—Não seria melhor ter perguntado ao próprio Merlin? —teve coragem de dizer Bern, após três horas de cavalgada.

—E contar para ele que ouvi a conversa dele com a minha mãe? Está louco?

—Mas, você esperou todo aquele tempo para aquele homem chegar em Camelot! E quando ele chega você simplesmente perde um dia inteiro para ir atrás de outra coisa!

—Me diga que não ficou curioso, Bern!

—Sim, fiquei. Mas...

—E eu não acho que teria conseguido não comentar nada sobre essa guerra se fosse conversar com ele. Preciso descobrir antes o que está acontecendo... Estamos perto?

—Sim.

—Então não vamos parar! Vamos! —chamou forçando o cavalo, que já começava a se cansar, a continuar.

De fato, não demorou até avistarem o modesto agrupamento de casa. Uma mulher, ao vê-los, largou o cesto de roupas no meio do caminho e veio correndo. Bern desceu do cavalo e ela o abraçou:

—Meu filho! Que saudades!

Arthur também desceu do cavalo:

—Meu senhor! —disse a mulher.

—Estamos apenas de passagem. Bern, porque não aproveita para passar um tempo com a sua mãe? Vou dar umas voltas por aqui enquanto isso.

—Mas... —ia reclamar o servo, receoso do perigo.

—É muito generoso, senhor! —cortou-o a mãe do garoto, que o arrastou com ela para dentro de casa.

Arthur olhou em volta e percebeu que cometera um erro: chegando com Bern todos perceberiam que ele é o príncipe. Temia que ninguém diria nada à ele, então precisava encontrar alguém que não o reconhecesse.

Passou pelos moradores, cumprimentando-os, e observou os arredores. Havia uma trilha que se afastava por entre a mata. Seguiu-a e não demorou a perceber o barulho de água. Alcançou a queda d'água que fazia o rio. Uma garota, distraída, lavava roupas sobre uma das pedras da borda.

O príncipe soltou o cantil de sua cintura e mergulhou-o na água. Ela ainda parecia não notá-lo.

Queria aproximar-se dela como quem não quer nada. De fato, seria melhor se ela tivesse algum motivo para falar com ele. Foi quando teve a ideia: uma suave brisa bagunçaria os cabelos dela e ela moveria o olhar da sua tarefa para arrumá-los, então, daria de cara com ele!

"Ótima ideia!", pensou, orgulhoso consigo mesmo, seus olhos tomaram uma cor alaranjada... A forte rajada de vento balançou as árvores e arrancou diversos galhos, as roupas escaparam das mãos da garota e ela, sobre a pedra molhada, perdeu o equilíbrio e escorregou para dentro do rio.

Arthur entrou em pânico: conseguiu cessar o vento, mas a correnteza, obra da própria natureza, levava a moça que gritava para longe. Ele correu pela margem tentando alcançá-la. Em algum ponto teria de encontrar com algum tronco que o permitisse puxá-la para cima! Mas, por mais que corresse, era difícil demais pôr-se à frente dela. O rio era mais veloz que o príncipe.

Os gritos cessaram e ele percebeu a garota sumir. Atirou-se na água: no fundo do rio, pôde enxergar o corpo que se debatia sem conseguir emergir: seu vestido prendera em uma planta. Com a ajuda da correnteza, foi fácil para ele alcançá-la enfim. Puxou com força o vestido rasgando-o e, envolvendo a cintura dela num abraço, nadou para cima, onde os seus pulmões finalmente receberam ar.

A correnteza os levou por mais um trecho, mas o príncipe pôde agarrar-se em uma raiz e os dois conseguiram tirar seus corpos do rio.

Respiraram ofegantes por um tempo.

—Você está bem? —perguntou ele, cheio de culpa pelo o que acontecera com a moça.

—Sim, — respondeu, ainda tossindo. —Obrigada por me salvar!

Ele deu um sorriso, sem jeito. "Se ela soubesse...", pensou consigo mesmo.

—Vamos, vou te levar de volta para o vilarejo.

Ele a ajudou a se levantar. Ambos tremiam pelo frio de suas roupas molhadas. Começaram a caminhar pela borda do rio:

—Como se chama? —perguntou a moça.

—Arthur, e você? —rebateu logo, antes que ela pudesse sentir a falta de um sobrenome.

—Kara. Você não é do vilarejo, de onde é?

—De Camelot. Estou de passagem com o meu serv... amigo. Logo vamos voltar, as redondezas não são mais tão seguras, não é? —arriscou.

—Não são?

—Ah, bem, com todos os druidas por aí, sabe como é.

—Eu nunca vi um druida!—disse ela, rindo, achando aquele rapaz um pouco doido.

