Notas iniciais
Para alegria da Maria Fernanda, e desalegria (?) da Júlia e da Marina, apresento-lhes o capítulo 18

— Ei, cara — falou Ed, enquanto passava os braços pelos meus ombros e os de Louise —, não esquenta com o Anastasius. Ele teve uma vida difícil, sabe? E é filho de Hades, aí vocês já sabem.

Ele deu tapinhas em nossas costas e foi falar com Garn. Aqueles dois eram inseparáveis.

Olhei para o horizonte. Para o lado da floresta, por onde tínhamos chegado aqui, os raios do sol iluminavam a imensidão verde, fazendo parecer que o resto do mundo era floresta. Na casa ao lado, um casal de velhinhos saiu da casa e se sentaram em duas cadeiras de balanço. Acenaram para a gente, como se fôssemos apenas simples adolescentes. Ser um adolescente normal, como seria a sensação?

Olhei para trás, os cabelos de Anastasius criavam um efeito gradiente quando expostos à luz do sol. A pele dele não era tão branca quanto estava pouco tempo antes, era mais puxado pra um bege, mas ainda pálido.

Filho de Hades…será que…

— Dylan… — Louise tocou meu braço. — Tá tudo bem?

Como ela podia me conhecer tão bem, se eu só conhecia ela tinha uma semana?

— Sim, eu só tava pensando… Eu pergunto o mesmo pra você.

— Entendo… Bem, melhor que antes.

E andamos em silêncio o resto do caminho. Naquela altura, o pó de monstro já tinha sido espalhado pela aconchegante brisa da manhã. O que será que os mortais viam? Poeira? Às vezes eu tenho curiosidade.

— Então, só temos três quartos — Garn falou. — Ed e Julieta ficam com um — como todos olharam para ele, se apressou em dizer: — Eles são irmãos, calma. Eu, Anastasius e Colin com o outro e Dylan e Louise com o último. — Anastasius deu uma bufada, e Ed lançou um olhar malicioso para mim e Louise.

— Hmmm…

— Cale a boca, Ed — eu disse.

Louise não parecia muito feliz com a ideia, mas também não protestou.

Subimos a escada e fomos para o quarto designado para nós dois.

O quarto tinha uma cama de casal — por isso deduzi que era o quarto da mãe de Anastasius —, uma cômoda com kits de maquiagem e espelhos, e nas gavetas, roupas íntimas femininas. Fechei imediatamente. Sentei na cama.

— Só pode estar brincando — disse Louise, vendo que era uma cama de casal. — Ei...

— Sim?

— Vire para o lado…vou trocar de roupa. Se você espiar…

Virei e fiquei encarando a parede branca descascada. Tomei coragem e perguntei o que sempre quis saber:

— Louise…

— Sim?

— O que… o que aconteceu com sua mãe?

Ela terminou de trocar de roupa em silêncio, e não ousei virar para ver sua expressão.

Ela sentou do meu lado, os dois encarando a parede.

— Antes de meu pai conhecer ela, minha mãe era uma pessoa dócil, bem carinhosa, na verdade. As pessoas diziam que ela era bem gentil e simpática com todos... Mas, depois que ela conheceu meu pai, me teve e quando meu pai precisou deixá-la, você sabe, deuses e tal, ela ficou fora de si. Não aguentou. Ela se drogava constantemente, bebia muito, e fumava também. A polícia nunca deixava ela muito tempo na cadeia, por causa de mim. Eu ainda era uma bebê, claro. Então, um dia, ela me deixou na porta de um internato qualquer que eu não lembro, e foi embora. Ninguém nunca mais a viu, e eu cresci como você, de internato em internato, mas você, Dylan, perdeu sua mãe com oito anos. Eu perdi a minha no dia em que nasci. — ela respirou fundo, e depois continuou: — Os outros campistas do chalé de Ares, todos são… muito brutos, quase não têm sentimentos. Naturalmente, eu deveria ser assim também, mas o jeito de ser da minha mãe era tão puro que, ao invés de puxar completamente as características de Ares, eu peguei um pouco da minha mãe. Eu, bem… sou um pouco desprezada por isso, mas qualquer um que vir falar de mim… — ela mostrou o punho cerrado — Você sabe. Bem, e é por isso que eu tenho, às vezes, e somente às vezes, bom humor.

— Você já gostou de alguém? Tipo, gostar amar.

— Sim, uma vez.

— Por quem?

— Um cara bem idiota.

— Ué — eu estava curioso — você falou pra ele?

— Acabei de falar — ela tinha corado.

— Mas… como? Só estamos nós dois aqu… Ah, ah…

— Você é tão retardado, como eu… como eu posso gostar de você?

— Bem — eu comecei, mas não pude terminar, ela tapara minha boca com os dedos.

— Nem mais uma palavra, idiota.

Então ela me beijou. Eu nunca tinha beijado antes, então, nos primeiros momentos, eu arregalei os olhos, olhando para os olhos fechados dela, então eu os fechei, e ficamos assim até o beijo acordar. Algo preto na janela chamara minha atenção. Era o corvo de novo. Louise se levantou, foi até a janela e deu um soco do corvo.

