—Senhor Merlin, que caminho é esse? —perguntou Bern, assim que desceram do cavalo. Anoitecia e já era necessário acampar.

—Não precisa me chamar de senhor. Lembre-se que nunca estive numa posição acima de você—argumentou. — Vamos pegar um atalho para Camelot. Conseguiremos chegar em dois dias por dentro da floresta. Levaríamos ao menos quatro pela estrada normal.

—Camelot?!

—Não se preocupe, Arthur está a caminho de lá—respondeu tranquilo, amarrando o cavalo. —Há essa hora os cavaleiros já o encontraram.

Por mais que se sentisse desconfortável, Bern calou-se. Sabia que à sua frente estava um grande mago, e após assistir às escondidas a batalha contra Morgana, não poderia deixar de confiar em qualquer coisa que dissesse.

O servo começou a preparar a fogueira. O mago percebeu a expressão de preocupação no rapaz, seus olhos brilharam e os gravetos espalhados pela mata flutuaram até eles, depositaram-se sobre as pedras que Bern arrumara e a chama surgiu de mágica. O jovem riu, distraindo-se de seus receios:

—Impressionante.

—Você é muito fiel a Arthur, Bern—disse Merlin, se sentando próximo à fogueira. —Não é qualquer um que teria se arriscado a ir até a ilha.

Ele deu de ombros, com simplicidade:

—Ele é o meu senhor. Devo fidelidade a ele.

—Só isso?

—É que... Eu realmente devo a minha vida a ele. Ele me salvou de bandidos, certo dia, numa estrada próxima à Camelot. Tinham me roubado e estavam prestes a me matar quando Arthur apareceu e começou a lutar com eles. Mas, eram muito e eu estava ferido, não fui capaz de ajudar. Ele não teve escolha a não ser usar mágica.

—Então, nunca pôde esconder esse segredo de você.

—Nos conhecemos assim. Eu nem sabia quem ele era. Eu podia pensar que ele era só um cavaleiro, mas não o príncipe! Ele podia ter sumido, mas me ajudou até o fim. Levou-me até a minha aldeia para que cuidassem do meu ferimento e só saiu de lá quando teve certeza que eu não corria mais perigo... Eu disse que guardaria o segredo dele e ele partiu. Mas, eu sei que ele não acreditou em mim.

—Porque acha isso?

—Ora, porque ele voltou—respondeu rindo. —Ele voltou no dia seguinte e me fez o seu servo. É lógico, só eu sei do seu segredo. Ele quer ficar de olho em mim o tempo todo para ter certeza que eu não vou entregá-lo.

Merlin observou o servo. Parecia ressentido pela falta de confiança de Arthur.

—Talvez você esteja certo. Ou talvez Arthur precisava de um servo e viu em você uma boa escolha.

—Ah, não. Duvido disso. Eu sou um servo bem inútil, ele vive dizendo isso para mim.

—Nem sempre as pessoas dizem o que realmente pensam.

.o.

Arthur não teve que se preocupar com as perguntas dos cavaleiros nos dois dias de viagem que se passaram. Pôs em seu tom a urgência em falar com a Rainha e nada mais parecia importar aos seus fiéis amigos do que ajudar para que chegasse a Camelot o quanto antes.

Cavalgaram pela entrada do reino sem disfarçar sua pressa. O príncipe entrou correndo pelo castelo, mesmo com suas roupas rasgadas, sujas e manchadas de sangue. Os guardas do lado de fora da sala do trono, sonolentos pela monotonia daquela tarde, quase pularam de susto com a aparição do jovem que os ignorara, entrando na sala sem ser anunciado.

A rainha se levantou, como se o homem que era por ela ouvido tivesse deixado de existir, e viu o príncipe com os olhos de uma mãe. O rapaz sorriu para ela, como se todos os homens presentes não o encarassem pasmos pela sua aparição. Fez uma reverência:

—Demando uma reunião imediata com a rainha. A sós—complementou.

—Saiam todos! —ordenou ela.

Quando o último homem saiu da sala e fechou a grande porta de ferro atrás de si, Gwen correu até o seu filho e o observou com ansiedade:

—Está machucado!

—Não estou. Não tive tempo de trocar essas roupas, preciso lhe falar com urgência.

—Os cavaleiros te encontraram! —falou meio boba, ainda não acreditando que via seu filho a salvo, e o abraçou.

Ele aceitou o abraço, mas se desfez logo dele:

—Preste atenção. Fui sequestrado por homens e levado até Avalon.

—Avalon? —estranhou, só ouvira aquele nome uma vez: fora dito por Merlin, quando lhe contara como o amado dela morreu.

