Aquele Que Veio do Mar
14 Magia
Logo da entrada, comecei a desconfiar.
Tinha um enorme portão de ferro, rodeado completamente por um muro em forma de círculo, protegido por arame farpado, que parecia bem afiado daqui de baixo. As paredes estavam desbotadas; e o portão, enferrujado. Mas a prisão era grande, e parecia só ter uma entrada e uma saída, as duas no mesmo portão. Quem quer que tivesse sido preso aqui havia cometido um crime tremendo. Do lado de fora dava para ver a sala de comando, casa de dezenas de computadores quebrados, que um dia monitoraram todas as câmeras de segurança da prisão.
A Sra. O'Leary ganiu e correu para algum canto atrás da prisão. O que tinha de errado com ela? Bem, se tinha algo de errado com alguma coisa, era com aquela prisão. Primeiramente, era muito velha para estar em uso, então o palpite de Louise era certo: abandonada. Mas veja bem, quem em sã consciência desejaria passar a noite em uma cela apertada, sem banheiro, comida ou água? Bom, eu não conheço ninguém. Mas que escolha tínhamos?
Sim, eu sei que você com certeza acha que eu sou lerdo, e eu sou mesmo, me desculpe, é natural. Cada dom com seu efeito colateral. Só que aprendi da pior maneira, então logo que cheguei na entrada, saquei minha arma. Os outros pareceram perceber o meu estado de alerta, e fizeram o mesmo.
O cadeado enorme que trancava o portão estava meio enferrujado, então foi fácil quebrá-lo. Na porta da frente, um grande cartaz desbotado e rasgado deixava ainda legível “Presídio Central de Ohio — Entrada proibida”. Arrombamos e analisamos para ver se o ambiente estava no mínimo regular.
— Acho que teríamos sido presos se tivéssemos invadido aqui uns 10 ou 20 anos atrás… — eu disse.
— Bom, quem quiser me prender venha, mas vai se arrepender.
E como iria se arrepender. Não vi nem nunca quero ver Louise realmente brava; deve ser o Lúcifer em pessoa.
Depois da porta de entrada, um corrredor, com uma escada de cada lado — uma para cima e outra para baixo —, nos dava acesso à duas portas, cada uma de cada lado também, e uma no final. Esse lugar era realmente muito grande.
— Colin — Louise apontou para a porta da direita —, Dylan — a da esquerda —, Mirina — apontou para a no fim do corredor. — Julieta, escadaria pra cima. Eu vou na de baixo — e se postou para descer.
Todos assentimos. Colin entrou na sala da direita, Mirina fez o mesmo na outra, enquanto eu ouvia os passos, indicando que Julieta e Louise estavam usando as escadas. Eu coloquei a espada na minha frente e girei a maçaneta cuidadosamente. A porta estava trancada.
— E aí? — Louise perguntou, vendo que eu tinha voltado.
— Trancada.
— Mas… por quê?
— Queria saber.
— Lá em baixo só tem celas. A Sra. O’Leary pode ficar lá, contanto que volte, uma hora dessas já deve estar morta...
Colin foi o primeiro a retornar.
— Sala de descansos dos policiais, ou sei lá quem comandava esse lugar. Tem sofás, almofadas e alguns colchões mofados. Podemos dormir lá, a não ser que alguém prefira ficar nas celas.
— Talvez o Dylan queira ir pra lá — disse Julieta, descendo as escadas. — A sala de comando principal fica lá em cima. Tem umas quinhentas portas, mas está tudo limpo, e não tem nada além de computadores quebrados, poeira e cadeiras quebradas.
— Venham ver isso aqui — Mirina chamou, de dentro da sala no final do corredor.
Nós quatro entramos na sala. Era outra sala de comando, menor. Surpreendentemente, os visores mostravam imagens em tempo real de toda a prisão. Como as câmeras ainda funcionavam? E com qual eletricidade?
— Vejam — Mirina apontou para o único quadrado preto entre todos —, essa câmera foi quebrada, ou desativada, e seguindo a sequência lógica, essa é a câmera da…
— Deixe-me adivinhar — interrompi. — É a de sala de está trancada?
— Isso.
— Temos que ver o que tem lá. Agora — Julieta falou.
Louise correu em direção ao corredor, mas a porta fechou antes mesmo que ela conseguisse chegar perto. Alguém tinha fechado a porta. Louise esmurrou-a.
Todos corremos para ajudá-la a abrir a porta, mas esta estava presa.
— Inferno! Nos deixem em paz pelo menos por um dia! — Louise gritava, enquanto chutava a porta com mais força.
As dobradiças já estavam soltando. Que força aquela menina tinha. Fiz outra promessa silenciosa: nunca brigaria fisicamente com ela.
Então a porta caiu, a cadeira que a estava prendendo se partiu, e a mulher que estava vestida com um manto preto e capuz na cabeça riu. Por que sempre riam da gente? Acho que estava com um nariz de cereja e maquiagem na cara.
— Quem é você, agora? — Mirina falou.
— Eu? — falou a mulher de capuz.
— Não — Louise começou a falar —, minha vó, sua…
— Olhe como fala comigo, sua garotinha asquerosa…
Então Louise perdeu o controle. Brandiu a lança e disparou como um raio.
