Aprendiz De Feiticeiro
5 Avalon
Arthur sentiu o tato na ponta dos seus dedos. Parecia que era a primeira vez na vida que conseguia preencher completamente seus pulmões com ar. Moveu-se aos poucos e se levantou. Sentando-se no chão.
—Parece que o efeito do feitiço acabou. Como se sente?
Ele olhou para Kara. Ambos foram jogados naquela carroça de carga e trancados na cela. Os homens lançaram feitiços suficientes na tranca para se certificarem que não conseguiriam escapar.
O príncipe esteve acordado por todo o tempo. O efeito de paralisia o impedira, inclusive de dormir. Viajavam há mais de um dia. Sentia-se completamente exausto.
—Melhor. E você? —perguntou, com a voz um pouco rouca pela secura na garganta.
—Eu estou bem...
Ele notou uma boa dose de compaixão nos olhos dela. De certa forma, cuidara dele como pôde. Ele se sentia um tanto grato, sentimento que não o confortava o suficiente pela perda de Bern.
—Eu sinto muito pelo seu servo—disse ela. Não sabia se era momento ou não. Mas queria dizer aquilo há tantas horas que não conseguia mais se impedir.
—Meu amigo—corrigiu ele, olhando atentamente a tudo em volta. Pela primeira vez podia observar aqueles homens de verdade. Lembrou-se da conversa de Merlin com sua mãe. Concluiu que deviam ser os druidas da facção. Seja lá o que aquilo significava.
Havia um homem conduzindo a carroça. Dois andando a pé, ao lado da cela. Três vinham cavalgando atrás. Ele notou que todos tinham uma tatuagem em comum no pescoço ou no braço: achou que a letra lembrava um M.
—Ei! Para onde estão nos levando? —perguntou àquele que caminhava ao lado deles.
Não houve resposta.
—Eu exijo saber onde estamos sendo levados!
Os homens sequer piscaram.
—O que é essa tatuagem de vocês? O que esse M significa?
Exaltado, o homem precipitou-se agarrando Arthur pela gola da roupa e o puxando para junto das grades:
—Algo que essa sua boca impura não é digna de pronunciar!
E o soltou.
—Descanse agora, Arthur Pendragon. A viagem é longa e teremos um longo dia pela frente! —disse o líder, a cavalo, logo atrás deles.
—Porque estão fazendo isso? Já sei que não querem um resgate de Camelot!
—Não queremos. Mas, isso não será explicado por nós. Quando chegar a hora, a pessoa certa explicará tudo a você. Agora, descanse. O seu futuro não será tão generoso com você quanto este momento de tranquilidade que está tendo agora.
.o.
Abriu os olhos um pouco abobalhado. Sentia várias dores no torso, mas ainda assim era como se tivesse tido uma noite de sono calma. Como se toda a paz do mundo reinasse à sua volta. Viu que alguém colocava alguma substância em sua barriga. Não teve discernimento para saber quem era. Foi puxado e posto em cima de um cavalo. Num trote gentil, mas veloz, percebeu o vento batendo no seu rosto. Seu estado febril o fazia se incomodar com tudo aquilo. Entretanto, a confortável sensação de segurança e tranquilidade compensavam qualquer outra sensação ruim.
Piscou e já era noite. Sua visão parecia reestabelecida. Olhou para o si próprio: sua roupa rasgada o permitia ver seu corpo intacto. Sentiu-se confuso e ouviu o barulho da chama trepidar. Era a fogueira acesa próxima a ele.
—Como se sente, Bern?
O rapaz encarou o mago e suas lembranças vieram à tona:
—Arthur está em perigo! —exclamou tentando se levantar, com grande agitação. Merlin o empurrou pelos ombros para que não tentasse se levantar.
—Eu sei, fique calmo. Estamos indo até ele.
—Eu estou bem. Não tenho mais nenhum ferimento—argumentou, para que o deixasse sair daquele chão fofo pelas folhas secas.
