A escolha é tua. Amigos teus dizem que isso pode ser uma brincadeira, e eu não poderia dar mais razão ao pensamento deles. Mas se tu acreditas, continuas a ler estas cartas, e faças tudo que eu mandar. O processo é complicado, leva tempo, por isso não se apresse. Mas se tu fazeres como combinado, poderemos trazer tua amada e tua amiga de volta. Mas se tu queres prova concreta, me encontres no cemitério na noite em que receberes esta carta, à exata uma hora da manhã. Eu estarei lá. Venhas com aquela que lê, ou venhas sozinho. Se mais alguém ir, eu irei embora, e acredites, sei fazer isso muito bem.

— Espera um pouco. Um estranho está deixando essas mensagens holográficas para você, e, quando ela some, uma carta aparece do nada em algum lugar perto. E a mensagem é sempre a mesma: “Está na hora, Dylan”. — Anastasius disse, logo após eu ter explicado tudo para eles.

— Isso aí.

— E ela disse que você poderia trazer a Louise e a Mirina de volta?

— Antes, não. Mas com a descrição que ela fez nessa carta, agora eu tenho certeza que são elas.

— Mas, cara, o que diz nessa carta? — perguntou Edward, tentando tirá-la da minha mão.

— Desculpe, eu diria, mesmo, mas aqui diz que eu não posso dizer para ninguém. Bem, só uma pessoa.

— E quem é essa pessoa?

Eu pus a carta de volta no envelope e dei meia-volta para sair andando.

— Dylan, para onde você vai?

— Vou chamar aquela que lê.

Onze e meia da manhã. Hellen sempre está na biblioteca a essa hora, então eu fui para lá.

— Olha só. O que você está fazendo aqui?

— Só porque sou filho de Poseidon eu não posso ler um pouco?

— Duvido.

— Eu recebi outra carta.

Ela fechou o livro e virou-se para mim.

— Onde está?

Entreguei a carta, e ela leu.

— Você não precisa de mim para fazer isso. Ele disse que você poderia ir sozinho.

— Sozinho à uma da manhã no cemitério? Uh, não, que medo.

— Haha. Como se você não ficasse lá a noite toda.

— Mas a questão é: eu não quero fazer isso sozinho. Eu preciso de alguma testemunha ocular.

— Testemunha ocular?

— É, sabe, alguém que viu o que aconteceu e tal.

— Eu sei o que é uma testemunha ocular. Mas o que você quer dizer com isso?

Sentei ao lado dela e suspirei.

— Eu preciso de alguém que comprove o que eu vi. Alguém que me diga que é real também, porque essa paranoia está me deixando louco. Eu quero que seja real, sabe? Eu quero trazê-las de volta, mas eu acho que vou enlouquecer se eu focar muito nisso sozinho. Então, vem ou nem?

Ela bufou e abriu o livro de novo.

— Meia noite e cinquenta, porta dos fundos da biblioteca.

Ψ

— Meia noite e cinquenta e um — eu falei, quando Hellen finalmente chegou. Fomos andando em direção à floresta, garantindo que ninguém nos visse.

— Um minuto? Sério?

— Leva menos de um minuto para alguém morrer, sabia?

— Acho que não, conheço pessoas que viveram por uns 50 anos.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei que não foi.

Notei que ela segurava algo na mão.

— O que é isso? — apontei para a mão dela.

— Detector holográfico. Vai nos ajudar a ver se é mesmo uma pessoa, ou seja lá o que for aquilo, e não uma imagem.

— E desde quando isso existe?

— Pra falar a verdade, desde hoje à tarde.

Fiquei surpreso.

— Você quem fez?

— Tecnicamente. Eu fiz os esboços e tudo o mais, mas quem construiu foi Bail.

— O conselheiro de Hefesto?

— Esse mesmo.

— Nossa, na minha vida toda eu nem pensaria em fazer algo assim, e você consegue em uma tarde.

— Uma tardis.

— O quê?

— Ah, piada interna, esqueça.

