Aprendendo a ser pai
6 POV Milo
Notas iniciais
Eu acordei mais cedo aquela manhã. Eu queria preparar o café da manhã para minha família. Ok, não tão família nessa última semana. Camus continuava rígido com Hyoga, mesmo estando de férias. Ele estava, claramente, magoado com toda aquela situação. Eu poderia até dizer que ele estava mais magoado do que decepcionado. No dia em que ele soube do ocorrido, voltou para casa bem tarde. Ele me contou o que conversou com Dohko. Eu concordava com aquela hipótese que eles comentaram. Hyoga realmente poderia estar sentindo um vazio por conta da vida que estávamos levando. Camus já havia me contado, há muito tempo, a história de Hyoga antes de se tornar cavaleiro e que por conta dela que Hyoga era tão melancólico. Nada mais normal que em tempos de paz ele se sentisse vazio. Camus parecia ter aceitado aquela explicação, que mesmo sem ser confirmada, parecia a verdadeira. Mas o que meu marido ainda não tinha entendido é que aquele vazio que Hyoga sentia só aumentaria caso ele continuasse evitando-o. Sim, Camus estava evitando Hyoga de todas as formas possíveis. E isso era torturante até para mim. Hyoga ia para a escola, voltava para casa, almoçava, ia treinar, voltava para casa e se trancava no quarto. Camus não ia lá e ele também não se atrevia a sair do quarto. E os dois passaram a semana assim. Nos momentos em que eles se encontravam, o clima ficava tão pesado que todas as minhas tentativas de alegrar o ambiente foram em vão. Aquela situação estava me incomodando de uma forma que eu não conseguia nem descrever. Tanto o meu Gelinho quanto meu Patinho estavam sofrendo. E eu me sentia inútil por não poder fazer nada.
Hyoga estava visivelmente sofrendo. Eu olhava para aquele par de diamantes e podia sentir claramente sua dor. Ele tinha medo de perder Camus, tinha medo de que aquele erro afastasse Camus de si. A admiração que Hyoga tinha pelo mestre era algo inimaginavelmente grande. Seus sentimentos eram tão perceptíveis. Eu sabia muito bem que ele via Camus como o pai que nunca teve e sempre sonhou ter. Era quase como se ele colocasse Camus em um altar. Era um carinho tão grande que eu me comovia facilmente só de vê-lo naquele estado por conta daquela situação. E, por outro lado, eu me irritava. Não com Hyoga, mas com Camus. Não podia ser que ele era tão cego ao ponto de não perceber o quanto agir daquela forma estava ferindo Hyoga. Eu estava com vontade de dar um soco na cara do meu Gelinho para ver se ele acordava para vida. Se ele quisesse poderia resolver essa situação tão fácil. Por que ficar prolongando aquele sofrimento? Por que permitir que Hyoga continuasse sentindo aquele vazio? Eu não conseguia entender. Quer dizer, sei que foi um choque para ele descobrir as coisas, ainda mais daquela forma. Mas ele não podia continuar ignorando a situação. Ele não podia ficar adiando aquela conversa. As circunstâncias não eram nada favoráveis para aquele tipo de atitude. Hyoga podia não suportar e tentar aquilo de novo. E se não houvesse ninguém por perto? E se ele realmente conseguisse se matar? Camus se arrependeria amargamente depois. Eu tenho certeza que ele sabia disso. Então por que continuava sem fazer nada? Eu nunca tinha visto meu Gelinho tão acuado antes, sem saber o que fazer. Eu não conseguia imaginar o tamanho da mágoa que ele estava sentindo. Provavelmente era grande, afinal ele detestava situações mal resolvidas. Se ele não estava conseguindo resolver é porque tinha algo muito forte o impedindo. Eu sabia que ele ficaria abalado, pois Hyoga sempre foi muito correto e nunca fizera algo daquela magnitude. Só não imaginava que ele ficaria tão abalado ao ponto de se afastar daquela forma. Confesso que até de mim ele estava um pouco arredio. Eu não queria forçar a situação, mas aquilo já estava me agoniando.
Terminei de fazer o café da manhã. Estava satisfeito com meu trabalho. Hyoga cozinhava bem melhor que eu, mas eu também sabia me virar. E muito bem, por sinal. Sorri e fui preparar a mesa, sorrindo. Hoje era sábado. Hyoga não tinha aula, só sairia para treinar. Mas eu não permitiria que ele se enfurnasse naquele quarto o dia inteiro. Hoje eu fazia questão que ele ficasse comigo e com Camus. E ai do Gelinho se ele fosse contra! Eu já estava cansado daquilo. Hoje eu resolveria aquela situação, não importava como. Terminei de arrumar a mesa e me dirigi até as escadas para acordar meus dois teimosos. Quando já estava na ponta da escada, vi meu loirinho descendo coçando os olhos e bocejando. Sorri largamente. Eu o achava uma graça quando acordava, parecia uma criança. Vi seus olhos inchados e vermelhos. Ele provavelmente passou boa parte da noite chorando. Aquilo doía. Eu queria fazer alguma coisa para que ele voltasse a sorrir.
