Aquele Que Veio do Mar
15 Urso
Louise gostava muito de bater nas coisas.
Ela batia incessantemente nas barras de ferro que nos separavam da liberdade.
— Pare, Louise. Vai quebrar os dedos assim — Colin falava, tentando convencê-la a parar.
— Louise… já deu, você não vai conseguir — Julieta tentava acalmar Louise também.
— Calem a boca. Eu já estou quase partindo essa…
Mas o ferro não tinha se mexido um só centímetro.
— Louise! — gritei. — Pare. Agora.
Pensei que ela ia me ignorar e continuar, mas, surpreendentemente, ela parou. Virou para a parede e ficou lá, de braços cruzados. Que menina marrenta.
Depois de uns 10 minutos olhando para o além, a bruxa decidiu voltar de novo.
— Sabe, queridos? Está muito tedioso lá em cima, então, bem, vou entreter vocês um pouco.
— Mais essa… — Louise falou, indiferente.
— Louise, você acha que conhece a dor, o sofrimento. Mas não conhece. Eu vou dizer a vocês o que é sofrimento. Ou melhor, eu vou… mostrar.
Então seus olhos ficaram dourados e muito brilhantes. Todo o recinto iluminou-se em luz dourada. Eu pensei que ela ia me paralisar de novo, me mostrar meus medos. Eu não aguentaria mais outra dose daquela, eu iria ficar louco.
Todo o corredor de celas ficou branco, e depois tudo o que eu conseguia ver era o dourado dos olhos dela. Ninguém falava uma palavra sequer. Percebi que, mesmo se eu tentasse, não conseguiria falar. Então tudo virou um túnel, como se a minha visão estivesse sendo sugada por um aspirador de pó, e a imagem ficou preta. É a melhor descrição que eu posso fazer; foi tudo muito rápido e intenso.
Eu estava em um beco escuro, de frente para uma rua agitada. Era como se eu realmente estivesse lá. Mas ninguém me escutava ou falava comigo, e as pessoas atravessavam meu corpo. Eu reconheci a rua, era a rua do café onde eu e minha mãe íamos às vezes, quando ela chegava tão tarde e tão cansada do trabalho. Mas parecia que estávamos nos anos 1910: os carros eram antigos e as pessoas usavam roupas fora de moda.
Um homem com uns trinta anos e uma menina com aparentes nove ou dez anos andavam apressadamente em direção ao final do beco sem saída.
— Papai, por que estamos fazendo isso? Hein, papai? — a menina parecia decididamente assustada, chorava e berrava.
Ela balançava o braço do pai em súplica por uma resposta, mas ele continuou rígido e sem expressão.
— Pare com isso, Luna.
— Papai, o que está acontecendo, me diga!?
— Olhe — ele se abaixou, e seu rosto ficou à altura do rosto da garotinha —, eu não queria estar fazendo isso. Mas não há mais volta. Ou fugimos, ou eles nos acham. Desculpe.
— Eles quem, papai?
— Eu já lhe falei, os monstros. Eles nos acharam, e descobriram que você é uma semideusa. Eu não devia ter contado… seria mais seguro pra você.
— Então não são só histórias, papai?
— Não. E se ficarmos aqui, nós vamos virar história.
O pai de Luna tinha a pele morena, igual a dela, e era careca, parecia um daqueles atores de filmes de ação, só que preocupados com uma garotinha ao invés de com encher o inimigo de balas e facadas. Tinha olheiras e rugas ao redor dos olhos, como se vivesse acordado, sem tempo para fazer nada. Ele provavelmente estava dedicando todo o seu tempo a tentar protegê-la dos monstros.
Eles foram até o final do beco, e pararam em frente à uma casa que, de tão antiga, parecia abandonada. A pintura estava descascando; as janelas, quebradas, estavam protegidas por madeiras; e a porta parecia prestes a cair a qualquer momento. O homem tirou um molho de chaves do bolso e imediatamente achou a chave que combinava com a fechadura — uma velha e enferrujada. Mas não precisou dela, assim que tocou na fechadura, a porta caiu. Eu os segui até dentro da casa. Por dentro, era mais velha ainda. O forro estava caindo aos pedaços. Os móveis, destruídos por cupins. Quem quereria viver em um lugar daqueles? Parecia ter sido construído no século XIX.
