Aprendendo a ser pai
12 POV Milo
Notas iniciais
Eu estava ficando um pouco aflito. Eu sabia que aquela conversa seria difícil. Hyoga parecia extremamente arredio e magoado. E Camus estava desesperado para acabar com toda aquela história, além de estar nervoso com o fato de o Hyoga tê-lo desobedecido. Eu andava de um lado para o outro da sala, apenas esperando o final daquele drama. Eu pude ouvir os gritos dos dois, principalmente do meu patinho. Eu senti um aperto no peito ao perceber que provavelmente Camus perdeu a cabeça com o atrevimento do meu loirinho e estava punindo ele. Eu entendia Camus perfeitamente. Hyoga sabia ter a língua afiada quando queria. Eu mesmo já tive vontade de dar uns tapas nele uma vez ou outra, por conta de algumas respostas atravessadas. Mas aquele garoto era realmente a minha perdição. Eu sequer conseguia descrever quando foi que esse sentimento se tornou tão forte. Lembro-me da primeira vez que lutamos. Naquele momento já surgiu certo respeito por ele. À medida que fomos conhecendo-nos, foi surgindo àquela vontade de querer protegê-lo, de querer estar do lado dele em qualquer situação. E não foi por causa do que eu já sentia pelo Camus, foi algo que surgiu independente disso. O próprio Hyoga conquistou seu espaço em meu coração. Perguntava-me se ele tinha consciência disso. Embora eu o chamasse de filho, ele nunca correspondeu. Eu ficava divagando, pensando se ele cogitava algum dia retribuir esse sentimento. Mas aquele garoto era uma incógnita. Ele sabia esconder seus sentimentos muito bem. Por isso Camus chegou a duvidar se Hyoga realmente o considerava como pai. Aqueles dois eram mais parecidos do que eles imaginavam. Dois teimosos, isso sim.
Ouvi a porta do quarto se abrindo. Será que já tinham terminado a conversa? Não acreditava nisso. Eles realmente tinham muita coisa para resolver. Então o que poderia ser? Vi meu Gelinho se aproximando de mim com uma expressão cansada. Fui até ele e senti seu corpo praticamente despencando em meus braços.
– O que aconteceu, Camus? Já terminaram de conversar? – perguntei preocupado.
– Quem me dera. Aquele garoto só não é mais teimoso por falta de espaço. – disse Camus com um ar cansado.
– O que houve?
– Ele não quer conversar, Milo. Ele não consegue ficar calmo, ele não me deixa falar nada. Toda hora grita ou me dá uma resposta atravessada. Até me mandar a ir à merda ele mandou. – Camus disse e me surpreendeu. Hyoga não era de falar palavrão. – Eu estou tentando, mas ele está testando a minha paciência.
– O que pretende fazer?
– Ele quer que você fique conosco durante a conversa. Ele disse que talvez consiga ficar mais calmo com você por perto. Acho que ele está tão ressentido que só a minha presença é suficiente pra tirá-lo do sério.
Fiquei ainda mais surpreso com a decisão de Hyoga. Eu? Eu conseguiria acalmá-lo? Será que eu tinha esse poder? Será que ele me considerava a esse ponto? Não pude deixar de sorrir. Aquela notícia me deixou extremamente feliz. Então meu loirinho tinha, sim, consideração por mim. Ele me retribuía pelo menos de alguma forma. Eu tentaria acalmá-lo com todo prazer e alegria. Já não agüentava mais todo aquele sofrimento e angústia.
– Então vamos, Camus. Vamos acabar logo com isso. – disse puxando meu marido.
– Estou morrendo de inveja de você nesse momento, sabia? – Camus falava sorrindo, mas tristemente.
– Oh Gelinho! – abracei meu marido, tentando confortá-lo. – Agüenta só mais um pouquinho e tudo vai ficar bem. Acredite!
– Estou tentando, Milo. Estou tentando.
