Aprendendo a Seduzir
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Camus POV
– Sr. Chevalier?
– Heim? – eu fiz, emergindo dos meus devaneios para mirar a pessoa que me chamara da porta.
Era segunda feira. Eu havia encerrado a última reunião as 16:30 e me deixara ficar na sala da reuniões da empresa, pensando em como deveria agir com relação ao meu suposto compromisso com o Milo. Ele não poderia estar acreditando mesmo que eu iria me encontrar com ele poderia? Aquela coisa de 'eu te vejo na segunda' era só piada, certo?
– O Senhor ainda vai precisar de mim pra alguma coisa?
Eu olhei no relógio.
– Não, Isak, obrigado, você já pode ir embora agora.
O Isak era meu estagiário na empresa. Um garoto esforçado e responsável. Ele estava no terceiro ano de Economia pela Universidade de New York e era pouca coisa mais velho do que o Hyoga.
Eu olhei pela janela. Ainda não estava nevando, mas embora passasse só um pouco das cinco estava escuro como breu. E pensar que ontem mesmo tinha feito um tempo tão claro que o Dite até me arrastara pra uma partida de Badminton no jardim. Nas palavras dele o Máscara o havia feito ingerir 'quantidades horrendas' de calorias com uma barra de chocolate que trouxera pra ele da Itália, e agora ele 'necessitava' se exercitar pra gastar aquilo tudo. Bom, eu não tinha ingerido 'quantidade horrendas' de calorias e mesmo assim me vi compelido a uma partida de Badminton à absurda temperatura de 1o C (pelo menos era o que marcava o termômetro do meu relógio). Realmente, ainda bem que eu nunca me importei muito com temperaturas baixas.
Na verdade eu até gosto, sabe. Quando neva, eu digo. New York fica diferente depois que neva. Até um dedo já faz diferença: cobre toda a sujeira e as pixações, e deixa tudo com um ar reluzente e novo. Vinte dedos então (que era o que o canal da previsão do tempo vinha prometendo pra aquela noite) podiam fazer com que a cidade parecesse outro planeta.
– Um dólar pelos seus pensamentos. — a voz do Dite me surpreendeu. Não era muito comum ele aparecer na empresa.
– O que aconteceu?– eu me virei na direção dele, que se acomodava no parapeito da janela ao meu lado — Todas as galerias de compras da cidade fecharam as portas? Ou você só resolveu parar de torturar a sua estagiária mesmo?
Ele colocou as mãos na cintura, fingindo indignação.
– A sua surpresa me insulta, Camus. Eu também trabalho aqui, esqueceu? E a Marin me adora.
Marin, era o nome da estagiária dele.
– Esse é outro ponto. — eu respondi — Eu simplesmente não entendo como você consegue escravizar as pessoas e ainda fazer com que elas te adorem por isso, sabe.
De verdade. Era impressionante. Das meninas da limpeza, passando pelo guardinha da recepção, aos estagiários da empresa, todos, absolutamente todos, adoravam o Dite. E não era só no trabalho, não. As criadas lá em casa eram completamente loucas por ele. Era sempre 'Sr. Chevalier' pra mim (em um tom bastante formal) e 'Dite, querido' pra ele, ou 'Sr. Afrodite', seguido de um imenso sorriso. E nem era ele quem pagava os salários delas. Sinceramente, às vezes eu acho que se fosse o Afrodite no lugar da Maria Antonieta na França nunca teria havido uma Revolução Francesa. E ele podia mandar o povo comer quantos brioches ele quisesse (1).
– Hum, agora que você falou... – ele franziu a testa como quem pensasse no assunto — eu realmente não sei bem. Será um dom?
Ele arregalou os olhos azul piscina, fingindo inocência, e, como eu não desse importância, continuou, parando com o teatro:
– De qualquer forma, você quase acertou. Eu não sei quanto às galerias, mas a cidade inteira está parada por causa da tempestade de neve que não param de anunciar em todos os canais da TV.
Eu olhei pra fora mais uma vez. Dali, da sala de reuniões no primeiro andar, diferente da minha sala no 11º, dava pra ver nitidamente as ruas, praticamente vazias, lá fora, embora nós estivéssemos no centro financeiro de uma das maiores capitais do mundo. Tinham caminhões cheios de sal e areia percorrendo as avenidas, quebrando os galhos das árvores enquanto passavam, e eu podia apostar que já havia acabado o estoque de pão e leite nos mercados.
