Aprendendo a Seduzir
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia.
AVISO: Esse ch contém situação de incesto.
Camus POV
O Afrodite permanecia deitado na cama exatamente na mesma posição em que eu o colocara. Não fosse pelo grande número de hematomas, seu rosto estaria pálido. Eu estava sentado em uma cadeira junto à sua cabeceira, enquanto o médico, o examinava.
Meu pai achou melhor não informar Brigitta do ocorrido ainda com medo de prejudicar o bêbe, e permaneceu no vestíbulo aguardando pra dar a notícia com cuidado caso ela acordasse.
– Ele vai ficar bom? – O medo fazia com minha voz soasse fraca e rouca. Não conseguia desgrudar os olhos do rosto dele, temendo que ele pudesse morrer quando eu não estivesse olhando.
O doutor me dirigiu um sorriso bondoso enquanto começava a limpar o sangue do rosto do loiro com uma gaze umedecida em anti-séptico.
– Não tenho a mais leve dúvida de que ele vai se recuperar completamente.
O alívio que me invadiu era tão intenso que eu quase desabei.
– Qual a extensão dos ferimentos? — eu quis saber.
O médico trocou a gaze usada por outra nova. Eu tentava não me fixar nas bandagens tingidas de vermelho na lixeira.
– Não tem nenhuma costela quebrada – respondeu, umedecendo a gaze com o anti-séptico outra vez – mas os golpes em volta dessa parte de seu corpo são sérios. Imagino que ele vai se sentir muito mal durante vários dias. Os cortes no rosto não são fundos e não vão deixar cicatriz, mas o inchaço será realmente um problema nos próximos dias. Vai ficar pior, mas depois irá melhorando.
Eu relanceei os olhos pelo rosto ferido. Um dos olhos já estava fechado de tão inchado. Pobre Dite. Quem poderia ter feito uma coisa dessa?
Não fora o Milo, disso eu estava certo. Ele talvez não fosse muito com a cara do Dite, mas jamais faria algo assim. Ele podia ser muitas coisas, mas não era um homem cruel. E tinha mais, se fosse ele o culpado, não teria trazido pessoalmente o Afrodite pra casa. Teria deixado que outra pessoa o encontrasse.
Também não teria olhado pra mim com aquela expressão desolada de solidariedade nos olhos. Eu mal conseguira olhar pra ele por causa do remorso que vira em seu rosto. Ele não tinha exibido aquele olhar quando eu o flagara planejando roubar minha tiara. Ou talvez eu estivesse tão magoado e com tanta raiva que não notei.
Poderia ter sido o Máscara o culpado? Será que apenas fingira gostar do Dite esse tempo todo? Ele poderia ser um desses caras que desprezam os homossexuais?
Ou será que algum desses caras vira o Dite e o Máscara juntos e havia atacado os dois? Talvez o Mascára também estivesse machucado, jogado em algum lugar. Mon Dieu, e se isso fosse verdade? Eu precisava ligar pra ele pra me certificar. Na verdade, eu precisava ligar pra ele de qualquer forma, eu ainda não tivera presença de espirito de fazer muita coisa desde que vira meu amigo naquele estado.
Mas independentemente de quem tivesse feito aquilo, por que fizera com que o Dite fosse encontrado pelo Milo e não por mim? Isso não tinha sentido. A não ser que o grego já estivesse vindo pra minha casa quando o encontrara no caminho. Não havia pensado em perguntar pra ele onde o achara. Estava tão chocado, que praticamente lhe ordenara que fosse atrás de um médico enquanto carregava o Afrodite para o quarto. Não havíamos trocado nada além de algumas palavras desde que ele aparecera. E parecia que já tinha ido embora.
Pelo menos era isso que eu esperava. Mas ao mesmo tempo desejava que ele tivesse ficado. Na verdade, não sabia muito bem o que queria. Não, não era verdade, eu sabia o que queria. Eu queria que o meu amigo ficasse bem e que o desgraçado que o havia ferido desintegrasse no inferno.
O doutor terminou de limpar o rosto do Dite, e suas feições, embora feridas e inchadas, já estavam menos assustadoras sem o sangue. Os ferimentos não pareciam mais tão terríveis quanto antes, especialmente agora que já haviam parado de sangrar. Mesmo assim, cortava-me o coração vê-lo naquele estado. O Dite nunca seria capaz de ferir ninguém, e a idéia de que alguém pudesse fazer isso com ele daquela forma era inconcebível.
O velho médico tirou um pequeno vidro da sua valise. Tirou a tampa e retirou com uma espátula um pouco de pomada, que aplicou no rosto do Dite.
– Issa vai ajudar na cicatrização. – disse ele – Vou deixar isso com você. Durante os próximos dias será preciso cuidar dos ferimentos pra evitar que infeccionem. Troque os curativos de manhã e à noite, lave as áreas comprometidas e aplique o anti-séptico e esta pomada antes de colocar a nova bandagem
Eu assenti.
Depois de aplicar as bandagens no rosto do Dite, o doutor tirou as luvas e recolocou a tampa no frasquinho, que deixou no criado-mudo. Então puxou um receituário e prescreveu alguns remédios pra dor, relaxantes musculares e antinflamatórios.
Feito isso, destacou a folha de receita do bloco e me entregou dizendo:
– Fiz tudo o que pude senhor Chevalier. Se precisar de meus serviços novamente, sabe onde me encontrar.
Na verdade, eu não sabia. Não fazia idéia de onde Milo o trouxera.
– Mesmo assim, eu gostaria que o senhor me deixasse seu endereço, se possível, Doutor.
Sem perguntar por quê, ele tirou uma caixinha do bolso interno de seu casaco e retirou um cartão.
– Aqui está. – ele estendeu o cartão pra mim — Ele contém todos os meus dados.
– Merci – eu agradeci, pegando o cartão com os dedos trêmulos e frios.
Por mais que quisesse permanecer ao lado do Dite, sabia que seria uma grosseria não acompanhar o médico até a porta. Pus o cartão de visita no criado-mudo, perto do pote de pomada. Deixei uma das criadas com ele, com alguns dos analgésicos prescritos pra lhe dar caso acordasse e sentisse muita dor, e acompanhei pessoalmente o doutor até a saída.
