Logo depois de ficar inconsciente, me encontrei em um corredor completamente branco. Percebi onde estávamos em um segundo.

— Sério? — falei.

— O que exatamente?

— Na minha mente? Isso já tá virando piada. Pior tipo de clichê.

— O que você quer dizer com isso?

— Que você não é o primeiro a tentar entrar aqui — eu bati o dedo indicador no lado esquerdo da cabeça.

— Disso eu sei. Sério digo eu. Branco?

— Branco quer dizer que eu não tenho algo que você possa aproveitar?

— Praticamente isso. Nada do passado te assombra?

— Deixa eu ver… Bullying, minha mãe, Louise. Mas sinto muito, eu já superei o bullying, e não fará diferença você me mostrar cenas das duas, porque elas passam na minha cabeça cada minuto do dia.

Sentei encostado à parede. Ele ponderou por alguns segundos e sentou ao meu lado.

— Você é uma das poucas pessoas que me fizeram querer soltá-las. Entregar a caixa de boa vontade e arcar com as consequências.

Olhei para ele para ver se estava falando sério.

— Então entregue.

— Eu queria, juro, mas tenho que assumir as responsabilidades do meu trabalho. Ponha-se na minha posição. Se eu entregasse o que tenho que proteger, Atena me baniria do mundo para sempre. Mas se eu fizer meu trabalho, você não será machucado. É uma ótima barganha, para falar a verdade.

— Sem Louise, eu me sinto banido do mundo para sempre.

— Que frase de efeito! Você já pensou em ser escritor? Poderia relatar as aventuras de seus amigos e até as suas próprias. Ah! Falando em escrita, eu tenho algo para você que não envolve memórias, já que não vou conseguir fazer proveito das suas. Eu estava guardando isto para alguém inflexível, então sinta-se lisonjeado.

— E o que é?

— Uma história.

— Infantil?

— Sim. São as melhores, não acha?

— Não sei. Eu gostava de fábulas, mas agora que as fábulas são reais, acho que não faz mais tanto sentido lê-las, já que se pode vivê-las.

Ele deu umas batidinhas no meu ombro. Fez uma careta ao toque, como se fosse alérgico a mortais.

— Confie em mim. Essa história tem uma moral que reflete em tudo que você foi, é, e que um dia vai ser.

— E como você pode saber disso? Você nem me conhece.

— Ah, desculpe. Esqueci que avisar que já vi toda a sua vida passada. Então, é, acho que sou o seu melhor amigo agora.

— Eu não tenho amigos, é melhor nem tentar.

— Parece que achei a emo gótica do grupinho.

— Defina amigo.

Ele pôs a mão no queixo.

— Na minha vida mortal, eu acho que tive poucos. Se é para definir, acho que eu digo “aquele que te ajuda quando você precisa, seja esta necessidade moral ou física”.

— Que frase de efeito! Já pensou em fazer um dicionário?

Ele soltou uma risadinha.

— Eu gostei de você. Isso é bom, porque temos a eternidade aqui.

— Então podemos passar mil anos aqui e só terá passado um segundo lá no mundo real?

— “É isso aí”, como dizem hoje em dia.

— Cara, por que você nunca me apareceu quando eu estava fazendo provas? Aí sim você seria útil.

Ele riu, e depois ficamos em silêncio por um tempo. Após alguns minutos, eu quebrei o silêncio.

— Você tá tentando corromper minha mente, não é? Para eu fugir e não querer mais a caixa.

— Vulgarmente falando, sim.

— Então por que estamos agindo como amigos? Nós nem nos conhecemos.

— Acho que é porque eu te entendo. Quando eu era apenas Teon, cidadão da antiga Atenas, eu me apaixonei por uma pebleia. Nem preciso dizer que ela era linda, preciso? Todo dia, às 5 da tarde, quando eu ia à biblioteca municipal, ela estava lá. Eu ficava olhando para ela, e eventualmente ela também olhava e percebia que eu estava vidrado. Em um dia qualquer, quando ela chegou atrasada por algum motivo, todas as mesas estavam ocupadas, menos a minha, porque ninguém queria sentar com “Teon, o estranho”. Acho que ela não teve escolha. Nesse dia, eu estava lendo um livro de contos. Ela deu uma espiada e viu qual eu estava lendo. Me contou o final, a engraçadinha. Depois, ficou rindo da minha cara. Você já sabe o que aconteceu depois. Logo depois de nos casarmos, ela morreu.

— Qual era o nome dela?

— Hellen.

Olhei para ele, perplexo.

— É, eu sei. Mas relaxe, a sua não é a primeira Hellen que aparece aqui, e Atena tirou qualquer sentimento de amor que ainda restou em mim quando me deu o título de Conde. Acho que ela nunca vai entender o amor mesmo. Mas veja bem, é aí que entra a nossa história.

