Aquele Que Venceu a Morte
13 Aprendiz
Notas iniciais

Eu estava no meu chalé, quase dormindo, quando ouvi um barulho vindo da biblioteca. Senti minhas mãos tremerem e meu estômago se revirar enquanto o zunido horrível ecoava de lá. Ele estava lá. Teve outro encontro misterioso com Dylan e Hellen.
Tentei afastar os pensamentos daquele ser e do que ele estava tramando. Me afastei de tudo que poderia vir dele. Afastei-me do meu instinto, a vingança.
Deitei e dormi por algum tempo, talvez algumas horas. Acordei com o som do berrante, faminto. Era hora do jantar, fui o ultimo a sair do chalé.
Conversei com uma de minhas irmãs enquanto comíamos. A mesa de Nêmesis, ao contrário do que eram as outras, chegava a ser normal. Atena tem os sabichões; Apolo e Afrodite têm os vaidosos, competindo para saber quem tem o rosto mais bonito; Dioniso tem um monte de bêbados; Hermes tem um monte de ladrões; Ísis tem os “coloridos”; Tânatos tem os depressivos; Hefesto tem os excluídos; Deméter tem os hippies; e etc. O único problema dos filhos de Nêmesis é que nós somos um pouco vingativos. Um filho de Nêmesis só lhe faz mal se você o fizer primeiro.
Minha irmã pediu algumas dicas sobre como manusear bem as adagas. Senti algo estranho durante a conversa, mas decidi deixar para lá. Todos me ouviram, já que eu falei sério, e eu não costumava fazer isso.
Depois do jantar, deixamos a mesa e voltamos para o chalé. Logo ao entrar, senti falta de algo: o bonsai. Perguntei desesperado a todos por ali se tinham visto o bonsai, mas ninguém sabia onde estava. Cheguei a quebrar objetos de outros campistas enquanto procurava. Eu estava desesperado. Tinha que achá-lo.
Decidi procurar em um lugar que eu visito frequentemente: uma gruta no meio da floresta, perto do cemitério. Costumava ir lá para meditar e me concentrar nos meus dons concedidos pela minha benção de Hécate, além de descansar quando eu passava a noite toda no cemitério. Levei uma lanterna e procurei, mas não estava lá. Então, no fundo do meu cérebro, pingou uma solução: Dylan levou. É claro, ele não tinha jantado, devia já ter saído do acampamento. Ele partiu com Hellen, e levou o bonsai.
Fui ao chalé de Atena. Devido ao horário, não me receberam bem. Perguntei por Hellen, mas ela também tinha sumido.
A hora chegara. Eu não podia evitar o que estava por vir nem mesmo que tentasse. Eu teria que ir com Dylan e esperar a hora certa para desferir minha vingança. Mas eu não poderia sair de lá sozinho.
Tinha uma pessoa que eu poderia levar comigo: Anne. Ela sabia alguma coisa sobre o que estava acontecendo com Dylan, eu sentia isso. Ou, pelos menos, tinha curiosidade para saber.
Esperei amanhecer. Pouco dormi pensando no que estava acontecendo e tentando adivinhar o quão longe Dylan já estaria.
Fui até o chalé de Afrodite. Falei com uma velha amiga que me devia um favor. Ela me deu um frasquinho cor-de-rosa para que eu pudesse falar com Anne. Era uma poção hipnotizadora. Basicamente, a pessoa fica quase absolutamente suscetível a você. Molhei meu dedo com um pouco do líquido e passei no meu pescoço.
Andei mais um pouco e cheguei ao chalé de Deméter.
— Olá, poderia falar com Anne? — perguntei à filha de Deméter que me recebeu.
— Claro. Vou chamá-la. — respondeu a garota, sorrindo. Ela era bonitinha, por sinal.
— O que você quer? Algo relacionado à arena? — perguntou Anne ao chegar à porta.
— Digamos que sim. Queira me seguir, por favor. — pedi. Ela hesitou e fez uma cara de nojo, mas veio.
Caminhamos até perto da floresta.
— Onde estamos indo, professor? — ela perguntou, um pouco mais educada que o normal.
— A um lugar que eu sei que vai gostar — respondi e dei uma leve piscada para ela. Ela pareceu ter gostado. A poção começou a fazer efeito.
Chegamos à gruta. Tinha uma cor azulada, principalmente por causa dos minerais. Era cheia de estalactites e estalagmites e tinha um pequeno lago verde no centro. Anne pareceu ter gostado, o que significava que a poção já estava mudando até seu jeito de se comportar.