—Nunca se sabe, não é? A gente ouve coisas estranhas por aí quando viaja. Há quem diga que distante daqui uma guerra acontece—tentou, observando a expressão dela.

—Uma guerra?! Então espero que ela não chegue até aqui!

Ela parecia genuinamente surpresa e ele se sentiu desanimado: fizera tudo aquilo para nada.

—É verdade, que ela não chegue—concordou, tentando ser gentil.

Ele ouvir o farfalhar das folhas, mas julgou ser o vento. Sem saber ao certo de onde surgiram, homens pularam na frente deles e um habilmente puxou Kara para junto de si.

Arthur puxou sua espada. Eram cinco homens ao todo e ele não pensou duas vezes antes de começar aquela luta pela sua vida e pela proteção da moça. Entretanto, antes mesmo de conseguir derrotar o primeiro homem, aquele que segurava Kara chamou sua atenção:

—É melhor não reagir se não quiser que eu mate a garota! —disse, ameaçando o pescoço dela com uma adaga.

Imediatamente ele parou, soltou a espada e se rendeu, colocando as mãos para cima. Odiou-se por um bom tempo por não conseguir controlar a própria mágica. Se pudesse fazer o homem soltar a adaga... Não teve coragem de arriscar. Um deles apanhou a espada:

—Veja só isso, estamos diante de um nobre!

Os homens riram. Arthur ardia de raiva por ter que se render àqueles que julgava serem bandidos imorais.

—Qual o seu nome, jovem?

—Sou Arthur Pendragon, príncipe de Camelot!

Todos pararam de rir.

—Não brinque garoto!

Mas o olhar e a expressão de orgulho que só poderia pertencer a um príncipe confirmaram a afirmação dele.

—Amarrem o príncipe! E a garota também! —disse o que ficara calado até então: — Parece que vamos faturar muito mais do que imaginávamos!

—Podem pedir um resgate para Camelot, mas os cavaleiros irão caçá-los até levá-los à justiça por este e outros crimes que certamente cometeram! —ameaçou, enquanto amarravam suas mãos nas costas.

—Não vamos pedir um resgate. Você é muito mais valioso fora do reino que em Camelot!

—Como...? —murmurou, mas já o empurravam para dentro da floresta.

Tentou ver a moça atrás de si. Ela não parecia ter sido machucada. Logo, alcançaram uma estrada e uma carroça de carga os esperava. Os bandidos os fizeram subir na carroça. Um dele apanhou duas faixas de pano e os vendaram. Sem saber aonde iam, foram levados para muito longe de lá.

.o.

Merlin desceu do cavalo e o amarrou em uma árvore. Levou quase a tarde toda para chegar até as proximidades da Caverna dos Cristais.

A entrada estava bloqueada, como Morgana deixara há quase duas décadas. Murmurou algo inaudível e uma fonte de luz apareceu em suas mãos e flutuou para a sua frente: teria de encontrar a saída que criara da última vez.

Não foi uma tarefa fácil: logo a tarde escura tornou-se o breu da noite sem estrelas. Mesmo assim não parou. Pôde sentir a aflição na alma de Freya. O que quer que fosse, não conseguiria parar até descobrir.

As plantas se encolheram ao seu comando e revelou-se um buraco no chão, em meio às rochas. Entrou por ele cuidadosamente: atitude vã, já que escorregou logo no começo de sua descida e rolou até em baixo. Ignorou seus novos arranhões e se levantou.

Ninguém estivera lá depois de Merlin. Ao menos era o que parecia a ele. Mas, os cristais já não brilhavam tanto: mantinham uma cor bege que mudava de intensidade de tempos em tempos. Sentiu-se imediatamente incomodado: ali, no berço da magia, algo não parecia natural.

Olhou para um dos cristais: sentiu um enjoo forte e teve que desviar o olhar. Não havia previsões, apenas o vazio. Como se o futuro estivesse preenchido de nada.

Lembrou-se que nas vezes em que estivera na caverna, recebeu a ajuda de outras pessoas: de um mago poderoso e outra vez até mesmo de seu pai. Esperou por um tempo, na esperança que alguém aparecesse e após algum tempo, até gritou por alguém.

Nada aconteceu. Parecia que a voz de Merlin não atingia a lugar algum.

Era como se a mágica do mundo estivesse doente...

Saiu da caverna, e se afastou da caverna. Seu mal estar diminuía, como se abandonasse o ponto de desequilíbrio. Quando esteva mais próximo de Camelot, parou em um campo aberto e gritou em sua linguagem compartilhada com o ser mágico:

Dragon, eh male! —e continuou sua invocação, até ao longe ver se aproximar, num voo débil pela idade avançada, Kilgahrrah, o dragão.

—Há quantos anos, poderoso mago! Pensei que havia se esquecido completamente de mim! A que devo a honra?

