Aprendizes de Assassinos-Creepypasta Interativa
10 #9 Por conta própria
Notas iniciais
[Primeira Pessoa]
— Você está exagerando! — Soltei depois de segundos demorados de tensão. Aquele pouco tempo, quase imperceptível para olhos de terceiros, me pareceu uma eternidade que nunca passaria. Tudo para encontrar uma resposta que me tirasse de tal situação. Porém a única coisa que saíra de mim, fora aquela frase sem objetivo nenhum a não ser ganhar mais tempo.
Jeff soltou uma fraca risada pelo nariz, ainda me dando as costas. O cabelo negro lhe cobrindo os seus olhos de minha visão periférica, dando-me apenas uma perspectiva de seus lábios se repuxando em um sorriso desgostoso.
— Essa resposta me é nula. — Respondeu com a frieza que ainda cobriria um iceberg com mais uma camada de gelo. — Nem sei por que ainda estou aqui, perdendo tempo com alguém tão ingênuo como você. — Seus olhos finalmente me encararam por cima do ombro, de um modo arrepiante, me fazendo prender a respiração. — Seus olhos mostram o quanto está louco para voltar a ter sua vida medíocre de sempre. Adeus, pirralho. Se eu lhe encontrar novamente no meu caminho, não passará apenas de um desconhecido.
Ele saiu em passos lentos, todavia estes pareciam levá-lo a quilômetros de distância. Eu, paralisado no chão sujo de terra úmida, não consegui reagir a tempo. Quando dei por mim, estava sozinho no silêncio atormentador da floresta, apenas com gritos de pássaros estranhos ecoando casualmente.
O sol se fora há muito tempo, largando-me naquela escuridão profunda que parecia engolir as árvores em um buraco negro, sem pretensão de devolvê-las.
Estremeci, e meus olhos se arregalaram na procura por uma fonte de luz. Mas nada clareava nada. Rapidamente, me coloquei de pé, cambaleando no começo. O escuro, o maldito escuro.
Desesperado e assustado dei meus primeiros passos na mesma direção que Jeff seguira.
— Jeff — Chamei em voz baixa; cada vez mais amedrontado com o breu. — Jeff! JEFF! Não me deixa aqui!
Tudo em vão. Nenhuma resposta, nem mesmo um ruído foi escutado. Meus joelhos bambeavam, deixando cada passada mais difícil para continuar. Logo, eu sabia, acabaria preso ali, no meio de um dos meus piores medos.
Sentia meus olhos tão arregalados quanto podiam. O suor descendo frio pelo meu rosto. Não era um medo bobo de criança, e sim o mesmo medo de alguém pela morte. O medo que você sente quando acha que está sendo observado, mesmo que sozinho em sua casa.
Sem parar, continuei gritando pelo nome de meu mestre, mesmo sabendo que ele nunca viria. Meus passos vacilaram, fazendo-me ajoelhar no chão. Não, você não sabe o que é sentir medo de verdade.
Com as mãos no peito, tentando de alguma forma me proteger ao máximo, eu pude sentir o coração quase parando. Os dentes cerrados. As unhas quase perfurando a pele.
Só era eu, e as trevas.
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[Terceira Pessoa]
Amy Black continuava na casa conquistada por Liu há duas semanas longe de completar dois meses. Ela não entendia ao certo o porquê de seu mestre não sair mais da velha construção de dois andares com paredes descascadas; e cheio pútrido.
O assassino começara apenas a analisar seus treinamentos, dizendo o que ela deveria fazer apenas de vez em quando. Amy não entendia ao certo o que poderia significar tal mudança. Talvez ela já estivesse pronta, talvez apenas esteja desistindo de participar da carnificina que começaria em dois meses e meio. Porém, a garota de cabelos cor-de-rosa preferia acreditar mais na primeira possibilidade.
Naquela noite, deitada no sofá que tinha suas molas expostas, ela lia um livro sem pressa. Já era a quarta ou a quinta vez que o relia. Aprendizes de assassinos não tinham desconto em livrarias.
Liu entrou na casa mais uma vez. Havia saído cerca de duas horas, juntamente com seu cão. Fechou a porta com calma, caminhando rumo ao segundo andar. Os olhos azuis da rosada espiaram por cima do livro, escutando o som dos passos do rapaz subindo os degraus. Cansada daquele silêncio, Amy se levantou, fechando o livro e o colocando sobre o braço do sofá. Seguiu o mestre.
O encontrou em um dos quartos da casa, deitado na cama com Smile Dog ao pé dela, encarando de rabo abanando seu dono.
— Sabe — Disse ele em voz baixa. Mesmo sem encarar a aprendiza, sabia muito bem que ela estava ali, encostada no batente da porta. —, Eu estava mais ou menos assim quando Jeff tentou me matar pela primeira vez.
Amy desviou os olhos para o chão mordendo o lábio inferior, não sabendo bem o que responder àquela fala carregada de mágoa.
— Vocês eram muito próximos... Não é? — Fora a única coisa que conseguiu pensar. Ouviu Liu dar um longo suspiro.