Ela pulou pra cima da mulher, mas Colin a segurou bem a tempo.
— O que há com você? Me solte, eu vou matá-la! — Louise se debatia enquanto Colin fazia um esforço enorme para contê-la.
— Você não vê? Olhe o que tem na mão dela!
— É um cajado! Ela é uma bruxa! — Julieta falou.
— Ah, até que enfim! Demoraram muito tempo para entender… — ela abaixou o capuz, revelando uma pele escura e cachos longos. Seu cabelo era tão encaracolado que mais parecia que ela tinha levado um choque. Se não fosse o sorriso doentio em seus lábios e o capuz negro, ela seria bonita. — Vocês já me irritaram o bastante — ela brandiu o cajado, e todos nós começamos a flutuar, imóveis, no ar.
— O que você fez? — gritei.
— Ah, não se preocupem, não vai causar nenhum dano a vocês. Não é todo dia que eu tenho uma chance de me divertir com semideuses. Agora, olhem bem — ela mostrou os olhos de um castanho intenso, e eles brilhavam. O tempo reduziu de velocidade ao redor do meu corpo, e meus olhos pesaram. Agora eu não conseguia nem mexer minha boca. Mas eu não estava dormindo, eu estava em algum tipo de visão. Eu só conseguia ouvir a voz dela.
— Eu vou descobrir seus maiores medos.
Eu passei por um dos piores acontecimentos da minha vida. Ela entrou na minha mente, e me mostrou meus piores medos e pesadelos. Mostrou o prédio em que minha mãe trabalhava caindo com os gritos desesperados das pessoas que lá estavam. Mostrou eu me afogando, uma sensação que eu nunca provara de verdade, mas dessa vez quase tão vívida quanto seria a real sensação. O Acampamento embebido em chamas e destruição, e o corpo que Quíron, ensanguentado, suspenso por cordas. O Sr. Blake me dizendo adeus e partindo — e, na visão, eu tinha a sensação de que nunca mais iria vê-lo. E mostrou também — e eu não gostaria de admitir — Louise, só que essa não era a Louise; ela estava com os olhos diferentes, falava com uma voz estranha e tentava nos matar. Finalmente a visão acabou. Mas depois, foi só a infinidade da negritude por um bom tempo.
— Pobres semideuses…. Se os deuses soubessem as criaturas que estão esperando nas profundezas, se esconderiam embaixo de seus tronos. Mas isso ainda vai demorar muito. Agora, queridos, tenho que cuidar de vocês.
Queria poder falar. Eu gritei alto em meus pensamentos, com esperança que ela ouvisse: ninguém te perguntou, sua bruxa de merda.
Eu acordei em uma cela de metal enferrujado.
Louise estava ao meu lado, com um galo na cabeça. Presumi que pela posição que estava quando foi pular, bateu com a cabeça na grade, caindo com tudo no chão. Seria engraçado em outras circunstâncias, mas eu estava assustado demais com as visões para rir — não se deixe enganar, você pode pensar que é besteira, mas foi horrível. Imagine todos os seus medos, e você sentindo que estivesse vivendo todos eles; foi parecido com isso. Ela não desmaiou. Era dura na queda.
A bruxa estava lá, passando a mão pelas barras das celas e balançando a cabeça.
— Vocês são mesmo patéticos… acham que vão chegar onde querem se continuarem desse jeito? Não conseguem nem sair de uma cela! Ah, vai ser tão divertido...
— Quem é o líder de vocês? É o ciclope? — perguntei.
— Vocês quem?
— Vocês, os "do mal" — fiz sinal de aspas com as mãos.
— Eu não sou “do mal”, digamos apenas que estou cooperando com eles em troca de algo. Você pergunta demais. Por que não tenta sobreviver para descobrir?
Engoli em seco.
Ela jogou a cabeça pra trás e riu. Depois, subiu as escadas.
Desabei no chão da cela. Mais essa? E agora?
— E agora? — repeti a pergunta em voz alta.
— Você vai desistir? — Louise perguntou, com raiva. — Nessa altura do campeonato?
— Ei, ei, eu não disse nada disso…
— Mas pensou em dizer.
— Mas não disse.
— Se você quer desistir, problema seu, eu te deixo aqui mesmo para servir de escravo daquela vadia.
— Mas eu não disse que queria desistir.
— Mas eu sei que você quer desistir.
— Aaaaah, você é muito cabeça dura.
Ela apontou para o galo na cabeça. Eu ri, um riso bem genuíno para aquela situação.
— Do que está rindo, idiota? — ela deu um soco na minha testa, e eu fiquei tonto. Minha visão ficou turva, como se eu tivesse ficado míope de uma hora para outra. Agora eu também tinha um galo.
— Ei, vocês dois! Parem com isso — Julieta disse, da cela dela.
— Não vêem que estamos em uma situação difícil? Pelo amor dos deuses. Estou tentando pensar — Colin estava na mesma cela que Julieta. Os dois conversavam sobre algo, e pareciam sérios.
— Falou o cara que sabe de tudo.
— Então qual o seu plano?
Isso me calou.
— Ei, Mirina, o qu…
Mirina ainda estava desacordada na cela dela, nem parecia respirar direito.
Mas ela não estava dormindo.
Fale com o autor