Aquele Que Venceu a Morte
12 Leaving

— Vá para o andar de cima que eu fico com esse aqui — eu falei, apontando para onde Anne deveria ir.
— Por que eu fico com o de cima e você com o de baixo?
— Deve ser porque assim é mais rápido.
— Eu tenho o dia todo, pra variar.
— É mesmo? Eu não.
Eu realmente estava cansado daquela menina. Não sei de onde ela tirou todo aquele ódio por mim, mas resolvi ignorar, ou iria acabar em problemas.
Comecei a pegar os livros que estavam espalhados em cima das mesas e colocá-los em seu devido lugar nas prateleiras. Anne fez o mesmo, longe de mim.
Como era relativamente cedo, a biblioteca estava quase vazia, mas tinha uma pessoa que com certeza estava lá. De vez em quando, eu dava uma pausa e ia até a mesa dela.
— Quase terminando? — Hellen perguntou, sem tirar os olhos do livro.
— Um pouco longe.
— Da última vez foi bem rápido.
— Da última vez eu trabalhei em harmonia.
— Algum problema com a sua nova parceira?
— Ela não é a minha “parceira”. Tá mais para punição.
— Ela é tão má assim?
Como que na deixa, Anne apareceu.
— Ei, vai arrumar isso aqui ou vai ficar o dia todo conversando com a sua namorada?
Bufei.
— Ela não é… Por que você não vai cuidar da sua vida?
— Vamos dizer que eu gosto de um romance. Sabe, vocês dois se merecem, ela parece ser tão imbecil quanto você.
Hellen não pareceu ter ouvido, continuou vidrada no livro.
Apontei o dedo para Anne.
— Ei, pode me xingar o quanto quiser, mas deixe-a fora disso. Ela não merece sua infantilidade.
Hellen abaixou a minha mão com a dela, e eu entendi que eu deveria deixar para lá.
— Infantilidade? Com quem você pensa que…
Um grito abafado cortou a frase dela, obrigando até Hellen e soltar o livro e proteger os ouvidos. Aquele grito era familiar.
— O que diabos foi isso? — Anne gritou, como se fosse minha culpa.
Olhei para Hellen, e ela assentiu. Nós dois sabíamos o que tinha acontecido. Fomos juntos até o primeiro andar, enquanto as poucas pessoas que estavam na biblioteca olhavam para os lados, confusas. Anne nos seguiu.
Lá estava a locução holográfica — ou seja lá do que chamavam aquilo — do cara do capuz. Anne ficou boquiaberta, enquanto eu e Hellen procurávamos pela carta.
— O que… diabos… é isso? — Anne repetiu, apontando para a imagem.
Ninguém a respondeu, então ela voltou a falar.
— Alguém pode me explicar o que é isso?
— Boa sorte, porque nem nós sabemos — eu disse.
— Mas vocês reconheceram.
— Sim, já apareceu antes.
— Como?
— Acredito que não seja da sua conta. — Hellen respondeu.
— Ora, ora, vejam só. Ela sabe falar.
Outro grito veio do holograma, mais alto ainda. Quando acabou, ele sumiu. A carta deveria estar em algum lugar…
— Ei — eu cutuquei Hellen, apontando para o bolso de Anne.
— Sério? — ela disse.
— É a vida.
— O que foi? — Anne perguntou. — Por que você estão apontando para mim?
Eu revirei os olhos e apontei de novo. Ela seguiu meu dedo, e finalmente viu o papel branco que estava no bolso dela.
— Isso não estava aqui antes.
— Bem observado. Pode nos entregar?
— Por que eu faria isso?
Ela tirou a carta do bolso e começou a lê-la.
— Sério — eu pedi. — É importante. Me dê.
— Quem é Louise?
— Já chega.
Eu fui até ela e peguei a carta à força.
— Eu vou descobrir esse segredinho de vocês. — ela disse, e foi embora.
— Boa sorte para ela — Hellen comentou. — O que tem aí?