Ele recebeu meus agradecimentos com um sorriso carinhoso, mas não quis aceitar nenhum pagamento, dizendo:
– Meus serviços já foram pagos, senhor.
Eu queria perguntar quem o fizera, mas não foi preciso. Milo o havia remunerado, sem dúvida. Mas por quê? Por que fazer tudo aquilo por mim e pelo Dite, quando isso não era necessário nem ele bem vindo?
Não, era mentira. Eu apreciara sua ajuda. Sua presença é que não era bem vinda. Ele tomara conta da situação com certeza pra me deixar em débito com ele ou algo do gênero.
Depois que o médico se foi, meu primeiro impulso foi subir de volta as escada e ficar ao lado do meu amigo até que ele acordasse. Em vez disso tomei a direção do hall iluminado e segui pelo corredor até o vestíbulo, onde deixara Milo com o meu pai. De alguma forma eu sabia que não ia encontrar o mais velho sozinho.
Não me enganara, e a constatação disso me emocionava e assustava. Não, não assustava. Não tinha medo, mesmo que parte minha achasse que deveria ter. Eu estava irritado pelo fato do Milo continuar na minha casa, e também porque ele poderia estar presumindo que tinha o direito de estar ali.
Ele estava sentado em uma poltrona perto do fogo, com um copo de whisky na mão, e falava alguma coisa com o meu pai, enquanto na TV um jornalista noticiava a explosão de um prédio abandonado no Queens.
De longe, eu analisei seu rosto. Aquele era um roso tremendamente especial, eu pensei. Parecia ter sido entalhado por passes de mágica e exibia uma beleza masculina atordoante que me faziam perder o fôlego. Ele era como uma pintura, a representação perfeita, feita a óleo, de algum anjo caído. A beleza em estado bruto dele, emoldurada pelos cachos dourados, era sempre meio atordoante pra mim, eaqueles olhos brilhantes, em um tom de azul ardente, faziam meu coração falhar. Era embaraçoso o jeito como aquele homem conseguia me virar do avesso apenas com um olhar.
Eu me aproximei em silêncio, sem fazer ruído. Mesmo assim, ele meio que percebeu minha chegada logo que entrei na sala e levantou a cabeça, voltando-se pra mim. Nossos olhos se encontraram enquanto ele terminava o que quer que estivesse dizendo ao meu pai, e como sempre acontecia a simples visão daqueles orbes azuis provocou um rápido sobressalto dentro de mim. Devagar, ele se levantou.
Estava com uma aparência péssima, eu percebi então, mas nem por isso menos bonito ou impactante. Parecia pálido e abatido, e seu cabelo, desalinhado por causa da chuva e do vento, caía ainda úmido sobre os ombros fortes. O casaco estava aberto, e eu podia ver que a blusa de gola alta que vestia tinha umas manchas escuras. Era sangue – o sangue do Afrodite. A blusa de lã cinza claro, e as mãos também, estavam sujas de sangue. Será que não lhe ocorrera perguntar onde era o toilet pra que pudesse se limpar?
Não. Eu podia dizer isso pela profundidade de seu olhar. Pedira whisky e nada mais.
Seguindo o olhar do grego, meu pai também se virou e ficou de pé.
– Como ele está? – perguntou então, aflito — Como está o Dite?
Eu coloquei a mão suavemente sobre seus ombros, tranquilizando-o. Mas isso também serviu pra acalmar a inquietação do meu próprio coração.
– Vai sentir muita dor quando acordar, — eu disse — seu rosto non vai ficar bonito durante algum tempo, mas o médico espera que ele se recupere inteiramente em questão de dias.
Ele suspirou aliviado.
– Grâce à Dieu!– disse, e então me puxou pra um abraço. Eu retribuí o gesto, mas minha atenção estava no homem parado perto do fogo. Ele tentava se mostrar relaxado, trânquilo, mas eu podia ver que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados pela força com que segurava o copo.
Eu mantinha o olhar fixo nele.
– Pére, — eu disse quando o mais velho me soltou – você se importaria de nos dar licença? Eu gostaria de falar em particular com o Sr. Scorpion por alguns instantes.
– Oui, bien sûr — Ele concordou – Estajam à vontade rapazes.
– Milo, — eu pedi então, mantendo ainda meu olhar em seu rosto. – Você poderia me acompanhar, s'il vous plaît?
Ele assentiu, me seguindo logo em seguida pelos corredores mal iluminados que levavam à biblioteca.
Assim que nós entramos, eu fechei a porta e atravessei a sala. Parado em frente a escrivaninha, o copo de whisky ainda nas mãos, ele levantou os olhos pra mim, e meu coração não ficou insensível à dor que viu neles.
– Se quiser, eu vou embora agora, – ele se adiantou, com uma voz tão cansada quanto parecia – mas achei que você poderia querer conversar.
Eu engoli em seco, desejando ardentemente que minha voz saísse normal quando eu falasse. Talvez sua fadiga fosse sincera, mas eu não ia deixar que ele soubesse como eu estava mal. Não se pudesse evitá-lo.
– O que aconteceu? – Apesar de todo meu esforço, minha voz soou como se eu tivesse um nó na garganta.
Ele tomou um gole do whisky antes de sacudir a cabeça.
– Não sei. Estava na casa em Hampston com a minha família pra comemorar a virada do ano quando...
Ele parou de falar e mordeu o lábio.
– Quando...? — eu quis saber, já começando a me exasperar com toda aquela hesitação. — Ce qui s'est passé? (1)
Ele me olhou com uma expressão estranha.
– Fui pra casa. – ele suspirou — Quando cheguei encontrei o loiro caído nos degraus em frente ao meu prédio. Imediatamente pensei em trazê-lo até você.
Por quê? Por que trazê-lo a mim?
– Por que non subiu com ele pro seu apartamento, — eu questionei — ou o levou pra um hospital?
– Porque você o ama, — ele disse — e eu sabia que iria querer ficar com ele. – ele bebeu outro gole. – E porque sinceramente não consegui pensar em mais nada na hora.
Poucos dias atrás eu teria rido disso, mas meus lábios pareciam incapazes de se expressar assim agora.
– E você tem alguma idéia da razão de ele ter ido pra sua casa e non ter vindo pra cá?
Ele suspirou outra vez. Foi um som mais pra pensativo do que triste.