– Impressionante. – eu comentei — É só cair uma nevezinha qualquer e New York inteira pára.
– Camus, Camus, — ele se levantou do parapeito da janela e se acomodou em uma das cadeiras da mesa de reuniões, em frente ao meu notebook — eu às vezes fico com sérias dúvidas se você é mesmo francês, ou se foi raptado da Sibéria, sabe.
Ignorando solenemente o comentário, eu me sentei também, enquanto ajeitava uns últimos papéis que faltavam na minha pasta, e assistia ele ligar meu laptop e colocar os óculos. É, o Dite também precisa de óculos. Só que diferente de mim ele costuma optar pelas lentes de contato, então, claro, ninguém sabe disso. E quando eu digo ninguém, eu falo ninguém mesmo. Ninguém tirando eu e a mãe dele, pra ser mais específico. Realmente, acho que o fato do Afrodite usar óculos é um dos segredos mais bem guardado da humanidade depois da Área 51 e da fórmula da Coca-Cola (2). –
Como a gente sai dessa coisa e entra no facebook? — ele questionou, impaciente, apertando insistentemente alguns botões do meu computador. Ele estava se referindo ao programa de gráficos no qual eu estivera trabalhando até a última reunião começar. Eu puxei o computador das mãos dele e fechei o programa antes que ele acabasse resetando o meu HD.
Então me lembrei de algo que já há algum tempo eu vinha querendo lhe perguntar, só que ultimamente as coisas vinham sendo tão corridas.
– Você acha que eles vão vir pro Natal?
– Heim? Quem?... – ele perguntou, e logo completou — Ah, o seu pai e a minha mãe? Duvido muito. A última vez que eles ligaram, estavam na França, e, você sabe, nunca que a mamãe perderia a oportunidade de um Natal em Paris. De qualquer forma, nós já temos planos pra Véspera, então é até bom que eles não apareçam.
– 'Temos', é? – eu perguntei, já com medo da resposta. Porque, vocês sabem, a idéia de 'planos' do Afrodite costuma ser bastante inquietante. Pra dizer o mínimo.
Quer dizer, teve aquela vez, no primeiro ano do colégio, em que ele disse que tinha 'planos' pra me aproximar da garota que eu gostava, e escreveu um bilhete com o meu nome marcando um encontro em um banheiro da escola. Segundo ele, ninguém iria nos incomodar ali porque o banheiro estava fora de uso, então eu só tinha que esperar ela aparecer e me declarar pra ela (como se isso fosse acontecer). Resultado: A garota não apareceu, a tranca do banheiro emperrou e eu acabei tendo que ser tirado de lá pelo corpo de bombeiros local.
Depois teve a vez da formatura, quando ele resolveu me arrumar pra festa e garantiu ter um ótimo 'plano' pra me livrar das sardas (eu tinha sardas quando jovem). Infelizmente o 'plano' em questão envolvia um mistura caseira de suco de limão e o fato de eu não poder sair no sol depois da aplicação. O que, claro, ele esqueceu completamente de me comunicar. Resultado: eu ganhei queimaduras por todo o rosto. Demorou duas semanas pra pele voltar ao normal.
Ah, e eu não posso me esquecer daquela vez na faculdade em que ele disse ter grandes 'planos' pro nosso fim de semana em Londres. Só que, claro, os 'planos' dele incluíam uma festa regada a drogas e me usar pra fazer ciúme no ex dele, pra provar que o cara ainda era a fim dele. Bem, ele estava certo. O sujeito era mesmo a fim dele. Tanto que partiu pra cima de mim a garrafadas no meio da festa. Resultado: nós três passando a noite em uma delegacia inglesa. Lesões corporais recíprocas. Meu pai suspendeu nossa verba por um mês como castigo.
E então, será que alguém ainda pode me culpar por ficar um tanto quanto aterrorizado quando o Dite fala em 'planos'?
– Temos sim. – ele respondeu, no entanto, todo alegre, abrindo um lindo sorriso, que só fez aumentar o meu temor — A Marin, — ele continuou — você sabe que ela está noiva não é?
Eu fiz que não com a cabeça.
É, eu sei que ela é estagiária do Di e trabalha comigo o dia inteiro, mas eu não costumo me interessar muito pela vida particular das pessoas, sabe.