—Você não teve um ferimento comum. A arma que te atingiu estava enfeitiçada. Eu curei o ferimento, mas ainda há vestígios da magia. Estou retirando aos poucos.
—Está? —surpreendeu-se.
—Se eu tirasse de uma só vez, você não suportaria. Mas, não se preocupe com isso. Você ficará bem.
—Você está se atrasando por minha causa. Já teria alcançado Arthur se não fosse por mim! Deixe-me aqui! Eu posso voltar sozinho agora.
—Não, não pode! Se você sair de perto de mim, não vai resistir ao feitiço.
—Estamos indo atrás de Arthur mesmo?
—É claro— respondeu Merlin. Perguntou-se se em seus dias como servo de Arthur teria tido a mesma expressão desesperada, que aquele garoto aparentava, quando o rei passava por algum perigo. Depois, perguntou-se se ainda hoje teria a mesma expressão pelo filho dele.
—Mas, como sabe onde ele está?
Merlin riu:
—Eu sou bom em seguir rastros.
A verdade era que havia evoluído tanto que podia ver há quilômetros de distância. Arthur estava há menos de um dia de distância. Se tanto ele quanto os druidas da facção continuarem no mesmo ritmo, conseguirá alcançá-los na tarde do dia seguinte.
Bern se sentia seguro com Merlin e não podia imaginar que o sentimento dele era completamente inverso. Olhava de tempos em tempos para frente, enxergando os druidas que levavam o príncipe. Temia pelo destino que eles tentavam alcançar: a bifurcação há poucos metros diria se os druidas iriam ou não atrás de um destino catastrófico. Lembrou-se de Freya. Não conseguia se sentir otimista.
.o.
Na manhã daquele dia ensolarado, os druidas tomaram o caminho da esquerda, selando o destino dos cinco reinos. Arthur dormia naquele cela móvel, sem imaginar a importância daquele momento.
Mal se alimentara e sabia que Kara também devia estar faminta. Seus raptores pareciam não se importar se morressem de fome. Cansados, não acordaram com o movimento da carroça.
Quase ao meio dia, a carroça parou e ambos foram acordados. A cela foi aberta.
Arthur nunca imaginara um lugar como aquele: o dia era ensolarado e quente, mas acima do lago que se mostrava à frente deles uma névoa parecia tentar esconder a ilha distante. Acima dela era possível ver que uma construção majestosa despontava.
Um dos homens murmurou um feitiço e uma embarcação vazia se aproximou da margem.
—Que lugar é esse? —perguntou Arthur, imaginando que não viria uma resposta.
O líder, cheio de orgulho, respondeu:
—Chama-se Avalon!
Todos subiram na embarcação e puderam notar uma pequena turbulência na água. Algo os tentaria impedir de chegar ao seu destino. Os druidas começaram uma oração e a turbulência parou. Sem remadores, o barco moveu-se em direção à ilha.
—Aproveite sua última viagem, Arthur Pendragon! —falou o líder. Era o único que não lançava feitiços no lago.
Kara agarrou o braço de Arthur, assustada. Ele respondeu para o homem:
—Minha? Façamos o seguinte, eu não ofereço resistência e vocês a deixam ir... Ela não deveria estar aqui. Não tem nada a ver com o que quer que vocês queiram de mim!
—Você não é capaz de oferecer resistência a nós. Então, isso não é um acordo válido. De qualquer forma—continuou, voltando-se para Kara. —Sua vida deve estar sendo muito mais interessante agora do que jamais antes foi. Está disfrutando de privilégios de nobres: esta embarcação, por exemplo, já foi o jazigo de um rei.
Arthur ignorou aquele homem, já estava começando a acreditar que ele era uma espécie de maníaco psicopata. Olhou para o lago, desejando que algo ali pudesse ajudá-lo. Que algo o fizesse se sentir seguro para tentar usar magia. Até tentou chamar por Merlin algumas vezes, mas não pôde alcançá-lo com sua mente mais uma vez...