– Não creio que ele tenha ido lá por vontade própria.
O medo se somou ao meu nervosismo. Eu havia suspeitado disso e o fato dele ter concordado com a minha suspeita me perturbou.
– Você acha que ele foi deixado lá de propósito pra que você o achasse?
– Sim – ele assentiu.
Eu franzi a testa. Havia algo que ele ainda não tinha me contado e a terrível percepção desse fato me ocorreu naquele momento.
– Você sabe quem fez isso? – eu perguntei.
Ele assentiu novamente, esfregando os olhos.
– Não o responsável pela agressão física em si, mas quem a ordenou.
Eu senti meu estômago revirar.
– A pessoa pra quem você trabalha... – disse — ele fez isso?
Ele estava estático e cinzento como uma estátua de pedra.
– Acredito que sim.
– Pourquoi? – eu perguntei inconformado. A descrença e o choque me fizeram recostar no encosto da potrona atrás de mim, pressionando o estômago discretamente com a mão pra tentar acalmá-lo. – Você e o Dite mal se conheciam!
Ele me olhava com os olhos azuis em desespero.
– Não, mas vocês dois são muito ligados.
Se fosse possível que uma pessoa literalmente congelasse de terror, eu teria ficado assim nesse exato momento.
– Era uma aviso. – disse.
– Sim.
– Pra você. – A língua seca e áspera parecia mal caber na minha boca. – Porque você non levou a ele a tiara.
Ele balançou a cabeça em concordância, contraindo a mandíbula e apertando os lábios.
Eu ri de modo áspero e desconcertante.
– E depois eles virão atrás de mim?
– Ou do seu irmão. – ele falou.
O choque de confirmar que estava certo não era nada comparado a raiva que senti à menção do meu irmão.
– Se alguém fizer alguma coisa pro Hyoga, — eu sibilei — eu o matarei.
Ele não parecia nada preocupado com a minha decisão.
– Como você vai matar alguém quem nem conhece?
Eu o encarei.
– Você sabe de quem se trata.
Ele negou com um movimento de cabeça. Eu nunca o vira tão frustrado.
– Conheço um deles, mas não sei com quem está trabalhando.
Isso não era suficiente.
– Mas você tem contato com esse homem. – eu disse.
– Sim, — ele concordou — mas não vou te dizer seu nome, pra que você não fique tentado a fazer nenhuma bobagem que possa te colocar em perigo. – Ele agitou o whisky e pôs o copo na escrivaninha atrás de si.
A frustração me fazia cerrar os punhos. A raiva me fortaleceu.
– Então mande um aviso pro seu chefe – eu falei ameaçadoramente. — Diga-lhe que se mais alguém for ferido, eu pessoalmente destruirei aquela maldita tiara.
Uma centelha de admiração iluminou o fundo azul de seus olhos. Por um instante ele me olhou como o Milo que eu amava.
– É por isso que amo você. – ele disse – Parece tão frio por fora, mas é corajoso, intempestivo... E tem uma espinha de aço.
Era por isso que ele me amava? Eu pensei. Estava meio tarde pra isso, não?
– Non tente me agradar, Milo. Meu melhor amigo está gravemente ferido, e a culpa é sua. – Minhas palavras eram ásperas, eu sabia, mas queria que ele negasse a acusação, que brigasse comigo por isso.
– Sim. – Ele respondeu. Espera, ele não ia argumentar? – E estou me sentindo péssimo por isso.
– Non me interessa como se sente. – Eu falei, o que era uma horrível mentira, é claro, mas eu disse mesmo assim.
Seus olhos se estreitaram na minha direção.
– É mesmo? — disse — Então por que perdeu peso? Por que seu rosto está com olheiras? Por que está parecendo tão infeliz?
Eu olhei pra ele em silêncio. Meus batimentos cardíacos se aceleraram. Não esperava por aquilo. Estava tão evidente assim?
Ele enterrou o rosto nas mãos, frustrado, e então levantou os olhos pra mim outra vez.
– Quando diabos vai aceitar o que eu sinto por você?
Eu mordi o lábio confuso, sentindo os batimentos aumentarem e meu sangue rugir furiosamente nas veias.
– Eu não sei do que você está falando. – disse, desviando o rosto pra que ele não lesse a verdade em meus olhos. – E isso também non importa agora. O que importa é o que você pretende fazer pra resolver essa situação.
Ele bufou desanimado, então esfregou a mão nos olhos e piscou pra clarear a visão.
– Não sei. Procurar desviar a atenção dele de você e da sua família, eu acho.
– E como pretende fazer isso? – Eu quis saber, grato pela mudança de assunto. O homem pra quem ele trabalhava obviamente sabia que a tiara me pertencia. O que o impediria de contratar outra pessoa pra roubá-la? Era evidente que a queria muitíssimo, a ponto de causar dano a pessoas inocentes pra conseguí-la.
O grego levantou o queixo e olhou pra mim, tão intensamente que eu soube que ele seria absolutamente sincero comigo.
– Se for preciso, — disse — me entregarei a polícia e contarei tudo.
Eu o encarei. Faria isso? Por mim? Pelo Dite?
Não, não pelo Dite, mas por mim. Não havia como eu pudesse me enganar sobre o que ele queria dizer. Sua determinação em me proteger era clara.
Eu me aproximei dele devagar, apesar de saber que não deveria fazê-lo, não parando até que meu rosto estivesse a centímetros do seu. Nossos olhos na mesma altura.
– Se é isso que eles fazem com alguém que não está envolvido nessa questão, — eu falei — o que farão com você? – minha voz tremia ao formular a pergunta que me inquietava.
O silêncio dele encheu meu coração de medo. Lentamente, contrariando minha propria determinação, eu levantei a mão e comecei a passar os dedos ao longo de sua face, sentindo a textura da pele, a barba por fazer. Rápido como um relâmpago ele segurou minha mão e a retirou do seu rosto.
– Não faça isso – ele disse.
Determinado, eu levantei a mão que estava livre e a encostei em sua outra face.
Será que ele não via que eu estava tentando refazer a ligação entre nós? Que estava tentando lhe dizer que mesmo que ele tivesse destruído minha confiança e dilacerado meu coração, ainda me importava com o que lhe acontecesse? A simples suposição de viver em um mundo sem ele era ainda mais insuportável do que a idéia de ele não ser o homem que eu esperava que fosse.
