Aquele Que Venceu a Morte
16 Namorada
Notas iniciais

Estávamos comendo em algum lugar no meio de Long Island, horas depois de sair do acampamento. Anne parecia ter, agora, vontade própria de procurar o segredo de Dylan. Como se fosse a coisa mais importante do mundo. Por que esse cara conseguia atrair todo mundo? Não que eu tenha inveja, claro, é só muito estranho, como se o futuro fosse depender dele. E talvez dependesse mesmo.
Eu gostaria de ajudá-lo. A não fazer o ritual. Ele não sabe o mal que virá para ele, nem para mim, nem para o resto dos semideuses. A obsessão de Dylan já foi longe demais, a hora de por um fim nisso já está próxima, e eu o farei. Nem eu mesmo arrisquei praticar o ritual com Beth.
Ah, Beth…
Posso parecer um idiota às vezes, mas um idiota forjado.Alguns minutos depois de comermos morangos com gosto de abacaxi, descansamos dentro de uma sequoia oca, pouco protegidos de monstros. Mas não importava, só Anne dormia.
Decidi visitar o passado, é um bom lugar para ir de vez em quando.
Eu estava no chalé de Hermes, porque naquela época não existia o chalé de Nêmesis, e eu nem sabia que ela era a minha mãe. Era festa de fim de ano. Todos gostavam muito desse tipo de festa, mas eu não ligava muito. Só havia uma coisa que não saía da minha cabeça: Elizabeth.
Filha de Atena, cabelos negros, olhos escuros e nem um pouco arrogante, muito diferente dos estereótipos dos filhos de Atena. Talvez fosse isso que me atraía. Ela fugia de tudo que poderiam lhe impor. Ela, com certeza, foi a primeira pessoa que eu amei — veja bem, com Mirina era amor, mas amor de irmãos.
Todo o refeitório estava cheio de comida. Perus, carneiros, saladas, queijos e sobremesas. Os olhos e a boca se enchiam de água só de ver toda aquela comida. A princípio, fiquei longe da mesa de Hermes, pois não havia espaço para mim. Sentei em um tronco caído longe do refeitório, comendo com o assobio da noite, escutando apenas vestígios da cantoria que se passava lá.
Até que uma única pessoa, alguém com um pouco de compaixão, sentou ao meu lado. Elizabeth levou mais comida e bebida, junto com um sorriso. Era o suficiente para mim.
— Você está agindo como um idiota. — disse ela, num tom de brincadeira e sarcasmo.
— Eu? Por quê? — perguntei, curioso.
— Estou brincando. — respondeu Beth — Por que você veio pra cá?
— A mesa está cheia.
Ela ficou em silêncio por um tempo. Depois, perguntou:
— Por quê?
— Por que o quê? Por que a mesa está cheia? — respondi, meio confuso.
— Não, por que você deixa eles te inferiorizarem?
— Não sei.
— Eles nem sabem quem é sua mãe.
Dei de ombros.
— Bem, Afrodite é que não é.
Ela riu.
— Olha, não é por que você não sabe quem é seu parente olimpiano que você é inferior aos outros. Nem eles são superiores a você. Não os deixe fazer isso com você, certo?
Um sorriso se estampou no rosto dela. Um sorriso doce e acolhedor. Eu estava simplesmente encantado por aquela garota.
— Obrigado.
— Não é nada. Você é muito especial pra mim, Lucas, filho de ninguém.
— Você também, Elizabeth, filha de Atena.
Brindamos com uma taça de suco de uva e bebemos.
Depois de um tempo, eu tomei a coragem de falar o que eu estava evitando.
— Beth, eu queria dizer que…
Fui interrompido pelos fogos do ano novo. Uma explosão de cores no céu, cada uma representando um chalé; A coruja de asas abertas e de cor amarela era Atena; O javali vermelho era Ares e etc. Terminou com a águia dourada de Zeus, mas depois de todos eles, um décimo terceiro símbolo apareceu, em cima da minha cabeça. Duas asas angelicais roxas.
