Aquele Que Veio do Mar
18 Durona
Ninguém falou nada depois disso.
Só ficamos na sala, sentados, eu ainda chorando, Julieta abraçada em Colin, os dois também chorando. Gabriel e Edward respeitavam nosso momento triste, ficando apenas de cabeça baixa. Todos escutávamos o barulho do chuveiro de Louise, fazia bem uns 30 minutos que ela tava no banheiro, como meninas podem demorar tanto no banho?
Quando o barulho de água caindo no chão cessou, eu sabia o que estava por vir. Só não sabia como iria contar pra Louise que… Mirina morrera.
— Podem usar o banheiro agora — ela falou quando chegou na sala, já vestida. — Por que todos estão com essas caras tristes? — ninguém respondeu. — Ei, alguém fala comigo? — vácuo. — Cadê a Mirina? — ela foi para o quarto onde Mirina estivera, e Julieta desatou a chorar no ombro de Colin novamente. Quando Louise voltou, ela tinha uma expressão de pânico no rosto. — Dylan… cadê a Mirina? — como ficara ainda sem resposta, ela foi pra minha frente, me segurou pelo colarinho da camisa e me levantou do sofá. — Cadê… a... Mirina?
— Ela virou pó, Louise. Ela morreu. Satisfeita? — eu voltara a chorar também.
Louise fez uma coisa que eu nunca pensei que ela faria: encostou a cabeça no meu peito, me abraçou e chorou. Chorou até não poder mais, e nós ficamos abraçados ali por pelo menos quinze minutos. Um corvo apareceu na janela da casa, e grasnou incessantemente.
— Cale a boca, pai! — Louise gritou, entre o choro. O corvo é o animal sagrado de Ares. — Eu também tenho sentimentos.
Então, de repente, alguém apareceu da escada.
— Que barulheira é essa? Gabriel, Edward, quem são essas pessoas?
Eu vi Edward fazer uns gestos para aquele que aparecera na escada, e entendi “depois” e “calma aí”. Então ele subiu e foi para algum lugar lá em cima com o cara.
Gabriel se levantou e veio até nós.
— Ei, Louise, Dylan — ele colocou a mão nos nossos ombros. — Vocês precisam comer algo. Já está tarde, durmam um pouco.
— Não acho que eu vá conseguir comer ou dormir, Gabriel — falei.
— Zendagi migzara — disse Gabriel.
— O que você falou? — perguntei, acho que minha cara naquele momento estava uma grande interrogação.
— Zendagi Migzara — ele repetiu. — É de um livro que eu li. Significa ‘’a vida continua’’.
— Ah, sim… — abaixei a cabeça. Louise parecia não querer me largar.
A casa era grande, de modo que poderia ocupar vários hóspedes se quisesse. Tinha um grande estoque de comida — o que eu mais gostei lá —, armas de todos os tipos para semideuses — o que Louise mais gostou lá —, uma jukebox das antigas que tocava qualquer CD e Vinil — que Julieta mais gostou — e uma pequena biblioteca nos fundos — nem preciso dizer quem mais gostou disso —. Também tinha uma casa de cachorro enorme, onde Sra. O’Leary foi descansar para mais uma viagem de manhã. Eles disseram que tinham um cão infernal como ela, mas este foi morto por monstros que atacaram a propriedade uma vez, ou melhor, mais de uma vez. Tinha um sótão — que eu não gostava por causa da história do Oráculo no Acampamento — e um porão — que eu gostava menos ainda pelas duas experiências pessoais.
Depois de tomarmos banho, nos arrumarmos, comermos e engolirmos tudo o que havia acontecido naquele dia, os dois nos convidaram para jogar cartas, pelo menos era uma distração. Colin ganhou todas, menos a que nós apostamos um dracma cada um, que Gabriel ganhou com um ás que tinha saído de algum lugar — a manga da camisa dele, talvez. Todos protestamos, mas fomos calados com um ‘’jogo é jogo’’. Aliás, ele era filho de Hermes, e Ed, filho de Apolo, como Julieta.
Depois de jogar cartas, Julieta e Ed foram conversar filho-de-apolices lá fora, Louise e Colin ficaram conversando sobre táticas de guerra e outros assuntos destrutivos enquanto eu e Garn — ele e Ed disseram que eu poderia chamá-los assim agora — fomos jogar GTA V no PlayStation 3 deles. O jogo tinha várias missões, mas ele preferia fazer terrorismo com a pobre população da cidade e comemorava cada fez que explodia algum carro, prédio ou helicóptero da polícia.
Fomos parar para conversar quando o sol já estava de pé no céu. Foi divertido, tanto que não senti uma pitada de sono sequer.
Não sei o motivo, mas eu sabia que podia confiar neles, quase como se eu os conhecesse, como se eles fossem meus amigos. Então eu contei tudo sobre a missão para eles, com a ajuda dos outros, pra eles entenderem como havíamos chegado ali.
— Por que vocês não foram para o Acampamento? — Colin perguntou.
