Notas iniciais
Marina e Taynara queriam ação. Tomem ação. Se reclamarem agora dou um chute na bunda das duas.

— O que vocês…? Ah, deixa para lá.

Verifiquei o estado de Hellen. Ela ainda estava desmaiada, com um corte que atravessava o corpo, mais ou menos na altura da cintura. Felizmente, não estava nem perto de algum órgão principal, por isso não foi letal. Mas, se eu não agisse rápido, ela morreria por hemorragia.

— Tome. — Lucas ofereceu um copo plástico com um líquido parecido com gelatina dentro. Era néctar.

Abri a boca de Hellen com cuidado e depositei a bebida lá dentro. Fechei a boca e virei a cabeça dela para que pudesse engolir. O corte fechou um pouco, mas ainda estava em carne viva.

Lucas e Anne esperaram eu terminar para falar comigo.

— Cara, e o seu ferimento? — ele disse, apontando para o meu peito.

Por um momento, eu tinha esquecido que eu também tinha sido ferido, porque a adrenalina de não deixar Hellen morrer tomou o meu corpo, substituindo a dor e o medo. Mas agora que ela tinha acabado, a dor insuportável estava chegando.

Tomei um gole do néctar e me senti melhor. Peguei Hellen pelos braços e a sentei encostada na base da goiabeira. Sentei também, de repente sentindo uma dor de cabeça.

— O que vocês vieram fazer aqui?

Lucas revirou os olhos.

— Você pegou meu bonsai. Acha que iria escapar dessa fácil?

— Tá, tudo bem. Mas o que ela está fazendo aqui?

— Vamos dizer que ela é minha… assistente.

Anne bufou.

— Assistente o seu rabo! Sou sua aprendiz.

Pisquei, confuso.

— Aprendiz? No estilo aprendiz e mestre? Então você é um mago? Isso explica o cajado.

— Não necessariamente mago… — Lucas girou o cajado, como se quisesse exibi-lo. — Só tenho uma bênção de Hécate.

— Conheci muitas pessoas que têm bênção de Hécate, e não me dei muito bem com elas.

Lucas largou o cajado para apertar meus ombros.

— Qual é, cara. Você sabe que eu sou seu parceiro. — ele deu um soco fraco no meu antebraço. Depois, levantou a outra mão, e o cajado veio voando, como magnetismo.

Me aproximei mais para sussurrar no ouvido dele.

— Cara, tantas pessoas no Acampamento com talento, e você escolhe ela? Você sabe que ela não se dá muito bem comigo, dá um desconto!

— Então quer dizer que eu não tenho talento? — Anne veio até mim com o punho levantado, como se fosse me dar um soco, mas parou no meio do caminho quando pisou em uma poça de água.

— Se eu fosse você, não me mexeria. — Lucas disse, apontando o cajado para a poça.

— Deixe aquelas aberrações virem. Não notaram que estou com um extintor de incêndio na mão?

— Anne.

— O quê?

— Você se empolgou demais.

— E daí?

— E daí que esse extintor está vazio.

— Ah.

Como que na deixa, outra poça humana surgiu. Anne caiu no chão e ficou com o pé preso dentro dela. Ela ficou com raiva, gritou, e começou a espernear sem parar.

— Lucas, você sabe o que são essas coisas?

— O que, a espertinha não pode responder para você? Ah, é. Ela desmaiou.

Eu bufei, sacando minha espada de novo.

— Tem como parar com isso?

Anne xingou Lucas.

— Não é hora para isso, imbecil! Estou tentando não ser morta por uma poça.

— É uma aquamantine!

— É feita de água — eu disse.

— Bem observado.

— Então por que não posso controlar essa coisa?

— Não é água dos reinos de Poseidon! É água do rio mais profundo do Tártaro. Está nas trevas há tanto tempo que criou personalidade e consciência próprias. Mas não são monstros. Eles simplesmente não saem do Tártaro. O que estão fazendo aqui, perseguindo semideuses?

— Você conseguiu matar uma!

— Sim, com química básica.

— E como matamos com química semideusa? Minha espada passa direto. Você não tem um raio congelante ou algo assim?

— É só uma bênção! Não é como se eu fosse filho de Hécate ou coisa assim.

— Tem como vocês dois inúteis pararem de falar? — Anne gritou, ainda mais alto.

— Dylan, você tem que purificá-lo.

— O quê? Eu? Como?

Mais poças apareceram em todos os lugares. Elas se transformaram em aquamantines, e logo estávamos cercados. Uma delas segurou os braços e tampou a boca de Anne, que agora emitia sons opacos.