— Aqui é meu santuário. É um lugar onde eu gosto de meditar. — falei.
— Muito bonito… — ela disse, olhando para mim.
Cheguei mais perto de seu corpo. Insinuei que iria pegar em sua cintura, mas regredi, esperando para ver se ela o faria primeiro.
— Sabe, Anne, você é muito bonita. — falei, finalmente pegando em sua cintura. Ela não hesitou e nem mesmo tentou tirá-las.
— Obrigada. — ela disse em um tom de transe, como eu esperava.
— Eu sei que você sabe algo sobre o que aconteceu na biblioteca. O que foi? — encostei minha testa na dela.
— Eu… Eu estava arrumando as prateleiras, quando um ruído ecoou do andar de cima. — ela estava totalmente hipnotizada, nem parecia se importar com o que estava dizendo.
— Hum…? — sussurrei em seu ouvido.
— Dylan e Hellen foram subindo às pressas, e eu fui junto.
— E o que tinha lá? — sussurrei de novo.
— Um holograma de alguém com um capuz e uma manta. Ele desapareceu de repente e deixou apenas uma carta… No meu bolso.
Eu podia sentir sua ansiedade, seu desejo de me beijar. Seus lábios tremiam, seus olhos seguiam os meus quase automaticamente. Ela fervia por dentro, queria que eu apagasse o fogo.
— O que dizia a carta? — sussurrei ainda mais baixo em seu ouvido.
— Eu não li toda. Mas… Eu me lembro de um pedacinho. Algo que dizia sobre um item de uma tal de Maria, se não me engano, e de uma Luísa. Era um… Um… Um bonsai. — sua memória falhou um pouco.
— Só se lembra disso? — sussurrei de novo.
— Sim.
Apertei mais sua cintura, ela estava fervendo de vontade. Então eu dei o que ela precisava, um beijo. Ela pareceu ter gostando mais do que eu. Eu não posso dizer que foi ruim, mas não senti nada além de outra língua em minha boca.
Paramos. Agora ela estava completamente entregue.
— Anne, você quer saber mais sobre o segredo de Dylan? — perguntei.
— Sim… — ela disse, hipnotizada.
— Então jure pelo Rio Estige que irá me seguir. Jure. — falei, encostando a boca no ouvido dela.
— Eu… Eu juro pelo Rio Estige que te seguirei. — ela jurou. Eu já a tinha prendido no meu anzol.
Me distanciei e esperei até o efeito passar. Quando voltou a si, ela chacoalhou a cabeça e me deu um tapa na cara.
— O que você fez, seu idiota?! — ela gritou.
Peguei meu cajado que uso para manipular os meus poderes de Hécate e apontei para ela.
— Anne Sample, você agora é minha aprendiz.
Ela tentou sair da caverna.
— Sair daqui pode custar sua vida. — falei.
— Você me enfeitiçou e me fez jurar pelo Rio Estige? E ainda me beijou?
— Exato.
Ela começou a berrar.
— Eu odeio você. Por que você fez isso? Isso é proibido.
Eu me aproximei e encostei o dedo no queixo dela.
— Regras não se aplicam a mim.
Ela urrou de raiva.
Ψ
Fazê-la ficar contente com a ideia não foi fácil. Expliquei que ela poderia saciar o desejo que saber o segredo de Dylan, e muito mais, até que, finalmente, ela aceitou a ideia de ser minha aprendiz. Não que ela tivesse muita escolha.
Passamos o dia lá. Ensinei todas as técnicas necessárias nesse curto tempo. Ensinei como arremessar uma adaga, também, caso fosse preciso. Mas, principalmente, ensinei como controlar melhor o dom de Deméter. Ela conseguiu tirar plantas de uma rocha e fazer frutas crescerem em um instante. Pelo menos não morreríamos de fome.
Ela era uma ótima aluna, quando não estava com raiva, o que era quase o tempo todo.
Durante a noite, pedi que ela pegasse uma mala e me encontrasse na gruta. Ordenar não foi necessário, já que ela estava de acordo com os planos. Quando todos dormiram, saímos do acampamento por um caminho secreto.
— Você não vai levar mais nada? — ela perguntou ao me ver apenas com o cajado, uma espada, as roupas do corpo e uma boina.
— Eu não preciso de mais nada. — respondi.
Ψ
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