Sim, eu era um idiota, eu sabia. Era humilhante admitir que o amor pudesse transformar um homem em um completo idiota.
Ele agarrou minha outra mão também.
– Eu disse pra não fazer isso — falou.
A próxima coisa que me lembro é ele me girando, ainda segurando meus pulsos, invertendo as posições, até eu ficar de costas pra mesa, pressionado contra ela. Eu sentia a respiração quente dele contra o meu rosto, sentia o perfume masculino e essencial atiçando meus sentidos, a pressão do corpo forte e firme contra o meu. Pra minha surpresa, um desejo sufocante percorreu todo meu corpo.
Era incrível, eu podia estar emocinalmente ferrado, sendo ameaçado por um lunático desconhecido, com meu melhor amigo quase morrendo no andar de cima, e meu corpo ainda respondia ao toque dele. Ele me prendeu em seus braços, mantendo os olhos nos meus por pouco mais de um segundo, antes de sua boca se fechar com força sobre a minha.
oOOoOOoOOo
Kanon POV
– O que você está fazendo aqui? – eu perguntei quando meu gêmeo saltou do carro em meio aos destroços fumegantes do que um dia fora um prédio industrial abandonado.
Ele havia corrido pra central logo após a mensagem de Pandora. Eu preferi deixar o trabalho burocrático chato por conta dele e fui pras ruas. Nós precisávamos localizar o alvo. Estava coincidentemente a três ruas do endereço quando Julian me ligou. A equipe dele havia conseguido rastrear a mensagem. Segundo o departemento de segurança eletrônica, a fonte era um prédio de depósito, na noza industrial do Queens.
Ali a pobreza tomava conta das ruas, havia muitos bêbados, pessoas sem teto, sujas, com um ar fracassado e desesperado. Mais ao sul, surgiam fábricas e depósitos, quase tudo abandonado. Os tijolos das paredes eram pretos por ação da fuligem, da poluiçãoe do tempo. As vidraças estavam quebradas e os cacos cintilavam no chão cheio de lixo, onde ervas daninhas surgiam por entre as rachaduras dos blocos de concreto.
Eu entrei no terreno com o carro e avaliei o prédio quadrado de tijolos aparentes, muito feio, protegido por uma cerca de segurança. O portão era equipado com uma tranca automática, mas estava escancarado.
Com a certeza de já estar sendo esperado eu consultei o relógio, faltava um minuto pras três. Eu só tive tempo de pegar o rádio pra pedir reforço antes que um imenso estrondo soasse e eu sentisse o chão estremecendo sob meus pés. A onda de calor e choque me atingiu como um golpe me levando ao chão. Eu rolei sob o carro pra me proteger do impacto enquanto destroços choviam sobre mim, despencando sobre a viatura como se fossem punhos fortes e furiosos.
O barulho da explosão era ensurdecedor, e por alguns minutos eu não ouvia nem via nada. Vários minutos de terror se passaram antes que tudo parasse e eu pudesse sair debaixo do carro e me levantar outra vez. Eu ainda sentia minha perna ardendo em um ponto abaixo do joelho, onde um tijolo pegara de raspão.
– Eu poderia te fazer a mesma pergunta. – meu irmão falou, interrompendo meus pensamentos — Sua perna está sangrando.
– Só um pouco. – Eu olhei para o local machucado. Havia mesmo um belo corte ali.
Ele pegou um lenço do bolso e, agachando-se diante de mim, examinou o corte. Em seguida, amarrou o lenço em torno do ferimento.
– Você vai ter que ser examinado. O corte está cheio de cascalho. – levantando-se passou a mão pelo meu cabelo desalinhado. – Pentado interessante o seu. É meio esquisito, mas ficou bem em você.
Suas palavras podiam parecer casuais, mas o tom era controlado demais e eu sabia disso. Por trás daqueles olhos frios, a violência fervilhava.
Eu sorri, tentando lidar com isso da única maneira que sabia: com deboche.
– Muito engraçado, maninho. – eu disse, e então parei ao ver a violência que antevira no fundo dos seus olhos alcançar a superfície. Ninguém, eu lembrei de forma fugaz, ninguém parecia mais perigoso do que ele quando estava enfurecido.
Subitamente, ele virou o corpo, se afastou de mim e ficou vagueando entre os destroços fumegantes.
– Merda! – Impaciente eu passei a mão pelos cabelos bagunçados e fui em frente, decidido a dar um jeito naquilo.
– Escute, Saga, eu sei que você ficou puto da vida. Não te culpo por isso. Se alguém explodiu um prédio no seu turno, é normal que você esteja revoltado.
– É normal mesmo – ele deu meia volta, cheio de fúria no olhar. O fato de eu quase ter dado um passo pra trás quando ele se aproximou me deixou humilhado e enfurecido ao mesmo tempo. Eu compensei isso me aproximando mais, até meus sapatos estarem encostados nos dele.
– Olha, — eu disse — é até esquisito ser eu a te dizer isso, mas essa é a cena de uma crime, caso você tenha esquecido. E nós não temos tempo, nem eu estou a fim de aguentar suas crises dando tapinhas consoladores na sua cabeça só porque as coisas não sairam como você queria dessa vez. Sinto muito pelo que aconteceu. Compreendo perfeitamente que seu orgulho esteja ferido, que você esteja furioso com tudo, mas não venha descontar em cima de mim.
Ele me agarrou pelos braços e quase me levantou do chão, em um movimento rápido que me imobilizou e me fez grunhir. Se ele não estivesse tão emocionalmente alterado e nós não estivéssemos na cena de um crime, com destroços espalhados por todo lado, eu talvez o derrubasse e dominasse ali mesmo.
– Você acha que o problema todo é esse? – ele perguntou. – Acha mesmo que essa porra de prédio, ou que o meu orgulho é o que está me incomodando? – só o fato dele estar usando palavrões já mostrava o quão alterado ele estava.
– Acho! – eu tentava pensar, em meio ao meu próprio acesso de raiva.
– Se você acha isso, é um idiota! – reagiu ele, aumentando a pressão em meus braços e dando um leve tranco.
– Ah, quer dizer que eu sou idiota? Você que é um imbecil se acha que pode ficar parado aqui fazendo beicinho enquanto nós temos alguém explodindo prédios por aí. Agora tire as mãos de mim antes que eu derrube você.