O barco parou na margem da ilha. Arthur sentia-se cada vez mais confortável de estar naquele lugar. Tudo era tão incrivelmente mágico que não se sentia capaz de odiar aquela situação em sua totalidade.
Outros homens esperavam-nos na margem. Diferente dos druidas guerreiros que os levaram, aqueles usavam vestes impecáveis e tinham expressões bem mais amigáveis. Eram sacerdotes da Antiga Religião.
O líder foi até um deles e cumprimentaram-se com um empolgado aperto de mão.
—Vocês chegaram mais cedo do que esperávamos. A nossa deusa ficará satisfeita de retornar antes do planejado! —disse o sacerdote, observando Arthur à distância.
—Pois não a façamos esperar mais tempo!
—Levem o rapaz até o pátio. Logo tudo estará pronto para o sacrifício!
.o.
Bern percebeu a preocupação se acentuar nas feições de Merlin naquela manhã. Cavalgaram mais rapidamente:
—O que aconteceu?
—Vamos tentar encontrar Arthur mais cedo!
Ele viu o caminho que os druidas tomaram. O caminho para Avalon. Teve uma estranha sensação de peso na altura do estômago: desde a morte do seu melhor amigo, nunca mais retornara àquele lugar.
Apesar da corrida à cavalo, Bern parecia não mais se incomodar. Quanto mais se aproximavam de Avalon mais a magia de Merlin aumentava. Mais fácil e seguro era neutralizar a magia negra que corria nas veias do rapaz.
Alcançaram o lago naquele início de tarde. Ambos desceram do cavalo. O mago foi até a margem e murmurou um feitiço, mas nada aconteceu. Nenhum embarcação atenderia o seu chamado.
—Bern, você terá que esperar aqui.
—O QUE? Mas, eu não posso, eu...
—Já neutralizei toda a magia que podia te prejudicar. Você está totalmente curado. Pegue o cavalo e volte para Camelot!
—De jeito nenhum! Arthur está lá, precisando de ajuda!
—Exatamente por isso você precisa ir! —pensou rápido. Tinha que fazer o rapaz se afastar daquele lugar: — Têm cavaleiros procurando por Arthur. Você precisa avisá-los desse lugar.
—Eles podem seguir rastros!
—Bern, eu preciso que você faça isso.
O rapaz engoliu seco. Parecia sério. Afirmou com a cabeça e montou no cavalo, tomando o caminho de volta.
Sozinho, Merlin foi até a borda do lago. Parecia fora de propósito tentar nadar até a ilha. Deu as costas e começou a invocar a única solução que conseguia imaginar:
—Drago...
—Merlin!
Ele interrompeu antes de terminar a primeira palavra que chamaria por Kilgahrrah. A voz viera de trás dele, da margem do lago onde antes não havia ninguém. Virou-se cheio daquela alegria misturada com tristeza e contemplou a imagem tangível e viva:
—Freya?!
Era como se estivesse viva. Subiu à margem e seu corpo imediatamente se secava sem a ajuda de sequer uma brisa. Eles se aproximaram e juntaram as palmas de suas mãos, como se tivessem alcançado o impossível.
—Como...? —perguntou ele, muito feliz, mas confuso.
—Você não sente, Merlin? A mágica é tão forte aqui que eu pude construir essa existência, mesmo que eu não esteja...
—Viva—concluiu ele, abaixando o olhar para aquela mão junto à dele. Parecia tão humana e real...
Naquela Avalon, quiseram que o mundo fosse tomado pela fantasia dos mortos que retornam. Uniram-se num beijo para tentar acabar com a saudade de duas décadas. Ainda que o mundo estivesse mais mágico que nunca, ambos sentiram o peso da tristeza em seus corações: logo teriam que se separar novamente.
