Aprendendo a ser pai
3 POV Camus
Notas iniciais
Eu fui para meu serviço com a cabeça quente. Estavam acontecendo coisas sérias, bem embaixo do meu nariz, e estavam tentando esconder de mim. Pela cara que o Milo fez, eu tinha certeza que ele já sabia de tudo e que era muito mais sério do que eu imaginava. Eu fiquei surpreso ao ver que Milo estava escondendo aquilo de mim. Justo ele que detestava segredos. Para tomar esse tipo de atitude, com certeza era para acobertar algo extremamente grave que Hyoga fizera. Francamente, quando o assunto era Hyoga ele sempre fazia de tudo para evitar que o garoto se encrencasse comigo. Não que Hyoga precisasse desse tipo de “ajuda” muitas vezes, já que nunca foi de ficar aprontando. Mas ele era um adolescente. Volta e meia saía uma resposta atravessada aqui, uma discussão ali e por aí vai. E Milo sabe que eu sou extremamente rigoroso no que diz respeito à disciplina. Por isso ficava acobertando esses pequenos deslizes. Mas dessa vez ele estava agindo totalmente contraditório. Se ele não queria que eu soubesse, por que raios foi falar que eu tinha que ser mais firme com Hyoga e me passar aquele mini “sermão” sobre como educar o nosso filho? Não era ele quem estava passando a mão na cabeça do garoto ao acobertar o que estava acontecendo? Ah! Eu ia demorar para conseguir me concentrar no trabalho de novo!
Abaixei minha cabeça sob a mesa tentando encontrar o foco novamente. Mas estava sendo impossível. O que estava acontecendo de tão sério com Hyoga? O que estava acontecendo com meu filho? Só de imaginar que alguma coisa séria poderia ter acontecido, já sentia meu coração se apertar. Quer dizer, não só porque se tratava do meu menino. Mas também porque aconteceu algo e eu não fiquei sabendo. Quando foi que eu me tornei negligente a esse ponto? Quando foi que eu deixei de prestar atenção no que acontecia em minha própria casa? Isso me deixava frustrado! Seja qual for o problema, eu não teria o menor direito de reclamar, afinal eu não estava lá para poder socorrer meu garoto. E ter que assumir isso doía demais! Milo tinha razão. Talvez eu estivesse trabalhando muito. Quando Milo trouxe à tona, novamente, o fato de eu não ter estado com Hyoga no dia do seu aniversário, doeu em mim. Eu sabia que estava perdendo o contato com Hyoga. Sabia que aquela era uma oportunidade única de poder estar ao seu lado, não como o mestre carrasco, mas como o pai que eu sempre quis ser. E eu estava jogando essa oportunidade no lixo. Droga! Eu detestava quando eu falhava em alguma coisa! E ainda mais falhar com as pessoas que eu amo! Eu já tinha tanta dificuldade em sentir algo assim que, quando sentia, era intenso demais. Por isso eu não me permitia falhar. Mas parece que eu não estava agindo tão bem quanto eu pensava. Droga! Droga!
Levantei minha cabeça e comecei a organizar meu trabalho. Ficar me lamentando agora não ia resolver nada. E eu nunca fui de lamentar, não seria agora que eu o faria. Eu tinha que me acalmar. Mais tarde eu conversaria com Hyoga e Milo e resolveria tudo. Também ia pedir minhas férias. Eu não podia deixar Hyoga sozinho, agora que sabia que ele estava com problemas. E não era possível que não existia ninguém naquela fundação que não conseguisse fazer meu trabalho por um mísero mês. As coisas se ajeitariam. Ah! Isso eu garantia! Comecei a fazer meu trabalho. Se eu ia tirar férias, pelo menos ia adiantar alguma coisa. Comecei a trabalhar o mais focado que eu conseguia. Se eu continuasse no mesmo ritmo da manhã, com certeza conseguiria terminar o que tinha de urgente até o dia seguinte. Então, mais um dia de trabalho seria suficiente para adiantar outras coisas.
Nem vi o tempo passar. Já estava na hora do almoço. Será que Hyoga viria como sempre? Tenho que admitir que fiquei mal acostumado. Ele vinha todos os dias trazer almoço para mim só por saber que eu não gostava da comida do refeitório. Parei um pouco meu serviço, apenas para esperar pelo meu garoto. Peguei a foto que estava no porta-retratos perto do meu computador. Era uma foto antiga, de quando Hyoga ainda era bem pequeno. Naquela época ele era muito determinado, apesar de ser extremamente sentimental. Ele não chorava nos treinos, não reclamava do que eu lhe ordenava fazer, não fazia manha, nada desse tipo. Mas todas as noites ele chorava. E eu sabia que era por falta da mãe. Porém, tudo que eu podia fazer na época era olhar de longe. Sempre senti pena daquele garotinho. A maioria dos aspirantes a cavaleiro era órfão, mas não era comum terem conhecido os pais. Eu mesmo não conheci os meus. Hyoga teve o prazer e o desprazer de ter conhecido a mãe. E isso o transformara naquele garoto melancólico. Não mudara nada! Continuava sendo. Pensar nisso me fez sorrir. Era meu Hyoga, meu garotinho! Ele ainda era o mesmo.