A casa não tinha eletricidade, então, naturalmente, tudo estava escuro. A pouca luz provida do luar e da lâmpada da casa vizinha permitia discernir os móveis e os rostos.
— Eu estou com medo, papai.
— Eu sei, filha. Eu também… — ele suspirou. — Eu também.
Então alguém começou a surrar a parede. Alguém não, alguma coisa.
O pai de Luna a abraçou. A garota estava chorando, com a cabeça encostada no peito do pai.
Então a coisa conseguiu fazer um buraco de dois metros na parede. Eu estava esperando algum monstro horrendo e escamoso que só sabia gritar e correr atrás de sangue, mas era só uma mulher ruiva de pele tão branca quanto leite. Ela tinha uma voz doce e delicada, porém firme:
— Ora, ora, se não é um pai clarividente e uma filha meio-sangue… hoje o jantar será farto — ela deu uma risada.
O pai de Luna levantou, e seu rosto adotou uma expressão de coragem que, com a cara que ele fez quando a mulher começou a bater na porta, eu pensei que ele não tinha.
— Deixe minha filha em paz! Se quiser pegá-la… vai ter que passar por mim.
Ela riu mais alto.
— Como seja, Sr. Clarividente.
Ela avançou para cima dele, então eu percebi que a mulher não era só uma mulher: ela tinha garras e presas. Também andava de um jeito estranho, mancando, como se uma perna fosse só uma prótese.
O clarividente — que eu sabia que era um humano que podia enxergar o mundo dos deuses, devido às minhas aulas que tive durante a única semana em que estive no Acampamento — pegou uma barra de ferro que estava solta no chão da sala, e enfrentou a… como chamavam aquele monstro mesmo?
Então ela se transformou em outra coisa que não parecia tanto com uma mulher. Ela ficou com cabelos flamejantes, olhos vermelhos e uma perna de burro, e a outra uma prótese de bronze. Empousa, era assim que chamavam.
Não levou muito tempo para que ela acabasse com o pai de Luna.
Ele conseguiu se defender das primeiras investidas dela, mas ela era rápida demais.
A criatura fingiu que ia investir pela frente dele, mas assim que o homem brandiu a barra de ferro para interceptá-la, a empousa desviou e parou atrás dele. Segurou-o pelo pescoço e o levantou.
A empousa riu.
A menina chorou.
O pai, em alguns movimentos dos lábios, disse algumas palavras sem som. "Desculpe, eu te amo, Luna".
A empousa levantou as garras e passou-as em um único movimento pela garganta do homem. O sangue escorria em uma poça pelo chão da sala. Depois, ela aproximou sua boca do pescoço do homem, e começou a chupar-lhe o sangue.
— Papai! PAPAI! — berrava Luna, mas já era tarde demais.
A empousa acabou seu trabalho, e se virou para ela.
— Humm, ainda estou com um pouco de sede… Seu pai era gostoso, sabia? Mas não conseguiu me satisfazer, esse inútil — e chutou o corpo morto dele.
Então a menina parou de chorar, e começou a sentir raiva, muita raiva. Ela gritou, mas não por desespero, e sim por puro ódio. Ódio daquela mulher que acabara de matar seu pai. De algum jeito eu sentia o que aquela menininha sentia, o que era perder a pessoa que mais importava para você, que talvez seja a única que realmente importa para você. Eu não consegui me segurar. Eu chorei. Chorei por minha mãe, coisa que havia tempo eu não fazia, chorei pela menininha, que acabara de ver seu pai morrer.
Então seus olhos ficaram dourados, como quando ela me permitiu entrar nessa lembrança, e a luz branca ofuscou tudo. A empousa protegeu os olhos com o braço, mas não teve chance. Em um segundo, ela era só um monte de poeira, que, com o vento que Luna também invocava, se espalhou em milhões de grãos. Essa aí não iria voltar nem tão cedo. A luz deve ter iluminado toda a cidade, e matado todos os monstros que ali viviam, pois quando Luna voltou ao normal, desmaiou imediatamente, deixando o ursinho de pelúcia que levava consigo cair no chão.
Então a visão mudou.
A garota estava mais velha, com por volta de treze anos. Seus cabelos não haviam mudado nem um pouco, e seus olhos castanhos reluziam com a luz do sol voltada direto pra ela. Devo admitir, ela era bonita.