—Há algo de errado com a mágica do mundo.

—Hum. De fato há mudanças, mas não sei se está "errado".

—O que quer dizer?

—Ora, Merlin. Eu ainda estou vivo. Velho, mas vivo. Sou feito de magia pura, logo, as mudanças fluem em mim. Por isso ainda vivo! Senão teria partido há pelo menos uma década! A mágica está ficando mais "poderosa". É mais forte do que antes. Você não sente?

O mago pensou por um momento. De fato sentia-se muito mais poderoso do que há um tempo atrás, mas atribuíra isso apenas ao seu próprio avanço.

—Mas, agora eu vejo que o equilíbrio do mundo está sendo afetado.

—Eu apenas sinto a força e o poder! —disse o dragão, balançando a asa que ainda estava intacta.

Merlin também era filho da magia. Ao menos, foi o que seu pai lhe dissera. Assim como Kilgahrrah, também se sentia confortável com aquela alteração na magia. Aproximou-se do dragão e pousou a mão em sua asa danificada.

—Isso é por causa da idade—disse o dragão, mas o mago o ignorou.

Numa luz intensa que surgiu, a asa parecia completamente reconstituída.

—Mas, como?... —surpreendeu-se o dragão.

—Você mesmo disse que a magia está mais poderosa do que nunca... —explicou-se, Merlin.

Nem mais o tempo podia vencer o seu poder.

Como se tivesse rejuvenescido anos, o dragão imponente levantou voo. E voou até não mais ser visto.

.o.

A carroça parou. Foram tirados dela sem nenhuma gentileza e jogados no chão. Um dos homens arrancou suas vendas. Era de noite, eles acamparam para descansar e comer.

Libertos de suas amarras, tiveram um curto tempo para jantar, e logo depois foram amarrados mais uma vez. Os bandidos os largaram há uns dois metros e se reuniram em volta da fogueira. Cochichavam seus planos enquanto um ou outro os espiava de vez em quando, para ter certeza de que não fugiriam de lá. Arthur percebeu que aquela era uma boa chance para tentar escapar. Mas, teria que usar magia na frente da moça... Decidiu esperar por uma melhor oportunidade.

Desistindo de tentar ouvir a conversa inaudível deles. Arthur se virou para a moça:

—Sinto muito por tudo isso.

Ainda não tivera a chance de observá-la desde que foram raptados: os cabelos castanhos encaracolados estavam ainda mais bagunçados do que quando saíram do lago, a pele clara exibia alguns arranhões e os olhos amendoados pareciam assustados. Ainda assim ela sorriu, gentil:

—Não é sua culpa. Ele que são os criminosos.

Arthur afirmou, grato pelo ponto de vista dela.

—Eu prometo que vou te levar de volta para casa em segurança!

—Porque você não me disse que era o príncipe de Camelot?

—Bem, eu não queria contar vantagem logo de início—disse num orgulho que estragara o possível charme do olhar que lançara.

—Não estaria contando vantagem. Nobres não fazem o meu tipo—rebateu, orgulhosa.

Não teve tempo de ter qualquer reação: um dos homens se levantou bruscamente e avançou numa moita próxima, enfiou sua mão nele e o garoto que lá estava escondido não teve chance de fugir.

—ME SOLTE! —berrou Bern.

—Quem é você paspalho?

—Eu sou o servo do príncipe! Vocês estão perdidos! Quando os cavaleiros encontrarem vocês...

—Então esse imbecil avisou aos cavaleiros! —gritou outro deles: — Vamos enforcá-lo!

Bern se deu conta da gafe: na verdade, vira-os na estrada e simplesmente os seguira, sem avisar a ninguém.

—Parem todos vocês! Não vamos perder tempo com isso. Matem logo esse moleque!

—ESPERE! —berrou Arthur.

Diante do grito, os homens se calaram e observaram o que o jovem príncipe teria para dizer, com uma boa dose de diversão em suas expressões.

—Esse rapaz obviamente disse essas coisas para se proteger! Ele não é meu servo, eu nunca o vi antes!

—Senhor... —murmurou Bern, sem entender.

—Então, você nega que esse imprestável é seu servo?

—Sim! Ele deve ser só uma pessoa desavisada que cruzou o seu caminho! Não precisa matá-lo por isso!

O homem que costumava dar ordem nos outros se aproximou de Arthur:

—Interessante. Você está inventando uma história para proteger a vida de um servo. Não seria mais fácil deixá-lo morrer? Assim você me irrita e se arrisca!

—Já disse que nunca vi esse rapaz!

—Então, como ele sabe que há um príncipe aqui?

Arthur se calou.

—Hahaha! Não se preocupe, príncipe de Camelot! —disse ele andando até Bern. —Não vamos matar o seu servo, não é?

