Eu ainda volto para essas memórias, buscando algo de diferente. Um ponto fora da curva. Um detalhe perdido. Talvez esse seja o meu maior erro... achar que perdi.

Talvez, eu fosse que nem ele. Alguém a procura de alguém.

—Isso não é possível!

Ele andou de um lado para o outro na sala como um animal enjaulada. Seu desejo era destruir aquelas paredes e chegar até mim; mas não podia, não sem destruir aquilo que ele era. Como era imbecil, como não pensou que iriam tranquiliza-los, não podia falhar naquele momento.

—Sente-se! –Uma mulher com roupas brancas com detalhes dourados falou. – Não podemos conversar enquanto está desse jeito.

—Onde ela está? Eu quero vê-la. – Seus pés continuavam. Para lá e para cá.

—Não posso permitir. –A tranquilidade dela o irritava e não o culpo. Irrita.

—Não? –Parou.

—Ela não é a sua irmã. –Sua voz era quase metálica.

—Ela é uma cópia da minha irmã, ela é minha irmã! Quero uma análise completa. – Ele gritou enquanto chutava a porta.

—Isso eu já tenho. –Puxou do bolso um papel transparente dobrado, como se esperasse exatamente aquela fala, e lhe entregou. –Como pode ver, aparência igual, genes diferentes.

Seus olhos bem treinados analisaram código por código, genético, em uma busca por outra verdade, mas não a encontrou. Quando chegou no final da última linha, sentiu apenas a tristeza pesar. –Não é possível! – Apenas o cansaço.

—Sinto muito, mas o mundo prega peças. –Ela comentou enquanto lhe entregava um copo de água. –Agora me diga como ela apareceu.

—Ela apenas apareceu. Eu pisquei e ela estava ali. –Bebeu um pequeno gole e deixou o copo na mesa de vidro no meio da sala.

—Foi apenas isso? –Ela o analisava.

—Sim. –Olhou em direção a ela, deixando a ver através dos seus olhos. –Pode ver minhas memórias, verá o que descrevi.

Ela já havia olhado. –Sente-se. O dia foi tenso, deve estar cansado.

Ao som da ordem dela, a cadeira se movimentou, parando apenas quando ficou a centímetros dele. Acho que ele sabia que dizer não, não era uma opção, por isso, se sentou imediatamente. Queria acabar com aquilo logo. Esquecer...

—Agora. –A mulher falou enquanto empurrava cabeça dele mais próximo ao encosto; enquanto fios saiam da cadeira e entravam em seu sistema nervoso interligado. –O que houve hoje, você nunca viu. Ela é apenas um sonho de sua mente embriagada. –Os fios deixaram o seu corpo. E eu de sua memória.

O estranho homem abriu e fechou os olhos algumas vezes, e antes de fazer uma careta. Talvez fosse sua mente dizendo, você se esqueceu. -Por que estou aqui?

—Você quase causou um acidente sério, não beba mais. –Ela comentou enquanto o ajudava a se levantar da cadeira.

—Beber? –Perguntou sem entender realmente o que aquilo significava. Tudo era um borrão sem som.

Ela puxou um vidro do seu bolso. –Encontramos isso no bolso do seu casaco. É bem forte.

—Eu machuquei alguém? –Seu medo era real, não queria ser acusado de nada.

—Não, por sorte. Agora vá para casa e descanse. – Ela sorriu e ele assentiu.

Seus pés machucados começaram a levá-lo para fora da sala, mas a voz dela o parou por alguns segundos. –Vá no médico, Zion. Não quero perder mais um verdadeiro humano hoje.

Ele assentiu antes de deixar o lugar. E essa é a hora que eu entro. Não literalmente, pois nesse momento estou presa em uma cama entre o mundo dos sonhos e o mundo real.

Até hoje eu não sei se sou a irmã dele ou se o que ela falou era verdade. Mas desse dia em diante, aquele nome se uniu a mim. Às vezes acho isso errado, utilizar o nome de alguém. Espero que ela me perdoe um dia assim como os outro; inclusive a mulher de roupas brancas com detalhes dourados que, agora está do meu lado.

Mesmo com meus olhos quase cegos, posso vê-la cochichando com um homem, um dos seus soldados. -Quantos anos ela tem? –O homem fez uma careta enquanto calculava em sua mente.

—Pode ter entre vinte e oito e trezentos. Não posso dizer ao certo, sinto muito! –O olhar frio dela foi sua resposta.

—Ela é humana? – O homem coçou o braço.

—Pelo que tudo indica sim. Fiz todos os testes. –Falou antes da pergunta.

—Ok. Alguma probabilidade dela ser algo de Múr?

—Não sei dizer o número, mas há.

Ela estava com raiva, estava cansada, estava perdida. Naqueles poucos segundos, eu sabia que ela não gostava de não saber, e eu começava a entender o porquê.

A mão dela foi até uma peça geométrica e prateada perto da orelha, e levemente a tocou. –Quero falar com Múr. -Um ser sem gênero surgiu a sua frente antes de responder. –Ele está além do alcance. Dentro da zona escura.

—Não me importa, coloca ele na linha.

Se eu soubesse.

Naquela cama, eu senti meu corpo vibrar e um vulto passar por mim. Sentia algo me analisar, alguém.

—Suas desculpas são antigas, Múr.

Um homem de cabelos brancos próximo a minha cama criou forma apenas para a mulher. Seus olhos sorriram, e sua boca se contraia. – O que posso fazer? Depois de mil anos as desculpas começam a se repetir.

Como desejo voltar no tempo, tornar esse o meu tempo, eu poderia mata-lo; mas não posso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.