Notas iniciais
Eu de novo... hauhauahauaahuaaau XD!! Vou ser boazinha com a Sarinha e postar só mais UM capítulo XD A partir daqui a história toma um rumo diferente, enton prefiro deixar no suspense XD!! =** Boa leitura

Eu estava com a cabeça dando voltas. Meu filho! Meu filho tentou se matar! Meu Hyoga, meu menino! Ele tinha tentado acabar com a própria vida! Eu sequer sabia descrever o que estava sentindo. Era fato que aquela notícia me decepcionou. Hyoga sempre foi meio melancólico e sentimental, mas nunca havia chegado a esse extremo. Sacrificar-se em batalhas era completamente diferente de tirar a própria vida. Quando ele se dispôs a sacrificar-se em uma luta, ele tinha um objetivo, ele lutava por algo maior, digno. E não era como se ele estivesse esperando ser morto. Ele, além de lutar por algo justo, estava lutando pela sobrevivência também. E agora, depois de tudo que passou, depois de todas aquelas batalhas onde ele esteve lutando para continuar de pé, ele me aparecia com essa de, deliberadamente, tentar tirar a própria vida. Isso não entrava na minha cabeça! Isso era tão absurdo que eu sequer conseguia conceber que acontecera. Eu não o criei daquela forma. Não criei um covarde que fugia da vida daquela maneira. Aquele não era meu pupilo, aquele não era meu filho. Eu não ia aceitar aquele comportamento. Eu não podia aceitar aquele comportamento. Eu não podia perder meu menino! Meu filho podia ter morrido! E eu só saberia depois que o ato já estivesse consumado. Se Milo não estivesse aqui, se Milo não estivesse na hora, as coisas poderiam ter se tornado uma tragédia. E isso me revoltava! Não só porque Hyoga teve a ousadia de cometer esse ato debaixo do meu nariz, mas também porque eu não fiz nada para evitar. Ele já devia estar sofrendo com alguma coisa há muito tempo. Ele já devia estar carregando aquele fardo há um bom tempo. E eu não percebi. Eu deixei aquilo passar. Eu não podia acreditar que cometera uma falha tão absurda! Era tão absurda quanto a tentativa de suicídio de Hyoga.

Eu coloquei minhas mãos na cabeça e sentei-me na cama, desesperado. O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia de nada! Eu não sabia o que estava perturbando meu filho! E ele não queria me contar. Deixei que a revolta tomasse conta de mim e agi friamente. Ao invés de demonstrar compreensão e carinho, tentei impor minha autoridade. Mas eu estava desesperado! Eu estou desesperado! Eu estou perdendo meu filho! Ele está se afastando de mim! Ele está se trancafiando dentro da escuridão. E eu não consigo fazer nada. Não só porque ele não me deixa, mas também porque eu não sei de nada. Eu me sinto horrível. Eu não estava sendo um bom pai. Eu não estava sequer sendo um bom mestre. Eu não conseguia ajudar meu filho a passar por um problema. Qual era minha necessidade na vida dele? Qual era o meu papel na vida daquele garoto? Será que ele não me queria como pai? Será que eu estava forçando uma coisa que ele não queria? Eu não conseguia entender mais nada! Aquilo não só me deixou confuso, como também magoado. Hyoga não confiou em mim. Ele estava descartando completamente a possibilidade de que eu poderia ajudá-lo. Ou ele simplesmente não acreditava que eu servia de ajuda? Por que ele estava fazendo isso comigo? Por que estava me excluindo de sua vida daquela forma? O que estava acontecendo? Será que minha ausência fez ele se afastar tanto assim de mim? Será que minha ausência afetou sua forma de me ver em sua vida? Eu não conseguia parar de pensar. Minha mente era uma explosão de sentimentos. Revolta, decepção, mágoa, insegurança, compaixão. Estava tudo tão confuso.

Senti a mão de Milo em meu ombro. Levantei meu rosto e ele olhava para mim com carinho. Aquele olhar trouxe um pouco de conforto ao meu coração.

– Camus, não acha que se precipitou? Hyoga está passando por uma fase difícil, meu amor. Forçar não será pior? – ele me perguntou com carinho.

