Aquele Que Venceu a Morte
26 Lábios
Notas iniciais

Lucas e Anne continuaram aterrorizados com a ideia de ter a caixa por perto. Então, ficamos na casa até o efeito que Teon provocou neles passar. Depois de mais ou menos duas horas, eles voltaram ao normal, repreendendo a si mesmos por serem tão estúpidos. Naturalmente.
Durante esse tempo, Hellen e eu aproveitamos para explorar mais. Em um quarto empoeirado e de aspecto velho, achamos algumas escrituras antigas que linguagem complicada, mas pelo que ela sabia de inglês antigo, certamente era algum tipo de documento de posse, indicando que a casa pertencia a Horácio e Heylla Teon, provavelmente os pais de Conde. Também descobrimos que o primeiro nome dele era Heitor. Nos fundos, havia uma grande biblioteca, onde a maioria dos livros estava desgastada em função do tempo. Porém, Hellen conseguiu achar um que estava mais ou menos intacto, pegou-o, sentou-se e começou a ler. Deixei ela em paz por um tempo, mas minha curiosidade não aguentava mais.
Tive que a chamar duas vezes para que ela tirasse a atenção do livro.
— O que foi?
— Como você escapou do Teon?
— Ele não impôs efeito em mim.
— Disso eu sei. Quero saber como você fez.
Ela coçou atrás da orelha.
— Eu usei memórias falsas. Já que não tinha acontecido, não me afetaram. Simples.
Franzi as sobrancelhas.
— Memórias falsas? Você apagou sua vida e pôs outra no lugar? Como você fez isso? Aliás, como você fez isso estando consciente do seu plano? E, mais aliás ainda: o que é tão ruim que você teve que criar memórias falsas para esconder?
Ela fechou o livro, levantou-se e o pôs de volta na prateleira à qual pertencia.
— Você faz muitas perguntas, Dylan.
Me senti ofendido. Depois de tudo, ela me tratava assim?
— Olhe, eu sei que você confiou em mim e contou boa parte da sua vida abertamente, mas eu não sou como você. Eu simplesmente não consigo, e não posso. Sei que você já ouviu isso muitas vezes, e certamente quase todas eram blasfêmias, mas não posso. Se não quiser confiar em mim, tudo bem, há motivos, mas eu ainda não estou pronta para isso.
— Não pode! Quero dizer, não é justo! É sempre a mesma coisa. Todo mundo escondendo tudo de mim!
— Eu não sou todo mundo.
— Ah, claro que não. Hellen, eu realmente pensei que você era diferente. Eu pensei que, depois desse tempo todo, eu poderia ter um amigo, mas vejo que não.
Ela se aproximou de mim e apontou o dedo para o meu peito.
— Depois desse tempo todo, depois de tudo que eu fiz por você, não ouse dizer que eu não sou sua amiga! Eu estou arriscando a minha vida por você quando eu poderia estar em segurança no Acampamento. Eu até sinto falta da biblioteca!
Peguei o dedo dela e abaixei.
— Então volte para lá. Eu não pedi para você vir comigo, nem o Lucas ou a Anne. Louise e Mirina são minha responsabilidade.
— Pelos deuses, Dylan. Modéstia à parte, mas se não fosse por mim, você estaria morto agora. Você precisa de nós, queira ou não.
— Não preciso de mais ninguém escondendo as coisas de mim.
— Você não tem paciência!
— Dane-se a paciência! Se você realmente se importasse comigo, seria aberta comigo. Para que tantos segredinhos? No final, eu vou descobrir de qualquer jeito.
— Talvez descubra, mas há hora certa para isso. E, mais uma vez, não ouse dizer que eu não me importo. Afinal, eu estou aqui. E eu te salvei.
— Eu realmente não me importo. Se eu tiver que morrer, assim seja. Às vezes a morte é a melhor opção mesmo.
O tom de voz diminuiu, e ela ficou mais calma. Hellen fechou os punhos e virou as costas.
— Por favor, não diga isso.
— Por quê?
Silêncio.
— Porque…
Tudo aconteceu muito rápido. Ela se virou e veio na minha direção. Um segundo depois, a boca dela encostou na minha, e seus lábios quentes soltaram um arrepio pelo meu corpo. Nós dois paralisamos, e ficamos naquela posição por alguns segundos, até que Hellen recuperou a consciência e se afastou rapidamente.
Ela cobria a boca com a mão, e seus olhos estavam arregalados.
— Desculpa, eu… Não… Eu… Vou ver como Lucas e Anne estão.
Ela saiu correndo em direção ao salão principal.
Na cadeira onde Hellen estava sentada, eu pensei por um segundo ter visto Louise novamente.
Mas, na verdade, tinha apenas uma carta.
Ψ
Tenho que admitir. Fostes, ou melhor, tua amiga foi extraordinária lidando com o Conde. Como ela fez isso, ninguém sabe. Mas saberemos em breve, creio eu, se o decorrer dos fatos não for mudado. E, antes que esqueça, realmente espero que tu não tenhas aberto a caixa ainda. Como mais uma tentativa digna de Atena para enganar os negligentes, se abrires uma das partes sem a presença das outras três, esta se destruirá e se materializará em algum outro lugar do mundo, e o guardião que a guardava voltará à vida e terá uma nova chance. Por favor, não desperdices tua única chance.
Caso não saibas, Atena deve ter dado a localização da segunda caixa à tua amiga, então minha nota no final desta carta será inútil. Peço que não te preocupes com ela. Na hora certa, ela te contará tudo, isto é iminente.
A essa altura, creio eu que já encontrastes com minha companheira, Mina. Como já sabes, ela foi designada especialmente para guiar a ti e a teus amigos. Será uma peça importante no teu tabuleiro da xadrez.
Agora, meu aviso final. O próximo desafio não será em nenhum aspecto tão fácil quanto o primeiro. Ao realizar a improvável tarefa de passar pelo Conde, é de extrema importância que essa pessoa seja eliminada. Atena apenas deixa transparecer que deseja que alguém consiga as três partes. Na realidade, ela se diverte vendo os candidatos falharem na primeira prova. Me arrisco a dizer que Hellen foi a primeira a passar por ele. Incrível como alguns não conseguem pensar, não é? Memórias falsas, e apenas isso. Tão simples, e muitos não têm a decência de sequer sugerir esta opção. Voltando ao assunto principal: o segundo guardião provavelmente nunca foi requerido, e, agora que será, estará bastante entusiasmado com a ideia. Acredito que, se conseguires passar pelo segundo, o que eu espero firmemente, o terceiro será a última súplica. Mas não vamos falar disso agora, tu tens muito a se preocupar. Quando estiveres em posse da segunda caixa, entraremos em contato novamente. Agora vás, não perdas mais tempo.
Albuquerque, Novo México
Ψ
Fale com o autor