— Ah! Ha ha ha! Isso!

Conde Teon estava aos pulos em um corredor cinza cheio de telas que eu tinha certeza serem minhas lembranças. Aparecemos lá um tempo depois de ele fazer a reverência, o que deveria ser algum tipo de movimento hipnótico que nos pôs em um estado de dormência. A julgar pela reação dele, ele provavelmente já devia ter visto todo o meu passado, e, bem, deve ter sido um banquete completo. Ele continuou a se deliciar:

— E eu pensando que Lucas era minha mina de ouro do ano. Garota, você é a casa da moeda inteira!

Revirei os olhos.

— Agora o que, vai me mostrar as memórias que você achou mais interessantes?

— Basicamente isso. E, depois, vou fazer você desistir de ir atrás da caixa assim como estou fazendo com os outros nesse exato momento. Mas, querida, temos o para sempre todo em nossas mãos, para que a pressa? Não é todo dia que me aparece alguém como você. Seus amiguinhos sabem dos seus feitos?

— Eles deveriam?

— São seus amiguinhos, não? E o Dylan te contou tudo da vida dele, e você não retribuiu o favor, tsc. Isso é falta de consideração, sabia?

— E o que você sabe sobre consideração? Você está na minha mente, e agora sabe todo o meu passado. Sabia que agora existem direitos humanos?

Ele estalou os dedos.

— Desculpe, esqueci de fazer minha matrícula na faculdade de Direito.

— Não precisa fazer faculdade para saber disso, é só ser um pouco menos idiota. Ah, esqueci, você vai viver a eternidade preso naquele quarto, não é?

— Não sei. Acho que no dia do Juízo Final eu vou ter que sair para ir ao Julgamento. — ele agitou a mão no ar. — Não se preocupe comigo. Atena julgará a todos, e, se eu cumprir com sucesso o meu trabalho, o que é certo, meu futuro no Novo Mundo estará garantido. O seu, julgando pelo que acabei de ver, nem tanto. Você sofrerá após a morte e na nova vida.

— Isso não cabe a você julgar, cabe?

Ele riu.

— Agora, aqui, cabe.

Ele fez o que eu esperava: pôs a mão em uma tela, a qual se abriu como plasma, e entrou lá. Depois de alguns segundos, eu mudei de posição. Eu ainda estava com ele, mas em um cenário diferente.

— Hellen, o que você está fazendo? — gaguejou meu pai.

Ele tinha se levantado do sofá com um pulo e agora andava lentamente com as costas em direção à parede, apontando as mãos para mim em um gesto acolhedor. Tudo isso enquanto eu apontava uma faca para ele.

— O que deu em você? Largue isso. Por favor! — ele pedia, e eu não respondia.

Finalmente, ele chegou à parede, e eu encostei a ponta da faca no peito dele, fazendo um pequeno furo por onde uma gota de sangue escorreu.

— Para que é isso? Eu não fiz nada. Você sabe que a sua mãe não é culpa minha! Eu sofro também.

— Isso não é a respeito da minha mãe.

Ele tentou pegar meu braço e me jogar para longe, mas a faca permaneceu firme, rasgando o seu peito. Ele gritou de dor e sua voz passou para um tom desesperado, de alguém que estava prestes a morrer e sabia disso.

— Por favor, Hellen, não faça isso!

— Eu também pedi por favor, pai, quando você me humilhou na frente de todas aquelas pessoas. Eu implorei que você parasse! Já basta ter fama de estranha em todos os lugares, e você ainda tinha que fazer aquilo? Nojento. E… — funguei, hesitando em dizer o que eu precisava dizer. — Você acha que eu não lembro daquele dia? Quando você entrou no meu quarto e… abusou de mim? Você acha isso perdoável? Você não merece nem ser chamado de pai!

Ele começou a suar.

— Vamos esquecer isso, querida.

Arrastei a faca para cima, abrindo ainda mais o rasgo que já estava feito. Ele gritou novamente.

— Não ouse me chamar de querida. Isso acaba aqui.

Por fim, eu retirei a faca e a estaquei no coração dele com um único golpe firme e certeiro. Sangue jorrou pela abertura, e meu pai caiu no chão, morto. Eu me ajoelhei e comecei a chorar. Não de arrependimento, mas pelo pânico de ter tirado uma vida humana.

— Isso é tão excitante!

Ao ver minha cara, a felicidade dele se foi. Eu permaneci impassível. Porém, ele sorriu.

— Durona, não é? Isso só deixa as coisas mais divertidas. Que tal outra? — ele andou pelas telas como se estivesse escolhendo um prato no menu de um restaurante. — Essa aqui é fantástica.

Estávamos mais tarde no mesmo dia, no metrô da cidade. Eu já estava com as malas prontas depois de ter feito o que fiz. Eu ia fugir. Quando encontrassem o corpo do meu pai, eu já estaria no Acampamento, longe da polícia e de qualquer julgamento. Lá, ninguém me conheceria, e eu poderia começar uma nova vida.