– Eu não sei, Milo. Eu não sei o que fazer. E eu detesto essa sensação de impotência. Eu preciso que Hyoga me fale o que está acontecendo. Eu preciso acabar com o que o levou a cometer tal imprudência. Eu não posso permitir que meu garoto continue com pensamentos autodestrutivos. – falei um tanto quanto angustiado.

– Mas você acha que forçá-lo dessa forma é a melhor solução? Eu não sei, Gelinho. Você sabe como Hyoga é teimoso. Essa situação pode perdurar por muito tempo e talvez seja pior tanto para ele quanto para você.

– O que eu faço então, Milo? O que faremos então? Ele não vai falar e vai continuar com pensamentos que poderão levá-lo ao mesmo erro.

– Eu entendo você, meu amor. Só estou tentando encontrar uma maneira mais fácil de conseguirmos isso sem ter que forçar nada.

– Eu vou conseguir essa resposta, Milo. Nem que seja à força! – falei me levantando e me dirigindo à porta.

– Aonde vai? – Milo me perguntou.

– Vou espairecer um pouco. Eu preciso me acalmar.

Saí sem dar mais explicações. Eu sabia que Milo também estava aflito com aquela situação, mas eu estava fora de mim. Eu precisava me acalmar ou entraria no quarto daquele moleque e arrancaria a resposta na marra. Eu estava mesmo desesperado. Eu estava mesmo perdendo meu filho. Incomodava-me não saber das coisas. Incomodava-me que Hyoga estivesse escondendo coisas tão sérias de mim. Isso me magoava. E muito! Era como se ele estivesse me negando como pai. Por mais que ele ainda me chamasse de mestre, eu o deixei de ser a muito tempo. Estávamos em tempos de paz e Hyoga já havia sido escolhido como o sucessor da armadura de Aquário. Então, aquela posição de mestre e pupilo já não existia mais. Sendo assim, qual era o meu papel se não pai? Por que Hyoga estava me negando isso? Justo o que eu mais esperei desde que vi aquele menininho desamparado se dispondo a tornar-se um cavaleiro. Por que ele estava me negando aquele sonho realizado? Será que eu tinha me enganado? Será que Hyoga não me via mais que como um mestre? Será que aquele sentimento de fraternidade foi só coisa da minha cabeça? Não podia! Eu nunca fui sentimental ao ponto de me entregar a algo que eu não tivesse certeza. Fui assim toda minha vida, até com Milo. Só me entreguei a um relacionamento depois que já tinha certeza de que era amado da mesma forma que amava. Eu não me deixaria levar por um sentimento vago. Será? Será que não? Será que minha vontade de ser pai era tão grande assim? Será que ser pai era tão importante para mim ao ponto de forçar meus sentimentos ao meu loirinho? Ah! Aqueles pensamentos estavam me enlouquecendo!

Subi as escadarias rumo ao meu serviço. Sim. Lá era o único lugar onde eu teria paz, onde poderia me distrair. Cheguei o mais rápido que pude, peguei a chave em meu bolso e abri minha sala. Aspirei o ar ali dentro. Eu precisava afastar minha mente daqueles pensamentos. Naquele ritmo eu poderia tomar decisões completamente erradas. Eu nunca fui de agir por impulso, não seria agora que eu ia começar. Eu precisava organizar minhas ideias, mas primeiro eu precisava me acalmar. Sentei em minha mesa e liguei o computador. Eu me afundaria em trabalho. Pelo menos por aquela noite eu me permitiria fazer aquilo. Ficar com Milo só me deixaria ainda mais angustiado, afinal, ele também estava preocupado com nosso menino. Eu precisava me manter seguro, eu precisava ser forte ou as coisas ficariam piores do que já estavam. Afastei os pensamentos sobre aquele assunto e comecei a trabalhar. Eu adorava o que eu fazia e, modéstia à parte, eu era muito bom. Fazia um trabalho que normalmente demandaria, pelos menos, quatro pessoas. Eu me orgulhava daquilo. Nada melhor do que aquilo para me acalmar. E eu trabalhei. Trabalhei como se não tivesse mais o que fazer, como se nada mais estivesse acontecendo. E aos poucos eu fui me acalmando. Quando percebi, já havia terminado todo o meu serviço. Eu quase já não tinha mais o que fazer. Olhei no relógio e já era quinze para uma da manhã. Eu perdi a noção do tempo. Olhei para a foto do meu garoto ao lado do computador. Senti meus olhos marejarem. Droga! O desespero ainda estava lá.