Já estávamos perto do cemitério quando eu vi uma fogueira queimando. Nos aproximamos, e lá estava o rosto encapuzado, mas não só o rosto, o corpo todo. Estava com a cabeça abaixada, mas dava para perceber que ele olhava para nós.

— Ele é real?

Hellen apertou alguns botões no detector, mas uma voz robótica, grossa, falou:

— Não há necessidade para desconfiança. Quando eu prometo algo, sempre cumpro. Prometi que viria, e cá estou. Espero que você também tenha cumprido a sua promessa, Dylan.

— Sim. Só eu e aquela que lê. Mas por que você está fazendo isso? De todas as pessoas que perderam alguém, por que eu?

— Se eu disser agora, você jamais poderá resgatar aquelas que ama.

— Mas como eu vou resgatá-las? Que eu saiba, elas morreram.

— Creio que seja da sua sabedoria que existe um mundo inferior.

— Está dizendo que eu posso ir lá e simplesmente tirá-las do mundo inferior, como Nico di Angelo fez?

— Sim.

— Mas como? Eu não sou filho de Hades.

— Não são apenas filhos de Hades que podem penetrar nos confins do mundo inferior. Há um ritual antigo, muito antigo, do tempo dos deuses, que permite a qualquer mortal o poder de retirar almas do submundo.

— E qual é?

— Se eu soubesse, acha que eu precisaria de você?

— Sim.

— E o que te faz pensar isso?

— Eu sou filho de um dos três grandes.

— E por que você acha que eu não sou?

— Se fosse, você mesmo iria descobrir.

Ele incitou um movimento de cabeça, como se fosse levantá-la, mas desistiu.

— Garoto inteligente.

— E como descobrimos qual é o ritual?

— A única guardiã do ritual existente é Atena.

— Então é para isso que estou aqui? — perguntou Hellen.

O rosto encapuzado assentiu.

— Sem um filho de Atena, essa missão não será possível.

— E o que exatamente eu tenho que fazer?

— Calma. Darei as instruções por via de cartas, em breve.

— Você pode me ensinar a fazer uma gravação holográfica?

— De fato.

Hellen assentiu e voltou a ficar calada.

— Entrarei em contato em breve, Dylan Fletcher.

Algo estalou atrás de nós, e um galho de árvore pegou fogo. Eu e Hellen viramos para ver o que tinha acontecido.

— Quando você vai voltar? — eu perguntei, mas não obtive resposta. — Olá?

Cutuquei Hellen.

— Por que ele está tão parado?

Algo apitou, e eu vi que foi o detector na mão de Hellen.

— É uma gravação holográfica, ele foi embora.

Quando ela disse isso, as árvores ao nosso redor explodiram em chamas, e a gravação sumiu.

— Nossa, que engraçado — Hellen disse. — Pode nos tirar daqui?

— Claro. Mas eu preciso de algo que lembre o mar. Você não tem uma concha no bolso por aí, tem?

Hellen corou.

— Você… Você não tem nada mesmo aí?

— Só a roupa do couro.

— Hã…

— O que foi?

Ela abaixou a cabeça.

— Hellen?

— E-eu estou… com…

— Com…?

— Com um sutiã estampado de conchas.

— Ah. Hm… Hã… Você não precisa. Eu posso passar pelo fogo e…

— Pode mesmo?

— É… Acho que não.

— Tudo bem, eu… Eu posso tirar. Só vire para lá.

Eu me virei e esperei ela tirar o sutiã. Ela me entregou, sem olhar para mim. Eu me esforcei ao máximo para não olhar, e foquei meus pensamentos na água. Alguns segundos depois, o fogo tinha sumido, e Hellen estava encharcada. Bom, com a camisa molhada e colada ao corpo, tinha ficado mais difícil não notar os…

— Dylan? Hellen? O que vocês… AH! EU SABIA! Dylan, seu safado.

Eu bufei.

— Lucas, não é o que você…

— É exatamente o que eu estou pensando. Vocês dois estavam… Ai!

Lucas caiu no chão, desmaiado. Hellen tinha o golpeado na cabeça.

— Ei, não olhe!

— Eu não estava…

Ela pegou o sutiã da minha mão e saiu andando.

Ψ