Notas iniciais
Capítulo foi escrito pelo Mestre Clodoaldo, nosso Lucas. Copyright para ele.

Lá estava eu, deitado no chão, sonhando com peitos molhados enquanto o sol queimava meu rosto. Lembro de ter visto Dylan segurando o sutiã de Hellen. Eu falei algo, e, de repente, eu desmaiei. Pelo menos Dylan teve o bom senso de me levar à enfermaria.

Eu não sei o que tinha acontecido ali, mas Dylan e Hellen sabem como se divertir. Na verdade, eu sempre soube que nunca houve nada entre eles. Mas não vai demorar muito para que aqueles dois fiquem juntos, eu tenho certeza disso. Eu nunca erro. Talvez seja um pouco de arrogância minha dizer que eu sempre estou certo e que os outros são inferiores. Uma vez Hellen disse que minha arrogância me leva longe, mal sabe ela que já me levou aos lugares mais improváveis conhecidos, porque eu não passei minha vida toda no Acampamento.

Talvez esses lugares sejam perdidos no tempo e nas minhas memórias, como as lágrimas se perdem na chuva e se tornam algo pequeno perante a tempestade. Mas há algo nesses dois que me intriga, de certo modo. Principalmente Hellen, ela lembra muito alguém que conheci.

Voltei ao meu chalé, depois que Julieta me deu alta. Já era meio dia. Hellen realmente deveria ter uma grande força para me abater a ponto de eu dormir daquele jeito.

“Pobre Dylan, mal sabe que eu sei o que ele fazia. Talvez esteja colocando Hellen demais nesse seu desejo obsessivo de trazer sua namorada de volta. Sua história nem chega a ser trágica demais. Com treze anos, quase ninguém ama, e o amor é algo tão confuso que o pobre filho de Poseidon não abre brechas em sua cabeça para pensar outra coisa. Infelizmente, não é amor, é obsessão”, pensei, enquanto eu tomava banho.

“Hellen carrega algo que um velho conhecido deseja, O Sangue de Atena. Eu soube de longe. A morte não pode ser revogada, mesmo trazendo a pessoa de volta a vida. Ela esteve morta por um tempo, e morta ela permanecerá pela eternidade.”

Depois do banho, resolvi ir ao cemitério.

Eu não via Mirina há anos, mas sua lápide me lembrava do seu rosto, sua alma. Mirina era amor para mim, nada mais.

Mas talvez Louise amasse Dylan, e vice-versa. Talvez minha arrogância fosse tão grande que eu não enxergasse isso. Talvez seja porque eu não sou capaz de amar como os outros amam. Afrodite é imprevisível.

Levei o bonsai. Chegando no cemitério, me lembrei de coisas passadas, um trato feito com um antigo conhecido, naquele mesmo local.

— Você tem certeza? — disse ele.

— Acho que sim. — respondi.

— Isso pode custar muito mais do que você imagina. O que está me pedindo não é dado de uma forma fácil. Você irá sofrer.

— Não quero saber, eu aceito.

Naquele momento, eu cortei meu pulso. Eu tinha muito menos juízo. Talvez a emoção reinava. Era como uma floresta em chamas, cada árvore próxima era uma nova esperança da chama se propagar, mas a única coisa que restava eram cinzas. Talvez hoje eu seja um monte de cinzas.

— Agora que realizei o que tu querias, não terás mais volta. Esperarás, até que tudo seja concluído.

— Quanto tempo?

— Talvez um dia, talvez uma era.

Começou a chover, e me sentei na lápide da minha falecida irmã. Não importava se eu iria me molhar.

— Já passou muito tempo. Eu quero voltar atrás.

— Eu falei, não terá volta assim que o processo se realizar.

— Ela… Ela está indo embora, já é demais, não quero mais ficar aqui.

— Me desculpe, mas eu avisei.

O vento batia em meu corpo e cada gota de água era como uma agulha. Mas eu fiquei lá, com minha irmã. Ela não hesitou em ir embora, eu também não hesitei, também não hesitarei.

— Todos já se foram. Eu ainda estou aqui, nem mesmo você me visita.

— Você pode me visitar. Você pode fazer o que quiser, esse foi o trato.

— Eu não quero mais, eu me arrependo.

— Eu tenho que ir. Só voltarei quando estiver acabando.

O que Mirina acharia? Será que minha doce irmã aprovaria o que fiz? Ainda mais com quem eu fiz? As respostas parecem ser claras, mas são apenas ilusões, geradas pelo desejo incessante do conhecimento.

Olhei para o túmulo dela. Com certeza ela estava no elísio. Sendo feliz sem mim. Irmãos não temem o perigo por outro, talvez por que o perigo seja apenas uma passagem.

— Já é hora, irei me libertar?

— Sim, você será livre conosco novamente. Mas não conte mais comigo.

— Por que? Por que irá me abandonar?

— Isso eu já fiz, eu já lhe abandonei. Seja livre novamente.

Um trovão ribombou no céu, e meus pensamentos foram afastados do passado. Ele estava lá, com seu capuz e sua manta.

Estava atrás de mim.

— Eu sei o que você está fazendo — exclamei. — Cartas e hologramas são o suficiente para atrair Dylan. E Hellen.

— Fique fora dos meus assuntos, Lucas. Você sabe que o aconteceu. Você sabe que eu preciso fazer isso — falou, com uma voz diferente, quase de outra pessoa.

— Eu sei bem seus planos. — falei, com ódio na voz. — Eu peço, por favor, deixe Mirina fora dessa, deixe-a descansar em paz. Ela pode não querer isso. Ela pode estar feliz.

— Não cabe a mim decidir. Cabe ao seu novo amigo. O desejo dele será aliado ao meu.

— Eu sei.

— Você não pode ter certeza.

— Eu tenho! — gritei — Eu tenho…

— Eu avisei que seria um inferno, não me culpe por isso. Dylan saberá as consequências na hora certa.

— Você não pode simplesmente trocá-las — eu disse, um pouco triste. — Hellen não tem culpa de nada.

— Eu já falei, deixe minhas coisas — ele disse. — Você tem as suas marcas, deixe Dylan ter as deles.

Tirei uma adaga do meu bolso. Olhei para o raio de cor verde estampado na lâmina.

— Faça o que quiser. Mas vou tentar te impedir — falei.

— Que assim seja, prole de Nêmesis. Mas você terá que lutar para conseguir — respondeu, e sumiu.

Eu sempre soube que me atormentaria novamente. Eu sempre sei, eu sempre saberei…

"Estou livre. Eu posso saber de tudo. Eu serei o maior dos semideuses, maior que qualquer filho de Atena. Eu sei tudo!", eu falava comigo mesmo, no passado.

Agora eu sou uma lágrima, e a tempestade está por vir.

Ψ

Notas finais
Vocês entenderam alguma coisa? É, eu também não, mas o Mestre disse que vai explicar nos próximos POVs do Lucas.