— Conde-a.

Ele gargalhou.

— Você é o melhor. Porque está correndo atrás de alguém que já morreu? Você pode ter qualquer uma.

— Eu só quero uma.

— Como eu disse, é aí que entra a nossa história. Deixe-me começar.

Ψ

Era uma vez um jovem mago rico, bonito e talentoso, que observou que seus amigos agiam como tolos quando se apaixonavam, se enfeitando, andando aos saltos e corridinhas, perdendo o apetite e a dignidade. O jovem mago resolveu jamais se deixar dominar por tal fraqueza, e recorreu às artes das trevas para garantir a sua imunidade.

Sem saber do seu segredo, a família do mago achava graça ao vê-lo tão distante e frio.

“Tudo mudará”, vaticinavam eles, “ quando um donzela atrair seu interesse!”

O jovem mago, porem, permanecia impassível. Embora muitas donzelas se sentissem intrigada por seu ar altivo e recorressem às artes mais sutis para agradá-lo, nenhuma conseguia tocar seu coração. Ele se vangloriava de sua indiferença e da sagacidade que a produzira.

O frescor da juventude foi dissipando-se e os jovens de mesma idade e posição que o mago começaram a casar e ter filhos.

“O coração deles deve ser apenas uma casca”, desdenhava ele mentalmente, observando o ridículo comportamento dos jovens pais ou seu redor, “ ressecada pelas exigências desses pirralhos chorões!”.

E mais uma vez ele se felicitou pela sabedoria da opção que fizera no primeiro momento. No devido tempo, os pais do mago, já idosos, faleceram. O filho não lamentou a morte deles; ao contrário, considerou-se abençoado por terem desaparecido. Agora ele reinava sozinho em seu castelo. Depois de transferir o seu maior tesouro para a masmorra mais profunda, ele se entregou a uma vida desregrada e farta, na qual seu conforto era o único objetivo dos inúmeros criados.

O mago estava convencido de que devia ser alvo de imensa inveja de todos que contemplavam sua solidão esplêndida e despreocupada. Sentiu, portanto, raiva e desgosto quando, um dia, ouviu dois lacaios discutindo a sua pessoa.

O primeiro criado manifestou pena do mago que, com tanto poder e riqueza, continuava sem alguém que o amasse. Seu colega, entretanto, desdenhou, perguntando por que um homem com tanto ouro e dono de tão esplêndido castelo não fora capaz de atrair uma esposa. Tal conversa desferiu um terrível golpe no orgulho do mago que os ouvia.

Ele decidiu imediatamente escolher uma esposa, e uma que fosse superior a todas as existentes. Possuiria uma beleza assombrosa e provocaria inveja e desejo em um a linhagem mágica que seus filhos herdasse excepcionais dons de magia; e seria dona de uma fortuna no mínimo igual a dele, para garantir a existência, apesar do acréscimo de pessoas e despesas.

Encontrar tal mulher talvez levasse cinquenta anos, mas aconteceu que, no dia seguinte a sua decisão, chegou à vizinhança, em visita a parentes, uma donzela que correspondia a todos os seus desejos.

Era uma bruxa de prodigioso talento e dona de grande riqueza. Sua beleza era tanta que mexia com o coração do todos os homens que a contemplavam, isto é, todos, exceto um. O coração do mago não sentiu absolutamente nada. Contudo, a moça era o prêmio que ele buscava, e, assim sendo, começou a cortejá-la.

Todos que notaram a mudança no comportamento do mago, ficaram surpresos e disseram à donzela que ela tivera êxito onde uma centena de outras havia fracassado.

A jovem, por sua vez, sentiu ao mesmo tempo fascínio e repulsa pelas atenções do mago. Ela pressentiu a frieza que havia sob o calor de suas lisonjas, pois jamais conhecera um homem tão estranho e distante. Seus parentes, contudo, consideraram essa união extremamente desejável e, muito interessados em promovê-la, aceitaram o convite do mago para um grande banquete em homenagem à donzela.

A mesa, carregada de peças de ouro e prata, continha os mais finos vinhos e as comidas mais suntuosas. A donzela sentou-se em um trono ao lado do mago, que lhe falava suavemente, empregando palavras de carinhos que roubara dos poetas, sem a mínima ideia do seu real significado. A donzela ouviu, intrigada, e respondeu: “Você fala bonito, mago. Eu ficaria encantada com suas atenções, se ao menos acreditasse que você tem coração!”.

O mago sorriu e lhe respondeu que, quanto a isso, ela não precisava temer. Pediu-lhe que o acompanhasse e, conduzindo-a para fora do salão, desceu à masmorra onde guardava o seu maior tesouro.

