Aquarela

2 Iluminação Perfeita


Mas é claro que o destino não se importa com estas regras, ele simplesmente continua agindo, continua se movendo e traçando suas histórias. Ou nos da oportunidades para nós a traçarmos. De qualquer modo, talvez ele tenha agido naquele dia, ou talvez seja a mais pura obra do acaso. Mas aquilo simplesmente acontecera e a vida dos dois se chocou como a mais perfeita flecha do cupido... Ou talvez nem tão perfeita.

– Ai!

–Argh!

E quando se chocaram cada um caiu para um lado, com o tamanho do mais novo o choque quase derrubara Thomas ao chão, Dylan cambaleara rapidamente voltando a postura normal. Ao redor deles, todos os papéis que antes estavam abrigados no abraço de Thomas voavam pelos ares.

– N-não!

Falou o mais velho desesperado olhando para o chão soltando o guarda-chuva na calçada se abaixando desesperado para recolher todos os papéis da água, a maioria deles manchado ou já se desmanchando.

– Hey... Eu não vi você...

Dylan olhara para os papéis, se abaixando em seguida fazendo o mesmo que o loiro ao ver todas aquelas folhas no chão, ambos sem se olharem focados em recolher os papéis. Thomas sussurrava seguidos nãos enquanto suas pálidas mãos tremulas tentavam recolher as folhas, mas não havia mais esperança para elas, recolhera apenas dez míseros desenhos.

– Já disse, desculpa.

Olhando para os desenhos o loiro levantou-se chocado ignorando as falas do outro. Em suas mãos frias restara apenas dez desenhos, três feitos por ele mesmo, de sua paixão platônica que até agora não sabia que estava bem em sua frente, e os demais eram os trabalhos avaliativos... Sete dos quarenta que antes carregava.

– Oh céus...

Dylan conseguira resgatar oito desenhos pegando o guarda-chuva vermelho do outro que estava atirado ao chão. Thomas abraçara os desenhos restantes, erguendo o olhar para o outro que se levantava.

– Eu não acredito que voc- Thomas travara, imóvel, mau conseguira respirar apertando as folhas contra seu peito. Dylan estava em frente a ele, a poucos centímetros de seu corpo segurando o guarda-chuva acima deles protegendo aos dois da chuva segurando alguns desenhos resgatados. Thomas vira o mundo parar naquele instante, como se tudo parasse para apenas os dois, a ponto que o frio e a chuva não os alcançaria. Queria tanto poder eternizar aquele instante.

– Esta tudo bem, se machucou?

Thomas abrira os lábios sem conseguir dizer nada. Estava sonhando? Como aquilo acontecera?

– Hey... Você... É o Thomas Sangster, certo? Da universidade.

Thomas concordara com a cabeça sem conseguir assimilar. Dylan baixara o olhar para as mãos do garoto, vendo os desenhos que segurava, vendo a si mesmo nas folhas antes que o loiro voltasse a abraçá-los.

– Sou eu?

Perguntara curioso se inclinando para ver os rascunhos. Tinha certeza que era. Olhou para os desenhos que resgatara da chuva – que até agora acreditava ser meros documentos -, e viu a si mesmo novamente. Sentado em um banco do campus, com um livro em mãos e um olhar distante, ao lado de uma arvore que perdia suas folhas no outono, o desenho era belamente pintado com lápis aquarteláveis em principalmente tons de marrom e laranja lhe dando um sentimento de romantismo e nostalgia.

‘’ Aimeudeus, não é possível, não é possível ’’ pensara o mais velho corando em pânico, de repente querendo que aquele momento acabasse o mais rápido possível, ou, melhor, nunca tivesse acontecido. Jamais pensara que Dylan um dia veria aqui aquilo, sua mente não conseguia trabalhar direito. E de repente suas mãos fraquejaram soltando os desenhos, só percebendo o que fizera quando os mesmos quase alcançaram o chão. Se não fosse o movimento rápido do mais novo resgatando os desenhos juntando a pilha que segurava, olhando novamente para o loiro preocupado.

– Céus! Eu machuquei você?!

– N-não...

Respondera Thomas que tentava voltar aos sentidos, seu cabelo dourado agora levemente molhado caia sobre os olhos, embora não fosse o suficiente para esconder seu olhar meigo e assustado. Dylan o observara por alguns instantes.

– Thomas, certo?

Perguntara novamente. É claro que era ele, não precisava conversar com Thomas para saber. Sangster estava quase se formando e era o maior nome da universidade, seus desenhos e pinturas sempre ganhavam os primeiros lugares nos concursos, seu rosto costumava sair nos jornais em premiações e todos o chamavam de prodígio. E é claro que todo este mérito levava a zombaria dos outros alunos. Era difícil para eles aceitarem que o garoto da Inglaterra era o melhor daquele lugar. Lookwood era uma cidade pequena dos Estados Unidos, as pessoas gostavam de fofocar e encher seu próprio ego e então de repente chega um garoto estrangeiro com aparência de catorze anos de idade que faz um trabalho melhor e mais inovador que eles? Não, era difícil para aquele povo aceitar. Para adolescentes narcisistas aceitarem.