– Ah, bem, não importa, — ele prosseguiu, dando de ombros, como se já esperasse por aquela resposta — o fato é que ela está. Ele também é advogado e eles se conheceram na faculdade. Só que ele já é formado. Aluno de pós graduação, você sabe. Ele é grego, e a mãe parece que é contra o casamento porque queria que ele se casasse com uma mulher grega, ou algo assim. O que é realmente difícil pra Marin porque...
– Dite, – eu interrompi. Porque eu não precisava mesmo ficar ouvindo aquilo, precisava? Quer dizer, convenhamos, se tinha algo que eu realmente não queria naquele momento era pensar em gregos e na forma bizarra como a cabeça deles pareciam funcionar. — eu não estou minimamente interessado na vida romântica da sua estagiária. Então será que você poderia, por favor, me poupar dos detalhes pessoais e me explicar o que tudo isso tem a ver com a minha Véspera de Natal?
Sério. Por que de repente eu sentia como se estivesse cercado de gregos? Até então a Grécia pra mim não passava de um país mediterrâneo distante, berço da filosofia e das artes, com lindas ilhas que eu talvez um dia pensasse em visitar. E, de repente, era com se New York inteira tivesse sido tomada por gregos. Meu dentista era grego. Um dos nossos principais investidores na empresa era um banco grego. Jaqueline Kennedy se casou com um grego. O Hyoga e o Shun resolveram alugar 'casamento grego' pra assistir nesse fim de semana. E agora até a estagiária do meu melhor amigo ia noivar um grego!
– Credo Camie, precisa ser tão frio! – ele exclamou indignado, mas logo prosseguiu — Bom, o caso é que eles... ela e o noivo... resolveram fazer uma festa pra anunciar oficialmente o noivado. Só para os amigos deles e os irmãos do noivo, sabe... Parece que ele tem um monte de irmãos... Então, como a gente já está perto do Natal e tudo, eles resolveram aproveitar o feriado, e organizar uma festa de Natal em uma casa de campo em East Hampton, e nós, é claro, estamos convidados.
Eu abri a boca pra protestar, mas fui impedido.
– Nem adianta, Camus. – ele afirmou categórico — Eu já confirmei que nós iríamos. Seria grosseria voltar atrás agora. O Hyoga avisou que tinha planos, então vamos ser só eu, você e o Carlo.
Eu bufei. Que ótimo! Fantástico! Ia ser mesmo um Natal memorável. Eu, o Dite, o serial killer ciumento que ele chama de namorado e um monte de gregos por toda parte. Era tudo que eu precisava.
– Bom, — ele continuou diante da minha reação — você não achou mesmo que eu fosse te deixar passar o Natal sozinho com aqueles livros velhos, achou?
É, infelizmente eu tinha achado sim. Na verdade eu já tinha até separado aquele livro novo que o Shaka me emprestou ('O Tao da Física'), e estava bastante animado com a perspectiva de alguns momentos sozinho. Quanta ingenuidade da minha parte. Imagine achar que o Dite iria mesmo me deixar em paz no Natal! Deus, como eu odiava o Afrodite imbuído de seu mais irritante espírito natalino.
– E por falar em passar o natal sozinho, — ele perguntou — quando exatamente a sua excelentíssima noiva nos dará o ar de sua graça?
– Não sei. – eu respondi, dando de ombros — Depois das festas, eu acho. Você sabe que ela disse que prefere de passar o final do ano com o avô.
Era verdade. A Saori prezava muito o avô. Ela tinha ficado órfã há dois anos além de ter sido criada com ele. Então, mesmo que fosse nosso primeiro Natal, era normal que ela quisesse passar com ele as festa de final de ano. O que eu estava achando ótimo, na verdade. Era sempre bom ficar um tempo sozinho pra organizar as coisas. Quer dizer, quando o Dite deixava que isso acontecesse. Ou seja, quase nunca.
– Sinceramente, Camus, até quando você pretende continuar com isso? – ele lançou, de repente.
– Com isso o quê? – eu perguntei, embora já fizesse uma boa idéia do que ele estava falando.
– Você sabe perfeitamente. – ele retrucou — Com essa loucura de noivado.
Eu suspirei. Realmente, eu não queria entrar naquele assunto de novo. Então eu só disse, em um tom que esperava que soasse definitivo:
– Eu não vejo por que isso seria considerado uma loucura.
– Porque é loucura pensar em casar com alguém por gratidão? – ele respondeu, irônico.
– Eu não estou casando por gratidão. – eu me defendi — Eu... eu gosto dela.