– A que distância você estava da explosão? — ele disse.
– Isso não vem ao... – eu parei, desabando ao perceber tudo. Não havia sido a explosão do prédio, ou seu orgulho que colocara aquele brilho terrível em seus olhos. Havia sido eu. – Eu não estava tão perto assim – disse, baixinho, enquanto ele diminuía a presão em meus braços. – Não estava tão perto da explosão, Sa. Olha, eu recebi uma ligação do Julian dizendo que eles haviam rastreado a fonte da mensagem. Eu suspeitei que fosse um chamariz, que eles queriam a gente lá, e como eu estava perto do endereço...
– Espere aí, congele a imagem!... — ele me interrompeu, tirando uma das mãos do meu braço e a levantando — Você suspeitava que fosse uma armadilha, que Pandora nos queria aqui por algum motivo, e então alegremente veio correndo até ela sozinho? Isso é ótimo, Kanon! Perfeitamente razoável.
– Também não gostei muito da história. – eu falei — Tinha acabado de pedir reforços. Sei cuidar de mim mesmo.
Ele balançou a cabeça.
– Sei... – passou a ponta dos dedos pelo meu rosto sujo. – Dá pra ver... – Então me liberou por completo e deu um passo pra trás. – Vá tomar um banho e cuidar dessa perna. Nos encontramos na central.
Eu enfiei as mãos nos bolsos e depois girei os olhos de impaciência. Só tinha uma coisa que eu odiava mais do que quando o Saga surtava, era quando ele começava com essa coisa de superproteção. Droga, eu sabia como cuidar de mim mesmo! É claro que sabia. O que nem sempre sabia era como cuidar dele.
– Kan! – ele chamou então enquanto eu me afastava.
Eu parei e olhei pra trás. Quase ri ao notar a óbvia disputa que havia em seus olhos. A luta entre o dever e a emoção. Olhando em volta pra se certificar de que não tinha ninguém por perto ele foi até onde eu estava, levantou a mão e tocou meu rosto.
– Desculpa. Eu estava irritado. – ele sorriu — Sempre que alguém que eu amo quase é morto na explosão de um prédio eu fico assim.
Seus braços envolveram a minha cintura me puxando contra ele. Eu retribuí o abraço, enterrando o rosto no seu pescoço.
Suas sobrancelhas se elevaram ao sentir minhas mãos começarem a ficar ocupadas acariciando seu traseiro.
– Estamos de serviço, Kan! — ele disse — Nesse instante você está passando a mão na bunda de um policial que está em horário de serviço.
– O que torna tudo ainda mais exitante... – eu inclinei a cabeça passando a dar pequenos beijos em seu pescoço. – Que tal quebrar algumas leis?
– Já estamos quebrando – ele disse, mas virou a cabeça para o lado, por instinto, pra facilitar as coisas.
– Então que diferença faz quebrar mais algumas? – eu murmurei subindo as mãos do seu traseiro pra colocá-las em torno do seu corpo outra vez – Adoro sentir você... – disse. Minha boca já estava descendo pelo maxilar dele, em direção aos seus lábios, quando ouvimos o barulho de sirenes se aproximando.
Ele se afastou e franziu o cenho. – Nada de beijos na frente da equipe, heim?
Eu bufei, então sorri olhando pras marcas negras de fuligem que deixara nele onde o havia tocado.
– Maninho, — eu zombei — nada de beijos enquanto você não lavar a cara! Nos vemos na delegacia – disse me virando pra me afastar outra vez.
– É melhor você me dar umas duas horas – ele gritou – Vou ficar preso aqui por mais algum tempo.
– Tudo bem. – Eu parei do lado da viatura destroçada e virei a cabeça de lado, analisando-a com atenção. – Que saber? Ela agora está combinando mais com a gente.
– Isso, pode tirar sarro. – ele replicou sorrindo pra em seguida tornar a exibir o semblante oficial, pronto pra receber o esquadrão anti bombas.
oOOoOOoOOo
Milo POV
Eu quase havia esquecido como era seu sabor. Beijei-o intensamente, explorando com a língua os cálidos confins de sua boca, e minha alma suspirava de prazer enquanto ele me completava. O calor penetrou em todas as minhas partes estéreis e frias, e ali, onde há poucos instantes havia só abismos escuros, agora brilhava a luz. Minhas mãos deslizaram pelas costas fortes, enquanto eu entrelaçava nossos joelhos, puxando-o para mais perto, colando os corpos, para assim poder sentir a pressão de sua pelve de encontro a minha, o abdómen firme mas suave contra o meu.
Ele não opôs resistência, pelo contrário, suas mãos moviam-se ávidas pelo meu corpo, deslizando pelas minhas costas. Seus dedos subindo pela coluna até nuca, fechando-se nos meus cabelos. Eu permanecia atento. Qualquer reação por parte dele me faria parar. Eu não queria, mas respeitaria sua vontade.
Ele não reagia, ou melhor, não me empurrava pra longe dele. Em vez disso, seus dedos permaneciam comprimidos em torno dos meus cabelos, puxando-me pra mais perto. Em um instante o beijo se tornou quente, insaciável e cheio de energia represada.
Então, enquanto eu continuava beijando-o, e ele continuava me beijando de volta, me ocorreu que ele tinha razão afinal, no fundo era mesmo verdade... Camus era mesmo esquisisto.
Mas, tipo, da melhor forma que eu cara podia ser.
E pela primeira vez desde aquela manhã terrível em Paris – não, pela primeira vez desde que o Dohko reaparecera na minha vida – eu senti que poderia haver esperança, que tudo poderia realmente ficar bem. Camus estava em meus braços, e me beijava com tal ardor que ao mesmo tempo me doía e enchia de alegria. Será que haveria chance de que ele me perdoasse? Depois que tudo aquilo acabasse, depois que o Dohko sumisse, nós poderíamos recomeçar? Seria possível que ele realmente sentisse algo por mim, além do desprezo que eu merecia?
Uma das minhas mãos deslizou por baixo da seda da camisa que lhe cobria as costas, ansiando pelo contato com a pele macia, os músculos trabalhados. Meus dedos acariciando-o em volta da região das costelas, acima da cintura delgada, subindo pelo tórax. Eu senti seus mamilos endurecerem sob minhas carícias, e meu pênis se manifestou em resposta, enquanto ele gemia junto a minha boca.
