Notas iniciais
Ok, é meio complicado, mas dá pra entender se ler com atenção.

Depois da entrada triunfante, ele apenas ficou em pé, analisando cada um de nós, como se soubesse exatamente o que iríamos fazer um segundo depois, e no segundo depois desse, e no depois deste.

— Vou tornar isso simples para vocês. Será dividido em alguns passos. Basicamente, eu vou…

— Você vê o futuro, não é? — eu o interrompi. O sorriso dele transformou-se em algo amargo, duro, como se o maior desejo dele agora fosse me matar. Mas eu sabia que ele não tinha permissão para fazer isso. Ele tinha que ao menos nos deixar tentar.

Logo, sua expressão dura voltou ao que era antes, uma alegria psicopata.

— Se eu vejo o futuro? Pobre garoto. Eu sou o futuro. Teon, o antiquado, vivia no passado. Ele não tinha mais planos para a vida, só ficava lá, esperando algum imbecil tomar o pedaço dele. Rabaddon, o idiota, preferiu morrer a deixar sua filosofia. Ele pensava que era o dono da verdade só porque assistia a todos os canais do mundo ao mesmo tempo. Bleh.

Ele se aproximou de mim, quase encostando o nariz no meu. Assim que eu pensei em me mover, fios soltos das televisões torradas prenderam meus pés e mãos.

— Não adianta, babaca. Eu posso prever seus movimentos. Sim, eu vejo o futuro, e estou vendo, nesse exato momento, o pedaço de vidro que sua amiga inútil está segurando.

Outros fios prenderam Anne, fazendo ela largar o caco que segurava e enrolando seu pescoço, tirando o ar dos pulmões dela.

— Deixe-a em paz. — Lucas falou, firme. Era a primeira vez que ele falava desde que chegamos aqui.

Nat olhou para ele com divertimento. Fez os fios soltarem o pescoço de Anne, que respirou profundamente por um bom tempo.

— Você, semideus. Espere, será que ainda posso chamá-lo de semideus? Por enquanto, acho que sim. Mas o monstro que você se tornará…

— Ei! Se você pode ver o futuro, com certeza está vendo Atena chutando sua bunda enquanto a gente completa o berrante — eu chamei a atenção do Conde novamente.

— Não seja idiota. Eu vi você morrendo de mil maneiras diferentes. E acredite em mim, nenhuma das mil demora a acontecer. Mas se acha que eu vou servir de oráculo particular, por favor, se mate. Vou deixar você viver sua vidinha esperando que o próximo dia seja melhor que o anterior. Enfim… Tentem algum movimento brusco, e não vou ter piedade.

Os cabos que nos seguravam afrouxaram, caindo no chão. Eu esfreguei a parte do meu pulso onde a circulação havia parado, e a pele adotado uma coloração arroxeada.

— Fale de uma vez, o que teremos que fazer aqui?

— Regra número um: só eu falo. Entendeu?

Abri a boca para discutir, mas Anne a tapou com a palma da única mão que tinha, aproximando da boca o toco do outro braço, sinalizando para eu me calar de um jeito sinistro.

— Agradeço por ter me poupado o trabalho.

Nat acenou com a mão, e uma mesa surgiu atrás dele, com duas caixas pretas em cima. Eram os pedaços restantes do berrante de Cyn.

— Como eu disse, a tarefa é bem simples. Vocês terão que pegar as caixas com suas próprias mãos. Podem vir pegá-las.

Ficamos olhando para o Conde por alguns segundos. Ele levantou os ombros, indicando dúvida.

— Vocês não querem as caixas? Pensei que tinham vindo esse caminho todo para isso. Peguem-nas. São suas.

Anne soltou minha boca e avançou um passo. Nat continuou parado. Ela avançou mais um, e ele continuou congelado. Ela correu em direção à mesa, e ele a empurrou, fazendo ela cair no chão, soltando um rugido de dor.

— Ah, claro. Como eu esqueci? Terão que passar por mim primeiro.

Ele sorriu. Um sorriso largo e divertido. Divertido para ele, claro. Para nós não.

Ajudei Anne a se levantar, e nós dois corremos ao mesmo tempo em direção à mesa. Nat dividiu-se em duas imagens, uma me empurrou, e outra empurrou Anne novamente. A imagem do Conde no presente a tinha interceptado, e ele tinha ido ao meu futuro para me parar, fazendo parecer que seu corpo tinha sido divido em dois.