– Gosta, Camus? – exasperou-se ele, espalmando as mãos na mesa- Por favor! Você nem sabe o que a garota gosta de comer no almoço! E sobre o que é que vocês conversam, afinal? Sobre as cutículas dela?
Eu fechei o rosto. Não me importava que ele tivesse razão. Então conversar com a Saori não era muito interessante mesmo, mas e daí? Só porque um casal não tem muitos assuntos em comum não significa que eles não possam estar juntos, significa? E eu tinha muito carinho por ela. Ela tinha salvo a vida do Hyoga!
E foi exatamente isso que eu lembrei à ele, esperando inutilmente que ele finalmente compreendesse. Infelizmente tudo que ele fez foi girar os olhos claros com impaciência e dizer:
– Ótimo. Então me diga: e se fosse o Ibrahim quem tivesse salvo o Hyoga? Você também se casaria com ele pra agradecer?
Ibrahim era o nosso traficante local. Egípcio. Imigrante ilegal, é claro. Ele estava sempre por lá quando nós saíamos pra tomar um café, ou no horário de almoço, sabe. Parado na calçada com a sua imensa parca bege oferecendo sua mercadoria a quem passasse. Ele havia desenvolvido algum tipo de fixação mórbida pelo Dite desde que o confundira com uma modelo canadense e nós meio que acabamos travando um tipo de coleguismo com o cara. Vocês sabem, não é bom criar inimizade com o traficante do seu bairro. E, embora a maior parte dos traficantes que andassem por ali fossem jovens e atléticos o suficiente pra fugir bem rápido quando a polícia aparecia, o Ibrahim já tinha certa idade, estava bem acima do peso, e não parecia ter muito interesse em banhos.
De forma que eu apenas disse:
– É claro que não! Não seja ridículo, Afrodite. E nós também já conversamos sobre isso, non?
Nós já tínhamos conversado. Várias vezes, diga-se de passagem. Sobre o meu casamento, eu digo. Não que ele já tivesse sugerido antes que eu pudesse me casar com o Ibrahim, é claro.
– Tá. Tudo bem.- ele cedeu com um suspiro — Mas e quanto ao Milo?
Será que eu já comentei o quanto ele podia ser irritante às vezes?
– O que tem o Milo? – eu me fiz de desentendido.
–Ora, Camus, por favor! Não subestime a minha inteligência, sim? – ele exclamou impaciente, batendo os pés calçados nas elegantes botas pretas de cano longo. Prada, como ele gostava de alardear.
Eu respirei fundo e me levantei novamente, caminhando mais uma vez até a janela.
Ok. Então talvez ele estivesse certo, e eu estivesse mesmo um pouco atraído pelo cara. Tá, tudo bem, eu estava realmente atraído pelo cara. O que era bastante estranho considerando-se que eu não costumava sentir esse tipo de coisa por pessoas do mesmo sexo e tudo. Só que isso não queria dizer que eu ia cancelar meu casamento por causa disso, não é? Porque, vocês sabem, aquilo tudo... bom, aquilo tudo não passava de um mal entendido, sabe? Um grande mal entendido. Talvez eu só estivesse há tempo demais longe da Saori, não sei. De qualquer forma, aquilo era errado. Eu ia me casar e... Ora, era do Milo Scorpion que nós estávamos falando! O cara fútil, abusado e incapaz de se comprometer. O ator leviano que tinha transado com a minha noiva. Tudo bem que ele também beijasse fenomenalmente bem, tivesse aquele sorriso lindo e aqueles olhos azuis absolutamente incríveis... Mas não era ele que eu amava. Não mesmo.
E foi exatamente isso que eu tentei explicar pro Dite. Bom, não com tantos detalhes.
Só que a única coisa que ele fez foi replicar, indignado:
– E quem você ama? A Saori? Pelo amor de Deus, Camus! A garota ficou impressionada quando o nutricionista dela lhe disse que havia poucas fibras em barras de cereal. Até a Paris Hilton é mais esperta do que ela!
Eu olhei pra ele muito sério. Não dava pra acreditar, o cara tinha um psicopata por namorado e vinha questionar as minhas escolhas?
– Você não devia falar assim dela, Dite. – foi só o que eu respondi, no entanto. -Ela é uma pessoa muito doce e tem um coração enorme.
Ele girou os olhos.
– Ah, pare com isso! Como se você estivesse interessado no coração dela. Virou cardiologista agora? Por favor. A garota tem o QI de uma mosca, e você sabe disso.