Quando o trem chegou, a maioria das pessoas que estava dentro saíram, já que eu estava em uma das principais estações. Isso deixou um monte de espaço livre. Ouvi o apito sinalizando que as portas iriam ser fechadas. Depois, o trem começou a se movimentar.

— É o seguinte — depois da estação sumir de vista, cinco caras com capuz tiraram armas dos bolsos e apontaram para cinco pessoas. Eu fui uma delas. Eu já estava abalada com o que tinha acontecido mais cedo, e esse tipo diferente de medo acabou comigo. Eu estava sentindo o que meu pai sentiu. — Vocês vão tirar tudo o que têm de valor, colocar naquela mochila — ele apontou para uma mochila no chão —, e vão fazer isso rápido, antes de chegarmos à próxima estação. Não preciso dizer o que acontece caso alguém tente algo idiota, não é?

Eu congelei. Estava com um pouco de dinheiro na bolsa, mas era para a viagem. Se eu entregasse, ficaria sem nada, presa na cidade. E, eventualmente, a polícia me acharia. Seria o meu fim. A voz robótica anunciou que estávamos perto da próxima estação. Um assaltante jogou a refém que ele prendia no chão.

— Rápido! Não estamos de brincadeira! — todo mundo se apressou em tirar relógios, celulares e outra coisas de valor para botar na mochila, menos eu, que relutava em entregar minha única saída desse inferno.

Uma refém tentou algo. Ela estava bem perto do alarme, e seus movimentos foram rápidos. Antes que o assaltante pudesse reagir, ela quebrou o vidro e apertou o botão. O choque nos cinco caras foi imediato. Um segundo depois, o que a mantinha refém revidou. Ele apertou o gatilho. A bala atravessou a cabeça da mulher. O sangue, junto com a massa cerebral, encheu a janela e o chão do vagão. As pessoas gritaram, e eu entrei em estado de choque. Nesse momento, o trem parou. Um pelotão de policiais estava parado, bloqueando as saídas. Assim que as portas do trem se abriram, todos entraram, cercando os assaltantes.

Eu saí escondida, com o sangue da mulher revirando meu estômago. Corri para a lixeira mais próxima e vomitei.

— O que é isso? — ele se aproximou de mim, confuso. Pelo visto, suas expectativas não tinham sido cumpridas mais uma vez. — Seu ritmo cardíaco nem aumentou! Mas o que…

— O que foi, Conde? Suas técnicas não estão dando certo? Deve haver um motivo para isso.

— Não é possível. Essas lembranças assombrariam a qualquer um. Você matou o seu pai! Você esteve com uma arma na sua cabeça e viu os miolos de uma mulher serem estourados na sua frente, e você nem treme sobre isso! Você é um monstro.

Pus a mão no peito, fingindo ofensa.

— Não, querido, você que é burro.

Ele olhou para mim, me analizando.

— Não…

— Sim. Memórias falsas, é claro.

— Como você conseguiu?

Balancei a cabeça.

— Acho que isso não cabe a você.

Ele se ajoelhou à minha frente. Quando falou, não foi a voz dele, mas a de Atena, minha mãe.

— Eu lhe parabenizo, Hellen Oak. Você enganou Teon, Conde do passado. Como recompensa, você receberá a primeira caixa de Cyn e a localização da segunda caixa.

Quando terminou, o Conde virou pó, e o corredor começou a desmoronar. Um pedaço do teto caiu na minha direção, mas também virou poeira antes de bater. Todas as telas sumiram, e uma porta preta apareceu. Era outro corredor, mas sem telas. Enquanto eu passava por ele, pude ouvir a conversa do Conde com Dylan. Ao final do corredor, outra porte me esperava. Do outro lado, o Conde estava lá, sentado ao lado de Dylan.

Ψ

— Não, Teon. Você se foi.

E, novamente, ele virou pó. O corredor em que nós estávamos também desmoronou. Dylan me abraçou, grato. Quando tudo ficou preto, ainda estávamos abraçados.

— Obrigado — ele disse. Sua voz ecoou no vazio, o que não fazia sentido algum.

— Disponha — eu respondi.

Depois de um tempo flutuando no vácuo, acordamos. Eu estava com dor de cabeça, mas consegui ver Lucas e Anne em um canto da sala, tremendo e com as pupilas dilatadas. Eles tinham sido enganados por Teon.

Dylan também tinha acordado, e estava com a mão na cabeça, provavelmente com as mesmas dores.

Na mesa onde o Conde estava, a caixa preta jazia. Quando eu a peguei, Anne soltou um grito, e Lucas grunhiu.

— Largue isso! — eles gritaram, em uníssono. — Isso é do demônio!

Olhei para Dylan. Nós gargalhamos.

Ψ