– Bom dia, meu filho. – falei sorrindo, tentando animá-lo.
– Bom dia, Milo. – ele respondeu sorrindo tristemente, fazendo meu coração se apertar.
– Fiz o café da manhã hoje. Com direito a tudo que você gosta. – falei ainda parado na ponta da escada, enquanto ele vinha até mim.
– Mesmo? Por que se deu ao trabalho? – ele me perguntou, agora a dois degraus de mim.
– Porque... – subi até ele e baguncei seus cabelos. — ... quero te ver feliz, seu Pato. – ele sorriu para mim, ainda triste.
– Obrigado por se esforçar, Milo. Mas não precisa esconder. Sei que você também está decepcionado comigo. – ele falou olhando para o chão e deixando que duas lágrimas caíssem de seus olhos.
Aquilo era difícil de ver. Hyoga, nesse sentido, era muito parecido com Camus. Era extremamente raro vê-lo chorando. Ele guardava aquilo o máximo que conseguia, até que não aguentava mais e explodia em lágrimas. Nessa semana ele estava mais sensível, por isso não era mais novidade encontrá-lo suspirando e chorando silenciosamente. E eu não sei como Camus não se comovia com isso, sinceramente.
Aproximei-me ainda mais do meu menino e o abracei.
– Hyoga, o que passou, passou. O que você fez foi errado, mas já passou. Eu não vou ficar aqui te condenando por isso. Já te perdoei e... – afastei-me apenas para segurar em seu rosto, fazendo-o olhar diretamente para mim. — ... não importa o que tenha feito ou o que vai fazer, eu vou continuar do seu lado. Acredite em mim, garoto, eu amo você como se fosse meu filho. E mesmo que eu estivesse decepcionado, eu não permitiria jamais que isso se sobrepusesse à alegria que sinto por ter você aqui, vivo, em meus braços.
Ele olhava para mim com os olhos brilhando por causa das lágrimas. Eu queria que aquilo acabasse logo. Toda aquela tortura, todo aquele sofrimento. Eu queria meu Hyoga de volta. Aquele garoto orgulhoso, que sempre tinha um sorriso pingando sarcasmo, mas um sorriso sincero. Aquele garoto que vinha até mim só para me provocar, que me fazia sorrir quando eu brigava com Camus, que me cobria quando eu dormia na sala, que me trazia o café da manhã na cama. Eu queria o meu filho de volta! Esse garoto depressivo e cheio de desesperança não era meu filho! Eu queria tirar a dor daquele olhar, eu queria trazer de volta o brilho daqueles diamantes tão preciosos. E eu tinha certeza que ele sabia o quanto eu desejava isso. Quando estávamos somente ele e eu, ele se permitia estar mais animado, permitia que eu adentrasse naquele coração tão ferido pela aparente rejeição de seu ídolo. Mas era só Camus chegar que ele mudava completamente de atitude. Fechava-se completamente e sequer erguia o olhar, tamanha vergonha. Eu esperava que nessa manhã eu conseguisse mudar isso.
– Vá tomar seu café. Eu vou acordar o Camus e já vamos para a mesa, ok? – falei acariciando o rosto castigado pelas lágrimas.
– Tudo bem. Obrigado por fazer o café.
Ele foi em direção à mesa e eu fiquei apenas o observando se afastar. Suspirei. Agora eu tinha que ir até o outro teimoso. Voltei meus olhos para o alto da escada e me surpreendi ao ver meu Gelinho ali, parado, olhando para a mão que segurava firmemente o corrimão. Sua expressão era, também, de muita dor. Ah! Aqueles dois realmente me davam muito trabalho. Subi ao seu encontro e, lentamente, o abracei. Queria que ele sentisse meu carinho, queria que ele entendesse que eu também estava do lado dele. Queria ser capaz de passar a segurança que ele precisava para enfrentar aquela situação. Ele também me envolveu em seus braços, colando o rosto no meu pescoço. Eu sentia sua respiração quente e pesada. Ele precisava de mim naquele momento, ele precisava de apoio. Afastei-me e o guiei até nosso quarto. Depois que ele entrou eu fechei a porta bem devagar.
– Eu fiz o café da manhã. Hyoga está nos esperando. – comecei suavemente.
