos dadas ou adolescentes entendiados cutucando seus celulares.

Como era de se esperar, o lugar tinha crescido muito nos últimos dois anos. Novos setores foram construídos com novos animais bastante exóticos.

— Não podemos nos dar o exorbitante prazer de vagar por aí? — Anne perguntou, como se fosse uma criança ansiosa para ver a gaiola dos macacos. E ela tinha voltado a falar estranhamente, já que Mina fora mais uma vez ao corpo dela.

Lucas revirou os olhos.

— Claro. Só estamos em uma missão que inclui literalmente ir para o inferno e voltar. Vamos dar uma volta no zoológico enquanto isso, por que não? Faça-me o favor.

Ela deu um chute na canela de Lucas, que desviou rapidamente e empurrou o pé dela ainda no ar, fazendo-a perder o equilíbrio e cair de bunda no chão.

Anne levantou-se rapidamente e avançou para cima de Lucas. Eu a segurei antes que ela pudesse tocá-lo.

— Não faça isso. Você sabe que vai apanhar se enfrentá-lo.

Lucas acenou para mim, indicando para soltá-la, e eu o fiz.

— Relaxe, Dylan. É preciso bem mais do que isso para esgotar minha paciência.

Hellen pigarreou. Ela ainda não olhava diretamente para mim.

— Tem como vocês pararem com isso? Por favor, vamos nos concentrar. Já estamos no zoológico, certo. E agora?

— A casa do Conde era antiga, não? E estava no meio do nada. Acho que devemos procurar por algo que não se encaixe nos padrões desse lugar — eu disse.

— Tipo aquilo ali? — Anne apontou para um aquário velho, fechado com tábuas e com a tinta descascando da paredes. Não qualquer aquário. O aquário.

Lucas olhou para mim. Como se quisesse saber a minha reação. Como se ele soubesse.

— É. Todo esse zoológico parece ter sido reformado há pouco tempo, então por que deixariam aquela construção caindo aos pedaços ali? — Lucas ponderou.

— Vai que tem valor sentimental — Hellen disse. — Vamos.

Nenhuma das outras pessoas parecia notar o velho aquário, mais um sinal de que aquele era nosso objetivo. Quando chegamos perto, vimos que as tábuas eram bem mais resistentes do que imaginávamos, e tínhamos que arrancá-las com alguma coisa forte e pesada.

— Será que tem algum pé-de-cabra por aqui? Talvez uma chave inglesa grande, sei lá… — Lucas olhou em volta para ver se achava algum instrumento.

— Por que a gente não chama o…

Um estrondo fez Hellen parar de falar e olhar para a porta do aquário, agora aberta. Anne tinha arrancado as tábuas um chutes. Nós entramos sem falar mais nada. Ao passar por mim, Lucas deu uma cutucada no meu ombro.

— Eu te disse que ela seria útil.

O interior estava escuro. A luz vinda da porta arrombada só iluminava um pouco da entrada. Não dava para ver nada do resto do corredor, exceto por um pequeno ponto brilhante.

— O que é aquilo? — apontei.

— Aquilo o quê? — perguntou Anne.

— Vocês não estão vendo? — olhei para Hellen, esperando que confirmasse, mas ela balançou a cabeça e virou o olhar.

Eu avancei sozinho em direção à fonte de luz. Ficava quase no final do corredor, onde havia uma porta que dava para a despensa, onde mantinham a ração para os peixes. Fui tateando pelo vidro empoeirado até chegar lá. O ponto era, na verdade, um teclado numérico com uma pequena tela fluorescente em cima. Uma senha.

— Ei, venham aqui — eu chamei os outros.

— Para que serve isso? — Anne perguntou.

— Abrir alguma porta, talvez? — respondi.

— Ok. Vamos fingir que isso não é uma armadilha.

— Sinta-se livre para procurar pelo zoológico. Se achar algo interessante, nos chame.

— Idiota…

— Certo, mas como diabos vamos saber a senha? — Hellen perguntou.