Abaixei minha cabeça na mesa. O que eu estava fazendo? Meu filho precisava de mim e eu estava cometendo o mesmo erro de antes, me ausentando. Mas eu não conseguiria encará-lo. Eu ia perder o controle de novo. Eu queria que ele colaborasse. Se ele apenas me contasse o motivo de tudo aquilo, eu não estaria tão inseguro. Por que ele tinha que ser tão teimoso? Afinal, do que ele tinha medo? Ele dissera que não era insatisfação. Então por quê? Não lhe faltava nada. Ou será que faltava? Mas o que? O que podia faltar para meu loirinho? Do que ele sentia falta? O que poderia ser tão essencial que ele não tinha? Eu não conseguia pensar em nada. Droga! Minha cabeça dava mil voltas e somente perguntas apareciam, sem nenhuma resposta. Eu estava ficando angustiado com aquilo.

Ouvi batidas na porta. Quem seria àquela hora? Quem, além de um workaholic como eu, estaria ali. Vi a maçaneta girar.

– Camus? Você ainda está aqui? – era Dohko.

– Dohko? O que faz aqui essa hora? – perguntei.

– Eu que te pergunto, amigo. – ele falou sorrindo com humor. – Você não disse que ia passar lá em casa? – Droga! Esqueci-me completamente disso.

– Perdoe-me, Dohko. Aconteceram algumas coisas e eu simplesmente me esqueci disso. – falei enquanto o observava entrar e sentar-se na cadeira em frente a minha mesa.

– Eu sei. Liguei para sua casa e Milo me disse que você tinha saído por conta de alguns problemas. Fiquei preocupado e vim te procurar.

– E como sabia que eu estaria aqui?

– Ora Camus! Aonde mais você iria? Sei muito bem o quanto gosta de trabalhar para se distrair. – ele falava sorrindo, me tranquilizando.

– Acho que estou exagerando muito ultimamente. – respondi também sorrindo suavemente, agora mais relaxado.

– Tanto Shion quanto eu já lhe dissemos isso. Você precisa aproveitar um pouco mais seu tempo. Não temos tanto trabalho assim para que você viva enfurnado nesse escritório.

– Eu não consigo evitar. Não gosto de ficar parado.

– Eu entendo. Mas tirar umas férias, de vez em quando, não vai te matar.

– Eu sei e era sobre isso que queria conversar com você e Shion. Gostaria de pedir para tirar alguns dias de férias.

– Mesmo? Isso é ótimo! Você pode começar quando quiser. Se amanhã mesmo não quiser vir, por mim tudo bem. Eu aviso o Shion e daremos um jeito nas coisas do qual você é o encarregado.

– Por mim está ótimo. Começarei amanhã, então. Essas férias tornaram-se mais do que necessárias agora. – falei olhando tristemente para a foto de Hyoga.

– Aconteceu alguma coisa com Hyoga? – ele perguntou, como se lesse meus pensamentos.

– Sim. – respondi suspirando.

– Pelo visto não é algo simples. – ele continuou.

– Não, não é.

– Quer conversar sobre isso? Talvez eu possa lhe ajudar de alguma forma. – ele disse de maneira suave e disposta.

Suspirei ainda mais pesado. Será mesmo que ele poderia me ajudar? Ele tinha muito mais experiência que eu. Talvez pudesse me dizer algo que me tranquilizasse.

– Hyoga me contou hoje que tentou se matar. – falei como em uma lamúria.

– Até que dessa vez demorou a acontecer.

Olhei para Dohko assustado. Do que ele estava falando? Ele não parecia nem um pouco impressionado com a notícia. Aquilo era algo sério! Como ele podia permanecer tão calmo, como se eu tivesse lhe contado sobre uma travessura cotidiana? Sua reação me deixou sem fala.

– Não me olhe assim, tão espantado. – ele disse sorrindo.

– Que reação você queria que eu tivesse? – eu disse em um misto de revolta e curiosidade, fazendo-o rir.

– Sinto muito. É que pra mim isso é tão normal que esqueço que nem todos passaram por isso.

– Como assim? O que quer dizer?

