Notas iniciais
Um novo começo

Um mundo deformado era o que meus olhos podiam ver. Um mundo sem cor e brilhante demais. Eu tentava fugir do brilho, levava minhas mãos para frente dos meus olhos, fechava minhas pálpebras, mas aquela luz penetrava minhas camadas e queimava o que tocava.

Eu gritava por ajuda sem saber realmente o que isso significava; mas nada podia ouvir. O silêncio era enlouquecedor, meus próprios pensamentos calados pela eternidade. Mas, tudo mudou.

Uma hora estava caindo de baixo para cima, de cima para baixo, de cima para os lados, de baixo para baixo. E nessa loucura, eu tremia. Não de medo, mas de frio. Meus membros pareciam estar congelados, mergulhados em pedras de gelo puro.

Não me lembro quanto tempo fiquei assim. O tempo parecia ser eterno, o tempo parecia não existir. E nessa ilógica, eu parei. Não sabia se desejava sair ou se tinha uma saída. Era tudo tão complexo e surreal, e a minha mente nada processava.

Se eu pudesse pensar naqueles minutos, eu pensaria ‘se isso era o que significava morrer’. Um pensamento tolo, mas tão humano. Anos depois, eu descobriria que isso estava longe de ser como a morte, mas isso é outro capítulo.

Naquela inconstância que vivia, meu corpo atravessou algo. O ar quente entrou em meus pulmões e o choque entre essa nova realidade me despertou. Meus olhos se abriram. Meu corpo tremia. E estranhos carros passavam a alguns metros de mim.

Fechei e abri as pálpebras tantas vezes que não consegui contar, e quando o mundo ganhou detalhes um homem me olhava do outro lado da calçada. Sua roupa era negra, em seu rosto tinha uma máscara de purificação de ar que ficava na região do nariz até o queijo, e suas lentes mudavam de cor. Não demorou muito tempo para ele ganhar coragem para atravessar aquela rua cinza.

Meu corpo ainda tremia, meus olhos ainda piscavam. Meu cabelo vermelho bagunçado tampava parte do meu rosto, mas pela primeira vez notei que estava nua.

Uma luz passou pelo meu corpo, e por ele. Seus olhos me estudavam com medo. Com esperança?

Um estranho carro surgiu de um prédio e seus propulsores levantaram a fuligem da rua. Ele, estava sobre nossas cabeças e suas luzes vermelhas manchavam as construções a sua volta.

Uma voz alertou ao homem. Para trás. Mas ele não foi. Seus olhos estavam vidrados em mim, eu quase podia ouvir a aceleração rápida do seu coração. Mais uma vez a voz falou. Para trás, isso é uma ordem!

Ele se agachou e tirou alguns fios vermelhos do meu rosto.

Na rua cinza, sob a luz de um estranho carro que voava sobre nossas cabeças, seus olhos mudaram do azul digital para o marrom vivo.

—Beatrice?