Antes que Arthur pudesse ter qualquer reação, o homem tirou a adaga da sua cintura e a enfiou na barriga de Bern. Kara deu um grito. Os bandidos riram. O corpo do rapaz pendeu para frente e caiu inerte.

O príncipe pôs-se de pé. Os homens pararam de rir quando perceberam que as cordas que o prendiam caíam queimadas por línguas de fogo. Arthur os encarou e eles puderam ver seus olhos mudarem de cor: furioso, lançou-os para longe.

Correu até Bern: o sangue saía sem controle pelo seu ferimento. Tentou pressionar, mas o corte fora muito profundo.

—Não sei o que fazer! Eu não sei o que fazer! —disse para o amigo, como se assim o pudesse fazer ao menos acordar.

—Me desamarre! —pediu Kara. —Eu vou te ajudar!

Esquecera-se completamente da garota. Confuso, levantou para desamarrá-la:

—Você acabou de usar magia, queime logo essas cordas!

Era verdade. Não fazia sentido mais esconder magia dela. Queimou as cordas. Ela correu até Bern:

—Eu não sou curandeira. Mas, já cuidei de um cavalo uma vez!

—De um cavalo? —perguntou Arthur, horrorizado.

—Sim! Eu posso tentar costurar isso! Eu só não sei se atingiu algum órgão... Aí eu não saberia como costurar—e ela deu uma olhada para o ferimento, como se tentasse entender o que havia sido atingido, mas só conseguia ver mesmo sangue para todo lado.

—Você tem certeza do que está dizendo?

—Eu disse que já costurei a ferida de um cavalo uma vez! Ou eu faço isso, ou você tenta curar ele com magia!

—Eu não posso! Eu não controlo bem! Posso acabar matando ele!

Se Bern estivesse acordado, optar entre magia e a garota do cavalo não teria sido difícil... Para a felicidade dele:

—Arthur, eu não acho que vou encontrar nas coisas desses homens linha e agulha...

Ele encarou o amigo, com lágrimas nos olhos. Sequer sabia um feitiço de cura! Fechou os olhos, cheio de arrependimento. Pensou consigo: "Eu devia ter esperado mais! Conversado com Merlin. Eu não esperei por nada! Merlin saberia o que fazer! Merlin!".

Arthur? —ouviu a voz de Merlin. Olhou para os lados assustado: só estavam os três lá.

—Estou ficando louco!

—O que foi, Arthur? —perguntou Kara.

Arthur? Você me chamou!

Loucura ou não, ia agarrar aquele momento: quem sabe não seria insano o suficiente de criar naquele delírio a solução para o seu problema. Em pensamento, comunicou-se:

Merlin, eu preciso de um feitiço de cura!

O que aconteceu?

É urgente! Por favor! Meu amigo está morrendo!

O que aconteceu com ele?

Foi esfaqueado! Tem um ferimento imenso na barriga.

Repita "Licsar ge staðol nu".

Colocou as duas mãos sobre o ferimento do amigo:

— Licsar ge staðol nu!

Seus olhos brilharam. Passou a mão por cima e percebeu que o ferimento ainda existia, mas muito mais superficial. Imaginou se o feitiço curara tudo o que ali era vital. Bern abriu os olhos e gemeu.

Merlin! Deu certo! Merlin?

Não houve resposta. Qualquer que fosse a ligação que eles fizeram, acabara.

—Vou buscar algumas ervas para aliviar a dor! —disse Kara, começando a procurar pela mata e sumindo de vista.

—O que...? —gemeu Bern.

—Não fale. Você está machucado—falou Arthur, passando as mãos pelos próprios olhos e se recompondo.

Ouviu o farfalhar e se virou:

—Kara, conseguiu encontrar...?

Viu a moça rendida por outros homens. Passou os olhos em volta e viu que os que derrotara ainda estavam inertes no chão. Parecia azar demais para ser coincidência.

Esses homens não pareciam simples bandidos. Eram como os que os capturaram da primeira vez, com roupas negras e cicatrizes aparentes, e que só conseguiram fugir graças à ajuda de Merlin.

—Arthur Pendragon, você não irá reagir—falou o mais ameaçador se aproximando.

Ele se levantou numa postura defensiva. Aquilo foi o suficiente para que o homem interpretasse como uma reação. O príncipe percebeu os olhos do homem tomarem uma cor amarelada: perdeu a força nas pernas e sentiu uma paralisia generalizada. Arthur caiu no chão sem conseguir se mover.

Ao comando do líder, um dos outros amarrou a moça.

—E o rapaz ferido? Vamos levá-lo também?

—Não temos tempo para cuidar de ninguém. Mate-o.

Arthur ouviu o som da lâmina transpassar o corpo do seu amigo, sem sequer conseguir se mover para vê-lo uma última vez.