Aquele Que Venceu a Morte
28 Escolha
Notas iniciais

Para você que tem dúvidas: não, o Mundo Inferior não é quente. Depois que você morre, não sente nada. Você não sabe distinguir o frio do quente ou o doce do amargo. Mas, só para ferrar mais com nossas vidas, você ainda é capaz de pensar e sentir. Na verdade, os sentimentos parecem ficar mais intensos. Acho que deve ser porque eu não fui para o Campo de Asfódelos, de Punição ou para o Elísio. De qualquer jeito, isso não foi nada bom para minha raiva.
Tânatos geralmente só escolhe seus próprios filhos para fazer o trabalho sujo dele, mas depois de Mirina insistir constantemente, ele abriu “a única exceção em alguns milênios” e bla bla bla. Então, agora, eu sirvo de babá para os mortos. Digo, não é como se houvesse um casa aqui para cada um. Eu só conduzo as almas recém-chegadas para o salão de julgamentos.
A respeito da aparência? Certo. É como uma cidade normal da Terra, com um céu vermelho cheio de nuvens escarlate, ruas feitas de paralelepípedos cor de sangue e rios de lava. Parece que estamos dentro de um vaso sanguíneo. Depois de algum tempo minha visão se acostumou com o vermelho, entretanto. Há três construções principais: o salão de julgamentos, o qual não vou explicar porque se sua burrice não for extrema, entenderá pelo nome; a reitoria, de onde Tânatos controla o número de almas penadas que vão para cada lugar (sim, tem uma papelada com a ficha de todos os mortos aqui. A vida não tá fácil para ninguém); e o Magnífico, nome irônico que demos para o “magnífico” castelo de Hades. O sujeito faz questão de vir até onde estamos todo santo dia — se é que existe dia aqui — só para ver se estamos fazendo o trabalho corretamente. Como se ele pudesse fazer alguma coisa caso não estivéssemos, já estamos mortos mesmo.
Não tenho mais nada de importante para contar. Se você quer saber dos detalhes, é simples: morra.
E, ah, Dylan não estava vendo coisas quando me viu sentada em alguns lugares. Eu realmente estava lá. Bem, não realmente, mas em forma espiritual. Não posso me comunicar com os vivos, mas posso espiá-los de vez em quando, nas horas vagas. E, mais de vez em quando ainda, eles me vêem.
Eu disse para Dylan que ia esperá-lo, mas parece que ele não quer esperar. Achei loucura a ideia de que ele pudesse de algum jeito me ressuscitar. Mas, quando percebi a seriedade da coisa, fiquei histérica.
Mirina riu da cara dele. Naturalmente. Quando viu o desenrolar da coisa, disse que, caso Dylan a ressuscitasse, chutaria a bunda dele tão forte que ele morreria e nós e quem teríamos que ressuscitá-lo. Naturalmente.
Depois, Mirina falou sério. Ela explicou o que aconteceria caso Dylan violasse o decreto. Acredite em mim, não é nada bom. Nada.
Eu tenho que alertar Dylan. Tenho que convencê-lo a não fazer o que ele pretende fazer. Se pelo menos ele soubesse quem está por trás daquele capuz…
— O que foi, Louise? — no Mundo Inferior, as vozes soavam distantes, vazias. Não era diferente com a de Mirina.
— Eu pensei. Sobre aquela nossa conversa, sabe? Acho que é a coisa certa a fazer.
— Não que eu ligue, mas você disse que ia esperá-lo.
— Eu sei, mas… Não tem jeito. Se eu não impedir aquele ritual, as consequências serão ruins.
— E põe ruim nisso. Mas qual é, eu já estou morta mesmo. Bem que eu gostaria de ver o Apocalipse.
— Acho que você não pensa direito, não é? Imagine todo mundo morto de uma vez. Isso aqui iria lotar, pelo amor dos deuses. Iria ser um verdadeiro inferno.
— Mas e daí? Meu pai daria um jeito e pimba! Todos felizes para sempre nessa droga.
— É, mas e depois? Os deuses ficariam entediados. E você sabe o que o tédio faz. Guerra.
— Ah, Louise. Que babaquice, hein? Você se importa demais com as pessoas. Não era assim quando eu te conheci. Aquele Dylan mexeu mesmo com você, não?
— Mais do que você imagina.
— Ainda não sei o que você viu naquele pedaço de incenso com um reprodutor de músicas que vira um espada. Bem gay, aliás.
— É…
— Espere um momento… Isso não é por causa da Hellen, é?
— O quê? Claro que não.
— Sério? Humanos são tão babacas. Muito babacas.
— Já falamos sobre isso. Afinal, eu estou morta.
— E ele está atravessando todo o país e quase morrendo também para te trazer de volta. Irônico, não? Ele ama você, não a Hellen. Até eu posso perceber isso.
— É como eu disse. Estou morta.
Ela largou a papelada que carregava e se aproximou. Estava falando sério agora.
— Louise, tem certeza que você quer isso?
— Se for para o bem de todos. Do Acampamento. Dele. Sim. Ele vai parar quando souber que eu fiz o que vou fazer. O ritual não acontecerá. Não haverá consequências.
— Você é tão chata. Mas vou sentir sua falta. Ainda tenho uns cem anos de trabalho aqui antes de estar livre. Quando eu terminar, vou atrás de você. Ou da outra você. Vê se lembra de mim. E, ah…
Ela remexeu em um dos bolsos da calça, procurando algo.
— Aqui, para eu saber que é você.
Mirina me entregou o colar de contas dela. Três contas, no total. Três anos no Acampamento.
— Eu posso levar?
— Bem, vai sumir no processo, mas, eventualmente, você achará ele na rua ou alguém te dará. De qualquer jeito, vai ficar com você.
Ficamos em silêncio por um tempo. Ela sabia o que teria que fazer agora, e não queria fazê-lo. Por fim, com um grunhido de desgosto, ela me abraçou. Depois, voltou para suas tarefas.
Pedi perdão a Dylan em silêncio pelo que eu estava prestes a fazer. Imaginei como seria frustrante para ele ver que o progresso todo não deu em nada.
Eu iria acordar em algum outro lugar do mundo, em algum outro país, provavelmente, sem nenhuma lembrança dos acontecidos. Eu não iria ser mais Louise, não conheceria o Dylan e Mirina ficaria sozinha aqui. No fundo, eu não queria isso. Eu queria dar um soco bem forte na cara daquele miserável, e depois beijá-lo.
Acho que nem sempre as coisas terminam como queremos.
Ao caminhar para o salão de julgamentos, lembrei da minha vida. Lembrei de todos com quem eu me importava, todos que eu odiei e todos que mereciam um soco.
Pelos deuses, olhe no que eu me transformei. Uma alma sentimental. Era só o que me faltava.
Mas talvez Mirina estivesse errada.
Talvez Hellen seja a escolha certa para o Dylan.
Entrei no salão, despedindo-me da velha Louise.
Ψ
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