— Não imagina como. — A expressão dele estava fechada. Sentou-se na beirada do colchão, encarando sua aprendiza. — Por que resolveu me procurar agora? Vontade de matar não é.
Amy o fitou nos olhos, dando tímidos passos em direção a ele, de modo que ficasse frente a frente com seu mestre.
— Você anda diferente ultimamente. — Soltou.
— Como assim? — A carranca ainda persistia.
— Anda afastado demais. Deixando-me por conta própria mais vezes do que devia! — Os olhos verdes de Liu se arregalaram levemente, como se aquilo fosse uma novidade surpreendente, mas logo voltou ao normal.
— Impressão sua. — Respondeu, olhando para o outro lado. A rosada respirou profundamente. Deixou-se cair ao lado dele, sentada com as mãos juntas entre os joelhos. Depois de muito hesitar, acabou falando.
— Antes de te conhecer, acordei de noite com um grito da minha mãe. Isso quando eu tinha uns sete anos. — Liu prestou atenção na história contada por Amy. Já a conhecia, porém, se a outra lhe queria contar novamente era porque ela queria dizer algo de importante. Nunca tocava no assunto dos pais assassinados se fosse em vão. — Quando arranjei coragem para ir ao quarto dos meus pais eu... — Os olhos dela mostravam o mesmo terror daquela noite, brilhando com as lágrimas acumuladas — Havia sangue. Sangue pra todo lado. Mas o pior de tudo... — Flashbacks em preto e branco tomaram conta da cabeça da garota — Foi ver os corpos deles mutilados e frios.
Isso fez Liu repensar também na noite em que tudo mudou para ele. Quando viu o próprio sangue no rosto do irmão, e aquele sorriso insano.
Amy soluçava baixinho ao seu lado, todavia Liu estava muito ocupado perdido em seus pensamentos. Não se permitia chorar como ela, já havia perdido muito tempo com isso. Agora estava tudo bem para ele, certo? Errado. Não podia se vingar do assassino de seus pais, pois não era capaz de matar Jeff. Porém não conseguia viver com aquilo nas costas, o atormentando em pesadelos.
Suas obres esmeraldas cintilavam como o Oceano Pacífico. A garganta ardia, mas continuou forte, mascarando sua dor com a expressão mal-humorada.
Teve suas bochechas apertadas pelos dedos de Amy, obrigado a ver o rosto da aprendiza. Para seu espanto, a face avermelhada da garota abrigava um sorriso dócil. Os cílios ainda estavam molhados.
— Não fique de mau-humor. — Disse ela, simplesmente sorrindo. Os olhos dele se abriram, assim como a boca que ficara entreaberta.
— Amy... — Foi o que saíra de seus lábios.
Silêncio dominou por mais alguns segundos. Liu inspirou profundamente, tirando delicadamente as mãos da rosada de suas bochechas, as segurando entre as suas.
— Você anda lendo muito aquele livro de drama seu. — Soltou ele, sem demonstrar grandes expressões. Amy continuou sorrindo. Até se sentia melhor agora. — Tá na hora de queimá-lo... E arranjar um novo.
— Mas eu gosto demais dele. — Resmungou ela, em tom de brincadeira.
— Mas eu sou seu mestre e sei o que é bom para você! — Também soltou em tom superior, mas também de brincadeira.
Riram, acabando com o restante do clima pesado que ficara. E mais uma vez seus olhos se encontraram, desta vez sem o paredão que escondia os sentimentos de cada um. Diferente das outras ocasiões, nesta hora nenhum dos dois queria acabar logo com o momento. E o sorriso se recusava a se apagar do rosto de ambos.
Liu percebeu que não queria aquela relação de mestre e aprendiza entre os dois. Já fazia um tempo que notou a maneira diferente que acabava se comportando na frente de Amy. A seriedade e frieza conseguiam dar um tempo de sua cabeça.
O assassino começava a perder todas as dúvidas que tinha em relação a rosada. Ela, com certeza, era diferente.
A porta da entra foi aberta ruidosamente, com um barulho que fez Liu e Amy saltarem da cama. A garota chegou a se perguntar se haviam estourado uma bomba lá em baixo.
Correram para o hall, suas armas nas mãos. Todavia de nada adiantou tal ato, já que não passava de um já conhecido moreno de sorriso esculpido.
— O que está fazendo aqui, Jeff? — Liu indagou com frieza, vendo o irmão caminhar para dentro da casa e batendo a porta ao fechá-la. Jogou-se no sofá da sala. — Eu te fiz uma pergunta!
— Estou aqui porque estou aqui, oras! — Esbravejou o mais novo.
— Pensei que tinha dito que não queria nem em sonho dividir o mesmo teto que eu.
— Imprevistos aconteceram e aqui estou eu. Agora quer calar a boca e me deixar em paz?
— Onde está aquele seu aprendiz? — Quem fizera a pergunta foi Amy.
— Nunca houve um aprendiz.
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