Notas iniciais
Pela primeira vez nessa indústria vital, POV Anne. Itálico = presente, fonte normal = lembranças.

— Seu…! Quem você pensa que é? Dirija-se para fora do meu intelecto mental. Digo, dê o fora!

— Dar o fora? Que dure. Não estou aqui para te fazer mal. Só quero te mostrar algo.

— O quê?

— Seu passado.

— Pra que me mostrar algo que eu já vi, negligente? Digo, imbecil!

O Conde riu ao ver minha confusão mental. Eu não ri, e também não gostei dele. Seja o que for que ele queria fazer na minha mente, era melhor dar o fora logo.

— Ah, mas não é só isso… — ele andou de um lado para o outro do corredor azul e preto em que estávamos, que parecia não ter fim. Em cada lado das paredes, tela iguais as de TV LED mostravam cenas que já aconteceram comigo. Eu lembrei do que ele disse antes de eu desmaiar, e caiu a ficha que eu estava dentro da minha própria mente. No “corredor do passado”. — Comigo, você vai poder examinar suas ações de outro ângulo. Vai poder ver o que fez e o que não fez.

— Homem, você tem deficiência crônica na massa cerebral? Eu sei muito bem o que aconteceu e o que não aconteceu. Eu não preciso de ninguém para me mostrar isso de novo. Só nos dê a caixa e vá embora.

— Sim, a caixa. Como você deve ter deduzido, se sua capacidade mental não for tão nula quanto eu penso, eu devo protegê-la. Mas, por ordens de Atena, eu não devo ferir fisicamente. Logo, devo mexer com a mente das pessoas. Tchã-rã, esse é o meu segredo. Mas, sabe, no começo eu também achei que meu trabalho era uma besteira completa. Achei que ficaria preso aqui, à essa caixa, pela eternidade. Mas parece que eu criei um certo gosto pelo que faço, sabe? Quase como se eu me alimentasse de lembranças. Elas me dão uma sensação boa. É como dizem, cada louco com sua mania. Então eu faço meu trabalho e divirto ao mesmo tempo, não é legal?

— Tenho certeza que é. Mas para sua informação, não estamos querendo sair por aí ostentando a caixa. Viemos por uma boa razão. Dylan errou e quer consertar o erro dele. Ele quer de volta aquela que ama.

— Isso é fato. Se fosse por mim, acredite, eu me alimentaria do passado de vocês e entregaria a caixa sem mais delongas, mas eu sigo ordens explícitas, e eu devo protegê-la a qualquer custo. Há mais dois guardiões guardando as outras duas caixas. Devo dizer que eles nunca foram necessários, já que ninguém, até hoje, passou por mim. Atena sabe fazer estratégias. Não é à toa que é a deusa mais respeitada e querida pelos mortais. Eu, quando mortal, também a adorei. Ou melhor, fiz mais que isso, eu a venerei. Li cada conto da deusa, conheci cada mortal que a tinha visto pessoalmente. Eles diziam que sua beleza era tão pura e magnífica que ficaram com vontade de beijar os pés dela para sempre. Porém, Atena os ignorou completamente, vendo que o conhecimento deles eram ínfimos. Eu decidi que seria mais. Eu estudei a mente. Depois de anos de estudo árduo, eu era capaz de dizer o que a pessoa tinha vestido na noite anterior só pelo modo de olhar. Eu fui tratado como um messias pela sociedade da época, e, claro, isso chamou a atenção da deusa. Ela viu que eu era diferente dos outros, eu tinha conhecimento. Atena tornou-me Conde do Passado, guardião titular da primeira parte do Berrante de Cyn. Ganhei poderes inimagináveis, que são esses que você está presenciando agora. Eu soube tudo o que você fez nessa vida no momento em que entrou a um quilômetro daqui. Nesse exato momento, eu estou na mente dos seus amiguinhos também. Eu posso sair do meu corpo, tornar-me apenas consciência, e então vagar pelo mundo. Nessa forma, eu posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Eu posso saber o passado de cada criatura existente, e posso fazê-las correr de medo para sempre, tudo durante um piscar de olhos. Atena estava ciente disso, e me viu como o sujeito perfeito. Ao invés de vagar pela eternidade nos Campos de Asfódelos, eu fico aqui, divertindo-me e realizando o que me foi designado. Vou perguntar de novo: não é divertido?

Olhei para ele com nojo. Esse cara acha que impressiona quem com esses discursinhos ridículos?

— Tenho que certeza que é. Mas diz aí, o que acontece se alguém passar por você?

Ele sorriu e pôs a mão no queixo, como se estivesse refletindo.

— Boa pergunta. Eu acho que morreria, como todos os outros, e passaria pelo julgamento também. Certamente eu iria para os Campos de Punição.

Depois de olhar para o horizonte, imaginando a cena, ele acenou com a mão, dispensando o pensamento.

— Bah. Que tal começarmos logo? Bom, podemos continuar com isso, se você quiser. Temos toda a eternidade em um segundo.

Cruzei os braços, lançando um desafio a ele.

— Mostre-me o que tem de tão interessante nos meus eventos pretéritos — dei um tapa na minha própria boca, querendo parar de falar estranho. Já estava ficando chato. Como eu odiava aquela chave de fenda.

Ele sorriu com vontade, e saiu rodopiando pelas telas, até que parou e entrou em uma. Eu senti meu corpo derreter e tomar forma novamente em um cenário totalmente diferente. Um cenário no qual eu já tinha estado.