—Sim. Não sei quem eram exatamente. Mas, tenho certeza que eram pessoas de grupos distintos que se ajudavam para um objetivo comum. Eles fizeram uma... —parou para encontrar a palavra. — cerimônia. Eu estive presente e vi tudo acontecer, eles trouxeram uma pessoa de volta dos mortos. Eles trouxeram de volta Morgana!

Gwen cambaleou:

—Meu filho, o que está me dizendo?

—Eu vi com os meus próprios olhos. Até conversei com ela! Só pude escapar porque alguém me ajudou.

—Quem? —perguntou, esperando ouvir um nome conhecido.

—Eu não tenho certeza. A ajuda foi enviada por alguém e só por isso fui salvo. Mas, o importante agora é nos concentrarmos. Ela quer acabar com a paz dos reinos como eles estão!

Ela deu um sorriso nervoso. Tinha certeza que Morgana queria muito mais do que isso. Imaginou o desejo de vingança da bruxa. Estremeceu.

—Tem outra coisa também que eu quero te contar... —começou, tentando reunir coragem.

Ela o observou apreensiva:

—O que foi?

—Mãe... —ele respirou fundo e disse de uma vez: — Eu tenho...

O ranger da porta interrompeu a confissão de Arthur. Merlin entrou em disparado seguido de Sir Lion, que tentava se explicar:

—Sinto muito, minha rainha! Ele afirma que tem informações urgentes e cruciais e...

—Está tudo bem, Sir Lion! —afirmou ela. —É provável que ele esteja certo. Deixe-nos!

Sir Lion parecia um pouco nervoso, sem imaginar o que estaria acontecendo e o que diabos um servo tão comum como Merlin teria de importante para tratar com a rainha. Fez uma reverência e saiu da sala.

O mago deu uma boa olhada para Arthur, checando que estava mesmo bem, sem cogitar que tanto o príncipe quanto a rainha se espantavam pelo estado em que ele mesmo estava – também não pudera sequer trocar suas roupas.

—Morgana está de volta—disse de uma só vez, ainda sem fôlego pela corrida dentro do castelo. Quando percebeu que ela olhava de Arthur para Merlin sem saber o que dizer, ele explicou: — Arthur sabe sobre mim, quem eu fui, e que eu tenho magia.

Gwen aproveitou-se do trono atrás de si para sentar-se. Tentando se concentrar primeiro no problema mais perigoso, falou:

—Vou ordenar o dobro da vigilância, precisamos saber sobre qualquer movimento dela. Uma guerra vai explodir em breve. Duvido que ela queira fazer qualquer outra coisa!

Magia posta em pauta. Arthur se sentiu mais seguro para perguntar, sem conseguir disfarçar a sua aflição, o que há dias o incomodava:

—Mas, o que está acontecendo?

Os dois o encararam. Nunca planejaram como contariam a Arthur.

—O que está acontecendo? —repetiu. —De um dia para o outro tudo mudou! Eu sempre acreditei que havia segurança e paz nos cinco reinos! O que é a guerra silenciosa? Quem são os druidas da facção? Como diabos isso tudo acontece sem que as pessoas comuns percebam? E, principalmente... Mãe, nosso reino proíbe o uso de magia! E você se alia a... ele?

Merlin olhou para Gwen e ela afirmou com a cabeça: não havia mais como esconder.

—Meu filho, desde Camlann, nunca mais houve paz em qualquer um dos reinos. Depois da guerra, eu tinha uma decisão muito importante a ser feita! Durante última batalha, os cavaleiros viram o poder da magia de Emrys. Uma magia tão poderosa que pôde salvar o nosso reino! Então, era o momento. O momento para que eu alterasse as leis do reino e iniciasse a permissão pelo uso de magia. Mas, teria sido um grande, grande erro!

—Como teria sido? —perguntou o rapaz, desanimado pela própria posição e confuso diante do comportamento dúbio da rainha.

—A magia foi apresentada a Camelot como uma poderosa arma de guerra—argumentou Merlin. —Se tivesse sido permitido o seu uso a partir daquele momento. Os outros reinos se armariam também de magia. Ao invés de obtermos a paz, seriam travadas muitas guerras com poderes imensos. Você percebe? Naquele momento a magia, mais do que nunca, era uma arma para matar. E não um instrumento para fazer o bem às pessoas.

—Então, — continuou Gwen. —Aos poucos começamos a cultivar nas aldeias mais distantes um conhecimento sobre uma magia diferente!

—Desde aquela época, eu tenho viajado até as aldeias mais distantes, ajudando as pessoas com mágica. Tanto através da cura ou de soluções para problemas e perigos que elas enfrentassem. Aos poucos as pessoas foram entendendo o lado não violento da magia.

