Durante a viagem para Albuquerque, Hellen sentou em outro vagão e não falou com ninguém. Todos ficaram bastante confusos, principalmente eu.

Ela tinha me beijado. Ela provavelmente gostava de mim. Eu provavelmente estava ferrado.

Sinceramente, eu não queria magoá-la. Para mim, nossa conexão era apenas de amigos relativamente próximos, mas, evidentemente, para ela era diferente.

Por outro lado, isso explica o motivo de ela ter me acompanhado na missão sem pensar duas vezes, e também explica várias outras situações embaraçosas. Mas o que diabos ela tinha visto em mim? Sou um adolescente depressivo em busca de uma garota morta. Isso se encaixa nos padrões modernos de sexy? Bem, talvez ela seja emo.

Levou pouco tempo para notarem que havia algo estranho entre mim e Hellen.

— Dylan? — Lucas cutucou o meu ombro.

Acenei com a cabeça, como se dissesse para ele continuar.

— O que a Hellen tem?

— Como assim?

— Não se faça de idiota. Enquanto eu e Anne estávamos… daquele jeito, aconteceu algo entre você e Hellen.

— Não sei do que você está falando.

Anne pegou uma colher da mesa metálica presa à parede do vagão e atirou na minha cara.

— Ai! — exclamei, enquanto massageava o lugar onde a colher me atingiu.

— Tem umas dez colheres aqui. Ou você nos diz o que é, ou vou praticar tiro ao alvo um pouco mais cedo hoje.

Peguei a colher do chão e a remexi na minha mão.

— Ela me beijou.

Anne fez uma cara de nojo. Lucas arregalou os olhos.

— Mas e a…

— Não foi culpa dela. A gente tava brigando um pouco antes. Eu cheguei a dizer algo sobre preferir morrer a viver assim, então eu acho que ela ficou com pena e me beijou.

Lucas soltou uma risadinha.

— Pena? Dylan, por favor, se eu te beijasse cada vez que sentisse pena de você, seríamos casados.

Anne pôs um dedo na boca e fingiu vomitar.

— Sr. Depressão e sra. Estranha.

— Anne, por que diabos você está aqui mesmo?

— Com aqui você quer dizer no vagão? Posso ir para outro, se quiser.

— Nessa missão. Se isso for mesmo uma missão. Quem te chamou para cá?

Anne olhou para Lucas, como se esperasse que ele dissesse algo. Ele deu de ombros.

— Ninguém.

— É, eu esperava que dissesse isso. Ninguém te chamou para cá. Por que você veio? Acha que não tenho inferno demais na minha vida? Fala sério.

Anne se levantou e apontou uma colher para mim.

— Olha aqui…

Lucas interrompeu a discussão. Ele pôs uma mão no ombro de Anne e pressionou até que ela se sentasse novamente.

— Ei, ei. Vão com calma. Dylan, não precisa ficar estressado, cara. Fui eu que chamei Anne para vir aqui. Eu observei a performance dela na esgrima, e vi que ela poderia ser útil. E Hellen provavelmente estava em uma hora ruim e buscou refúgio em você, nada demais.

— Como se busca refúgio em alguém que também está perdido?

Ele tirou a mão do ombro de Anne e se calou. As pessoas do outro lado do vagão nos observavam com curiosidade, como se fôssemos algum tipo de atração em um show. Quando Anne apontou uma colher para eles também, voltaram a seus hábitos normais.

Depois de algum tempo, eu voltei ao assunto.

— Você chamou a Anne, certo. Mas quem te chamou?

— Eu não já te disse? Você pegou meu bonsai. Ninguém pega o meu bonsai e simplesmente sai andando.

— E onde você sabia exatamente onde nos encontrar? Poderíamos estar em qualquer lugar. Poderíamos estar no próprio Acampamento, na verdade, escondidos na floresta. Mas você soube que estávamos naquela fazenda “abandonada” — fiz um sinal com as mãos para indicar as aspas.

— Se eu te disser que o bonsai tem um GPS, você acredita?

— Não.

— Com razão.

— Você não vai me dizer, vai?

Ele deu umas batidinhas no meu ombro.