—Eu entendi o que aconteceu. O véu para o mundo dos mortos virou uma linha tênue. A energia dele é sugada por este mundo o que aumenta a presença da magia, mas danifica o outro lado. Isso machucou você, não foi, Freya?
Ela deu um sorriso:
—Valeu a pena, eu pude te ver mais uma vez...
—Eu vou consertar tudo isso... —disse, por mais que quisesse que aquela existência dela continuasse.
—Mas, Merlin, eu preciso te avisar: isso não é tudo. Porque o véu está quase se desfazendo, nossos mundos estão muito próximos. Trouxeram um jovem príncipe para cá.
—Eu desconfiei, um sacrifício para abrir o véu de uma vez. Eu não vou deixar isso acontecer.
Ela afirmou:
—Eu posso te levar para a ilha. O mundo dos mortos não tem espaço e nem tempo. Com toda essa mágica ao nosso redor eu posso ir para lá e voltar. Então vamos pegar um atalho!
—Como? —surpreendeu-se.
—Só me abrace! Eu cuido do resto.
Ele a abraçou, não só pela ajuda que lhe seria dada, mas com toda a vontade de não precisar soltá-la nunca mais.
—E, Merlin, feche os olhos. Não os abra durante o caminho, não importa o que aconteça, ok?
O mago fechou os olhos e sentiu o seu corpo flutuar. Logo, não havia mais chão, ar, luz, ou qualquer som. Não havia sequer temperatura.
—Adeus, Merlin... —ele a ouviu.
Respirou e o ar havia se normalizado. Abriu os olhos: estava na margem da ilha, bem no centro de Avalon. Percebeu, ao lado dos seus pés, a Excalibur fincada no chão: a última ajuda que Freya era capaz de proporcionar. Ele apanhou a espada e deu uma última olhada para o lago. Voltou-se para a majestosa construção, sentindo-se poderoso para salvar o universo inteiro. Foi quando o céu se enegreceu, a temperatura caiu e o mundo dos vivos pareceu tornar-se um imenso sepulcro.
.o.
O templo escondido pelas névoas sequer eram tocados por elas. Era fácil para Arthur, agora, ver a majestosa construção. Naquele espaço descoberto, havia um altar e os sacerdotes se posicionaram em torno dele.
Antes de entrarem naquele espaço, acorrentaram o príncipe usando magia. Quando ele tentava escapar por meio mágico ou comum, a corrente apenas o apertava mais. Kara, amarrada, era vigiada em um dos cantos daquele santuário por um dos druidas que os raptaram.
Os druidas largaram Arthur e os sacerdotes o apanharam e o levaram até o altar. Eles iniciaram um feitiço cantado, bem baixo. O príncipe gritou todos os feitiços que conseguia se lembrar, mas ele estava completamente neutralizado pela magia dos sacerdotes.
—Esperem! Vocês prometeram que me explicariam o porquê de tudo isso! Eu vou ser sacrificado por quê?
Os sacerdotes não se deixaram interromper. Um dos druidas ousou falar:
—Você saberá!
—Não me faça de idiota, eu sei que vou morrer!
Nisso, um dos sacerdotes levantou uma adaga.
—Você saberá! —repetiu o mesmo homem.
E a mão do sacerdote desceu no peito de Arthur, com a adaga atravessando-o. Ele sentiu uma dor latente, um desespero imenso, um medo desmedido e uma revolta contra a sua honra: sempre imaginou que se tivesse que morrer pelas mãos de alguém, seria em batalha, e nunca de uma maneira covarde como aquela.
O sacerdote pousou a outra mão no peito de Arthur e a levantou lentamente, 'puxando' uma fita de sangue dele e a depositando em um cálice. Em seguida, ele voltou a tocar o seu peito e murmurou um feitiço. A ferida se fechou completamente.