O máximo que é de meu conhecimento é que precisa-se de itens importantes para os sujeitos do ritual. Tu já sabes qual é o item de Mirina: o bonsai. O forasteiro possui um item que um dia foi muito importante para Louise. É o único objeto em existência com poder suficiente para ser usado em um ritual como esse. Assim que obteres esse último, terás que partir imediatamente, porque o dia em que terás mais chance de ter sucesso está a caminho. Mas, acredites, essa jornada não será fácil para você ou para aquela que te acompanhará. Primeiro, terás que ir ao Olimpo. Lá é onde Atena guarda o segredo. Se tu realmente mereceres, descobrirás um jeito de enganar a deusa e acharás o pergaminho proibido em todos os cantos do mundo. Quando pegares, entrarei em contato novamente. Mas fiques alerta, porque, assim que abrires o pergaminho, tu serás o mortal proibido. Tu saberás como violar as regras de Tânatos, a própria morte. Todos os deuses e todos os monstros sentirão teu sangue e ferverão de pura raiva. Não estarás a salvo em nenhum lugar. Mas é de minha curiosidade: até onde vais por aquela que amas?
— Nossa — disse Hellen.
— O que foi?
— É só que… Eu não esperava por esse dia. O que teríamos que ir.
— Ninguém está te obrigando a fazer nada, você pode ficar se quiser.
— O quê? Você é louco? Todos os monstros vão querer seu sangue em um pote. Não acha que precisa de alguém para te proteger?
— Hellen, outros já foram em uma missão por minha culpa, e você sabe muito bem o que aconteceu a eles.
— Eu sei me cuidar.
— Hellen…
— Dylan, você acha mesmo que vai enganar Atena sem a minha ajuda? Quero dizer, até com a minha ajuda é impossível, mas você sozinho é muito mais impossível. E, aliás, eu prometi ajudar quando eu pudesse, e essa é a minha chance.
— Por que você está fazendo isso?
— Vamos dizer que já li todos os livros da biblioteca. Venha, temos um item para pegar.
Ψ
Hellen entrou no chalé de Atena para chamar Colin. Depois de alguns minutos, eles voltaram.
— E aí, Dylan?
— Hã… Olá, Colin.
— O que você quer?
— Dizer oi para o meu amigo.
— Sem essa. Sério, o que foi?
— Eu preciso de um objeto que você tem.
— E o que seria isso?
— Um objeto que foi muito importante para Louise.
A feição dele mudou de alegre para séria.
— Ah. Para que você quer?
— É uma espécie de ritual.
— Ok. Calma, eu vou pegar…
Ele entrou novamente, eu e Hellen ficamos esperando. Colin voltou com um embrulho na mão. Era a camisa do Metallica que Louise gostava de usar. Vendo essa camisa, eu senti um desconforto forte, mas me recusei a chorar. Ele me entregou.
— Por favor, cuide para que nada aconteça com ela, é a única lembrança que eu tenho.
— Por que você nunca me contou que tinha isso?
— Você poderia roubá-la.
Ele deu uma risadinha, e virou-se para entrar no chalé, mas parou no meio do caminho.
— Dylan, esse ritual aí é no cemitério?
— Claro. No cemitério.
— Não demore.
— Pode deixar.
Me senti mal mentido para o Colin, principalmente à respeito dessa camisa, mas não tinha outro jeito. Já bastava Hellen correndo perigo ao meu lado.
Cada um foi ao seu chalé, e combinamos de nos encontrarmos durante o jantar.
Quando o berrante tocou, esperei todos saírem e fui ao chalé de Nêmesis. Pedi desculpas silenciosamente e coloquei o bonsai na mochila. Esperei Hellen no topo da colina. E ela apareceu, com a mochila nas costas e espada na cintura.
— Pronta? — perguntei.
— Pronta. — ela respondeu.
E, sem permissão, sem avisar a ninguém e com o primeiro “X” marcado no Empire State, nós saímos da proteção do Acampamento.
Ψ
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