– Vocês estão brigando?- Antes que eu pudesse pensar em responder alguma coisa, a voz do Hyoga na porta chamou nossa atenção.
– Oga? – eu indaguei, surpreso com a presença dele ali. Não que eu não soubesse que ele estava aproveitando as férias pra fazer um estágio na empresa. Eu sabia, é claro. Só que eu achei que ele já tivesse saído há muito tempo. Quando eu dispensei o Isak pra ser mais específico.
– Oi mano. Oi Di. – ele cumprimentou sorrindo.
– Oga! – o Dite exclamou, subitamente animado. — Você chegou na hora certa. Senta aqui, nós precisamos de uma opinião sua.
Eu lancei um olhar de aviso pro Dite, sinalizando que era pra ele manter a boca fechada. Mas ele simplesmente fez um floreio com a mão indicando que era pra eu não ficar estressado. O que, obviamente, vindo do Dite, só fez piorar o meu receio.
– Minha? – o Hyoga estranhou.
E eu não podia lhe tirar a razão, já que o Afrodite raramente pedia a opinião de alguém pra alguma coisa, muito menos a do Oga.
– É. – o Di continuou, muito naturalmente — Eu e o Camus estávamos aqui conversando, sabe, e o Camus... bom o Camus tem... humm... uma calça.
– Uma calça? – o Oga ecoou, verbalizando meu próprio pensamento. Porque, francamente, 'uma calça'?
– É. Uma calça. Uma calça que ele gosta muito porque... porque era do pai dele.
Mon Dieu, onde exatamente ele queria chegar com aquilo?
– Do papai? – o Hyoga estranhou mais uma vez — Eu não acho que uma calça do papai serviria no Camus.
Não serviria.
Digamos, por que meu pai tenha, tipo, um palmo a menos de altura, e um e meio a mais de largura do que eu? Pelo amor de Deus, qualquer criança poderia ver que o exemplo era absurdo! Não que aquele sueco tresloucado se incomodasse com isso, é claro. De jeito nenhum. A palavra 'absurdo' nem existia no dicionário dele, pra começar. De forma que ele simplesmente continuou, impaciente:
– Não fique se apegando a detalhes insignificantes e apenas escute, sim? Bom, então, como eu ia dizendo, o Camus tem essa calça de que ele gosta... mesmo eu achando que realmente não fica muito bem nele... e ele é muito apegado a ela porque ela tem um certo... hum... valor sentimental pra ele, entende? Então ele realmente não quer se desfazer dela. Só que há uns dias atrás ele viu outra calça. Uma calça linda, destaque de todas as revistas de moda. E ele ficou com muita vontade experimentar.
– Eu não fiquei com vontade de experimentar. – eu protestei inutilmente.
– Ficou sim. – ele retorquiu, antes de continuar. — Então, voltando, ele viu essa calça que ele ficou sim com vontade de experimentar, e que eu tenho certeza de que é exatamente o número dele...
– Então a outra calça não servia mesmo nele? – o Hyoga interrompeu.
– Mas que obsessão com isso! – O Dite exclamou irritado. Ele odiava totalmente ser interrompido no meio de uma de suas histórias.
– Não é obsessão – o Oga se defendeu – uma pessoa precisa que suas calças sirvam nela, em primeiro lugar, não?
Francamente, o Hyoga não podia mesmo estar considerando seriamente aquela história estapafúrdia do Afrodite sobre calças, podia?
– Bom...- o Dite suspirou, sem se dar por vencido. É claro que não. Ele nunca se dava por vencido mesmo, não é? -... ele achava que servia, mas... bem, digamos que ele andou comendo um pouco demais nos últimos tempos e acabou engordando, é isso.
– O Camus engordou? – o Hyoga voltou os olhos incrédulos pra mim, como que avaliando o quanto eu supostamente poderia ter engordado pra não estar cabendo em uma calça do papai.
Sério, eu não merecia aquilo.
– É. Engordou. Ele está imenso, não está vendo? – exasperou-se o Dite, apontando pra mim, que, ainda recostado na janela, apenas olhei pro Hyoga e balancei a cabeça, um tanto decepcionado. Deus meu, será que o meu irmão não tinha aprendido nada? Quer dizer, aquele era o Afrodite! Era preciso ignorar cerca de oitenta por cento do que ele falava pra manter uma mente saudável.
– Então, como eu disse, — ele empertigou-se na cadeira, retomando seu discurso — ele ficou com vontade de experimentar essa outra calça, mas o Camus não acha legal você só experimentar uma roupa, sabe. E as duas calças são muito caras de forma que ele só pode levar uma delas.