– Sim...

– Certo, Thomas – Falara Dylan baixando o olhar para os desenhos novamente. E mais uma vez ele estava lá. Apenas seu rosto desenhado em carvão, onde apenas os olhos estavam pintados em um maravilhoso azul com uma técnica realista que Dylan não era capaz de aprender. O desenho seguinte era ele mesmo, outra vez, sentado em sua classe lendo um livro, pintado delicadamente em aquarela, com a perfeita harmonização de cores, outra técnica a qual ele não tinha paciência para aprender. Bem, Dylan podia pintar com aquarela, mas sempre borrava ou não conseguia detalhar o suficiente. — Por que me desenhara?

Thomas respirara fundo e de repente sua mente se iluminou e começara a falar orgulhoso por conseguir criar uma resposta.

– São rascunhos... Eu... Resolvi treinar durante a aula, afinal, na maior parte do tempo tenho que supervisionar apenas...

– E por que eu?

Perguntara o mais novo erguendo os reluzentes olhos azuis curiosos para Thomas. Aquilo quase fizera o veterano esquecer da conversa. Podia se perder naquele azul, céus, como ele era lindo. Com o cabelo bagunçado parte escondido pela toca, moletom surrado e os jeans azuis. Tinha certeza que Dylan ficaria bem com qualquer veste, principalmente sem elas.

– Bom... Você senta perto da janela, tem uma boa iluminação...

Dylan olhara para os papéis sem ter certeza se acreditava no garoto, embora sua mente não conseguisse pensar em outra razão para as ilustrações.

– Então devo viver abaixo de uma boa iluminação... Mas, seus desenhos são tão bons quanto dizem.

Falara entregando os papéis a Thomas. O mesmo quisera se atirar no primeiro carro que visse pela frente ao ouvir a primeira frase, mas, ao ouvir o elogio se permitiu esquecer do resto e sorrir segurando as folhas. Talvez Dylan não pensasse nele como um psicopata.

– Obrigado... Eu.., Já vi seu trabalho, já que ajudo a Rosaline... Você tem muito potencial.

Dylan sorrira com o canto dos lábios arrumando sua toca. Estava pingando água e já estava se sentindo gelado e com frio. Entregara o guarda chuva para o loiro que prontamente o pegara.

– Valeu, é legal você me desenhar, não costumam fazer isso... Eu acho. Enfim, esta chovendo, melhor eu ir.

Thomas segurara a alça de madeira do guarda chuva com mais força se apressando para falar.

– Vai para o campus? Esta longe ainda, vai se encharcar até lá... Pode ir para meu apartamento e se secar, se quiser. Fica a duas quadras daqui. – Olhara para cima, para o guarda-chuva — Acho que nós dois cabemos aqui.

Dylan suspirara aliviado com a idéia, estava realmente com frio e detestando a idéia de atravessar toda aquela chuva. Quando o garoto loiro voltara a olhar para ele, Dylan percebera como os raios de sol acariciavam seu rosto. O clima de Lookwood era engraçado, com as nuvens cinzas enquanto chovia e, mesmo assim, um brilhante sol que insistia em iluminar a cidade. Thomas possuía lindos cabelos dourados que brilhavam ainda mais com a luz amarela do por do sol, sua pele branca como porcelana reluzia e seus lábios vermelhos se atenuavam, até agora Dylan nunca percebera aos delicadas sardas que o garoto tinha no rosto. Vestia-se elegantemente como de costume, com uma jaqueta marrom, blusa branca, jeans azuis e sapatos de ponta fina que agora estavam encharcados. Era uma fotografia perfeita.

– Espere um instante. – Falara Dylan colocando uma mão no bolso de trás do jeans.

– Hã?

Thomas olhara confuso para o mais novo que tirara o celular do bolso recuando dois passos erguendo o celular na altura de Thomas.

– Shh! – Dylan estreitara os olhos procurando o ângulo certo, não demorou para encontrá-lo e Thomas ouviu o click que o celular emitira ao capturar o momento. A luz fora perfeita enquanto o cenário era composto por poéticas arvores com as folhas secas amarelas e laranjas que caiam ao chão. Dylan sorrira – Eu não ia perder o momento. Se não trabalhasse com desenho, ia ser isso.

Falou se referindo a fotografia erguendo o celular se aproximando do outro novamente.

– Ainda posso ir com você?

Perguntara guardando o celular no bolso. Thomas de inicio parecia confuso, então riu. Dylan simplesmente fazia o que queria sem se importar com o que os outros pensariam, ele era estranho, o que fez Thomas gostar ainda mais dele.

– Claro, mas por que tirou a foto de mim exatamente?

– Bom, você estava em um lugar com iluminação perfeita.

E Thomas rira outra vez, certo, ele entendera. Embora acreditasse que Dylan diferentemente dele não estava escondendo uma paixão, e, sim, simplesmente resolvera fotografar. Andara até o lado do moreno para que ele não fosse ainda mais atingido pela chuva. Então os dois seguiram lado a lado andando pelas ruas estreita de LookWood em direção ao apartamento de Thomas protegidos pelo velho guarda-chuva vermelho.