Aquele Que Venceu a Morte
9 Underwear

A escolha é tua. Amigos teus dizem que isso pode ser uma brincadeira, e eu não poderia dar mais razão ao pensamento deles. Mas se tu acreditas, continuas a ler estas cartas, e faças tudo que eu mandar. O processo é complicado, leva tempo, por isso não se apresse. Mas se tu fazeres como combinado, poderemos trazer tua amada e tua amiga de volta. Mas se tu queres prova concreta, me encontres no cemitério na noite em que receberes esta carta, à exata uma hora da manhã. Eu estarei lá. Venhas com aquela que lê, ou venhas sozinho. Se mais alguém ir, eu irei embora, e acredites, sei fazer isso muito bem.
— Espera um pouco. Um estranho está deixando essas mensagens holográficas para você, e, quando ela some, uma carta aparece do nada em algum lugar perto. E a mensagem é sempre a mesma: “Está na hora, Dylan”. — Anastasius disse, logo após eu ter explicado tudo para eles.
— Isso aí.
— E ela disse que você poderia trazer a Louise e a Mirina de volta?
— Antes, não. Mas com a descrição que ela fez nessa carta, agora eu tenho certeza que são elas.
— Mas, cara, o que diz nessa carta? — perguntou Edward, tentando tirá-la da minha mão.
— Desculpe, eu diria, mesmo, mas aqui diz que eu não posso dizer para ninguém. Bem, só uma pessoa.
— E quem é essa pessoa?
Eu pus a carta de volta no envelope e dei meia-volta para sair andando.
— Dylan, para onde você vai?
— Vou chamar aquela que lê.
Onze e meia da manhã. Hellen sempre está na biblioteca a essa hora, então eu fui para lá.
— Olha só. O que você está fazendo aqui?
— Só porque sou filho de Poseidon eu não posso ler um pouco?
— Duvido.
— Eu recebi outra carta.
Ela fechou o livro e virou-se para mim.
— Onde está?
Entreguei a carta, e ela leu.
— Você não precisa de mim para fazer isso. Ele disse que você poderia ir sozinho.
— Sozinho à uma da manhã no cemitério? Uh, não, que medo.
— Haha. Como se você não ficasse lá a noite toda.
— Mas a questão é: eu não quero fazer isso sozinho. Eu preciso de alguma testemunha ocular.
— Testemunha ocular?
— É, sabe, alguém que viu o que aconteceu e tal.
— Eu sei o que é uma testemunha ocular. Mas o que você quer dizer com isso?
Sentei ao lado dela e suspirei.
— Eu preciso de alguém que comprove o que eu vi. Alguém que me diga que é real também, porque essa paranoia está me deixando louco. Eu quero que seja real, sabe? Eu quero trazê-las de volta, mas eu acho que vou enlouquecer se eu focar muito nisso sozinho. Então, vem ou nem?
Ela bufou e abriu o livro de novo.
— Meia noite e cinquenta, porta dos fundos da biblioteca.
Ψ
— Meia noite e cinquenta e um — eu falei, quando Hellen finalmente chegou. Fomos andando em direção à floresta, garantindo que ninguém nos visse.
— Um minuto? Sério?
— Leva menos de um minuto para alguém morrer, sabia?
— Acho que não, conheço pessoas que viveram por uns 50 anos.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei que não foi.
Notei que ela segurava algo na mão.
— O que é isso? — apontei para a mão dela.
— Detector holográfico. Vai nos ajudar a ver se é mesmo uma pessoa, ou seja lá o que for aquilo, e não uma imagem.
— E desde quando isso existe?
— Pra falar a verdade, desde hoje à tarde.
Fiquei surpreso.
— Você quem fez?
— Tecnicamente. Eu fiz os esboços e tudo o mais, mas quem construiu foi Bail.
— O conselheiro de Hefesto?
— Esse mesmo.
— Nossa, na minha vida toda eu nem pensaria em fazer algo assim, e você consegue em uma tarde.
— Uma tardis.
— O quê?
— Ah, piada interna, esqueça.