— Vá se danar, pai!

Eu dei uma risadinha. Ela voltou, e sentou ao meu lado de novo, com a cabeça baixa.

— Sabe, aquilo que você disse na prisão, sobre morrer por a gente e tal, era verdade?

— Certamente. Eu seria picado antes de deixar alguém tocar na Julieta ou no Colin.

Ela emburrou e virou para o outro lado.

— Hum… em você também.

Esperei outro beijo, mas este não veio.

— Eu não preciso da sua proteção, e não se acostume, espertinho. Não vai tirar um beijo de mim sempre que quiser. Agora cuide em dormir, ou será que vou ser eu quem vai ter que morrer duas vezes pra te salvar?

— Muito engraçada — mas eu estava rindo.

Me deitei, e peguei no sono quase que imediatamente. Depois desse evento, achei que iria ter sonhos agradáveis, mas claro que estava enganado.

Eu estava de volta ao quarto lá em baixo, Mirina ainda nos meus braços, mas nós estávamos sós.

Ela, ao invés de ficar calma e esperar tranquilamente pela morte, como fez na realidade, estava se debatendo, tanto que tive que segurá-la forte para que ela não escapasse dos meus braços.

— Você tem razão, Mirina — falei, lágrimas desciam do meu rosto. — Isso parece uma história de heróis.

Então ela finalmente parou de se debater. Tomou fôlego, e falou:

— Sim, Dylan, parece. Mas nas história, os heróis sempre sobrevivem — ela deu um sorriso doentio —, e eu estou morta.

Eu levantei a cabeça e gritei. Olhei para Mirina de novo, mas já não era mais ela. Eu estava com Luna em meus braços.

— A vida não é justa pra ninguém — ela falou, deu aquela piscadela e começou a rir.

Eu peguei meu mp3, apertei o botão, levantei a espada e a direcionei para a cabeça dela. Mas, quando eu abaixei a espada, Luna se desfez em cinzas, igual a Mirina, e o sonho mudou.

Eu estava de volta àquela floresta, a mesma na qual eu ouvira aquela voz.

— Eu te avisei, garoto… Depois de tudo isso, ainda não vai desistir? Vai sofrer mais? Perder mais pessoas?

Dessa vez, eu não fiz como no outro sonho. Eu não corri. Eu já não temia mais essa voz, e, aliás, era só um sonho.

— Eu já não tenho mais medo de você.

A voz deu uma gargalhada, e depois, seu tom de voz não parecia nem um pouco intimidado.

— Ótimo, garoto. Estou começando a gostar de você. Venha. Estou lhe esperando. Prove sua força, e aguente os outros desafios.

— Eu não sou uma peça do seu jogo! Eu estou aqui pra salvar Percy Jackson!

— Ah, claro. Nem ele nem o Acampamento têm importância alguma pra mim. Mas se você jogar bem meu jogo, talvez eu deixe seus amiguinhos viverem na sarjeta até a morte.

— Eu já disse que não sou uma peça! Venha, e me enfrente!

Essa ameaça — se é que se pode chamar isso de ameaça — soou um pouco sem sentido, já que era apenas um sonho.

— Talvez, se você se mostrar digno, eu enfrente você. Isso se passar dos outros. Agora vamos, garoto. Acorde, você tem ainda muito o que fazer.

A voz deu outra risada, e o chão embaixo dos meus pés desabou. Eu estava em pura queda livre em direção à um buraco sem fim.

Acordei suando e ofegando. Louise já estava levantada, e o sol da tarde cegava minha visão.

— Você está bem?

— Sim, foi só… outro pesadelo.

— Venha, temos que comer, e… bem… ir embora — ela tinha certa aflição na voz, acho que ela tinha gostado daqui.

Pra falar a verdade, eu também queria ficar aqui, mas não podia. Eu tinha que seguir em frente.

Quando saímos dali, o céu estava com manchas lilás e laranja, indicando o final de tarde. Estávamos há dois dias naquela cidade. Tínhamos perdido tempo demais.

— Cara — falei, triste por estar deixando aquela casa —, obrigado mesmo.

— Ah, não foi nada. Não é todo dia que aparecem semideuses aqui, né? — Ed deu um tapa no meu ombro, e abraçou Louise.

Dei um firme aperto de mão em Garn, que acabou virando um abraço, de qualquer modo. Por algum motivo, eu tinha quase certeza que ainda iria ver eles. Dei um aceno para Anastasius, que retribuiu e sorriu, outra rara visão.

Colin já tinha se despedido dos três, e tinha ido buscar a Sra. O’Leary.

— Eu não sei o que fazer pra agradecer vocês.

— Só a fato de animar nosso dia já compensa tudo.

Mas não era o suficiente.

Colin chegou, com a cadela no seu encalço. Todos nós montamos, e trocamos um último aceno.

Cochichei algo no ouvido da Sra. O’Leary. Eu sabia muito bem o que tinha que fazer. Na verdade, eu já tinha entendido o Luna tinha me dito antes de ir.

Vamos para Chicago.