Lucas tentava lançar feitiços em algumas, mas eram muitas, e logo ele também tinha sido pego. Uma segurava Hellen, ainda desmaiada, nos braços. Só restava eu. A maioria estava me cercando.

Hellen e eu fomos realmente atacados por aquela aquamantine, mas eles não pareciam ter a intenção de matar Anne e Lucas. Por quê?

A caixa.

Atena avisou que cada monstro cobiçava essa caixa, mas ela nem tinha sido aberta ainda. Será que o que estava dentro era tão poderoso que emitia energia mesmo lacrada? Será por isso que Atena guardava a caixa junto ao corpo?

— Dylan! — Lucas gritou, antes de ter a boca tampada também. — Converse com elas! Descubra o que elas querem e… Hmm… Hmmmmmm… — ele foi calado.

Sim, como vocês já sabem, os filhos de Poseidon podem conversar com as criaturas originárias da água. Mas já que essa água não era de Poseidon, eu não tinha certeza que conseguiria.

Me concentrei em entrar na cabeça — se é que eles tinham uma cabeça — das aquamantines, para estabelecer uma conexão. Senti uma delas pegarem no meu pé esquerdo, outra no direito, e os braços, até que eu estava suspenso no ar, totalmente sem movimento. Eu vi uma transformar a mão em uma espada aquática e levantá-la no ar. Ele estava pronto para dar o golpe final. Então eu consegui.

Pare!

O quê? Quem está dizendo isso? Como você conseguiu se comunicar conosco?

A voz era um uníssono, como se todas as aquamantines falassem ao mesmo tempo.

Eu sou Dylan, filho de Poseidon, o deus do mar.

Nós conhecemos Poseidon. Mas, apesar de sermos água, ele não nos domina. Nós somos algo além dele.

Eu sei que são, e eu respeito vocês. Mas por que querem fazer mal a mim e meus amigos? Eu sei que vocês não caçam semideuses.

Não caçamos, mas você está carregando o segredo que não deve ser revelado. Todo o Tártaro está agitado. Mas, de fato, estamos curiosos. Como você conseguiu tirá-lo de Atena? Como enganou a deusa da sabedoria?

Se você quiser pôr medo em alguma pessoa, mostre algo que eles não entendem. Atena pode entender tudo, mas não entende o amor. Acho que a curiosidade dela foi maior. Ela quer saber até onde eu vou por aquela que eu amo.

Interessante. Sentimos muito, mas não podemos deixar que você prossiga com essa missão. Você não faz ideia do que tem em mãos.

Interessante. Eu sinto muito, mas não posso deixar vocês me impedirem. Agora não tenho mais volta, só abandono essa missão com a morte.

Então que assim seja.

A conexão terminou, e a cena prosseguiu. A aquamantine já estava baixando a espada. Eu esperei o momento certo. Quando a ponta da espada perfurou minha pele, eu reuni todas as forças e concentrei naquele ponto. Na mesma hora, a aquamantine se desfez em poeira. Assustadas, as outras me largaram. Um erro muito grave.

Peguei a espada do chão e cortei a minha mão. Pus a mão em outra aquamantine, e, quando meu sangue se misturou à água, ela se desfez com um pensamento meu.

Semideus muito forte. Nossas defesas são insuficientes. Recuar.

Assim que disseram isso, elas voltaram a ser poças e escoaram solo abaixo, provavelmente de volta para o Tártaro.

No mesmo instante, todos caíram no chão. Anne soltou um grito de dor, e Hellen acordou com o impacto. Corri até ela.

— Ei, ei, não faça esforço — eu a ajudei a se encostar na goiabeira de novo. Entreguei o copo para ela, que tomou o resto do néctar.

— O que aconteceu? — ela perguntou, com a voz fraca.

— Seu amante salvou nossas bundas. Ou melhor, machucou nossas bundas.

Quando Hellen viu Anne, a ignorou na mesma hora.

— Como você fez aquilo? — Lucas perguntou, massageando as costas.

— Aquilo o quê? — Hellen estava curiosa.

— Anne e Lucas destruíram aquela poça, mas surgiram mais, muitas mesmo. Quando meu sangue de filho de Poseidon se misturou com a água, elas se tornaram parte do domínio. Logo, eu pude controlá-las, e então ordenei que elas desaparecessem.

Anne cruzou os braços, entediada.

— Tá, tá, pode se exibir depois, mas o que é aquilo?

Ela apontou para outro holograma do cara do capuz.

— Nosso próximo passo.

Ψ