Ele me abraçou de volta e ficamos assim por alguns minutos. Eu podia sentir o desgaste de Camus. Tudo aquilo era demais para alguém como ele. Apesar de já ter melhorado bastante, Camus nunca foi do tipo que suporta “grandes” emoções. Ele sempre tenta manter tudo sob seu controle e situações como aquela realmente o afetavam bastante. Ainda mais por se tratar sobre seu menino. Hyoga não era só o meu ponto fraco, era de Camus também. Muito mais dele do que meu. E pensar que o todo correto cavaleiro de Aquário desobedeceu às ordens do grande mestre, durante a batalha das doze casas, e desceu até a casa de Libra apenas para encontrar com seu amado pupilo e lhe ensinar mais uma lição. E depois, novamente em desobediência, permitiu que os cavaleiros de bronze passassem por sua casa, apenas para ficar a sós com Hyoga. Não existia ninguém que pudesse fazer Camus agir daquela forma, senão Hyoga. Nem mesmo eu conseguia fazê-lo ter esse tipo de atitude. Será que Hyoga não percebia isso? Era até difícil de acreditar que aquilo estava acontecendo, dadas as proporções do carinho que um tinha pelo outro.
Subimos para o quarto e meu coração faltou sair pela boca com a imagem que vi. Hyoga estava sentado na cama, com as mãos entre os fios dourados e olhando para baixo com uma expressão extremamente desesperada. Não me contive. Soltei a mão de Camus e fui até Hyoga. Sentei-me ao seu lado e o abracei. Ele logo se virou para mim e me retribuiu o abraço. Ele estava tremendo. Não sabia se estava tentando conter-se ou se estava muito nervoso. De qualquer forma apertei o abraço, tentando passar segurança para meu patinho. Olhei para Camus, que já havia fechado a porta e nos olhava com a expressão mais tranqüila. Parece que agora ele conseguiria falar com Hyoga.
– O que foi, meu filho? O que você precisa de mim? – perguntei calmamente.
– Só esteja aqui, Milo. Sua presença é suficiente. – ele me olhou bem dentro dos olhos. Fiquei até constrangido com a profundidade daquele olhar.
– Bem, acredito que agora podemos conversar em paz, então, não é? – disse Camus chamando a atenção para ele.
Hyoga nada respondeu, apenas afirmou com a cabeça. Senti os músculos de seu corpo tencionar ainda mais, se é que era possível.
– Eu gostaria de criar uma contextualização nessa conversa para que eu não saia dizendo coisas completamente avulsas. Sendo assim, acho que podemos começar pelo que o levou a tentar se matar. – disse Camus seriamente.
– O que? Vai entrar nessa história de novo? – Hyoga se levantou revoltado. – Ah! Já entendi! Você veio com aquela conversa toda só para saber o que quer! Eu não vou cair nos seus joguinhos!
– Mas o que... – Camus ficou sem palavras.
Antes que meu marido se perdesse a paciência novamente, resolvi interferir. Hyoga não estava falando coisa com coisa. Estava muito nervoso e provavelmente acuado com toda aquela situação. Por isso tentava se defender atacando.
– Hyoga, por favor, fique calmo. – disse me levantando e guiando meu filho para sentar-se novamente ao meu lado. – Você precisa dar uma chance ao Camus.
– Ele só quer manipular meus sentimentos para que as coisas voltem ao controle dele. Não é justo! – Hyoga olhava ressentido para mim.
– Preste atenção no que você está dizendo, Hyoga. Acredita mesmo que Camus faria algo assim com você?
– Mas...
– Nada de “mas”. Você está magoado e por isso não está sequer ouvindo o que ele tem a dizer. Abaixe um pouco a sua guarda e ouça. – falei um pouco mais sério, mas ainda em tom compreensivo. Virei para meu marido. – E Camus, não acho que precisamos guiar essa conversar dessa maneira. Apenas diga o que tem a dizer e as coisas vão fluir naturalmente.