— Acho que eu sei — respondi, desconfortável.

Criei coragem e pus a mão no teclado.

Um. Três. Zero. Oito.

Um som abafado saiu do vidro, e a mesma luz do visor do teclado formou uma porta, como se alguém tivesse passado um laser e feito uma abertura. Essa porta caiu para trás, mas a água não saiu de dentro, como se houvesse um campo de força a segurando.

— Isso parece um estágio de jogo. — Lucas observou.

Uma voz saída do nada o respondeu.

— E é mesmo! Bem-vindos, bem-vindos. Que tal um estágio tutorial?

Fomos literalmente sugados para dentro da porta. Ao invés de irmos para dentro e ficarmos todos molhados, saímos em um lugar totalmente diferente, parecendo uma realidade alternativa. O céu era verde, e estávamos em cima de um rochedo. As nuvens passavam pelas nossas cabeça, e abaixo só víamos um abismo muito distante.

— O que é isso? — perguntei.

— Lucas disse. É um jogo — Hellen respondeu, olhando em volta.

— O quê? Que loucura! Como podemos estar em um jogo? Somos pessoas reais — Anne rebateu.

— É? Aqui não — Lucas estava olhando para o precipício. — Mas aposto que se morrermos aqui, morremos na vida real. Estou certo? — ele falou essa última frase alto, para o dono voz que tinha falado conosco antes ouvir. Mas acho que não era necessário falar alto para que ele ouvisse.

— Certíssimo, caro participante. Agora, vocês vão aprender a jogar.

Um grande tsunami apareceu do nada, e vinha em nossa direção com uma velocidade incrível. Todos nos protegemos instintivamente, mas a onda parou antes de nos atingir. Um grande “D” apareceu na crista.

— D de Dylan — Hellen balbuciou.

— E o que eu deveria fazer?

— Você é filho de Poseidon! Faça suas mágicas.

Apontei para o tsunami, fechei os olhos e me imaginei arrastando-o de volta para o oceano, abaixando-o até ele ficar tão calmo quanto águas normais. Quando olhei de novo, ele tinha sumido.

— Bom, isso foi legal — eu disse. — Eu quero faz…

Parei no meio da frase para soltar um grito de surpresa, porque uma planta carnívora surgira do chão e me engolira, deixando apenas minha cabeça de fora. Um “A” surgiu em cima de mim.

— Adivinhem de quem é a vez — exclamei, impaciente.

— Sabe, eu poderia deixar você aí — Anne disse, entusiasmada.

— Ha ha ha. Muito engraçado.

Ela fechou os olhos, e a planta explodiu, deixando seu muco por toda a minha roupa e cabelo. Anne gargalhou quando viu. Mas parou imediatamente quando uma faca foi apertada contra seu pescoço. Um homem mascarado estava atrás dela, segurando-a de um modo que não poderia reagir. Estava prestes a cortar seu pescoço, mas parara no ato, infelizmente. Um “L” surgiu ao lado da cabeça do homem.

— Mas eu não tenho poder nenhum. Não que eu saiba, pelo menos — Lucas disse.

— Use seu cajado, imbecil! — Anne gritou.

— Já sei — ele tirou uma adaga da manga da camisa e atirou certeiramente na cabeça do homem, que caiu para trás, morto, liberando Anne.

Logo depois, um pergaminho surgiu da mão de Hellen, que se sobressaltou de surpresa. Ela o abriu e leu em voz alta.

— Os desafios que vocês enfrentarão nessa etapa serão tão divertidos para mim quanto eram para vocês, jogando videogame quando crianças. Mas serão tão mortais para vocês quanto para os protagonistas dos jogos. Cada um dos quatro terá uma participação importante ao decorrer da partida, e o trabalho em equipe terá de prevalecer. Se alguém morrer, é game over para esta pessoa. Se é que me entendem. Se vocês chegarem ao final, ganharão a caixa. Boa sorte!

O rochedo se estendeu até o horizonte. Mais ou menos dez metros à nossa frente, estava uma porta formada por pixels.

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