— Anne, você vem?

Olhei para cima. Christian me encarava com um tom de ansiedade e me oferecia a mão. Eu estava sentada, lendo o livro de matemática. Corei.

— Hã… E-eu… Não. Eu tenho que… É… Aprender isso aqui. Eu não entendo nada.

Ele puxou a cadeira e sentou-se ao meu lado.

— Eu posso explicar, se você quiser.

Minha resposta foi imediata.

— Não. Eu posso aprender sozinha.

O sorriso dele sumiu. Eu me xinguei mentalmente.

— Desculpe, Christian. É que você deve ter coisas melhores para fazer. Não precisa se preocupar comigo.

— Por que você se bota tão pra baixo? Você não é inferior a ninguém.

Ele se levantou e saiu em direção ao grupo de estudantes que esperavam por ele. Uma garota olhou para mim com nojo. Depois, pegou a mão de Christian e saiu desfilando. Fiquei com vontade de vomitar.

Christian era o galã da escola. Todas as patricinhas estavam sempre atrás dele. Claro que eu não consegui me segurar, e me apaixonei também. Mas comigo era diferente, eu não o queria só porque ele era bonito ou “gostoso”. Eu gostava das atitudes dele.

Voltamos para o corredor.

— Não me surpreende muito. A maioria dos passados é marcado por amor.

— É realmente uma lástima. Esse amor não existe. Você está pegando partes do passado que não me afetam mais. Eu já superei o Christian, e não preciso de nenhum homem na minha vida. Perdeu.

— Perdi, é? Acabei de começar. Vamos dizer que Christian foi o começo. Se você quer que eu não foque no amor, assim será. Que tal focarmos na vergonha?

Engoli em seco. Ele entrou em outra memória.

— Ei, pessoal! Olhem só, é o diário da Anne.

Fiquei vermelha imediatamente. Bryan estava com meu diário verde na mão.

— Me dê isso, é meu!

— Como assim te dar? Isso vai ser divertido.

Levantei da cadeira e dei um soco no peito dele. Ele apenas pôs a mão na frente para parar o meu ataque. Com a mesma mão, ele me empurrou para trás e eu caí no chão.

— Para com isso, não tem graça!

Ele me ignorou e com um puxão quebrou o pequeno cadeado que trancava o diário. Depois, folheou-o, procurando uma página interessante. Assim que achou, ele começou a citar.

— “Hoje o Christian foi legal comigo. Ele me chamou para ir à lanchonete com a turma dele, mas eu recusei. Ele me lançou um olhar cor de mel dócil e acolhedor, mas ser ridicularizada pelas outras garotas não valeria essa pena toda. Mas, a cada dia que passa, ele fica mais e mais bonito. É realmente uma pena que eu nunca vou ter uma chance com ele, mas não custa sonhar. Eu só queria que meu amor acabasse para eu não ter mais que sofrer por aquele garoto. Afinal, todas as meninas estão atrás deles. Algumas realmente bem bonitas e curvilíneas. Quem sou eu perto delas? A burra e desleixada Anne. Que droga de vida”.

À medida que ele lia, lágrimas rolavam pelo meu rosto, que já parecia um tomate de tão vermelho. Quando Bryan terminou, as pessoas ao redor riram às gargalhadas, apontando para mim e dizendo “Que idiota” ou “Anne burra e desleixada”. Eu me levantei, peguei minhas coisas e corri. Topei com Christian no meio do caminho, que me olhava perplexo e penoso.

Quando voltamos ao corredor, eu me afastei até a parede, com os olhos marejados.

— Já, Anne? Você não é tão durona como dizem, afinal.

— Não foi você que estava lá enquanto todos apontavam e riam de você.

— Exato. E por que você não pode ser como eu? Livre de toda a sociedade e seus padrões estúpidos e monótonos de beleza. É só correr, Anne.

— Pare. Já chega.

— Já? Não. Preciso que você me responda uma coisa. Você odeia garotos, logo, odeia o Dylan. E, em consequência, deve odiar a Louise também. Mas me diga, por que você está ajudando o Dylan?

— Não é da sua conta.

— Agora é. Você não superou o Christian, Anne? Por que está ajudando o Dylan, então? Por que não ficar no Acampamento, derrotando outros garotos na esgrima?

— Você sabe que o Lucas fez um pacto comigo. Eu não posso ir embora, senão eu morro.

— Fato. Mas você, desde o Acampamento, não demonstrou sinal algum de oposição. Você está nessa missão por nada menos que vontade própria. Por que, Anne?

— Pare. Não interessa.

Ele se aproximou de mim com um olhar doentio. Eu me apertei mais contra a parede, tentando aumentar a distância entre nós, mas eu não tinha para onde ir. Eu me senti dentro de uma caixa de vidro.

Então, o rosto dele se transformou no de Christian, e ele continuou perguntando “Por quê?”. Eu cobri o rosto com as mãos.

— Eu vou embora! Não faça mais isso. Eu vou embora, juro. Não quero a caixa. Só quero sair daqui.

Ele gargalhou.

— Então corra, Anne. CORRA!

Tudo ficou preto, e meu instintos ordenaram que meu corpo corresse. Mas não havia lugar nenhum para ir.

Eu estava correndo no infinito do meu passado.

Ψ