Ouvi batidas na porta. Devia ser ele. Pedi que entrasse e, para minha surpresa, não era quem eu pensava.
– Muito ocupado, Gelinho? – Milo perguntou da porta.
– Na verdade estou sim, mas como é horário de almoço pensei que...
– Hyoga viria. – Milo completou meu raciocínio. Eu apenas balancei a cabeça afirmativamente. – Lamento frustrar suas expectativas, mas dessa vez fui eu quem trouxe seu almoço.
– Ele fez? – perguntei um tanto quanto surpreso.
– Até parece que ele deixaria de fazer. E dessa vez eu também ajudei. – ele falou sorrindo e eu também sorri.
Milo me entregou o embrulho. Pelo visto eles tinham acabado de fazer, já que ainda estava quente. Eu abri e comecei a comer. Não sabia onde Hyoga tinha aprendido a cozinhar, mas ele era muito habilidoso. A comida de Milo também era deliciosa, mas Hyoga sabia fazer exatamente do jeito que eu gostava. Eu até me emocionava por saber que meu filho me conhecia tão bem. Milo ficou me olhando comer com o olhar perdido. Eu sabia que ele queria falar alguma coisa.
– Algum problema, mon ange? – perguntei, tirando-o de seus pensamentos.
– Camyu, eu preciso te pedir um favor. – ele falou, agora olhando dentro de meus olhos.
– Peça. – respondi o mais doce possível.
– Escuta, Gelinho. Essa conversa que teremos com Hyoga não vai ser nada fácil. E eu queria te pedir para ter o máximo de paciência possível.
– Se está me pedindo isso, é porque o assunto é sério, não é? – perguntei.
– Infelizmente não é algo como uma travessura passível de umas palmadas. É um assunto delicado. E dependendo da forma como você reagir, pode acabar deixando tudo pior.
Milo estava mais sério que o normal. Aquilo estava me deixando ainda mais ansioso. Mas afinal, o que era tão grave assim? Será que Hyoga estava doente ou algo do tipo? Será que tinha feito algo sério como se envolver com drogas? Não. Se ele estivesse se envolvendo com drogas eu teria percebido, mesmo estando um pouco ausente. Ele estava agindo muito normalmente para ser usuário de drogas. Então o que poderia ser? Milo estava conseguindo me deixar ainda mais preocupado.
– Se é tão sério assim, por que não me disse nada? – falei em tom magoado.
– Não me leve a mal, Gelinho. Eu também não sabia o que fazer. Pensei que se eu te contasse, talvez Hyoga ficasse pior. Já foi constrangedor o suficiente eu ter visto.
– Visto? Então Hyoga realmente fez algo bem sério?
– Sim.
Não falei mais nada. Nem queria pensar no que era. Se eu fosse ficar imaginando, viriam mil e uma coisas terríveis em minha mente e eu não conseguiria me concentrar no trabalho.
– Decidi que vou tirar férias. – falei de repente. Milo olhou para mim, sorridente.
– Mesmo? Mas isso é ótimo! Hyoga ficará muito feliz com a notícia!
– E você?
– E precisa perguntar? Tem noção o quanto sinto sua falta? O mocinho aqui de baixo anda muito carente. – sorriu malicioso para mim
Sorri. Levantei-me de meu lugar e fui até Milo. Segurei em seu queixo e lhe dei um beijo. Naquele momento, saber que Milo estava ali, do meu lado, era muito importante. Subi minha mão até sua nuca e enlacei sua cintura com a outra. Encostei-o à mesa de uma maneira um tanto quanto brusca, colocando uma de minhas pernas entre as dele. Foi o suficiente para ele se entregar completamente a mim. Aquele beijo, aquele corpo, aquele calor, era tudo que eu precisava para ter forças para continuar seguindo meu dia no trabalho. Afastamo-nos por falta de ar. Aquele grego acendia um fogo em mim que nem eu conseguia explicar.
– Espero que esteja com essa energia toda durante as férias, porque eu não vou te dar sossego não. – ele falou para mim, sorrindo de maneira safada.
– Pode deixar, meu escorpiano, que eu estarei com toda energia disponível para você. – sussurrei perto de seu ouvido, fazendo-o ter arrepios. Soltei-o e voltei para minha mesa. – Preciso trabalhar agora. Muito obrigado por ter trazido minha comida, mon ange.