Camus suspirou profundamente. Eu tive que segurar para não rir. Ele não tinha o menor jeito com essas coisas. Eu lembrava quando a gente tinha começado a namorar. Ele era tão travado que eu quase tive que desenvolver a telepatia para tentar adivinhar o que se passava na cabeça dele. E quando a gente ia conversar, era sempre eu quem começava a falar. Com o tempo ele foi pegando o jeito e hoje a gente quase não tinha mais problemas com relação à comunicação de sentimentos. Mas com Hyoga era diferente. Era a primeira vez que ele tinha que se abrir assim para ele. Na cabeça de Camus tudo era extremamente claro e resolvido. Ele realmente acreditava que Hyoga já sabia o quanto era importante, o quanto ele já o considerava seu filho. Por isso nunca se preocupou em ter aquela conversa e para ele as coisas eram mais fáceis daquele jeito.
Vi meu marido com a cabeça baixa. Ele pegou uma cadeira e sentou-se de frente para Hyoga. Ele encarou o filho com um olhar tão profundo, que nem eu acreditei que seria possível ver tal cena. Hyoga ficou mais tenso ainda.
– Hyoga, eu sei que o que aconteceu essa semana lhe magoou muito. Eu peço perdão por ter praticamente lhe ignorado. Entenda, não era minha intenção! – Camus suspirou novamente. – Mas você me deixou desesperado! Você conseguiu me acuar de uma maneira assombrosa! Sua tentativa de suicídio me tirou do eixo. Eu comecei a me questionar se eu estava fazendo algo errado, porque não fazia nenhum sentido. Não entendi porque você escondeu isso de mim. Uma coisa tão séria! Será que não me considera importante? Será que eu me enganei ao pensar que nossa relação ia além de simplesmente mestre e pupilo? Perguntas desse nível passaram pela minha cabeça. – Camus levantou-se nervoso, passando a mão nos cabelos. – Tem idéia do quanto essa história toda me perturbou? Chegou ao ponto de me sentir tão inseguro que eu sequer consegui reagir! Eu me martirizei durante todo esse tempo porque eu via você sofrendo, mas minha insegurança era tão grande que eu não conseguia fazer nada além de observar de longe. Mas se por um lado você tinha medo da minha rejeição, eu também tive medo da sua.
Camus parou um minuto. Eu sentia a angústia em cada uma de suas palavras. Tudo que ele estava segurando até então, estava vindo para fora com tamanha intensidade que seu desespero era quase palpável. Hyoga estava ao meu lado de cabeça baixa. Eu não tinha idéia do que ele estava sentindo naquele momento. Culpa? Arrependimento? Indignação? Ele estava ouvindo tudo calado. Até tinha parado de tremer. Não conseguia ver seus olhos, pois sua franja estava tampando-os. Preocupei-me. Será que ele estava com seu coração aberto ou estava apenas ignorando a declaração de Camus? Não adiantaria nada se ele estivesse quieto, mas não estivesse de fato ouvindo.
Acredito que Camus teve a mesma sensação que eu, pois se aproximou de Hyoga e agachou-se na frente dele. Segurou nas mãos do nosso garoto e levantou o olhar dele. Finalmente eu pude ver. Seus olhos pareciam vazios. O que será que se passava na cabeça do meu loirinho? Resolvi não interromper o desabafo de Camus e deixar que ele guiasse aquela conversa.