Independentemente de qualquer coisa que sentisse por mim, de quanto pudesse me desprezar, ele ainda me queria. Não havia como negar a reação do seu corpo, o prazer que ele encontrava nos meus beijos. Isso me dava mais esperanças do que me atrevera a sonhar. Era evidente que ainda nos sentíamos atraídos um pelo outro, muito atraídos, diga-se de passagem, e agora, se pudesse, tinha que recuperar a confiança perdida.
Minha respiração chegou a um ritmo intenso enquanto a dança de beijos continuava ávida e desesperada. De repente, era como se cada pequena terminação nervosa do meu corpo estivesse pegando fogo. Eu sentia como se estivesse beijando uma descarga elétrica ou algo assim. Era como se eu pudesse explodir a qualquer instante.
E ele também devia estar sentindo algo na mesma linha porque sua respiração estava entrecortada e eu podia sentir aquela rigidez, aquela denunciadora protuberância endurecida, deliciosamente pressionada contra a minha coxa.
Essa percepção me fez gemer junto ao beijo e minhas mãos deslizaram pra envolver o suave volume de suas nádegas. Sentindo a carne firme e redonda através do tecido fino da calça social que ele usava. Eu quase vibrei em antecipação. Falando sério, nunca na história da humanidade havia existido uma cara que tivesse uma bunda tão gostosa quanto o Camus.
Ainda segurando-o por ali eu ergui o corpo esguio, mas musculoso, sentando-o sobre a escrivaninha, uma perna de cada lado do meu corpo. Então, subindo as mãos pelos quadris estreitos, eu o puxei com força junto a mim, as ereções se roçando, fazendo com que um murmúriio abafado escapasse de nossos lábios e fagulhas de fogo vivo corressem por minhas veias.
Impacientes, meus dedos se tornaram mais ousados, circundadando o volume sob suas calças, acariciando-o de leve através do tecido, até que ele gemeu mais alto e se pressionou contra minha mão.
Ele não estava pensando, eu sabia. Estava envolto em sensações que vinham em camadas. Talvez não fosse justo usar do poder inegável que eu tinha sobre o seu corpo daquela forma, eu pensei, mas não estava em condições de me sentir culpado de nada... não quando o tinha exatamente onde o quisera durante dias.
Extasiado, eu abandonei seus lábios começando a beijá-lo no pescoço também, enquanto minhas mãos ficavam acupadas desabotoando sua camisa pra expor o peito alvo.
Era uma variedade de sabores, da boca para a garganta, da garganta para o ombro, do ombro pra o peito. Eu experimentei tudo, enquanto o sentia começar a tremer sob o toque das minhas mãos e da minha boca. Ele nunca parecia esperar por aquilo, e sua surpresa, sua resposta ingênua e ardente, eram, como sempre, terrivelmente excitantes pra mim. Eu seria capaz de dar prazer a ele sem parar, só pela delícia de vê-lo absorver cada toque.
A pele dele ficou úmida enquanto eu seguia rumo a sua barriga até o fecho do cinto que seguarava suas calças. Impaciente, a mão entrelaçada em meus cabelos me puxou pra cima outra vez, enquanto a outra subia por dentro do meu casaco, e seus lábios me tomavam eu outro beijo molhado, quente, feroz.
O casaco foi atirado para o lado. Ele se desfez da minha blusa e seus dedos afoitos começaram a lutar com os botões da camisa que eu usava por baixo.
– Por que você usa tanta roupa? – ele se afastou minimamente pra perguntar.
– Da próxima vez não vou usar. – Eu disse, então voltei a atacar sua boca enquanto sentia os dedos gelados delineando, arranhando e deslizando pelo meu peito, subindo para o pescoço, até tocarem o ferimento na base da minha garganta.
Eu estremeci ao contato, retraindo-me, porque o corte ainda não estava cicatrizado.
Ele partiu o beijo e examinou meu pescoço, segurando o colarinho aberto.
Seus olhos se arregalaram.
– Qu'est-ce que c'est? (2)
Eu olhei pra ele, meus lábios deliciosamente inchados e tremendo, minha respiração ofegante.
Mas não tão ofegante quanto a dele.
Então envolvi suas mãos nas minhas e as tirei dali.
– Nada de mais. – respondi soltando suas mãos e me afastando com dificuldade. Eu não queria me afastar, mas também não queria que ele soubesse, não queria assustá-lo — Me cortei enquanto fazia a barba.
Ainda na mesma posição, sentado sobre a mesa pálido e ofegante, ele me encarou incrédulo.
– Non me trate feito idiota, Milo.
Eu abri um sorriso, fingindo inocência.
– Nem sonharia em fazer isso.
Ele suspirou fechando os olhos e levou uma mão às têmporas antes de reabrí-los outra vez. Então se levantou da mesa e se aproximou de mim.
– Ele te fez isso, não foi? – disse, os olhos multicor fixos no corte na minha garganta.
Não era preciso perguntar quem era 'ele'. O ruivo com certeza não estava se referindo ao Afrodite, e o único outro homem sobre o qual havíamos falado aquela noite era o Dohko – embora eu tivesse tomado o cuidado de não me referir a ele pelo nome, é claro.
Eu suspirei também, resignado. Mas ao menos ele parecia procupado comigo, e isso me deu mais esperanças.
– Não ele. – eu disse – Mas alguém sob suas ordens.
Eu lembrei do homem encapuzado no meu apartamento e estremeci.
Sua expressão parecia demosntrar que ele estava se debatendo em meio a uma confusa combinação de emoções: preocupação, raiva, medo e... resignação?
– E isso aconteceu porque você falhou, non conseguindo o que ele queria? – estava claro que ele agora pelo menos acreditava que eu de fato estava trabalhando pra alguém.
– Acredito que sim — eu concordei.
Eu poderia ter mentido, mas ele veria isso nos meus olhos. Eu continuava com aquela estranha sensação de que ele, quando queria, conseguia ler minha alma.
Sua expressão ficou mais séria e ele se afastou de mim completamente. Eu não tentei segurá-lo, apesar do desejo de seduzí-lo outra vez pra terminar o que nós havíamos começado.