– Camus, é normal cavaleiros tentarem se matar em tempos de paz. Somos criados desde pequenos com o único propósito de batalhar para salvar a Terra e proteger Athena. Quando estamos em paz, não há nada para fazermos. Logo, muitos perdem o sentido da vida e se matam. Quando Shion e eu batalhamos contra Hades, não fomos os únicos a sobreviver. Naquela época tivemos uma enorme baixa no número de cavaleiros. Não só pelos tantos que morreram em batalha, mas também pelos outros que se mataram depois que acabou a guerra. Muitos não sabiam como encarar uma vida “normal” e simplesmente entravam em depressão. Por isso, quando você me disse que Hyoga tentou se matar, eu não me espantei. Pra falar a verdade, tanto eu quanto Shion ficamos surpresos por não ter tido casos assim dessa vez.

Eu prestei atenção em tudo que Dohko me falava. Será que era por isso? Será que Hyoga perdeu o sentido da vida? Será que ele apenas estava sentindo-se vazio? Se era por isso, por que não quis me contar? Não era um motivo ruim. Era algo aceitável, visto que ele sempre fora um jovem muito profundo e tinha tendências à melancolia. Claro que não justificava o que fez, isso ele próprio sabia. Mas, então, por que esconder isso de mim? O que ele achava que eu ia fazer se soubesse? Eu não conseguia entender aquela atitude!

– Você acha que pode ser por isso que Hyoga tentou se matar? – perguntei, talvez ele pudesse me esclarecer mais.

– Bom, é o mais provável. Por que mais um garoto como Hyoga tentaria se matar? Não consigo imaginar outro motivo.

– Supondo que você esteja certo, o que acha que devo fazer?

– Isso é algo que só você pode responder, Camus. Hyoga é seu discípulo. Você o conhece melhor do que ninguém. Cada um precisa de algo na vida. Você precisa sentar com Hyoga e descobrir o que falta na vida dele, o que voltaria a dar sentido à vida dele. Acredito que apenas explicar que a função de um cavaleiro vai muito além de batalhas, não será suficiente. Para nós, que somos mais velhos, é muito fácil se apegar a uma razão de viver mais subjetiva. Nós passamos pela morte e sabemos que a vida é algo precioso e que não são somente os deuses que ameaçam a paz na Terra. A maldade continua instalada e é nosso dever manter a ordem e o equilíbrio. Mas, como estamos falando de humanos, raramente os cavaleiros são necessários. Por isso, para os guerreiros mais jovens é difícil entender sua função e importância no mundo. Eles precisam de algo mais concreto. Por isso será preciso mais do que isso para que Hyoga veja o sentido da vida. E essa resposta só você pode encontrar.

Eu fiquei pensativo. Dohko poderia estar certo. Aquela era uma excelente hipótese. Mas e se ele estivesse errado? E se não fosse nada disso? E se Hyoga tentou se matar por um motivo completamente diferente? Como eu ia saber? Eu precisava saber! Será que eu deveria forçá-lo a me dar uma resposta? Será que se eu o encurralasse com essa hipótese, ele me diria a verdade? Eu estava muito perdido. Sequer sabia se tinha coragem para encarar Hyoga sem que meus olhos transparecessem a decepção e a mágoa que eu estava sentindo. Eu tinha que me resolver primeiro. Eu tinha que esperar que meus sentimentos voltassem ao normal ou, então, não conseguiria conversar calmamente com meu loirinho. Só esperava que esse tempo de organização fosse pouco. Meu menino precisava de mim. Mas eu não estava seguro de que conseguiria superar aquele choque em pouco tempo. O que eu faria?

– Obrigado, Dohko. – agradeci ao meu amigo, que me sorriu docemente.

– Não tem pelo que agradecer, amigo. Eu também tenho um rapaz bem complicado. Ele não chegou ao extremo do seu filho, mas volta e meia tenho que lhe chamar atenção por conta desses pensamentos autodestrutivos. Espero que consiga resolver tudo. – ele disse, se levantando e dirigindo-se à porta. – Desejo-lhe sorte, amigo.

– Obrigado.

Assim que respondi, ele saiu da sala. Voltei a abaixar minha cabeça. Agora eu, pelo menos, tinha uma hipótese do que poderia estar acontecendo, mas continuava com a visão enevoada. Meu loirinho, por que tinha que fazer isso?

Continua...