Ali, em uma caixa de cristal encantada, encontrava-se o coração pulsante do mago.

Há muito tempo desligado dos olhos, ouvidos e dedos, o coração jamais se deixara cativar pela beleza, ou por uma voz musical, ou pelo tato de uma pele sedosa. A donzela ficou aterrorizada ao vê-lo, pois o coração encolhera e se cobrira de longos pelos negros.

“Ah, o que você fez?”, lamentou ela. “Reponha o coração no lugar a que permanece, eu lhe imploro!”.

Ao perceber que isto era necessário para agradá-la, o mago apanhou a varinha, destrancou a caixa de cristal, abriu o próprio peito e repôs o coração peludo na cavidade vazia que outrora ocupara.

“Agora você está curado e conhecerá o verdadeiro amor!”, exclamou a donzela, abraçando-o. O toque dos macios braços alvos da donzela, o som de sua respiração no ouvido dele, o aroma dos seus cabelos dourados; tudo isso penetrou como uma lança o seu coração recém despertado. Mas o órgão se corrompera durante o longo exílio, cego e selvagem na escuridão a que fora condenado, seu apetite tinha se tornado vorazes e perversos.

Os convidados ao banquete notaram a ausência do anfitrião e da donzela. A princípio despreocupados, começaram, porém, a se sentir ansiosos à medida que o tempo passava e, por fim, decidiram revistar o castelo.

Acabaram encontrando a masmorra, onde uma cena aterrorizante os aguardava.

A donzela jazia morta no chão, com o peito aberto, e ao seu lado ajoelhava-se o mago, enlouquecido, segurando em uma das mãos ensanguentadas um grande e reluzente coração, que ele e lambia e acariciava, jurando trocá-lo pelo seu.

Na outra mão, ele empunhava a varinha, tentando induzir o coração murcho e peludo a sair do próprio peito. O coração, porém, era mais forte do que ele e se recusou a renunciar ao controle dos seus sentidos e retornar à urna em que estivera por tanto tempo.

Diante do olhar aterrorizado dos convidados, o mago atirou para um lado a varinha e agarrou uma adaga de prata. Jurando jamais ser dominado pelo próprio coração, arrancou-o do peito. Por um momento, o mago permaneceu de joelhos, triunfante, segurando um coração em cada mão; em seguida caiu atravessado sobre o corpo da donzela, e morreu.

Ψ

— Que barbaridade — exclamei, depois de escutar toda a história atenciosamente.

— E não é? Mas veja bem, a história tem uma moral. Digo, tem mais de uma, mas a que nos interessa é só uma.

— E qual seria?

Ele apoiou os braços nos joelhos e olhou para o chão.

— Sem amor, somos apenas animais. Se você não ama alguém, você apenas existe, sobrevive. Não vive.

— Mas eu amo alguém.

— E esse alguém está morto.

— Onde você quer chegar?

— Tenho uma pergunta.

Suspirei.

— Faça.

Ele me lançou um olhar penetrante.

— Se todos os que você ama estão mortos, então o que isso faz de você?

Algo furou meu peito. Refleti sobre a pergunta dele, tentando achar uma resposta. Eu acordava todo dia de manhã e fazia a mesma pergunta. Quem sou eu? Por que eu me levantei hoje? O que eu vou fazer? A verdade é que não tem resposta.

— Eu não sei.

— Então, Dylan, aqui não é o seu lugar. Se você conseguir pegar a caixa, os outros desafios serão muito piores, porque você não vai ter pelo que lutar. Você não terá motivos pelos quais continuar vivo, e desistirá fácil. Então se entregue agora, e vá embora. Você não sofrerá, e ficará tudo bem.

Ele estava certo, não tinha saída. Eu ia desistir, então Hellen surgiu do nada na minha frente. O Conde se levantou com um pulo.

— Impossível! — exclamou.

— Não, Dylan! Você tem um motivo para viver. Quando a Louise disse que estava te esperando, ela não quis dizer na outra vida. Ela está esperando você salvá-la. Não desista, você tem que resgatá-la!

— Cale a boca! Você não vê? É impossível tirá-la do mundo inferior. Dylan nem é filho de Hades. Como vocês pretendem entrar lá? E como vocês pretendem tirar alguém do Elísio? Ou dos Campos de Punição, se assim for? Encare os fatos, ela se foi!

Eu também me levantei, decidido. O corredor começou a desmoronar, e o Conde olhou assustado para os lados, cético.

— Não, Teon. Você se foi.

Ψ

Notas finais
Esse conto faz parte do livro Os Contos de Beedle, o Bardo. Então, direitos autorais pra J.K. Rolando