– Sinto muito por tudo isso, Mon Ange. Sei que está tentando resolver essa situação e peço desculpas por não estar facilitando. – ele falou sentando-se na cama.
– Não é a mim que você deve desculpas, Camus. É aquele loirinho deprimido lá embaixo. – falei, sentando-me ao seu lado. – Acaba logo com isso, Gelinho. Nosso menino precisa de você.
– Eu sei, Milo. Eu sei que ele precisa. Mas... – ele suspirou. — ... entenda que tudo isso foi um choque para mim.
– Eu entendo, Camus. Mas já faz uma semana que vocês não se falam. Hyoga continua de castigo e você continua tratando-o com frieza. Gelinho, ele sofreu muito tempo calado até chegar aquele extremo. E ele vai continuar sofrendo enquanto não sentir que está tudo bem. Você precisa apoiá-lo. Eu venho tentando fazer isso, mas não é a mesma coisa. É de você que ele precisa.
– E é isso que eu não entendo. Se ele faz tanta questão assim de mim, por que tentou esconder? Será que ele não confia em mim o suficiente? Será que ele realmente acredita que eu não gosto dele o suficiente para entender sua dor? Isso me magoou, Milo. Eu sempre vi Hyoga como um filho. E ele agiu como se o sentimento não fosse recíproco. E você sabe que eu não sou muito bom em lidar com situações assim. Já é um custo que eu admita sentir algo por alguém.
– Disso eu sei muito bem. – falei sorrindo, tentando animá-lo um pouco. – Mas tendo esse tipo de atitude, você não conseguirá resolver nada. Hyoga está inseguro. Ele precisa da segurança de que você continuará do lado dele, não importando o que aconteça. Sei que para você parece que ele agiu como se não o considerasse, mas é totalmente o oposto. Acredite em mim. Ele só fez o que fez por estar com medo dessa reação que você está mostrando, agora. Era isso que ele não queria, Camus.
– Mas eu não agiria assim se ele não tivesse me escondido isso.
– Que garantia você pode dar disso? Como você pode garantir para ele que não teria essa reação se ele tivesse te contado antes? Sabe qual é o problema de vocês? Vocês se isolam no próprio mundinho e não dialogam. Vocês precisam conversar, Camus. Precisam aprender a deixar seus sentimentos claros um pro outro. Para mim fica tudo muito claro, porque estou de fora. Mas se vocês não resolverem isso entre si, qualquer coisa que eu diga vai ficar parecendo um consolo.
Nesse momento meu marido segurou minha mão entre as suas e a beijou suavemente. Eu sabia que ele entendia que estava agindo errado, mas ele ainda era o Camus. Tinha sérios problemas em lidar com sentimentos. E até que ele tinha melhorado muito, mas algo assim era demais para ele. Ele não sabia como lidar com aquela mágoa que estava sentindo. Ele não sabia como passar por cima disso. Isso era algo que eu considerava qualidade e defeito ao mesmo tempo. Ele era uma pessoa considerada frívola, por ser muito racional. Mas quando sentia algo, era extremamente forte. Seja algo bom ou ruim. E quando ele se sentia inseguro sobre sentimentos, a tendência dele era se fechar e agir fria e racionalmente. E essa situação, em particular, exigia mais do que ele estava acostumado. Ele precisaria ignorar a mágoa e entender os sentimentos de Hyoga, que para ele, no momento, não eram claros. Camus nunca age sem ter certeza e era isso que tornava tudo aquilo muito delicado.
– Eu vou resolver isso, Milo. Eu tenho agido de maneira imatura e isso também me irrita. Em momentos assim eu te invejo muito, sabia? – ele me olhou carinhosamente, ainda segurando minha mão.
– Ah é? Quem diria que eu ia ouvir isso algum dia?! – respondi, rindo em seguida.
– É sério. Você lida tão bem com seus sentimentos. Eu queria ter tido força o suficiente para falar o que você disse, há alguns minutos atrás, para o Hyoga. Você, literalmente, tirou as palavras da minha boca.
– Mas você ainda vai dizer, Camus. Tenho certeza que quando você for conversar com ele, vai perceber que os sentimentos vão fluir naturalmente. Ele está muito abalado, Gelinho. Você, com certeza, vai querer dizer o mesmo para nosso menino.
– Sabia que adoro quando você fala “nosso menino”? – ele disse se aproximando e me dando um selinho nos lábios.
– Pois acho bom você se cuidar, porque logo, logo eu serei o pai preferido dele. – disse com humor.
– Essa eu pago para ver. – ele disse, voltando a me beijar.