—E eu, de minha parte, só podia fazer uma coisa: as pessoas que eram trazidas para serem julgadas pelo uso de magia pagavam apenas pelos crimes que cometeram usando magia. Nunca durante o meu reinado condenei o uso puro e simples da magia, apenas o uso da magia como uma arma, assim como eu puniria um assassino que matou com uma espada. É claro que o povo comum não soube disso. Os casos mais específicos de uso foram julgados fora da vista do público, inclusive, longe da maioria dos cavaleiros. Os casos de assassinato eram levados a público, para que a imagem da proibição se sustentasse.

—Com o tempo conseguimos mudar a visão de muitas pessoas. Alguns casos de bom uso mágico já começaram a acontecer atualmente. Estamos próximos da possibilidade de tornar livre o uso, sem o receio de que o poder desvirtue essas pessoas. A magia pode ser tanto boa quanto ruim, depende de quem a usa—completou Merlin.

—Por isso, meu filho, por todos esses anos trabalhamos silenciosamente. Para construir uma Camelot onde as pessoas estão acima do uso da magia. E não o contrário!

—Mas, as coisas não são tão simples—continuou o mago. —Assim como nós não paramos após Camlann, os fiéis de Morgana não se conformaram com o resultado da guerra. Dentre os druidas, começaram a se infiltrar aqueles que tiveram suas almas tão envenenadas pelas ideias vingativas de Morgana que a crença do uso livre e desmedido se proliferou. Os druidas sempre foram um povo pacífico e houve aqueles que resistiram às ideias de ódio. Com o tempo, as tribos começaram a se dividir entre os que defendiam a vida pacífica e os que queriam exaltar a magia passando por cima do bem estar das pessoas comuns. Batalhas começaram a acontecer entre as pessoas que possuem magia. Nunca houve paz após Camlann. Mas, não são batalhas comuns, essas do plano da magia. Por isso, as pessoas comuns não são capazes de perceber.

—Uma guerra silenciosa... —murmurou Arthur, finalmente entendendo a situação.

—Meu filho—disse Gwen se levantando e pousando as mãos nos ombros do rapaz: — Você fez uma longa viagem. Precisa descansar. Depois voltaremos a esse assunto se quiser, mas agora, vá.

Ignorando o pedido dela, continuou:

—E, por todo esse tempo, porque eu não soube?

Gwen não imaginava os conflitos que o rapaz passara por possuir magia. Merlin pôde perceber certo inconformismo nele. Escondera-se e isolara-se por tanto tempo...

—Foi para te proteger—respondeu Gwen.

—Para me proteger? Mas, isso foi loucura. E Merlin? —perguntou ele apontando desnecessariamente para o mago, exaltando-se. —Porque eu nunca sequer ouvi falar sobre ele antes sendo que vocês se comportam como velhos amigos?

—Conforme você foi crescendo—interveio Merlin. —o tempo passava e a situação da guerra não se amenizava. Quanto mais distante do cenário da magia você estivesse, mais seguro estaria.

—Seguro? Mas o que isso tem a ver?

Merlin o olhou de cima abaixo, o que fez Arthur olhar para si mesmo. Toda aquela história quase o fizera se esquecer de que, no momento em que fora atrás da magia, fora sequestrado várias vezes.

—Meu filho, você está exausto. Já chega. Depois podemos continuar, mas agora, vá descansar.

—Mas, temos que impedir Morgana...!

—Eu tomo as decisões agora. E, neste instante, enquanto eu planejo o que poderá ser feito, você irá descansar.

Ele olhou para o lado procurando apoio no mago, mas ele também parecia querer que o rapaz se retirasse. De qualquer maneira, percebeu que era muita informação para absorver de uma só vez e ele se sentia verdadeiramente exausto. Notou o olhar de preocupação de Merlin. Ainda tinha tantas coisas que queria perguntar para ele!

Deu meia volta e saiu da sala, deixando-os a sós. Passou pelos cavaleiros e subiu as escadas para o corredor vazio, sendo seguido pelo seu servo que o esperara até então do lado de fora da sala.

—Senhor, como se sente? —perguntou Bern, com certa expressão de expectativa.

Bern... Arthur nunca conseguira deixar de pensar em como morrera e fora abandonado no meio da floresta. Sentiu um peso ainda maior em seu peito. Sentiria tanta falta dele...

—O senhor não se sente bem?

—Você sempre me interrompe quando estou pensando, não vê que estou pensando em algo importante?

Não sabia como aguentaria contar para a mãe do seu servo que ele morrera tentando ajudá-lo. Seria uma tarefa terrível, mas a cumpriria em honra do seu amigo.