Lucas se juntou a nós. Avançamos novamente, e agora havia três Nats. Tínhamos aprendido a lição. Não deixamos que ele(s) nos empurrasse(m), e permanecemos firmes. Depois, começamos a lutar com os “clones”. Mas era como tentar pegar fumaça. Ele podia prever cada um dos meus movimentos. Tentei dar um gancho de esquerda, mas a mão dele parou meu punho fechado. Tentei chutá-lo, mas ele levantou a perna que seria atingida, fechando-a depois que a minha tinha passado, prendendo meu pé entre as pernas dele, me derrubando logo depois.

Como ganhar de um inimigo que sabe o que você vai fazer no segundo seguinte?

Eu recuei, suando e respirando profundamente. Anne fez o mesmo, mas Lucas não. Ele continuou lutando.

Os três Nats falaram ao mesmo tempo, criando um efeito de uníssono.

— Vocês vão desistir assim tão fácil? Então nem precisavam ter saído das suas casinhas seguras!

O meu Nat e o de Anne avançaram, agindo ofensivamente pela primeira vez. Eles pularam, giraram no ar e chutaram nossas caras. Caímos instantaneamente, sem forças para levantar novamente. Depois, eles sumiram, e só restou o de Lucas.

— Quando tempo para você desistir? — falou o Conde. — Não tenha pressa, entretudo. Tenho toda a eternidade para lutar com você. Mas você não tem. Ou será que tem? Ops, falei demais.

— Você pensa que pode me controlar? Acha que pode me prever? Você não sabe nada sobre mim.

Nat tirou o sorriso do rosto. A luta ficou mais intensa, porque agora ele começou a revidar.

— Você se acha o espertinho, não é? Acha que pode me vencer? Eu sei exatamente o que você vai fazer! Eu sei cada passo que você vai dar, cada situação em que você vai chorar, eu sei quando você vai morrer. E sim, você vai morrer.

— É mesmo? — Lucas sorriu. Era a primeira vez que eu via ele fazer isso em alguns dias. Mas não era um sorriso normal. Era um sorriso psicopata. O sorriso de Nat. — E quem é aquele ali?

Eu e Anne olhamos para a mesa, e demos um passo atrás de tanta surpresa. Lucas estava lá, com as duas caixas na mão e o mesmo sorriso no rosto. Sim, outro Lucas.

O Lucas que estava lutando com Nat sumiu. O Conde caiu no chão, com a boca aberta e os lábios tremendo.

— I-impossível… — ele gaguejou.

— Acha que você sabe de tudo? Então você não sabe de nada. Eu sou o Conde do passado, do presente, e do futuro juntos. Você não é ninguém. Eu sei de tudo, e, ao contrário de você, eu sou o diabo. O seu diabo. E estou oficialmente te mandando para o inferno.

Lucas abriu as caixas, e uma imagem de Atena apareceu instantaneamente. Ela tocou Nat com um cajado dourado, e este se desfez em cinzas, ainda com a cara de puro horror estampada na cara. Isso me fez lembrar da Mirina, mas eu não fiquei triste, porque lembrei que agora tínhamos todos os materiais necessários para realizar o ritual.

Tudo graças a Lucas. Lucas…

Eu me levantei e corri até ele, pois ele tinha perdido as forças de uma hora para a outra e estava quase caindo no chão.

— Como você fez isso? — eu perguntei.

— Eu não po…

— PELO AMOR DOS DEUSES! Não ouse dizer na minha cara mais uma vez que não pode me falar o que diabos está acontecendo. Eu aguentei até aqui, mas agora não dá mais. Eu preciso de respostas. O que foi aquilo? Como você fez aquilo? Você enganou um cara que prevê o futuro!

— Você não entende. Eu não posso dizer. Simples assim.

— Por que não?

O lugar começou a desmoronar. Eu protegi minha cabeça, mas em vão. Os pedaços metálicos que caíam não nos atingiam. Eram só hologramas agora. Logo, todas as televisões tinham sumido, e estávamos de volta ao aquário.

Mas sem Hellen.

Antes que eu pudesse retomar minha discussão com Lucas, eu ouvi um grito.

Mas não era o grito de uma pessoa normal.

Era um grito diabólico.

E familiar.

Ψ