– Isso tudo não é realmente sobre calças, é? – indagou o Oga, olhando de mim para o Afrodite, desconfiado.
– E quem se importa? – esbravejou o Dite, farto das interrupções do Hyoga — Será que você não pode sossegar um minuto e simplesmente me escutar calado?
– Se você queria traçar uma metáfora, — defendeu-se o Oga — você deveria construir uma mais coerente. Por que o Camus teria que pagar por uma calça que era do papai?
Bom, o que se podia fazer, o Dite nunca foi grande coisa nesse negócio de metáforas, mesmo. Só que, claro, ele jamais admitiria isso. De forma que tudo o que ele fez foi lançar um olhar mortal pro Oga, que recapitulou a contragosto:
– Tá, tudo bem, então o Camus tem duas calças: Uma velha, que provavelmente não serve mais por ele estar imensamente gordo, mas que ele gosta muito porque era do papai. E uma nova, linda e moderna, que é exatamente o número dele, mas que ele não experimenta devido a um novo e rigoroso código de etiqueta que preleciona ser tremendamente grosseiro experimentar roupas que não se pretende comprar. E agora ele tem que decidir por apenas uma delas, já que ambas são muito caras, porque aparentemente meu pai decidiu explorar economicamente os filhos, vendendo a eles suas roupas usadas a preços exorbitantes. É isso?
– É. É mais ou menos isso, sim. – o Dite concordou muito tranquilamente, ignorando a ironia. – Só que se ele se decidir pela calça antiga, acabará perdendo a nova, por que, você sabe, alguém vai acabar comprando ela e tudo mais, e ele terá que ficar com a antiga pelo resto da vida. Ou por muito tempo, pelo menos. – ele completou, antes de perguntar — E então o que você faria no lugar dele?
Eu balancei a cabeça. Não dava pra acreditar que a minha vida afetiva tinha sido reduzida a um problema com roupas. Ou melhor, com calças! Sinceramente.
– Bem, — o Oga respondeu – eu não acho que eu me sentiria muito confortável em ficar com uma mesma calça pro resto da vida... mas se eu tivesse que fazer isso pelo menos escolheria uma que me servisse.
– Exato! – o Dite quase gritou. Os olhos brilhando de entusiasmo.
Mon Dieu, dez anos de convivência eu ainda não havia conseguido me acostumar com as oscilações de humor dele. Às vezes eu sentia pena do Máscara. Sério.
– Hyoga você é um gênio! – ele continuou — É exatamente isso que eu venho dizendo ao seu irmão, sabe. Mas ele é tão teimoso...
– Olha, sério, — o Oga interrompeu mais uma vez, se levantando da cadeira onde ele havia sentado — a conversa está muito boa e eu adoraria continuar aqui discutindo sobre modelos de calças, ou seja lá o que for, com vocês, mas eu já combinei de encontrar com o pessoal, então... – ele acenou com a mão e foi indo em direção a porta.
– Por 'pessoal' eu devo entender o chinês bonitinho, o pezinho de alface e o irmão gostosão dele? – o Dite perguntou sorrindo.
O 'chinês bonitinho' era o Shiryu, um dos amigos de faculdade do Oga. Ele era chinês, obviamente. 'Pezinho de alface' era como o Dite se referia ao Shun. Ele havia apelidado o garoto assim por causa da cor que ele tingia os cabelos. Verde clorofila. É, eu também estranhei no começo, mas parece que aquilo era moda no Japão, então... Pintar o cabelo de cores esquisitas, eu digo. A Saori também voltou de lá um vez com os cabelos roxos. Roxos! Dá pra acreditar. Ainda bem que ela logo retornou ao castanho natural dela. Quer dizer, imaginem eu e ela caminhando juntos pelas ruas. Vermelho e roxo. Tudo bem que aquilo era New York e era normal ver anões vestidos de Frodo e punks de triciclo, mas mesmo assim.
– Os próprios. – o Oga respondeu antes de sair. – Dite, — eu adverti — eu espero que no futuro você possa guardar seus comentários só pra você. Pelo bem do garoto.
Eu não queria nem pensar no que aconteceria se o maníaco ciumento do namorado dele o ouvisse se referindo ao irmão do Shun daquele jeito. Mas ele só sorriu, suspirando.
– Ah, o que eu posso fazer? Os meninos malvados são mesmo mais divertidos.
