Meu cotovelo estava apertado contra o parapeito da janela do trem. Estávamos indo em direção a Los Angeles, mas nem perto de chegar lá. Árvores passavam como se estivessem voando, fugindo de mim. A paisagem completamente verde vez ou outra era quebrada por uma fazenda ou casa de campo.

Eu até tentei dormir, mas sem sucesso algum. Então fiquei assim, esperando a viagem interminável terminar, e pegando alguma coisa sempre que a moça passava com um carrinho cheio de doces.

Em algum momento, Lucas acordou.

— Ótimo. — ele disse, olhando pela janela.

— O que é ótimo?

— Já estamos quase na fronteira do Arizona com a Califórnia.

Levantei uma sobrancelha.

— É?

Ele fez um gesto com a mão, dispensando a pergunta. Eu voltei a olhar a paisagem.

— Dylan, olhe…

Eu o interrompi.

— Lucas, pare. Se você não quiser me contar, não vou te forçar a isso. Eu quero consertar os erros que cometi com a Louise, a Mirina, e a Hellen. Eu não quero que ninguém mais morra por minha causa. Eu não quero saber o que você esconde, porque eu não tenho nada a ver com isso. Leve-as de volta, certo? Só peço isso.

Ele suspirou, mas assentiu. Parecia saber exatamente do que eu estava falando, mesmo sem ter dito nada.

— Você sabe por que Atena me deu o segredo de bom grado, não sabe? — perguntei, depois de um tempo.

— Porque ela sabe que assim que você abri-lo, vai morrer instantaneamente. Foi o que aconteceu com os outros.

— Todos os monstros do planeta sentindo o seu cheiro de qualquer lugar. Ser perseguido para sempre. Parece uma aventura, não?

— Não acha melhor ficar relaxado no seu chalé? Parece uma boa para mim.

— E que graça teria viver, então?

— Touché. Sabe, Dylan, eu gosto de você.

Franzi a testa.

— Obrigado, eu acho...

— Digo, sua iniciativa é legal. Você está disposto a ser perseguido pelo resto da vida.

— Não é bem uma iniciativa. Só estou pagando minha dívida.

— E se eu te disser que não é sua dívida?

— O que quer dizer com isso?

Ele coçou a nuca.

— Não é sua culpa elas terem morrido, Dylan.

— Eu quis ir para aquela prisão só porque estava chovendo quando chegamos em Columbus.

— Mas a essência de Mirina não se desfez por causa desse episódio em especial. Ela usou os poderes que tinha para desintegrar as algemas, e para se salvar do desabamento na caverna.

— Como diabos você sabe disso?

Ele levantou as mãos.

— Dois anos e meio. As notícias se espalham eventualmente.

— Colin e Julieta — eu falei, bufando.

— Eles devem estar preocupados.

Eu ri.

— O Acampamento deve estar um caos.

— Rachel arrancando aqueles cachos vermelhos de tanto stress.

— Julieta errando a veia dos pacientes porque não consegue parar de chorar.

Ele riu. Ele realmente riu. Um som estranho, raro, que não durou muito.

Eu coloquei as mãos nas orelhas e abri a boca, fingindo grande surpresa.

— Por que eu não gravei isso? Acho que nunca mais se repetirá.

— E olha que é você que tem o MP3 aqui.

Eu sorri e voltei a olhar para a paisagem. Logo minha felicidade sumiu, como de costume.

— Já parou para pensar como tudo seria mais fácil se eu nunca tivesse existido? — eu disse, sem olhar para Lucas.

Ele demorou um pouco para responder.

— Do que está falando?

— Do que poderia ser evitado, caso eu nunca tivesse ido para o Acampamento. De quantas pessoas estariam felizes agora. De quantas pessoas estariam vivas agora.

— Você não cansa de pensar tudo pelo lado negativo?

— Não importa mais. Vou consertar. Eu prometi isso.

— Daqui a uns cem anos vão escrever um livro sobre Dylan, o Cumpridor de Promessas.

— Daqui a uns cem anos vão escrever um livro sobre Lucas, o filho de Nêmesis que não sentia remorso por nada.

— Ha. Diga isso para quem praticava bullying comigo no primário. Quer dizer, se eles conseguirem te ouvir.

Eu senti algo no meu pescoço, e comecei a perder o ar.

— Cala a boca e me deixa dormir — Anne disse, sem abrir os olhos.

— Mas foi ele quem...

Ela apertou mais.

— Shhh.

Ψ

— Tem certeza que é aqui? — perguntei.

Estávamos de frente para um prédio sujo, velho e longe de tudo. A rua estava escura, porque os postes que um dia a iluminaram estavam quebrados. Alguns quarteirões à frente, dava para ver o incrível centro de Los Angeles em toda a sua magnitude. As luzes, os carros, as pessoas bem vestidas. Pelo visto, a televisão não mostrava tudo.

— É. Eu tenho um GPS embutido na mão, quer algo mais seguro que isso? Não se sinta mal, eu também preferiria que fosse em um cassino. — Anne bateu na porta, mas esta caiu sem o mínimo esforço de tão podre que estava. — Mas a vida prega peças. Alguém gostaria de dar as honras?