—O sangue extraído do peito do guerreiro mais honrado de sua geração—anunciou o sacerdote levantando o cálice. —Agora é o momento!
Os sacerdotes deram as costas para Arthur e começaram a gritar feitiços. O rapaz viu, bem acima do seu corpo, como se o próprio espaço se rasgasse num sorriso negro e maligno. O dia se tornou noite e tudo ficou muito frio. Do breu daquela nova realidade distorcida, as palavras dos sacerdotes moldavam um corpo que se construía pouco a pouco diante dos seus olhos: a pele branca daquele rosto tão belo o malévolo contorceu-se numa gargalhada e a mulher que surgiu estendeu a mão para o homem que segurava o cálice.
Ele entregou, prostrando-se diante dela.
—O cálice da vida...! —disse ela, deliciando-se daquela ideia, com sua voz feita de gelo e impiedade.
Bebeu o líquido sem pudores pela impureza do seu ato. Sentiu a vida correr em suas veias.
Todos os sacerdotes e druidas se ajoelharam. A escuridão se desfez. O dia retornou e todos ficaram em silêncio por um longo momento. Então, o sacerdote que lhe entregara o cálice, gritou:
—A nossa deusa está de volta! Vida longa à Morgana!
Todos gritaram em coro:
—Vida longa à Morgana! Vida longa à Morgana! Vida longa à Morgana!
Ela fez um gesto para que se calassem:
—A magia deste mundo que estamos criando é forte! Logo trarei a vitória para os nossos iguais! Seremos livres para sempre da tirania daqueles que nos reprimem!
Morgana deu passos lentos até o altar onde Arthur estava deitado. Fez um gesto com a mão e as correntes caíram, derrotadas:
—Você sabe quem eu sou, não sabe, Arthur? É hora de conversarmos, meu sobrinho!
Ele se sentou. Estava desarmado e sabia que tentar usar magia contra ela seria inútil. Tremeu diante do seu poder, mesmo que nunca admitiria isso sequer para si mesmo. Ainda assim, soube manter uma expressão pouco simpática para a bruxa.
—Você se parece tanto com o seu pai! —continuou ela, querendo fazer um carinho em seu rosto, mas ele se esquivou. Ela riu: — Eu não vou te fazer mal. É graças a você que eu pude voltar à vida! O sangue que um dia foi meu retornou a mim. O sangue dos Pendragon. E Arthur, irá valer a pena.
—Tenho certeza que você tentará fazer valer—afrontou.
—Não me odeie. Não vê que eu sou mais próxima a você do que qualquer um? Você possui magia, como eu! Não como qualquer outro que você considere hoje uma família! E eles sabem disso?
Arthur se calou. Não tivera coragem de contar à sua mãe. E sabia que ainda não tinha.
—Arthur, meu querido! Eu amei o meu irmão. O seu pai! Mas, ele sempre me odiou. Nós sempre seremos odiados pelo o que somos! Vim para mudar isso! Quero você lutando ao meu lado, Arthur! Criaremos um mundo novo!
—Eu posso ter magia. Pode ser que um dia eu seja morto por isso. E que até a minha mãe me renegue pelo o que eu sou! Mas, Morgana, eu sei bem quem você é! Eu posso perguntar a qualquer pessoa em Camelot como foi o seu reinado nos dias em que você destronou o meu avô. Quem reprimiu o povo foi você!
—Você é cego para os seus iguais! Ulther assassinou crianças e mulheres apenas por ter magia!
—Eu nunca disse que ele estava certo. Mas, você também nunca esteve certa! Com ele uma parcela do povo sofreu. Com você outra sofrerá! Não, Morgana. Lamento eu ter vivido para que você pudesse voltar para este mundo! Eu nunca ficarei do seu lado!
A face da gentileza falsa de Morgana se azedou:
—És tão tolo quanto o seu pai! Levem ele daqui! Vocês sabem para onde!
