Aquele Que Venceu a Morte
30 Castelo

— A Sony lançou o Playstation 5 enquanto estávamos fora? — Lucas perguntou, impressionado.
Do outro lado da porta, um mundo completamente novo nos esperava. Era uma cidade de RPG, com os NPCs — isto é, “robôs” que dão informações e ajudam a passar de estágios nos jogos — parados em seus lugares, tavernas e até mesmo um castelo no alto de uma montanha ao longe. As ruas eram de terra e havia gramas e árvores por todo lado.
— Bom, isso aqui é com vocês dois. Eu não entendo nada disso — Hellen disse, levantando as mãos.
— Nem eu — Anne confirmou.
— Olhem só, as duas concordaram em alguma coisa. O fim do mundo está próximo! — exclamei.
Hellen torceu o nariz para mim. Pelo visto, as coisas estavam voltando ao normal.
— Venham, vamos falar com o NPC na entrada da cidade. Geralmente ele dá todas as informações e talvez até um mapa.
Um soldado de olhar perdido nos esperava embaixo do letreiro que dizia “Aquarium City”. Entendi a referência.
— Olá — Lucas o cumprimentou.
De imediato, o olhar do senhor ficou focado em Lucas, como se só ele existisse no mundo.
— Bem-vindos a Aquarium. Primeiramente, gostaria de parabenizá-los por terem conseguido a façanha de passar pelo Conde Teon, e agradecer por me tirarem do tédio. Finalmente terei o prazer de testar meu RPG realístico que ainda está em estado beta. Aquarium, um dia, foi uma grande cidade. Líder do comércio e armamento, ela comandava a Península de Ellias. Havia muito tempo que as cidades rivais tentavam destronar Aquarium de tal poder, criando planos e artimanhas para falir a cidade, sem sucesso, entretanto. Porém, quando um misterioso mago negro chegou, todos os pesadelos dos cidadãos da grande cidade passaram a ser verdade. Ele sequestrou a princesa Febe, e roubou o mais valioso tesouro da coroa: a caixa preta. Nela, continha uma parte do berrante de Cyn, uma das mais, senão a mais exorbitante relíquias dos mundos. Ela mantinha o governo e a economia de Aquarium estabilizados, e, com sua retirada, a cidade foi lentamente em direção à falência, e ela é agora apenas o que vocês podem ver com seus próprios olhos. Após o rei cometer suicídio, o mago negro finalmente retornou, casou-se à força com a princesa e declarou-se novo rei de Aquarium. Como era de se esperar, ele fez tudo para o bem próprio, e não para ajudar os cidadãos. Há muitos anos vivemos nesse regime sombrio, mas não desistimos, porque fomos informados de uma profecia que dizia que um mago branco estava para chegar. Ele enfrentaria o mago perverso em seu próprio castelo, libertaria a princesa e restauraria o grande estado. Vocês, meus jovens, foram escolhidos para tal tarefa. Saibam que não são os primeiros. Muitos tentaram, mas sequer conseguiram sair dos arredores da cidade. Para que vocês comecem sua missão, lhes darei um mapa e quatro poções de vida. Em nenhum outro lugar vocês acharão mais poções, então usem-as com cuidado. No mapa estão marcados todos os pontos pelos quais vocês devem passar. Também há a localização exata da caverna e do castelo. Boa sorte!
Logo depois, o velho senhor voltou à sua posição normal, olhando para o nada, e um mapa surgiu na mão de Lucas.
— Ai, Anne! — Hellen exclamou.
— Ih, tá mais louca que antes. Eu nem toquei em você!
Hellen apalpou o bolso e retirou a causa da dor: um pequeno pote com um líquido vermelho dentro. Todos tínhamos um no bolso esquerdo.
— Lucas, o que tem no mapa? — Hellen perguntou, aproximando-se.
Lucas abriu para todos verem. O mapa representava tudo o que víamos. Havia um ponto apagado indicando o NPC do soldado que não mais respondia aos nossos chamados. Mais à frente, uma seta apontava para uma taverna, e dizia que o barman teria informações valiosas.
— “Os próximos desafios serão bem piores que o primeiro”. Nossa, que dificuldade, hein — Anne disse, debochando do Conde que estivesse comandando esse jogo. — Parece que estou em um livro infantil.
A taverna estava vazia, exceto por um homem de costas atrás do balcão, que segurava um copo de cerveja, imóvel. Assim que chegamos perto, ele se virou e começou a falar.
— Desde a chegada do mago negro, Aquarium tornou-se uma cidade pequena, com poucas casas e quase nenhum casarão. Nossa população está muito pequena, e tememos que em breve seremos completamente extintos. Porém, salvadores, estávamos esperando vocês. Ao longo dos anos, vários estudiosos coletaram o que sabiam sobre o mago negro e puseram em uma caverna escondida nas profundezas da floresta, longe do alcance do tal mago. Fizeram um livro com essas informações, livro o qual ajudará vocês a saberem os pontos fracos e fortes do inimigo. Mas lembrem-se: vocês não foram os primeiros a tentar. Muitos morreram por essa causa, e não desejo o mesmo destino para vocês. Mas eu confio em vocês! Libertem-nos! Salvem a princesa daquele tirano! Restaurem a velha Aquarium! Se o fizerem, seremos eternamente gratos, e vocês receberão a caixa preta como recompensa.
Ele se virou novamente e continuou a segurar o copo de cerveja na mesma posição anterior.
Saímos da taverna e fomos dar uma volta para analisar a cidade. Realmente, era muito pequena, e o espaço desprovido de árvores e cheio de entulhos indicava que já fora muito maior. Havia uma casa de pedra aqui e ali, mas em nenhum lugar eu vi muitas juntas. No comércio, só havia o necessário, e algumas pequenas barracas ambulantes vendendo alguns itens caseiros. Além de nós, não havia nenhum jogador real, então deduzi que basicamente todos ali eram NPCs. Se chegássemos perto ou disséssemos “oi”, todos teriam alguma frase bordão para falar, como “Salve-nos desse terrível mago” ou “Há muito tempo que eu quero ver esta cidade prosperar novamente”. Falas típicas de pessoas assustadas. Parecia um lugar pacato, onde nada acontecia há muito tempo. Bom, isso estava prestes a mudar.
— Lucas, onde a gente tem que ir agora?
— À caverna. Temos que pegar aquele livro para sabermos como confrontar o mago.
— Então vamos logo, quero arrancar a cabeça desse cara e sair dessa coisa ridícula logo.
Um vulto passou na frente de Anne, e ela caiu no chão, gritando. Lucas quase imediatamente tirou uma adaga e atirou na cabeça do que parecia ser um lobo salvagem, mas com dentes muito mais largos.
Anne continuava no chão, gritando e esperneando: o lobo arrancara mão dela.
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