– Fale por si próprio. – eu respondi.
– Bem, Camie, — ele se levantou também, pegando o casaco impermeável (azul metálico) e os protetores de orelha — eu também já estou indo. Eu marquei hora com a Shirley e já estou atrasado. E eu tenho esperança de chegar em casa antes da tempestade.
– Eu não acredito, Dite! – eu repliquei — Você continua jogando dinheiro fora com aquela vidente fajuta!
– Ela não é fajuta! – ele se indignou.
– Dite, ela disse que nós fomos cavaleiros sagrados de uma deusa pagã em outra vida, lembra?
Podem acreditar. Ela tinha dito mesmo aquilo. Na primeira e última vez que o Dite conseguiu me arrastar pra aquele lugar, diga-se de passagem.
– Bom, Camie, — ele falou displicente — eu não sei quanto a você, mas eu tenho certeza de que eu ficaria lindo em uma armadura dourada.
– Dite, — eu suspirei — pra começar, as armaduras antigamente eram feitas de ferro ou aço, no máximo bronze, que são bem mais resistentes do que o ouro. Portanto elas teriam que ser prateadas, quem sabe acobreadas, mas jamais douradas.
– Camus, — ele me olhou como se eu tivesse dito a maior besteira do mundo — que parte do 'sagrados' você não entendeu? É claro que elas eram douradas! E eu fico muito melhor de dourado.
– Tá. Tudo bem. Tanto faz. – eu dei de ombros.
Realmente. Por que é que eu estava discutindo sobre aquilo com ele? Era culpa do Milo. Tinha que ser. Ele tinha feito alguma coisa com o meu cérebro, era isso. Alguma coisa que me impedia de reagir adequadamente quando ele me tocava. Alguma coisa que fazia com que eu pensasse obsessivamente sobre coisas inúteis. Como cores de armaduras inexistentes. Ou como o beijo de quinta feira na minha garagem. Se é que eu podia chamar aquilo de beijo.
– E ela até previu que eu e o Carlo vamos nos casar. – o Dite insistiu.
– O que só confirma que a mulher é uma fraude, non? – eu respondi o óbvio.
– Que cruel, Camie! – ele fez um biquinho, e então continuou, — Como você pode saber?
– O fato da união entre dois homens não ser reconhecida por lei te diz alguma coisa? – eu ainda tentei incutir algum senso de lógica naquela cabeça loira.
– Em New York, mon cher. – ele respondeu imitando de maneira exagerada meu sotaque — Não se esqueça de que eu sou sueco e na Suécia as leis são bem diferentes.
– Ok, Di. Você venceu. – eu me rendi, desanimado.
Era totalmente inútil tentar argumentar com o Dite. Sério.
– Eu sempre venço. – ele sorriu vitorioso, se virando para abrir a porta.
– Ah, e Camus... – ele acrescentou antes de sair — vai ficar tudo bem com o Oga, ok? – ele encostou a ponta de uma unha manicurada (só um pouco de base, nada muito alarmante) na minha testa — Então vê se não esquenta muito essa sua cabecinha ruiva com isso.
Ele estava se referindo à coisa toda do acidente do Oga, claro. E ao fato de que as férias de inverno estavam chegando ao fim, logo estaríamos em Fevereiro, e então ele estaria finalmente liberado pelo médico, e iria querer voltar pra Universidade. Pela primeira vez desde o incidente do assalto.
Foram três meses até ele conseguir se recuperar totalmente do ferimento sofrido e mais quatro de repouso recomendado. Eu sabia que não ia conseguir segurá-lo em casa mais nem um dia sequer. Só que eu realmente não queria que ele voltasse. Eu temia que ele fizesse alguma estupidez, sabe. Como, tentar se vingar dos assaltantes, ou algo do tipo. O Dite ficava dizendo que era besteira minha e que eu não devia me preocupar tanto com isso. Mas eu conhecia o irmão que eu tinha e sabia o quão imprudente ele podia ser quando queria.
De mais a mais, ele andava muito cheio de segredinhos esses dias. Cheio de conversas a meia voz com o pezinho de alface, quer dizer, com o Shun (o Dite precisa realmente parar com essa mania de dar apelidos pras pessoas), e parando de falar quando eu ou o Dite entrávamos na sala.
