Arthur e Kara eram empurrados sem gentileza pelos druidas. Agora que o príncipe fora usado, eles pareciam muito mais despreocupados em dar o mínimo de condições de bem-estar a ele.

—Para onde estamos indo? —perguntou ele, achando que não haveria uma resposta.

Mas, dessa vez, aqueles homens pareciam felizes em responder:

—Vamos te levar para a torre mais sórdida e gélida de toda Albion! Lá você irá sofrer e enlouquecer! Este será o seu fim, principezinho!

Os druidas riram. Parecia que a felicidade deles não podia ser contida no peito. Alcançaram a margem do lago. A embarcação esperava por eles.

Não tiveram a chance de embarcar. Num rugido, o grande dragão lançou um jato de chamas que queimou três deles. Os outros dois largaram Arthur e Kara e começaram a lançar feitiços contra ele.

—A magia patética de vocês não pode me atingir! —gritou Kilgahrrah, sentindo uma boa dose de diversão por aterrorizar aqueles druidas. Dando um voo rasante, agarrou ambos com as patas e os soltou no meio do lago, onde não teriam chances de escapar.

O dragão pousou na ilha, próximo à margem. Lançou uma chama na direção de Arthur, libertando-o das correntes, sem queimar sequer seu cabelo. Kilgahrrah se abaixou:

—Depressa, subam!

Kara parecia apavorada. Arthur, percebendo que ela não se moveria dali, a puxou para que subisse junto com ele. Kilgahrrah levantou voo antes que qualquer resistência de Morgana pudesse acontecer.

.o.

Merlin e Morgana ouviram uma explosão acontecer do lado de fora. Ela correu para ver o que havia acontecido.

O mago sentiu sua vista turva e a dor provocada pela Excalibur paralisava o seu corpo. Caiu para o lado. Segurou a espada na esperança de conseguir removê-la, mas não conseguiu movê-la sequer um centímetro.

Sentiu frio. Seus anos aprendendo ao lado de Gaius fizeram dele um habilidoso curandeiro. Habilidoso o suficiente para saber que a febre havia tomado conta do seu corpo e que aquele ferimento, mesmo que não tivesse sido causado por uma espada poderosa, o levaria inevitavelmente à morte.

—Ele vai voltar, quando Albion mais precisar, ele vai voltar—começou a murmurar para si mesmo, como um mantra. —Kilgahrrah disse que você vai voltar, Arthur. Quando Albion mais precisar, então eu deixo em suas mãos... — delirava, nos últimos suspiros que seu corpo lhe permitia dar.

Berrou com a imensa do que sentira, ao ter a espada removida do seu corpo. Abriu os olhos e pôde enxergar: já não sofreria pelas propriedades mágicas da espada, mas o seu ferimento ainda era letal.

—Senhor Merlin, o que eu faço? —perguntou Bern, em pânico.

—O que... —ia perguntando, mas sentiu que não tinha forças para discutir. Procurou com os olhos e por sorte avistou logo o que queria. Apontou para o cálice: — Pegue!

Bern pegou o cálice rapidamente e voltou para junto de Merlin:

—E agora? Eu não tenho mágica!

Merlin quase conseguiu fazer uma expressão de "não é necessário", mas ter o estômago transpassado não permitia que ele expressasse qualquer coisa diferente de dor:

—Água—falou enfim.

Bern abriu o próprio cantil e despejou água no cálice. Em seguida, colocou sobre os lábios de Merlin que bebeu com dificuldade.

Em menos de cinco segundos, o mago começou a se levantar. O sangue ainda corria da sua ferida, mas ia se curando aos poucos. Ele percebeu que não apenas Bern estava ali, mas o cavalo também:

—Como foi que...? —mas se lembrou que não era momento para conversar, tinham que sair de lá. Apanhou a Excalibur e guardou o cálice.

Montaram no cavalo e Bern fez um caminho diferente do que todos antes haviam feito, por dentro do santuário, até a saída.