– Hyoga, eu sempre lhe vi como um filho. Quando nos conhecemos, você era tão pequeno e já carregava um fardo tão grande. Eu perdi a conta de quantas vezes eu tive que me segurar para não lhe fazer desistir de tudo e lhe acolher como meu filho. Mas eu não podia! Além de ser contra a minha responsabilidade, eu jamais poderia lhe oferecer uma vida melhor, pois eu era um cavaleiro. Não poderia ser o pai que você precisava e que eu queria ser. Você não tem idéia do quanto eu sonhei com o dia em que eu finalmente poderia olhar em seus olhos como um pai e não como um mestre carrasco que apenas exige resultados. – vi os olhos de Camus ficarem marejados. – E agora eu finalmente tenho essa oportunidade. Mas eu estraguei tudo! Eu enfiei na minha cabeça que você já tinha consciência do que eu sentia e apenas continuei agindo normalmente. Como eu me enganei! Mal sabia eu que você estava sofrendo, mal sabia eu que você não tinha nem noção do quanto eu te amo! E eu permiti que as coisas chegassem ao ponto de você tentar se matar! Eu só ficaria sabendo disso depois que você já estivesse morto. Essa notícia me abalou demais. Eu fiquei magoado por você não confidenciar sua angústia, por não acreditar que eu poderia lhe ajudar. Mas também fiquei magoado por ter me distanciado ao ponto de não perceber que você não estava bem. – Camus fez mais uma pausa, apenas para limpar as lágrimas que teimavam em escorrer por sua face. – Você me conhece, meu filho. Sabe que sou péssimo para lidar com sentimentos. E essa situação foi mais do que eu pude suportar. E pensar que eu podia ter te perdido sem nem sequer desfrutar do prazer de lhe ter como filho. E pensar que eu podia ter te perdido por pura inadimplência da minha parte. Eu...
Camus não conseguiu continuar. Teve que respirar fundo e voltou a sentar-se na cadeira. Eu estava chorando também. Ver aquela dor nos olhos do meu Gelinho machucava muito. Hyoga continuava impassível. Aquilo estava me perturbando. Como ele conseguia ficar tão quieto e sem reação ao ver Camus naquele estado? Justo ele que tinha um amor imenso pelo mestre?!
– Hyoga, eu sinto que estou falando tudo muito rápido e de maneira confusa. Não sei se você está entendendo o tamanho da perturbação em que eu me encontro. Eu tentei forçar sua resposta, porque eu não sabia o que fazer, nem como fazer. Eu tinha me distanciado de você e eu queria consertar as coisas. Queria que você demonstrasse que confiava em mim como seu pai. E ver a sua recusa me machucou demais. Eu não entendia o porquê da sua resistência. Mas o que eu estou te pedindo é que me dê uma chance. Dê-me a chance de ser seu pai! Dê-me a chance de consertar o meu erro! Não me negue isso, meu filho!
Camus agora olhava para Hyoga profundamente. Eu também me virei para ele, esperando uma resposta ou alguma reação. Ele continuava sem nem se mover. Parecia que nem respirava. O que estava acontecendo? Será que ele entrou em estado de choque? Realmente devia ser um tanto quanto impressionante para Hyoga ver Camus emotivo daquela maneira. Provavelmente era a primeira vez. Mas Hyoga estava reagindo de uma maneira estranha. Ele deveria estar feliz com isso. Alguma coisa estava errada.
– Hyoga, você está bem? Não vai falar nada? – chamei sua atenção.
Ele continuou calado.
– Hyoga?! – Camus chamou dessa vez.
Ele ainda estava sem reação. Aquilo estava começando a me irritar. Camus abriu o coração para ele e agora ele ficava daquele jeito, estático. Isso estava errado. Ele deveria ter um pingo de consideração. Não era possível que ele estivesse magoado ao ponto de ignorar completamente toda a declaração que meu marido havia feito. Coloquei meu braço ao redor do ombro de Hyoga, como em um meio abraço. Ele estava quente. Achei estranho. O corpo de Hyoga e Camus era completamente gelado.
– Hyoga, meu filho, diga alguma coisa! Você está se sentindo bem? Você está quente. – disse em tom preocupado.
Camus levantou-se assim que fiz aquela declaração. Ele sentou-se ao lado de Hyoga e colocou a mão na testa dele.
– Milo tem razão, você está quente, meu filho. Seria melhor que nós...
– Não me chame assim. – Hyoga finalmente se pronunciou em um tom bem baixo, mas audível.
– Como? – Camus perguntou.
– Não me chame de filho.
Continua...
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