E foi exatamente enquanto eu pensava sobre isso, sobre esse problema todo com o Oga, que o alerta de e-mail no meu Blackberry apitou. Eu olhei a caixa de entrada. Uma mensagem recebida:
"Ruivo, você sabe que horas são? Agora faltam 15 minutos para as sete horas, o que significa que você está exatamente 45 minutos atrasado para o seu compromisso. Não é nada educado deixar uma pessoa esperando, e falta de educação é algo que eu não posso tolerar. Por isso pegue aqueles seus óculos e venha se encontrar comigo aqui fora imediatamente ou eu juro que entro aí à força e te arrasto pra cá.
Milo."
Demorou alguns segundos pra que eu saísse do estado de completa catatonia que aquela mensagem me deixou. Meus olhos simplesmente percorriam as letras na tela uma vez , depois outra, e de novo, sem que as palavras parecessem fazer qualquer sentido. E então, de repente, minha cabeça se encheu de perguntas e, devo dizer, indignação: O que significava aquilo? O que estava acontecendo, afinal? Quem ele pensava que era? Onde, diabos, ele havia conseguido meu endereço de e-mail e... espera... o que ele quis dizer com 'aqui fora'?
Com um pressentimento horrível pesando no estômago eu caminhei depressa até a janela, e olhando mais uma vez pra rua percebi um carro que não estava ali até então. E, recostado nele, em pé, sob a luz de um poste de iluminação, a figura alta, os longos cabelos dourados esvoaçando ao vento, os olhos tão azuis que pareciam atravessar a escuridão, inconfundível.
Diferente da outra noite ele não estava usando gorro, cachecol, ou qualquer outra coisa que pudesse disfarçar sua aparência, de forma que era possível reconhecê-lo mesmo à distância. E, embora as ruas estivessem praticamente vazias por causa da ameaça de neve, as poucas pessoas que arriscavam um passeio por ali já começavam a se juntar em pequenos grupos e apontar. Eu suspirei. Não demoraria muito o local estaria apinhado de fãs insanas e paparazzis loucos atrás de notícias. E não haveria tempestade de neve no mundo capaz de impedi-los.
Sem pensar mais vezes eu empunhei o celular e digitei depressa:
"Você está louco? Saia daí imediatamente!
Camus."
Como que ecoando meus temores, a resposta chegou alguns segundos depois:
"Venha até aqui agora mesmo ou eu posso te garantir que os jornais vão ter muito o que noticiar amanhã. E eu não estou falando sobre a tempestade de neve.
M."
É, talvez eu fosse mesmo. Só pra poder enforcar aquele grego maldito.
"Mesmo se eu quisesse me encontrar com você," – eu menti – "o que eu estou certo de que não seria absolutamente prudente, eu não poderia, pois estou preso em uma reunião sem hora pra acabar, portanto é melhor você ir.
C."
Alguns minutos mais tarde veio a resposta:
"Sinceramente. Você não espera mesmo que eu acredite nessa história ridícula de que você está preso em uma reunião em um prédio vazio e escuro, quando toda a cidade está trancada em casa com medo da nevasca, espera?
Se isso for mesmo verdade, tudo que eu posso dizer é que superestimei sua inteligência, se é uma simples reunião que te mantém preso em sua própria empresa. Ou que você subestima a minha. Naturalmente, se isso não for verdade, tudo que eu posso fazer é pedir a Deus que perdoe essa sua alma mentirosa, já que eu certamente não poderei fazê-lo.
M."
Eu olhei mais uma vez pra baixo. Era impossível distinguir seu rosto nas sombras, mas eu podia jurar que ele estava sorrindo. Tinha alguma coisa a ver com a postura dele, não sei. Deviam ser seus ombros. Sim, eram seus ombros. Seus ombros definitivamente estavam sorrindo.
Eu suspirei mais uma vez, irritado.
"Entre."
Foi minha resposta final, antes de pegar o telefone, discar o ramal da recepção a contragosto e liberar a entrada dele no prédio.
Nota:
1 - Atribui-se, a Maria Antonieta, esposa do rei Luís XVI, da França, a famosa frase: "Se não têm pão, que comam brioches", que teria sido proferida a uma de suas camareiras certa vez que um grupo de pobres foi ao palácio pedir pão para comer. No entanto, muitos historiadores afirmam que a rainha nunca disse tal frase, que acabou sendo usada contra ela durante a Revolução Francesa.
2 - A Área 51 e um complexo militar de grande atividade encravado no Deserto de Nevada, mas que oficialmente não existe, sendo assim considerado por muitos como um dos maiores segredos dos Estados Unidos.
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