— Já estive em lugares piores que esse. Muitos. — Lucas disse, e entrou no prédio. — Não tem nada aqui.

Anne foi atrás de Lucas, e eu a segui. Ela transformou a mão metamórfica em uma lâmpada, o que iluminou todo o local.

— Pensei que não gostasse da sua nova mão — comentei.

— E não gosto, mas ela é útil em algumas situações. Tipo cortar seu pescoço.

— Para isso se usa uma espada, não?

— Desculpa, é que não consigo ouvir Miley Cyrus com a minha.

— Vocês parecem duas crianças, fala sério — Lucas comentou.

— Eu, particularmente, concordo — uma voz desconhecida comentou.

Anne deu um passo para trás, assustada.

O sujeito vestia uma capa preta, apenas com a cabeça de fora. Era tão velho que parecia um esqueleto revestido de pele, e segurava uma foice.

Apertei meu MP3 no bolso, pronto para retirá-lo assim que necessário.

— Caronte. — Lucas disse.

— Lucas. — o velho disse.

— Vocês se conhecem? — eu perguntei, abismado.

— Não exatamente. Mas ele me deve um favor. Não é mesmo, Caronte?

— De novo, Lucas? Você sabe que o patrão já tá de olho em mim…

— Desculpe, mas é necessário.

Caronte nos analisou com cuidado, e depois virou as costas.

— Sigam-me — ele falou, friamente.

Nós o acompanhamos até uma porta que parecia ser de elevador. Ele apertou um botão na parede, e ficamos esperando.

— É sério? — Anne perguntou, de repente.

— Hã? — Caronte resmungou.

— Vamos de elevador para o Mundo Inferior?

Mesmo de costas, eu pude ver que ele tinha sorrido.

A porta se abriu, revelando um caminho de pedras que nos levou à margem de um rio, onde um barco estava atracado. A água era completamente escura, de modo que só podíamos ver alguma coisa no outro lado, que brilhava em vermelho. Subimos no barco, e a foice de Caronte se transformou em um remo.

— Próxima parada, inferno — ele anunciou, e começou a remar.

À medida que avançávamos pelo rio, a água mudava de cor em certos pontos, formando imagens, como uma televisão gigante. Brigas de casais, pessoas doentes no hospital, funerais, acidentes, pessoas se drogando, e várias outras cenas trágicas. Caronte explicou que esse rio continha sonhos destruídos de todas as pessoas do mundo, semideuses ou não.

— Será que aqui tem aquele x-bacon que me roubaram na escola? Porque deu uma fome… — Anne passou a mão pela barriga.

Depois de mais alguns minutos assistindo ao sofrimento dos outros, chegamos ao Mundo Inferior sem si. Só de pisar naquela terra vermelha, eu me senti morto. Não consigo explicar, foi como se a vontade de viver estivesse sendo lentamente retirada de mim.

— Não é seguro para pessoas vivas passar tempo demais no Mundo Inferior. Mais que umas seis horas aqui, e nunca mais vão sair. Realmente espero que tenham algum jeito de sair. Por favor, tentem não serem pegos, ou quem leva a pior sou eu. E, Lucas, estamos quites. Espero não ter que te ver nunca mais.

— Foi bom te ver também, Caronte.

Ele acenou com a cabeça e subiu no barco novamente. Observamos ele remar até que a névoa do rio não nos deixasse mais.

— Anne? — chamei.

— Sim?

— Para onde temos que ir?

Ela transformou a mão em uma foice, igual à de Caronte. Depois, imitou a voz dele.

— “Sigam-me”.

Apesar da sensação de extremo cansaço e a vontade de suicídio, consegui dar um passo depois do outro para seguir Anne até nosso destino final. Vez ou outra, no caminho, paramos para nos esconder atrás de um monte de pedras vermelhas, porque “fantasmas vigilantes” estavam passando.

Parecia uma cidade, só que extremamente organizada, e sem casas. Óbvio que teria a polícia, e nós éramos os criminosos.

Atravessamos a ilha andando. Ou seja, já não bastasse o cansaço natural, eu estava exausto de tanto andar. Se aparecesse algum monstro agora, morreria aqui mesmo.

O outro lado do Mundo Inferior era um abismo.

— Relaxe — Lucas disse. — Nenhum monstro vai aparecer. Eles estão esperando o momento certo.

— Como…

— Sua cara diz tudo.

Anne apontou para uma construção na beira do precipício. Parecia uma espécie de igreja. Ao nos aproximarmos, pude notar que havia alguém nos esperando na entrada. Chegamos perto o bastante, e eu pude ver que era o Capuz. Não um holograma, mas ele, em carne e osso.

Paramos à frente dele.

— Dylan. Anne. Lucas. Finalmente nos encontramos. De novo.

A voz dele não era nada como o holograma. Era aguda e imponente. Uma voz de mulher.

— De novo? O que quer dizer com isso? — eu perguntei.

Ele abaixou o capuz.

Cabelos pretos cacheados se espalharam.

Eu dei um passo para trás, mas meu outro pé não acompanhou e eu tropecei, caindo no chão. Mas eu não senti dor. Levantei o dedo e apontei para ela. Apenas duas sílabas conseguiram sair da minha boca.

— Luna?

Ψ