– Espere aqui – ele disse, e algo no tom de sua voz me disse que seria melhor fazer como ele queria.
Ele saiu da sala feito um fantasma, e eu fiquei ali, como um cão obediente, esperando que ele voltasse. Recolhi meu casaco do chão e abotoei a camisa do melhor modo que podia ainda com os dedos trêmulos, recolocando depois a blusa de lã. Será que havia tempo pra mais um whisky? Poderia beber outra coisa. Os breves instantes em que o tivera nos braços foram como uma brincadeira cruel. Eu o queria demais, mas essa noite não haveria mais avanços, eu tinha certeza.
Eu peguei o copo e fui até um aparador, onde havia várias garrafas. Abrindo a de whisky, derramei uma dose genorosa no copo e bebi de uma só vez.
O ruivo voltou exatamente quando eu estava pensando em beber outra dose. Havia recomposto as roupas e trazia em uma das mãos um frasco pequeno. A outra segurava uma caixa de carvalho entalhada, que ele deixou em cima da mesa.
– Venha cá! – ordenou.
Será que eu deveria latir e abanar o rabo? Mal humorado, eu me aproximei dele.
– O que é? – perguntei.
Ele destampou o frasco e disse:
– Tire a blusa. Isso aqui vai ajudar na cicatrização.
Eu olhei pra ele surpreso. Fazia muito tempo desde que alguém me fizera um curativo, e por algum motivo esse gesto repercutiu fundo em mim, provocando uma onda de trêmula emoção.
Eu retirei outra vez a blusa de gola alta, abri um pouco a camisa e nós permanecemos parados, em silêncio, enquanto ele aplicava, com movimentos suaves, a pomada no meu ferimento. Os olhos rubros concentrados, os dedos brancos e alongados deslizando com suavidade sobre o corte no meu pescoço, os cabelos vermelhos e macios caindo lisos sobre os ombros.
E de repente eu fui assolado por um desejo intenso de tocá-lo novamente. Eu queria sentí-lo outra vez. Só mais uma vez. Queria tanto que meus dedos chegavam a doer. E mais do que qualquer coisa naquele momento, queria poder odiá-lo por isso. Por me colocar em um nível tão baixo que eu estava quase chegando a ponto de implorar por qualquer migalha de afeição que ele estivesse disposto a me oferecer.
Eu normalmente sabia como manobrar um oponente, sabia ser persistente, certamente sabia como lutar pelo que queria ou pretendia obter. Mas já não estava mais tão certo de que poderia persistir mais, manobrar ou lutar por Camus.
Ele se afastou deixando o frasco sobre a escrivaninha, e pegou a caixa de carvalho. Por um segundo ficou parado ali, olhando pra caixa, como se estivesse se lembrando de alguma coisa, então, saindo de seu devaneio, ele a estendeu na minha direção.
– Tome. – disse.
Eu a peguei com cuidado e, sem entender o que ele pretendia com aquilo, retirei a tampa. E então prendi o folêgo atônito. Os olhos arregalados diante do conteúdo que ela encerrava.
Pousada em uma almofada de veludo preto, o pivô daquela história toda, a tiara de diamantes, brilhava diante de mim.
Boquiaberto e incrédulo eu ergui os olhos pra ele outra vez.
– Eu... eu pensei que ela estivesse no banco.
Ele sorriu de uma forma amarga.
– Parece que o seu chefe, ou seja lá quem for a pessoa que contratou seus serviços, anda mal informado, Milo. O que está guardado no cofre no banco é apenas uma réplica. Uma réplica perfeita é verdade, mas ainda assim uma réplica.
Eu balancei a cabeça, confuso.
– Eu... eu não...
– Ninguém sabe. – ele me cortou. – Ninguém além de mim e do meu pai sabe da existênca da réplica.
– Mas e sua noiva? Ela...
– Eu pretendia lhe contar depois do casamento. – ele me interrompeu outra vez — Entenda, eu non podia deixar que ela usasse a jóia na cerimônia, seria chamativo demais. Alguém poderia querer roubá-la. – ao dizer isso seus olhos se fixaram nos meu como adagas de gelo afiadas. – Bien, — ele encolheu os ombros de forma pretensamente casual – parece que eu estava certo.
Eu estava sem palavras. Abri a boca algumas vezes, e tornei a fechá-la outra vez. O que iria dizer?
– Pegue-a. – ele mandou então, baixando o olhar pra tiara novamente. Sua voz agora estava firme, talvez até um pouco áspera.
Eu fechei a tampa com um estalo e o olhei fixamente.
– Não posso – disse em um só fôlego, empurrando a caixa na direção dele.
Ele deu um passo atrás, balançando a cabeça.
–É sua agora. Pode dá-la ao homem que tanto a quer.
– Camus... – eu supliquei.
Ele franziu o cenho pra mim. Era evidente que sua paciência chegara ao fim.
– Pour Dieu, Milo, quer pegar essa coisa idiota? Há alguns dias você non teve nenhum escrúpulo em planejar roubá-la.
A observação doeu, mesmo que eu merecesse. Dizer-lhe outra vez que naquela mesma noite eu havia decidido não roubar coisa alguma não serviria pra nada. E ele não acreditaria em mim.
– Por quê? – Talvez fosse tolice perguntar, mas eu tinha que saber. Será que havia aguma chance de ele ainda sentir algo por mim? Seria possível que eu não tivesse conseguido destruir completamente seus sentimentos?
– Porque esse brilho non vale a vida de ninguém, — ele respondeu — nem a do Dite, nem a do Hyoga, nem a sua.
– E nem a sua. – eu acrescentei, muito feliz por estar entre as pessoas mais importantes pra ele.
– Nem a minha. – ele concordou — Acho que você deve ir embora agora. – Seu olhar estava impassível.
Eu pestanejei. O quê? Mas devia ter esperado por isso, é claro. Por acaso eu realmente achava que algo havia mudado?
Não. E sem dúvida ele encarava aquele beijo como uma fraqueza sua. Não estava disposto a deixar que eu voltasse a entrar em sua via tão facilmente. Seu corpo – e com sorte seu coração – poderiam me querer, mas sua mente e seu orgulho não. E Camus era um homem muito inteligente e muito orgulhoso.
