Aquele Que Venceu a Morte
34 Explosão

Televisores. Televisores por todos os lugares. No teto, no chão, nas paredes. Cada tela em um canal diferente, em línguas diferentes, com repórteres falando ao mesmo tempo as notícias de cada canto do mundo, todos os jogos de futebol acontecendo no momento, reality shows, programas educativos, desenhos, documentários, e tudo mais que você possa imaginar.
Nós fomos para uma sala assim. A única coisa no ambiente senão as televisões era uma cadeira, na qual estava sentado um velho barbudo. Ele estava de olhos fechados, e não parecia ter notado a nossa presença. Entre seus cabelos brancos, fios se estendiam até o chão, unindo-se em um adaptador que os conectava à todas as telas. O cara estava assistindo tudo de uma vez, direto no cérebro. Não me surpreendi, coisas estranhas assim para mim eram normais agora.
O segundo Conde, provavelmente. Se estávamos perante ele, então tínhamos concluído a tarefa.
Eu dei um passo à frente, e todas as telas se apagaram simultaneamente. Voltei, assustado.
Os olhos dele se abriram, revelando um globo ocular completamente branco, sem veias, pupila ou córnea. Apenas o branco.
— Não há necessidade de espanto, semideus. De fato, há necessidade de parabenização. Vocês foram os primeiros a passar pelo segundo desafio, e, consequentemente, os primeiros a merecerem o segundo pedaço do berrante de Cyn, embora não os primeiros a tentarem. Mas, antes da entrega, quero agradecê-los pela maravilhosa aventura que me propiciaram.
— Do que diabos você está falando? Maravilhosa? A Hellen morreu! Por sua causa. Seu… — Anne avançou em direção ao Conde, mas eu a segurei pelo braço.
— Já passou, Anne. Ele apenas fez o trabalho dele. Ela sabia dos riscos.
— Obrigado, Dylan — o Conde disse, cordialmente.
Anne puxou o braço com força e depois cruzou com o outro, irritada.
— É só isso que você vai dizer pela memória dela?
— Quem é você? — eu perguntei, ignorando-a.
— Ah, mas é claro. Onde estão meu modos? Rabaddon, segundo protetor do berrante de Cyn, Conde do presente. Certamente vocês sabem que Teon é, ou era, de qualquer jeito, Conde do passado. Como já disse, eu me responsabilizo pelo presente. Creio eu que não é difícil para ninguém adivinhar qual será o próximo desafio de vocês.
— Futuro — nós três falamos ao mesmo tempo. O Conde assentiu.
— Fomos avisados que a segunda prova seria bem mais difícil que a primeira. Sem ofensas, mas, tirando a Hellen e tal, eu não vi nenhuma dificuldade — Anne comentou.
Rabaddon não expôs sinal de surpresa, ofensa ou vergonha. Apenas sorriu. Um sorriso fino e curto, mas perceptível.
— Dificuldade não se trata de sangue, dor ou enigmas, cara Anne. Dificuldade é a intensidade com que a verdade te afeta. Uma simples prova de colégio, por exemplo. Se você não tiver estudado, a ignorância será a verdade para você. E a ignorância te afetará na nota. A minha prova pode ter parecido boba para vocês, mas ela demonstrou uma verdade cuja intensidade só será revelada com o tempo. O presente, o agora, a hora exata; chame do que quiser. O que está acontecendo nesse exato momento é a verdade, meus queridos. A pergunta real é: com quanta intensidade a verdade atingirá todos vocês, quando for revelada?
Com essas palavras, o Conde explodiu. Literalmente explodiu. Mas não voaram pedaços de órgãos internos e nem espirrou sangue para todo lado. Foi uma explosão mecânica, como se ele fosse feito de metal e fiação elétrica. Como se ele fosse uma máquina.
Ninguém falou nada por algum tempo. Em algum lugar à nossa esquerda, uma televisão explodiu. Outra na direita, uma do outro lado da sala, outra perto dos nossos pés.
— Para a cadeira — Lucas disse. — AGORA!
Sem perder tempo, eu segurei o braço de Anne e corremos juntos em direção à cadeira onde o Conde estava sentado. Cada aparelho em que pisávamos explodia um segundo depois, espalhando vidro e fogo para todos os lados. Senti vários cacos perfurarem minha pele pelo caminho. Ao chegar perto o suficiente, eu me joguei na cadeira, com Anne caindo em cima de mim logo em seguida. Alguns instantes depois, Lucas também veio com tudo em cima de nós. Eu gemi com a dor do peso dos dois me esmagando.
Ouvi alguns faiscados, e eu soube que era o adaptador queimando também. Isso só podia significar uma coisa.
— Protejam as cabeças! — eu gritei, e tudo explodiu de uma só vez.
Mesmo estando o mais abaixo possível, eu ainda pude sentir o calor do fogo que saiu das televisões no teto. Eu sabia que estava queimado em alguns lugares. E isso sem contar a inúmera quantidade de cacos de vidro que tinham sido liberados. Era impossível que Lucas tivesse sobrevivido a isso. Mas, contra todas as minhas teorias, lá estava ele, em pé, tirando as cinzas da roupa e cacos de vidro da pele, com algumas queimaduras de primeiro grau.
Eu ajudei Anne a se levantar.
— Você está bem?
— Olha bem pra minha cara… de quem precisa… de ajuda — ela me empurrou, mas, assim que eu a soltei, ela perdeu o equilíbrio e quase caiu no chão.
Depois de a segurar para que não caísse, eu a fiz sentar novamente na cadeira.
— Toque em mim de novo… — ela disse, entre suspiros. — E eu arranco sua mão também.
Lucas levantou as sobrancelhas, quase rindo.
— De nada, pois é — eu disse. — Temos que sair daqui. Arranjar um pouco de ambrosia e néctar. Avisar para o Acampamento sobre… a Hellen.
Uma voz surgiu do nada. Nós três viramos de repente para ver quem era, mas ela não parecia ter dono. Era apenas uma voz.
— Ah, não se preocupem com isso. Vocês vão ter tempo o suficiente para suas tarefinhas no futuro, ou talvez não. Quem sabe? Eu sei. Claro que sei. Eu sei de tudo. Mas não sou o diabo.
O corpo dono da voz apareceu. Ele era velho, mas, ao mesmo tempo, novo. Eu não sei muito bem como descrevê-lo, porque vocês tinham que estar lá para verem por si mesmos. Ele parecia uma divindade com poderes infinitos. Parecia estar vivendo o presente como todos, e, ao mesmo tempo, vivendo o futuro.
Não, ele não parecia estar vivendo o futuro. Ele era o futuro.
— Futuro. Palavra engraçada, não? Palavra poderosa também. Vocês não sabem o quanto esperei por esse dia, embora sabendo exatamente quando ele ia ser! Os primeiros a chegarem à fase final do complexo de Cyn! Saudações, caros amigos. Eu sou Nat, Conde do futuro. E o 3° desafio começa, como diria Rabaddon…
Ele sorriu. Um sorriso insano. Um sorriso de psicopata.
— Agora.
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