– Não pense que foi de graça. – ele voltou a sorrir safado e saiu da minha sala.
Voltei a trabalhar bem mais disposto. Aquele grego não tinha nem ideia do efeito que causava em mim. Ele que me aguardasse.
~//~
Olhei para o relógio; 18h30min. Já estava na hora de ir para casa. Meu dia tinha rendido bastante. Pensei que levaria dois dias para terminar o trabalho atrasado, mas só aquela tarde já tinha sido suficiente. Significava que eu poderia tirar férias antes do que eu esperava. Eu apenas tinha que comunicar a Shion ou Dohko. Tenho certeza que eles não me negariam isso. Eles mesmos já tinham me dito que eu precisava de férias. Bem, já tinha avisado à Dohko e Shion que passaria na casa deles mais tarde para conversar com eles. Desliguei meu computador, juntei algumas folhas sobre minha mesa e levantei-me. Suspirei profundamente. Agora eu tinha algo bem difícil para encarar. Saí de minha sala, trancando, e me direcionei para minha casa. Como era perto, decidi ir pelo caminho tradicional mesmo. Vi o belo jardim da casa de Peixes e parei por um minuto, apenas para sentir o doce aroma das rosas. Eu não era muito disso, mas estava inquieto. Precisava de algo para me acalmar. Olhei para o céu e fiquei admirado com a beleza da noite. A Lua estava cheia e o céu todo estrelado. Além disso, o clima estava completamente agradável. Fazia calor, mas o vento soprava suavemente. Era uma noite perfeita. E eu esperava que ela continuasse assim. Eu não queria que ela terminasse de uma maneira ruim.
Suspirei. Acho que estava querendo demais. Continuei meu caminho até estar na casa de Aquário. Eu conseguia sentir o cosmos do meu filho e meu marido. Antes mesmo de entrar eu já sentia certa tensão. Criei coragem e entrei, indo direto para meu quarto. Milo estava sentado na cama, olhando para as mãos cruzadas no colo.
– Boa noite, mon ange. – tentei ser sutil.
– Boa noite, Gelinho. – ele tentou sorrir, mas suspirou logo em seguida. – Tem certeza de que quer mesmo ter essa conversa hoje? Por que não deixamos para quando você já estiver de... – não deixei que terminasse.
– De jeito nenhum! Vocês dois não vão me escapar! E onde está Hyoga? Eu falei que queria os dois aqui quando eu chegasse.
– Eu pedi para que ele ficasse no quarto. Vou chamá-lo.
Milo se levantou e saiu do quarto. Eu sentei na cama, afrouxei minha gravata, abri dois botões da minha camisa e dobrei minhas mangas. Eu tinha a mania de sempre fazer isso quando chegava em casa. Fiquei olhando para o chão por segundos, quando Milo apareceu com Hyoga. Esse, por sua vez, estava de cabeça baixa. Eu claramente sentia sua apreensão. Confesso que vê-lo assim era algo que eu odiava. Mas eu precisava ser firme ou continuaria sem saber o que estava de fato acontecendo. Levantei-me.
– Vamos acabar logo com isso, não é? Até porque tenho que passar na casa de Shion e Dohko ainda hoje. – falei.
Milo levou Hyoga até a cama, onde eles se sentaram. Milo estava com o braço ao redor do meu garoto e eu podia sentir que ele também estava nervoso com aquela situação. Isso só me deixava pior. O que podia ter acontecido de tão grave para que eles estivessem tão apreensivos em me contar?
– Muito bem, Hyoga, você sabe que não gosto de rodeios. Por isso, levanta esse rosto, olhe para mim e me diga o que está acontecendo. – falei cruzando os braços.
Hyoga ficou calado por um tempo. Isso estava me irritando. Foi quando ele levantou o olhar para Milo. Esse, por sua vez, lhe sorriu docemente, como se estivesse lhe dando coragem. Hyoga suspirou outra vez e olhou para mim. Aqueles olhos me tiraram do eixo. Ele estava sofrendo. Meu garoto estava sofrendo. E não era o mesmo sofrimento de quando ele era pequeno. Era algo mais profundo. Eu finalmente entendi o que era aquilo que senti em seu cosmos pela manhã. Isso realmente era algo com o qual eu devia me preocupar. Eu já estava ficando agoniado por não obter a resposta que queria. Quando dei que ia falar, Hyoga ergueu a mão, dando a entender que queria que eu esperasse. Mas então ele afastou a munhequeira que estava usando. Ele sempre usou aquilo? Foi quando ele virou o pulso para mim e eu vi uma cicatriz. Ele não tinha aquela cicatriz antes. Então aquilo era...
– O que isso significa, Hyoga? – perguntei firme. Eu queria não acreditar.
– Eu... tentei me matar.
Continua...
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