— O símbolo de Nêmesis… — disse Elizabeth.
— Mamãe? — falei, com felicidade e sarcasmo.
Ela me abraçou, como se quisesse que eu dividisse minha felicidade.
— Feliz ano novo, Lucas. — desejou-me Beth.
— Feliz ano novo, Elizabeth. — respondi.
Ela ficou me olhando por alguns segundos. Eu devolvi o olhar. Ela começou a se aproximar de mim. Iria me beijar. Eu não recuei, fui de encontro aos seus lábios, doces e vermelhos.
Nos beijamos no primeiro dia do ano novo, que prometia ser bom, mas não foi.
Enquanto nos beijávamos, algo puxou Elizabeth para o alto, algo muito forte.
Um ciclope, bem no meio do acampamento. Pegou Beth pela perna e segurou o seu braço, pronto para parti-la ao meio. Ele berrou, chamando a atenção de todos no refeitório.
— Um ciclope?! — gritei, participando do coro de vozes perplexas atrás de mim. — Quem deixou isso entrar aqui?
Eu não podia fazer nada, eu não era nada. Minhas aulas de esgrima estavam só começando, eu nem sabia manejar uma espada direito.
Elizabeth estava prestes a ser morta. Eu tinha que fazer algo.
A única coisa que eu tinha eram meu garfo e minha faca. Então percebi que era exatamente disso que eu precisava. O ano novo era comemorado com um banquete com música clássica e talheres de bronze celestial. Minha faca era de bronze celestial. Eu não podia chegar perto, pois ele me esmagaria. Eu teria que arremessar a faca. Mas, naquela época, eu não tinha a mínima habilidade com adagas.
Sem pensar muito, mirei no joelho do ciclope e atirei a faca de bronze. Surpreendentemente, eu consegui acertá-lo em cheio. O ciclope virou pó instantaneamente.
Um raio verde rodopiou onde antes havia o ciclope. Eu me deixei cair ao lado de Beth, ofegante. Outros campistas a socorreram, e ela estava bem, apenas com alguns machucados. Ela me viu e me abraçou, fungando, mas eu desmaiei de cansaço.
Quando acordei, já tinham-se passado alguns dias. Eu tive, na verdade, um infarto, muito incomum para jovens, principalmente para jovens semideuses. Foi quando eu fui diagnosticado como uma pessoa cardíaca.
Fiquei sem treinar durante meses, sem fazer nada de interessante além de sair com Beth às vezes.
Depois de um tempo, recebi a benção de Hécate, eu a usei para dar um fim ao meu problema de saúde, o que funcionou. Mas isso é outra história.
Eu voltei a treinar e comecei a aprender o uso de adagas. Poucos meses depois, eu já dominava a técnica, e me tornei o melhor manuseador de adagas do acampamento. Eles deixaram de me oprimir. Depois de um tempo, comecei a namorar com Elizabeth, que foi eleita a filha de Atena conselheira.
Nesse mesmo ano, movido pelo desejo de conhecimento, fiz um acordo muito arriscado, com alguém muito perigoso. Nesse mesmo ano eu quebrei minha perna esquerda, quase tiveram que amputar, pois nem néctar e ambrosia davam jeito. Nesse mesmo ano, Elizabeth morreu em batalha contra outro ciclope. Eu estava lá, mas não pude fazer nada.
O passado é um bom lugar para se visitar, mas um péssimo para ficar.
Já era dia, mas Anne ainda dormia. Quando ela finalmente acordou, saímos da sequoia e vimos a longa floresta de Long Island pela frente.
— Pronto para ir ao Olimpo? — perguntou Anne, se espreguiçando.
— Não. — falei.
— Por que não? — ela perguntou, confusa.
— Nós vamos para uma fazenda. — respondi.
— Você quer correr atrás de galinhas e beber leite de vaca?
— Não. — tornei a responder — Vamos matar um pouco de água.
— O quê?! — ela perguntou.
Não respondi. Anne bufou de raiva e nós seguimos para Nova York sem trocar nenhuma palavra.
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