Aquele Que Venceu a Morte
36 Mão

Devo parabenizar-te, creio eu, pelas teus honoráveis feitos, com a ajuda de teus amigos, claro. Não fazes ideia do quando conseguistes conquistar. Chegastes onde ninguém jamais chegou. Destino? Habilidade? Competência? Perguntas que se afloram pelo ar, sem resposta. Posso ver que, mesmo completando a mais difícil das provas, não estás feliz. Será que devo dizer que sinto muito pela tua perda? Não, deveras clichê. Eu avisei sobre os perigos e consequências que essa jornada traria para ti, então, isto foi fruto de tua própria vontade. Não te sintas mal. Na verdade, tens sorte de apenas um dos quatro ter ido, apesar de a outra fêmea ter perdido uma parte do membro superior. De fato, esse é um dos tópicos sobre os quais desejo te informar por esta carta.
Agora, obviamente, já tens as três partes do lendário berrante. Abrirás as caixas, pegarás o conteúdo de cada uma delas e juntarás. Devo avisar-te que para tudo há um preço. O berrante liberará séculos de repressão e solidão por tua cabeça. Teus pensamentos poderão ser embaralhados. Teus sentimentos, trocados. A vontade de Cyn será feita. Mas também devo pedir-te que não te preocupes, o efeito não é imediato. Terás tempo de salvar aquelas que procuras. Demorará meses, quiçá anos para acontecer, se, por um acaso, acontecer.
No que diz respeito ao segredo da Morte: por favor, imploro, para tua própria segurança e sucesso, não o abras antes do aviso. Eu já te disse o que acontecerá caso o faças, assim como te disse o que acontecerá quando o fizeres no tempo certo.
Espero, por todo este esforço, que ainda possuas a camisa e o bonsai. De outro modo tal ritual não será possível.
Agora que tens todo o necessário, basta apenas mais uma coisa: venhas ao meu encontro. Assim que terminares de ler esta carta, encontrarás no bolso da fêmea um mapa. Claro que tu sabes que terás de ir ao Mundo Inferior, mas este mapa te dirá em qual lugar exatamente.
Não deves deixar o dia de amanhã passar. Estarás lendo isso quando já for de manhã, presumo eu. Às oito horas e quarenta e quatro minutos do dia de amanhã, o último raio da constelação de Luy passará pela terra. Por favor, não me perguntes sobre isso. Astrologia avançada. Só precisas saber que aquela constelação aumenta nossas chances de sucesso para cem porcento.
Pude ver que tua amiga perdeu parte do membro superior. Impressionou-me a bravura dela. Na verdade, devo dizer que ela é o semideus menos chato que já encontrei. Sem ofensas a ti, claro. Então, não te impressiones caso notes algo diferente nela, por algum acaso.
Dylan Fletcher
Aquário
Zoológico Municipal de Albuquerque, Novo México
Ψ
— O bolso da Anne… — falei. — Anne?
Virei a cabeça para os dois lados, mas não a vi.
— Tente olhar para baixo — Lucas disse, com a voz ainda fraca.
Olhei para baixo, e lá estava ela, desacordada.
— Mina de novo? — perguntei.
— De um jeito diferente, desta vez.
Abaixei e pus a mão na testa dela. Estava quente. Fui olhar como estava a ferida, e tomei um susto. Algo tinha começado a crescer a partir do toco dela, empurrando o pano para fora.
O crescimento foi acelerando, até que o pano saiu completamente, revelando a mão que se reconstruía.
Lucas olhava com curiosidade, mas calado.
Logo depois, Anne acordou, tossindo. Ela olhou pra mim e se levantou com um pulo. Passou a mão por vários lugares, como se não reconhecesse o próprio corpo.
— Eu sinto — ela disse.
— O quê? — perguntei.
— Ela.
— Ela quem?
— Mina.
— Como assim?
— Eu a sinto dentro de mim. Como nas vezes que ela me possuiu. Mas eu ainda estou controlando meu corpo. O que está acontecendo? Alguém me responde!
Olhei para ela e franzi o cenho, sem entender absolutamente nada.
— Isso é estranho — comentei.
Ela ficou com raiva.
— Estranha vai ficar a sua cara depois que eu… — ela apontou o punho fechado para mim, mas não era mais um punho. A “mão” que havia crescido nela tinha se transformado em uma faca. Uma faca conectada ao pulso.
Anne soltou um grito bem feminino.
— QUE DIABOS É ISSO?
Lucas pôs a mão na testa e balançou a cabeça.
— “Então, não te impressiones caso notes algo diferente nela, por algum acaso”, bla bla bla. O capuz fez isso.
— O capuz deu uma mão nova para ela? — perguntei.
— Não é uma mão nova. Bem, não exatamente.
— É a Mina — Anne disse.
Lucas assentiu.
— Ela é parte de você agora.
Anne soltou uma série de palavrões, xingamentos e insultos que, caso o zoológico estivesse aberto, teria feito nós sermos expulsos. A cada palavra que dizia, ia ficando com mais raiva, e sua mão metamórfica se transformava em instrumentos cada vez mais mortais. Depois de algum tempo, ela parou para respirar.
— Pronto? — perguntei, me levantando novamente. Ela balançou a cabeça positivamente.
— Só continue com essa merda de missão. Quero voltar para o Acampamento logo.
— Para onde nós vamos agora?
Os olhos de Anne ficaram dourados. Ela olhou ao redor, como se tivesse acabado de acordar.
— Dylan! Lucas! Senti demasiada falta de vocês!
— Mina — Lucas cumprimentou-a cordialmente.
Ela me deu um abraço. Era estranho abraçar Mina, sendo que ela estava no corpo de Anne. Parecia que eu estava abraçando Anne. Mas eu estava abraçando-a, não estava?
Bem, é complicado.
— Los Angeles — ela disse, após me soltar.
— Los Angeles?
— Los Angeles.
— O que tem em Los Angeles?
— A entrada para o Mundo Inferior mais segura.
— Em uma cidade como Los Angeles?
— Bem no centro dela.
— O que mais tem nesse mundo esquisito que eu não sei?
Ela deu uma risadinha.
— Estatisticamente falando, você conhece apenas cinco vírgula oito porcento da mitologia grega. Isso incluindo todas as criaturas, deuses, mitos, entradas, saídas, semideuses, histórias, nomes…
— Ok, ok. Eu entendi. Podemos ir?
— O quê? — Lucas perguntou, de repente.
— Para Los Angeles…? — respondi, confuso.
— Você fumou? Vá sozinho. Eu vou procurar algum lugar para dormir. — ele se levantou e foi andando em direção à saída do zoológico.
— Mas…
— Sem mas, Fletcher. Sua reserva de energia está próxima dos dezessete porcento. A adrenalina está ocultando seu cansaço.
— É que…
— Quer que eu chame a Anne? — Mina levantou as sobrancelhas.
Eu bufei, mas desisti.
Acompanhei Lucas até a saída, trancada.
Pulamos o muro, para desacordo de Mina, e fomos procurar algum lugar para dormir.
Como o banco da praça, por exemplo.
Ψ
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