Já estávamos perto do cemitério quando eu vi uma fogueira queimando. Nos aproximamos, e lá estava o rosto encapuzado, mas não só o rosto, o corpo todo. Estava com a cabeça abaixada, mas dava para perceber que ele olhava para nós.
— Ele é real?
Hellen apertou alguns botões no detector, mas uma voz robótica, grossa, falou:
— Não há necessidade para desconfiança. Quando eu prometo algo, sempre cumpro. Prometi que viria, e cá estou. Espero que você também tenha cumprido a sua promessa, Dylan.
— Sim. Só eu e aquela que lê. Mas por que você está fazendo isso? De todas as pessoas que perderam alguém, por que eu?
— Se eu disser agora, você jamais poderá resgatar aquelas que ama.
— Mas como eu vou resgatá-las? Que eu saiba, elas morreram.
— Creio que seja da sua sabedoria que existe um mundo inferior.
— Está dizendo que eu posso ir lá e simplesmente tirá-las do mundo inferior, como Nico di Angelo fez?
— Sim.
— Mas como? Eu não sou filho de Hades.
— Não são apenas filhos de Hades que podem penetrar nos confins do mundo inferior. Há um ritual antigo, muito antigo, do tempo dos deuses, que permite a qualquer mortal o poder de retirar almas do submundo.
— E qual é?
— Se eu soubesse, acha que eu precisaria de você?
— Sim.
— E o que te faz pensar isso?
— Eu sou filho de um dos três grandes.
— E por que você acha que eu não sou?
— Se fosse, você mesmo iria descobrir.
Ele incitou um movimento de cabeça, como se fosse levantá-la, mas desistiu.
— Garoto inteligente.
— E como descobrimos qual é o ritual?
— A única guardiã do ritual existente é Atena.
— Então é para isso que estou aqui? — perguntou Hellen.
O rosto encapuzado assentiu.
— Sem um filho de Atena, essa missão não será possível.
— E o que exatamente eu tenho que fazer?
— Calma. Darei as instruções por via de cartas, em breve.
— Você pode me ensinar a fazer uma gravação holográfica?
— De fato.
Hellen assentiu e voltou a ficar calada.
— Entrarei em contato em breve, Dylan Fletcher.
Algo estalou atrás de nós, e um galho de árvore pegou fogo. Eu e Hellen viramos para ver o que tinha acontecido.
— Quando você vai voltar? — eu perguntei, mas não obtive resposta. — Olá?
Cutuquei Hellen.
— Por que ele está tão parado?
Algo apitou, e eu vi que foi o detector na mão de Hellen.
— É uma gravação holográfica, ele foi embora.
Quando ela disse isso, as árvores ao nosso redor explodiram em chamas, e a gravação sumiu.
— Nossa, que engraçado — Hellen disse. — Pode nos tirar daqui?
— Claro. Mas eu preciso de algo que lembre o mar. Você não tem uma concha no bolso por aí, tem?
Hellen corou.
— Você… Você não tem nada mesmo aí?
— Só a roupa do couro.
— Hã…
— O que foi?
Ela abaixou a cabeça.
— Hellen?
— E-eu estou… com…
— Com…?
— Com um sutiã estampado de conchas.
— Ah. Hm… Hã… Você não precisa. Eu posso passar pelo fogo e…
— Pode mesmo?
— É… Acho que não.
— Tudo bem, eu… Eu posso tirar. Só vire para lá.
Eu me virei e esperei ela tirar o sutiã. Ela me entregou, sem olhar para mim. Eu me esforcei ao máximo para não olhar, e foquei meus pensamentos na água. Alguns segundos depois, o fogo tinha sumido, e Hellen estava encharcada. Bom, com a camisa molhada e colada ao corpo, tinha ficado mais difícil não notar os…
— Dylan? Hellen? O que vocês… AH! EU SABIA! Dylan, seu safado.
Eu bufei.
— Lucas, não é o que você…
— É exatamente o que eu estou pensando. Vocês dois estavam… Ai!
Lucas caiu no chão, desmaiado. Hellen tinha o golpeado na cabeça.
— Ei, não olhe!
— Eu não estava…
Ela pegou o sutiã da minha mão e saiu andando.
Ψ
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