— Não. Desculpe, é que…

Ele parou de repente. Anne tinha caído subitamente em cima dele, sem mais nem menos. Lucas a xingou baixinho e a pôs de volta na posição original. Depois, analisou os sinais vitais dela.

— O que aconteceu?

— Desmaiou.

— Você acha que…

— É.

Com a mesma velocidade que desmaiou, Anne voltou à consciência. Ou eu deveria dizer Mina?

— Mina, você é uma bênção para a sociedade. Como nunca te descobrimos antes?

Ela fez uma reverência perfeita para mim e Lucas. Depois, beijou nossos rostos. Era estranho, porque parecia Anne que estava beijando minha bochecha.

— Vocês tiveram sucesso no primeiro desafio! Mesmo com 5,67% de chance! Realmente, minha ama sabe escolher bem. Mas se meu intelecto não está com alguma desfunção, lembro de estar sendo acompanhada por três semideuses na viagem passada, não dois. Era uma fêmea, não? Ela ficou para trás?

— Não, na verdade… — Lucas começou, mas a cabeça de Hellen apareceu na porta.

— É a Mina? — ela perguntou, ansiosa.

— Olá, semideusa fêmea! Acho que eu deveria perguntar alguma coisa para você… Como vocês dizem mesmo? “Tudo beleza”?

— Tudo beleza. Na verdade, eu queria perguntar algo para você.

— Ótimo! O que você quer saber?

— Quem foi Cyn?

Os olhos de Mina brilharam.

— Ah, essa é uma ótima história. É melhor se sentar.

— Não, eu…

— Vem, Hellen — Lucas a chamou, abrindo um pouco de espaço entre ele e Mina.

Hellen olhou para mim, depois afastou o olhar rapidamente e sentou-se.

— Pode começar.

— Todos vocês conhecem muito bem os deuses e a atitude negligente deles no que diz respeito a casamentos e relações amorosas. Naturalmente, com Hades não é diferente. Saibam que Hades não foi sempre essa pessoa rude e cruel como o descrevem. Como acontecerá a todos, sem exceção, inclusive Atena, Hades já amou. Bem, é relativamente normal para os deuses se apaixonarem, mas, nesse caso, Hades se apaixonou por um espírito condenado. Seu amor foi tamanho que fez ele libertá-la da condenação e até trazê-la de volta à vida. Eternamente grata pela segunda chance que Hades lhe deu, Cyn, a moça por quem ele se apaixonou, jurou ir para a Casa de Hades uma vez por mês, para visitá-lo e satisfazer os desejos dele. Era, e ainda é, estritamente proibido reviver qualquer espírito, ainda mais um espírito condenado. E, para completar, Hades já era casado com Perséfone. Então ele tinha que achar um jeito de fazer Cyn entrar e sair de seus aposentos sem ser avistada por ninguém, então Hades pediu para um de seus ciclopes espiões infiltrados no reino de Poseidon fabricar um instrumento que realizasse tal tarefa. O ciclope retornou imediatamente com um berrante na mão. Segundo ele, qualquer pessoa que ouvisse esse berrante seria transportada para o Mundo Inferior se estivesse na Terra, ou para a Terra se estivesse no mundo inferior. Cyn, sabendo dessa condição, tomava o maior cuidado. Sempre verificava se estava longe o suficiente de alguém para que este alguém não escutasse o som que sairia do berrante. Porém, como nada é perfeito, um dia Cyn levou um mortal ignorante ao Mundo dos Mortos por descuido. Hades não teve escolha, precisou reportar o caso à Atena para que ela pudesse apagar a memória do mortal. Atena ficou tão furiosa que não só apagou a memória do mortal, mas também a de Cyn, para que ela nunca mais lembrasse do caso que teve com Hades, e também jogou o berrante do alto do Olimpo em direção à Terra. Como é feito de bronze celestial, ele dividiu-se em apenas três partes, que quicaram na superfície e se espalharam. Como o Olimpo está nos Estados Unidos atualmente, essas três partes também estão. Atena, sabendo da situação, cuidou para que esses três pedaços fossem inalcançáveis para qualquer um. Vocês conseguiram o primeiro pedaço, faltam dois. Estou aqui para lhes guiar até esses dois restantes. Ah, e falando nisso, vocês sabem onde fica o zoológico municipal de Albuquerque, não?

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