Levantando o queixo de modo desfiador ele disse:
– Eu já te dei o que você queria. Non há mais necessidade de que se preocupe comigo agora.
– Não há mais necessidade de que eu me preocupe com você? – eu repeti. Não conseguia esconder meu aborrecimento – É por isso que você pensa que fiquei aqui esta noite, na esperança de obter isso? – eu apontei pra caixa que em algum momento havia colocado sobre a mesa.
Ele balançou a cabeça para os lados e sua expressão se suavizou um pouco.
– Non. – disse — Acredito que sua preocupação com o Afrodite é genuína, e te agradeço por isso, mas acho melhor ir agora, antes que eu acabe decidindo que você é um cara legal, afinal.
Isso me machucou.
– Camus...
Ele estendeu a mão e sua voz estava muito calma e resoluta quando disse:
– Por favor, apenas vá. Mesmo que eu pudesse confiar em você de todo o coração, o que non estou certo de ser capaz ainda, não tenho garantias de que o Dite e o Hyoga, ou mesmo meu pai e Brigitta, non pagariam um preço alto por isso. E eu me recuso a arriscar a segurança daqueles que eu amo.
Eu o encarei com um aperto na garganta. Era isso. Não importava que eu me esforçasse pra conquistar seu coração novamente, ele não o entregaria. Pelo menos não enquanto seu amigo e irmão estivessem em risco. Certo, eu podia entender isso.
Eu respirei fundo.
– Obrigado por querer me ajudar.
– Non faço isso por você – ele replicou friamente outra vez. – Estou fazendo isso pelo meu amigo, que está deitado incosciente em uma cama enquanto conversamos. Ele é uma pessoa inocente que não tem nada com isso, e non quero vê-lo sofrendo nunca mais.
Eu assenti.
– Quaisquer que sejam suas razões, eu te agradeço.
Ele engoliu em seco e cerrou os punhos.
– Você pode me agradecer indo embora.
De novo eu assenti, tomando a direção da porta. Camus tinha motivos pra se sentir assim, é claro, mas isso não fazia com que meu coração deixasse de doer. Queria pedir a ele que não me fizesse ir embora, que me desse outra chance, mas ainda me restava algum orgulho, e implorar não serviria de nada. O único modo de mostrar a ele que sentia muito era fazer exatamente o que ele queria. Eu o ferira tanto que me afastar dele agora era o mínimo que poderia fazer.
O mínimo.
– Milo... – ele chamou então antes que eu alcançasse a saída. Eu parei, voltando-me pra ele outra vez.
– Você está esquecendo isso – ele disse se aproximando e me estendando a caixa mais uma vez.
– Camus... – eu hesitei.
Ele deu um sorriso triste.
– Ela é sua por direito de qualquer forma, eu acho. – e antes que eu pudesse começar a questionar sobre o que aquilo siginificava, ele estendeu a mão e tocou meu rosto. O polegar acariciando minha bochecha.
– Eu estou tentando, Milo. – disse — Estou tentando aceitar o que sente por mim... O que eu sinto por você.
Eu senti o primeiro sintoma de alívio se apoderar de mim, o aperto em volta do coração se afrouxando um pouco.
Ele abaixou a mão.
– Se cuida. – disse.
Eu assenti, colocando a caixa embaixo do braço e esboçando um pequeno sorriso antes de tomar a direção da saída outra vez.
Lá fora o dia começava a clarear. O índigo do crepúsculo travando uma verdadeira batalha com os tons lavanda, róseos e dourado do novo dia que ansiava por despertar. Eu inspirei fundo o ar frio e úmido daquela primeira manhã de um novo ano que chegava e parecia trazer consigo uma míriade de novos sentimentos, desafios, problemas, esperança.
Era primeiro de Janeiro de 2011, e eu não fazia idéia do que o futuro me reservava, mas de uma coisa estava certo: o Dohko havia transformado aquilo numa guerra pessoal ao envolver Camus nisso. Ele era inocente. Não tinha nada do que se arrepender, nada a lamentar, a não ser ter confiado em mim. Mesmo que fosse a última coisa que eu fizesse, queria estar certo de que ele não ia pagar pelos meus erros.
Estava cansado de ser apenas um peão num tabuleiro de xadrez. Era hora de o destino saber quem de fato estava no controle.
Notas:
1 – O que aconteceu?
2 – O que é isso?
Notas finais
E, gente, estamos terminando essa bagaça! Nossa, nem acredito nisso, mas agora é oficial essa fic terá 25 ch e um epílogo, ou seja tá no finzinho mesmo, e ao mesmo tempo e que eu fico super feliz com isso, tb me dá um vazio. Acho que vou morrer de saudades dessa história u.u
Enfim, vamos deixar as lamentações pro futuro e vamos ao ch.
Viram, Afrodite vai sobrevier XD. E voltamos aos quase lemon o/... *sai correndo pra não apanhar*. Aliás acho que depois desse ch minha situação anda delicada com vcs, não? Eu espanquei o Dite, quase o explodi o Kanon e voltei aos lemons interrompidos, acho que vou ficar sem sair de casa até o ch que vem XDD. Aliás, próximo ch será o último do Camus assim confuso e hesitante, prometo. E tb será quando toda a trama vai ser revelada, então é a última chance de vcs elaborarem suas teorias ^^".
Mas voltando ao presente ch, o nosso casalsinho confuso enfim está acertando as bolas, e Saga surtando hauhauahua... isso me dá medo XD. E no fim Camus tinha uma carta na manga, a tiara dada a Saori era uma réplica. Bom, gente, o ruivo é inteligente, ele não ia ser roubado tão fácil, né XDD. E Milo finalmente resolveu tomar uma atitude. Já não era-se em tempo.
Bom, então é isso, espero que gostem do ch, que veio bem quente dessa vez pro que estava sentindo falta de um pouco de pegação XDD, e mais uma vez agradeço imensamente a todos que acompanham e em pespecial a todos aquele que ainda tem paciência de me manter motivada me mandando lindas reviews: Mel Dark, Kamy Jaganshi, Sarah, ddkcarolina, Kassiminha, sashinha, Chakal_Maldito, stocking, Lilicris, e Soragami, muito, muito obrigada mesmo, garotas.
Bjos e até ch que vem ^^
PS:Créditos devidos à: Meg Cabot, Katherin Smith e J. D. Robb.
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