—Eu te disse para ir atrás dos cavaleiros. Você nunca faz o que te mandam?

—Não, senhor!

Merlin riu. Via-se naquele garoto.

Quando alcançaram a margem em outro lado donde Morgana estava. Merlin começou a se sentir melhor e o ferimento já estava quase completamente cicatrizado.

—Nós viemos nadando, eu com o cavalo. Mas, acho que não podemos nadar com você nesse estado!

—Vocês vieram nadando? —espantou-se.

—Ei! Quem não tem mágica se vira como pode! —defendeu-se. —Mas, eu não vi Arthur, senhor!

—Ele está bem. Mandei ajuda para ele. Já posso entrar na água, vamos sair logo daqui!

O cavalo entrou no lago e Merlin fez a viagem menos mágica que já teve em sua vida.

.o.

Kilgahrrah pousou e os dois jovens desceram de suas costas.

—Dragão! Ouvi muitas histórias do tempo do meu avô e do meu pai, quando um dragão quase devastou Camelot. Sempre acreditei que fossem criaturas malignas, mas hoje você mudou a minha visão. Muito obrigada pela sua ajuda!

—Fico surpreso pela sua gratidão, jovem príncipe. Mas, confesso que só fiz o que fiz porque meu mestre ordenou. Sigo apenas o poder mágico dele.

—O seu senhor? Quem é ele?

—Você está em segurança aqui, jovem Arthur. Espere e logo te encontrarão.

—Quem me encontrará?

O dragão abriu as asas e voo.

—ESPERE! Quem virá?

Kilgahrrah já estava longe.

—Você não está muito acostumado com pessoas não respondendo as suas perguntas, não é?

Arthur olhou para Kara, deu um empurrão leve em seu ombro, brincalhão:

—Eu não sou um nobre tão chato assim.

—Você é um nobre, é o suficiente! —provocou ela.

Os dois riram. Em seguida, se sentaram no chão e ficaram quietos.

—Eu achei que tinham te matado—disse ela, o encarando.

—Só você? Eu achei que tinham me matado!

Percebeu que estivera o tempo todo pensando em escapar e sequer a observou direito:

—Você está machucada?

—Perto de quem levou uma facada no coração? Nem um pouco!

Eles ouviram o farfalhar de folhas. O príncipe fez um sinal para que ela ficasse quieta. Ele se aproximou de um arbusto e percebeu que alguém se aproximava. Mas, o seu receio caiu por terra quando percebeu quem era.

—SIR LION! —berrou.

Os cavaleiros mudaram de sentido e cavalgaram em disparada até ele.

—Senhor! Está cheio de sangue! —percebeu Lion.

—Vamos levá-lo de volta para Camelot! Para Gaius! —aprontou-se Sir Percival.

Os outros cavaleiros continuavam falando, muito agitados. Arthur gritou:

—PAREM! Isso tudo não é necessário. Eu estou bem, estou curado — continuou, mostrando que abaixo da camisa ensanguentada o seu peito estava intacto. Em seguida, chamou: — Kara!

A moça se aproximou deles:

—Queria levá-la eu mesmo de volta para casa. Mas, acredito que preciso avisar a Rainha o mais rápido possível do acontecido.

—Não, não, eu entendo! Obrigada por ter me protegido até aqui!

Ele a encarou. Parecia piada. Desde o momento que a viu pela primeira vez, tudo o que fizera foi colocá-la em perigo. Estranhou quando viu na expressão dela que falava sério.

—Eu sei que vocês têm muitas perguntas. Mas, por favor, eu preciso falar com a Rainha antes de qualquer coisa! Sir Percival, divida os homens. Metade volta comigo para Camelot. A outra metade deve levar Kara de volta para a aldeia dela!

A garota deu-lhe um abraço rápido antes de subir no cavalo. O grupo liderado por Percival se afastou.

—Príncipe Arthur, fico feliz em vê-lo bem! —afirmou Sir Percival, com sincero alívio em seu coração.