Ela estava correndo de algo. Olhava pra trás constantemente. E em uma dessas olhadelas, ela tropeçou em uma raiz. Quando se levantou, tentou correr, mas deu que cara com algo… algo não, alguém.
— Com licença — ela falou, e tentou desviar da mulher de cabelos negros reluzentes que estava a sua frente, mas quando percebeu que seus cabelos flutuavam, tropeçou mais uma vez, só que enquanto tentava se afastar dela.
A mulher vestia um manto bege, e um capuz cobria sua cabeça. Seus olhos eram um roxo e um preto, uma coisa que eu nunca tinha visto. Olhando para eles, parecia que você estava olhando para a galáxia. Ela não deixou Luna passar.
— Por favor! Eu estou correndo de…
E a mulher levantou a mão, e falou algumas palavras. O que quer que estivesse correndo atrás da menina soltou um grito agudo, e, quando olhei para trás, a única coisa que pude ver foi a nuvem de poeira.
— Quem… quem é você? — Luna perguntou, surpresa.
— Não consegue me reconhecer? — a mulher pareceu sarcasticamente ofendida.
— Não. Quem é você? — Luna insistiu.
— Eu sou Hécate. Deusa do Submundo e da Lua Negra. Rainha das Bruxas. Mas você pode me chamar de… mãe — Hécate deu um sorriso terno.
— M-mãe? Por que… por que agora? Por que não me ajudou antes? Por que não ficou comigo antes? Meu pai… ele…
— Sim, filha. Eu sei o que aconteceu com seu pai. Eu o amava, realmente amava. Mas eu não podia ficar com ele, e sofri quando, hum... É regra dos deuses, você sabe… e, querida, eu vim agora porque você vai ter desafios pela frente, e eu te darei isso para te ajudar no futuro.
Ela apresentou para Luna um cajado, o mesmo cajado que a bruxa usava agora. Quando ela o tocou, o dia virou noite, e raios cortaram o céu. Um deles atingiu Luna, que se contorceu de dor. Agora eu sabia o porquê de seu cabelo ser tão bagunçado.
— Filha, mágica é muito mais do que uma série de palavras e um movimento de mão — disse Hécate, como se a filha não houvesse sido atingida por uma corrente elétrica de dez mil volts segundos antes. — Mágica é uma arte. E assim como todas as outras habilidades, é muito perigosa. Como uma ferramenta, seu uso será escolhido por quem a comanda. Pode usá-la para o bem ou o mal, quem escolhe é você. Faça uma boa escolha. Não deixe ninguém interferir nas suas escolhas. E, filha — ela tocou na maçã do rosto de Luna, que olhava pra ela com uma mistura de surpresa e confusão — eu vou estar sempre te assistindo. Faça o que fizer, não esqueça da sua missão aqui.
— Eu sei qual é a minha missão. Eu vi.
— Então não deixe ninguém impedir de realizá-la.
E com essas palavras, ela se desfez em uma nuvem de fumaça roxa.
E com essas palavras, também, a visão acabou.
Eu estava de volta à prisão abandonada. Pelo que eu percebi, todos tinham entrado nas lembranças da bruxa.
— Basta. É o suficiente.
E ela começou a subir a escada.
— Luna — chamei.
Ela parou no meio da escada, virou devagar e me olhou. Seu olhar não era mais louco, ela parecia normal. Quase consegui imaginá-la com aquele ursinho.
— Sim? — sua voz estava terna, como a do pai no dia em que ela o perdeu.
— Por que você faz isso? Se já sabe o que é o sofrimento, por que não nos poupa e não nos deixa ir?
— Eu estou poupando vocês, queridos. A morte pode não ser a felicidade, mas é o fim do sofrimento. A vida não é justa pra ninguém.
— A sua missão… É trazer seu pai de volta? Eu lhe entendo, Luna, eu sei como você se sente. Não foi só você aqui que perdeu a pessoa mais importante pra você. Mas nós — fiz um círculo com o dedo — também temos nossa missão.
Ela deu de ombros.
— Então lutem por ela. E não, eu não quero trazer meu pai de volta. Ele se foi. Minha missão é outra. Uma que vocês não seriam capazes de entender agora. Uma maior que todos nós.
E voltou a subir os degraus. Mas, enquanto subia, deixou algo cair de dentro do manto, que parou bem na minha frente.
Um ursinho de pelúcia.
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