Os druidas avançaram no rapaz e o arrancaram do altar. As correntes novamente o envolveram e ele não teve escolha a não ser ser empurrado para sair de lá.
—Arthur! —chamou Morgana, uma última vez, o príncipe se virou para ouvi-la: — A vida miserável com a qual vou te presentear não será o suficiente. Então sabia disso: Saiba que eu criei a espada que matou o seu pai! Saiba que fui eu quem impedi que ele fosse salvo por Emrys! Saiba que eu fui muito poderosa, mas hoje eu sou imensamente mais poderosa! Eu fui uma bruxa! Hoje eu sou uma deusa! Eu vou me certificar que não viva sem sofrimento neste mundo ninguém que você ame! Saiba de tudo isso, E SOFRA!
Os homens o puxaram para que ele não tivesse chance de resposta.
—Saiam todos vocês!
Os druidas saíram, levando Arthur e Kara. Fazendo o caminho, por dentro do santuário, de volta para a margem do lago.
—Minha senhora—começou um dos sacerdotes, mas Morgana levantou sua mão para que se calassem. Ela olhava em volta, como se procurasse por alguma coisa.
—EMRYS! —gritou ela. —APAREÇA!
Merlin simplesmente saiu de trás de um dos pilares que enfeitavam o santuário.
—Sempre sorrateiro, Emrys.
—Para uma "deusa" eu esperava que você tivesse me notado mais cedo.
—Não seja pretencioso, ainda no outro plano vi você e aquela garota ridícula, juntos. Você achou que iríamos abrir o véu entre os mundos. Esteve errado esse tempo todo, Emrys. Eles queriam a mim. Eles me queriam de volta!
—Não vejo porque, o mundo virou um lugar bem melhor sem você.
—NÃO OUSE ME AFRONTAR, VOCÊ QUE É O TRAIDOR DA PRÓPRIA ESTIRPE! Eu vi tudo do outro mundo! Você e a Gwen planejando o futuro deste mundo. E QUAL MUDANÇA VOCÊ TROUXE? Você tem magia como poucos já tivera e RENEGA quem você é! Se esconde! Você era SERVO de Arthur. UM SERVO!
—E eu tinha orgulho! Não vou esperar que alguém como você me entenda, Morgana!
—É o seu fim, Emrys! Eu devia ter matado você desde a primeira oportunidade que eu tive!
—Você está enganada, Morgana. Eu tive várias oportunidades para matar você. Você quem nunca teve poder para sequer relar em mim!
E num movimento da mão dele, seus olhos alaranjados anunciaram a forte magia que lançou todos os sacerdotes para longe. Chocaram-se nas paredes e caíram desacordados. Mas, a bruxa sequer se moveu.
—Isso é tudo o que você tem, Emrys?
Ele sacou a Excalibur:
—Ela já acabou com a sua vida uma vez e não vai errar de novo!
Morgana estremeceu. O destino a apunhalara uma vez, mas não voltara do mundo dos mortos para deixar-se ser derrotada.
Merlin avançou. Morgana fez a terra tremer. Ele interrompeu o tremor e fez uma das colunas se chocarem contra ela. Os olhos dela brilharam e a coluna se quebrou em seu próprio corpo, sem que ela sofresse sequer um arranhão. Ela lançou os cacos da coluna como uma chuva de estilhaços para cima dele. Ele as atirou para cima e, já muito mais próximo da bruxa, avançou com a Excalibur. Ele ouviu o som da espada transpassar o corpo.
Merlin olhou para baixo sem entender o que era aquela dor que sentia: quando avançou com a espada, Morgana invertera a lâmina e a posição dela por meio de magia. O golpe que atingiria a bruxa simplesmente ajudou a afundar a espada no corpo de Merlin, que caiu de joelhos diante dela, sentindo o golpe da poderosa espada. Ela cochichou no seu ouvido:
—Agora sim, você está no seu devido lugar.
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