— Tem outra bruxa além de Luna por aqui… Essa bruxa, bem… nos lançou um feitiço, e agora estamos presos aqui. Não podemos ultrapassar os limites dessa, cidade, sabe? — Ed disse. Parecia aflito ao lembrar disso. — Ela não quer nos matar. Ela gosta de nos usar como brinquedos, nos ver matar monstros toda santa semana, e nunca poder ir a um lugar seguro. Isso só acaba se matarem ela. Mas ela nunca vem nos enfrentar pessoalmente, aquela… — ele cerrou os punhos e bateu forte na mesa.
— Calma aí, cara — falei.
— Desculpe, é que eu realmente odeio ela. E também, mesmo se pudéssemos sair daqui, acho que não sairíamos.
— Por quê? — Colin parecia bastante interessado na conversa agora.
— Porque essa casa, ela era…
— Da minha mãe — a voz veio de um lugar atrás da gente. Todos viramos a cabeça e nos deparamos com o cara que aparecera mais cedo, ele tinha cabelos negros curtos e pele quase tão pálida quanto a de Louise. Tinha a voz firme e forte, e parecia que nunca tinha dado uma risada na vida.
— Oh, droga! Como pude esquecer do Nasty? — ele deu um tapa na cabeça de Garn. — Seu estúpido! Por que não lembrou?
Garn devolveu o tapa.
— Você tem direito de esquecer e eu não?
— Parem com isso, idiotas — o cara até parecia Louise falando. — Quantas vezes eu já lhe disse pra não me chamar de Nasty? — “nasty” significa “safado” em inglês.
— Ah, Anastasius. Não temos culpa se você sempre está com essa cara de bunda por aí.
— Ah, olá.
Acenei de leve para ele.
— Não pude deixar de ouvir o que vocês estavam falando.
— Vocês não cansam de serem atacados? — Louise falou pela primeira vez na conversa.
— Ah, claro que não! Transformar monstros em pó é demais! — Ed fez movimentos de soco com as mãos. — E, além do mais, o que esse cara tem de sério, tem de habilidoso — apontou para Anastasius, que não mudou sua expressão perante o elogio — e você precisa ver Garn com a espada, ele tem um gingado de invejar! — Garn deu uma piscadela para nós, seu olhar tinha uma malícia que eu só via nos filhos de Hermes, como se ele fosse nos apontar uma faca e nos roubar a qualquer momento — E eu, bem, sou o máximo com o arco e flecha — fez um sinal de ‘’beleza’’ com o polegar.
— Tá, tá. Todos estamos fascinados com sua enorme — Anastasius fez sinal de aspas com as mãos no ‘’enorme’’ — modéstia. Vocês fazem muito barulho, não se pode dormir em paz nessa casa — coçou o cabelo de bocejou.
— Pra que dormir? — Garn disse. — E, além do mais, os monstros vão chegar daqui a pouco — checou o relógio que estava pendurado na parede da cozinha. — Aliás, já estão atrasados.
Ouvimos rugidos.
Garn recebeu outro tapa de Ed.
— Maldita boca, hein — e pegou um arco que estava embaixo da mesa, levantou e pegou a aljava atrás do sofá. Jogou para Julieta, que olhou o arco feito de prata abismada — Vocês vêm?
Anastasius subiu as escadas. Eu peguei o mp3 na mochila. Louise pegou a lança que tinha deixado encostada num canto. E Colin pegou uma espada emprestada.
Saímos de casa, a luz do sol ofuscando nossa visão. Um grupo de algumas dezenas de monstros estava se aproximando, rugindo e soltando um bafo que deveria matar qualquer um.
— Hora da diversão — Garn bramiu, e foi correndo em direção aos monstros, matando a primeira fileira deles. Ed foi logo depois.
Olhei para Louise, Julieta e Colin. Fomos correndo atrás de Ed, bramindo gritos de guerra do Acampamento. Eu descontei toda a minha tristeza e raiva ali. Era uma boa terapia.
A poeira dos monstros reluzia à luz do sol. Dávamos risadas enquanto praticávamos o velho exercício que fazíamos nas florestas do Acampamento. A Sra. O’Leary veio logo atrás da gente, latindo, dando abocanhadas e rasgando os monstros no meio. Flechas de Julieta e Ed voavam para todos os lados. Temi ser morto por uma delas.
Eu fui cercado por algumas empousas. Imediatamente lembrei de Luna. Imediatamente minha raiva aumentou,
— Vamos ver quem ganha, então.
Parti para estilhaçá-los, mas uma sombra preta passou por mim e, depois de uns instantes, eu estava cercado por um monte de pó. Anastasius deu uma piscada pra mim e foi transformar mais monstros em pó. Eu dei de ombros e continuei.
Quinze minutos depois não sobrava nada senão nós, encharcados de suor e montes de pó reluzindo.
Demos gritos de ‘’uhu’’, ‘’viva’’ e batemos nas mãos um do outro. Até Anastasius tinha um sorriso no rosto.
Ed e Garn passaram os braços por nossos ombros e nos conduziram de volta até a casa.
— Vamos dormir, pessoal — Ed falou. — Vocês ainda vão ter muito pela frente.
Fechei os olhos. Quase senti como se nada tivesse mudado desde que entrei no Acampamento.
Quase.
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