—Senhor, quer que eu prepare um banho?

—Sim. Não está vendo que eu estou um lixo? Pare de ser um servo inútil e faça alguma coisa! —exclamou arrogante e virou para o lado, ficando face a face com seu servo, quando se deu conta...: empalideceu como se visse um fantasma, arregalou os olhos e o murmúrio surgiu da tentativa de falar qualquer coisa: — Como...?

—Vou preparar um banho, senhor. O senhor está mesmo parecendo um lixo — provocou-o e foi à frente do seu senhor, caminhando cheio de vida, enquanto o príncipe não sabia se gritava por ver um fantasma, ou se pulava de alegria por ter o seu amigo de volta.

.o.

A bruxa viajava sozinha. Parou o seu cavalo quando alcançou a grande formação rochosa. Desceu do cavalo e deu passos um pouco temerosos. Não invocaria um feitiço para chamá-la, afinal, percebera que o seu poder mágico não seria capaz de alcança-la. Por mais poderosa que fosse, jamais seria um Dragon Lord.

De qualquer forma, esperou por alguns minutos e a criatura que tanto desejava encontrar apareceu: voando de maneira majestosa, com suas grandes asas brancas, vinha a imponente Aithusa. O dragão pousou em sua frente e Morgana sorriu como há muitos anos não sorria para ninguém: com amor em seu coração.

—Você está linda—disse a bruxa, e se aproximou fazendo carinho na cabeça da sua amiga. —Eu vi do outro lado, quando ele te ajudou. Quando Emrys te curou.

—Ele é um Dragon Lord, só ele poderia ter feito isso por mim—respondeu.

Morgana nunca tivera a chance de, em vida, ouvir a voz de Aithusa. O trauma de crescer no poço fora o suficiente para que o animal não desenvolvesse sua linguagem. Mas, não foi fácil nem para Merlin, nem para Aithusa.

—Não foi fácil para você. Teve que se esforçar demais...

Assim como o mago. Não era simples curar sequelas de má formação. Mesmo para alguém poderoso como ele.

Aithusa abriu suas asas, ficando imensa:

—Valeu a pena.

—Sim, valeu... Você está tão linda!

—O que você quer de mim, Morgana?

—Eu queria te ver... Depois que eu parti, entendo que muito mudou. Mas, eu senti a sua falta. A minha guerra é contra Emrys, você entende isso?

—Sim, você ainda o considera um inimigo. Eu não quero assumir um lado, mas se eu tiver que assumir, Morgana, será o dele. Não porque eu goste mais de um que de outro. É uma questão de ligação. Você viu o que ele fez por mim nos últimos vinte anos, mas você nunca soube quem ele foi antes disso.

—O que quer dizer? Você é minha amiga. A minha única e melhor amiga!

—Ele me criou. Ele deu o meu nome.

—O que...?

—Se não fosse por aquele Dragon Lord, eu não existiria. Ele foi o responsável pelo meu nascimento. Não pode haver ligação mágica maior do que essa.

Morgana abaixou o olhar e Aithusa percebeu o ódio da bruxa se multiplicar. Emrys frustrara o seu plano de dominar Camelot, acabara com a sua vida e ganhara o suporte da criatura que ela tinha como mais querida.

—Aithusa, se recusa a me ajudar?

—Morgana, você dará continuidade a essa guerra?

—Sim! É lógico que sim!

—Então eu me manterei distante. Não quero que nada de mal lhe aconteça e lembre-se, é inútil tentar usar o poder de qualquer dragão contra Camelot.

—Pelo menos enquanto Emrys existir. É como as coisas são hoje. Mas, Aithusa, isso pode mudar.

Aithusa se afastou. A magia de Morgana parecia fluir em meio à sua torrente de malícia e ódio. Vários sacerdotes, antes escondidos atrás de rochas e arbustos, mostraram-se ao redor do dragão e iniciaram, sem demora, o feitiço.

O dragão abriu as asas, mas pareciam pesar toneladas. Uma fumaça agonizante saiu de sua garganta quando tentou lançar suas chamas contra a bruxa e cambaleou no que foi a esperança de acertá-la com suas presas.

—Um Dragon Lord controla, mas um poderoso feitiço também pode controlar!

—Aprisionar! —corrigiu o dragão.

—Emrys já tirou muito de mim! Não vai tirar você também! —afirmou.

—Ele não tirou. Ele me deu liberdade!

Como que tomada pela cólera, Morgana tirou a adaga enfeitiçada da bainha. Aproximou-se do animal abatido e fincou o metal em seu peito.

Aithusa rugiu de dor.