Levantei-me, ainda de mãos dadas com Camus, e ele fez o mesmo. Sorrimos um para o outro e saímos do quarto, em direção à mesa do café. Senti que Camus estava mais leve. Estava torcendo para que finalmente conseguíssemos ter uma refeição de família. Porém, quando chegamos à mesa, Hyoga não estava mais lá. Ele apenas deixou um bilhete para mim agradecendo pelo café e avisando que tinha ido treinar. Senti-me frustrado. E lá se foi meu plano por água a baixo. E logo agora que Camus estava disposto a acertar as coisas. Droga!
– Parece que eu não sou o único teimoso aqui, não é? – Camus falou com humor, o que me deixou mais tranquilo.
– Pois é. – não consegui esconder a frustração na minha voz.
– Não se preocupe, Mon Ange. Eu não quero esperar mais. Vamos tomar nosso café e depois eu vou até a arena, chamá-lo para conversar. – Camus disse, me deixando extremamente feliz.
– Ok. – respondi sorrindo.
Sentamos e tomamos nosso café tranquilamente. Conversamos e sorrimos como há muito não fazíamos. Queria que Hyoga estivesse ali, mas eu sabia que logo aquilo acabaria e eu teria meu loirinho de volta. Acabamos de comer e Camus, rapidamente, se levantou, enquanto eu fui tirar a mesa. Ele me ajudou e assim que terminamos, ele me deu um selinho.
– Eu vou lá trazer nosso menino de volta. – ele disse e eu sorri.
– Não demore. Espero aqui.
Ele me deu outro beijo e virou-se para sair. Ele não deu nem dois passos e seu celular começou a tocar. Ele atendeu e sua expressão ficou séria de repente. Aquilo me preocupou. Ele não ficou muito tempo no telefone. Assim que desligou, voltou-se para mim com o olhar cansado.
– Era o Shion. Eles estão com um problema na fundação e precisam de mim agora. – ele disse em tom frustrado.
– Não tem ninguém que possa resolver no seu lugar? – perguntei.
– Provavelmente não. Você sabe que Dohko e Shion não me incomodariam nas férias se realmente não precisassem.
Eu suspirei pesado. Parecia que o destino não queria que as coisas se resolvessem. O que mais faltava acontecer?
– Se não tem outro jeito, vá. Só tente não demorar, Camus. Eu estou com um mau pressentimento.
– Farei o máximo que puder.
Camus saiu e eu suspirei novamente. Eu realmente estava com um pressentimento ruim. Pensei em ir até a arena. Talvez se eu treinasse com Hyoga seria melhor. Mas eu estava cansado. A verdade é que eu não conseguira dormir muito bem. E como tinha acordado muito cedo, tive a ideia de fazer o café da manhã. Mas parece que foi em vão. Decidi dormir um pouco. Eu descansaria e depois ia até a arena. Seria o melhor a se fazer. Fui até a sala e sentei no sofá. Peguei o controle remoto e liguei a TV. Seria mais fácil dormir assim. Deitei e comecei a assistir um programa qualquer. Não demorou muito e eu peguei no sono.
~//~
Acordei meio zonzo. Consegui dormir bem. Levantei-me, ficando sentado no sofá e me espreguicei. Só então percebi que eu estava coberto. Hyoga. Ele estivera ali. Sorri. Eu adorava o jeito simples que ele tinha de demonstrar carinho. Levantei-me e comecei a andar pela casa de Aquário, procurando por ele. Fui ao seu quarto, nada. Banheiro, nada. Cozinha, nada. Estranho. Ele esteve em casa, mas não ficou. Ele ainda estava de castigo, então não poderia ter saído. E mesmo que não estivesse de castigo, ele sabe muito bem que não pode sair sem minha autorização ou a de Camus. Senti meu coração se apertando. Será que aconteceu alguma coisa? Será que aquele mau pressentimento tinha algum fundamento? Eu esperava que não. Provavelmente ele ainda estava treinando na arena. Fui até meu quarto e olhei no relógio. Sete e meia da noite? Eu dormi tanto assim? E se já era tão tarde, por que Hyoga não estava em casa? Não acreditava que ele poderia estar treinando até àquela hora. E Camus? Onde estava? Será que ele tinha saído com Hyoga para conversar? Talvez ele quisesse um pouco mais de privacidade. Eu esperava que sim.
Fui descendo as escadas. Senti fome de repente. Mal entrei na cozinha e já ouvi meu marido gritando, entrando desesperado.
– MILO! MILO! – ele gritava.
– Estou aqui, Camus. O que foi? Pra que essa gritaria? – perguntei ao meu afobado Gelinho.
– É o Hyoga. Ele fugiu!
Continua...
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