Notas iniciais
Disclamer: Saint Seiya não me pertence, o que é uma pena realmente XD
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia

Saga POV

– A situação não está em minhas mãos, pelo menos por hora – a voz de Shion soou pelo cômodo saída das caixas de som do computador no meu escritório. A tela que há poucas horas exibia a imagem jovem e loira de June, agora mostrava a figura não tão jovem, mas nem por isso menos loira do nosso comandante.– Os chefões da política estão executando suas danças e contradanças. Eu espero ordens. Espero contato.

– Eles não vão concordar com os termos da mensagem. – June falou, diferente de outrora, ela agora se encontrava sentada na cadeira à minha frente

Eu levei a mão a minha própria nuca, massageando-a. Estava exausto. O relógio marcava seis e vinte e cinco da manhã e entre a festa de passagem do ano e a explosão do prédio no Queens eu não dormira nada.

– Não. – falei — Se computarmos o número de mortes provocadas pelos quatro que eles querem libertar, vamos chegar a mais de cem. Kagaho Ahmose explodiu uma igreja, alegando que todos os símbolos religiosos não passavam de ferramentas da Direita hipócrita. Um coral de crianças ensaiava na hora da explosão. Edward Mitchel pôs fogo em uma cafeteria no Soho, deixando mais de cinquenta pessoas sem saída. Afirmou que o local era uma frente da Esquerda Facista. Verônica Bastazini, uma ex-enfermeira, envenenou quinze pacientes idosos em uma clínica de reabilitação na qual trabalhava, alegando que eram todos criminosos de guerra. Fiodor Tarasov era um assassino de aluguel que matava qualquer pessoa pelo preço certo. Qual será a maldita ligação que existe entre eles?

– Talvez não exista nenhuma ligação. – o Shion especulou — Pode ser apenas um teste. Será que o governador vai atender as exigências ou recusá-las?

– Eles sabem que o governador vai recusá-las. – eu falei — Além do mais, eles não nos deixaram nenhuma via de negociação.

– Negociação não é o objetivo deles. – o Comandante falou — Capitulação sim. A destruição do prédio essa madrugada foi apenas uma demosntração. Ninguém ficou ferido e eles podem se gabar disso. Então eles oferecem a chance de manter as coisas assim. E, claro, pedem algo impossível.

– Concordo.- a garota falou — Também não consigo fazer ligação alguma entre os quatro nomes da lista. Não existe nenhum dogma político que os una. Não existem associações, nem membros, nem idades em comum, nem histórias semelhantes, pessoais ou criminais. Nada os liga uns aos outros. Eu diria que eles escolheram esses quatro nomes por sorteio, só por diversão. Estão pouco ligando se eles vão voltar às ruas ou não. É só uma cortina de fumaça.

Eu suspirei.

– Saber disso, no entanto, não diminui a ameaça do que virá em seguida. – falei, e então, reparando que os olhos de June mudaram de direção e ficaram vidrados, eu olhei pra trás, por sobre os ombros.

Kanon acabara de entrar no escritório, ainda úmido do banho, com gotículas de água brilhando no peito nu e uma toalha branca muito mal amarrada em torno da cintura.

Eu enterrei a cabeça nas mãos, entre incrédulo e resignado.

– Vá colocar uma roupa, por favor, Kan, — eu falei desaminado — ou nossa assistente vai ter um colapso cerebral.

Ele olhou na minha direção e sorriu.

– Eu pensei que nós fossemos no encontrar na central. – disse, ignorando o que eu havia falado.

– E íamos – eu expliquei — mas a notícia vazou e a delegacia está lotada de jornalistas.

Ele assentiu pra depois erguer os olhos pra garota a minha frente e pro homem na tela do computador.

– Bom dia comandante. Oi June – cumprimentou, aparentemente sem dar nenhuma importância ao fato de estar semi nú na presença do seu chefe e da sua subordinada.

– Bom dia, tenente – Shion respondeu sem conseguir esconder um sorisinho.

– O-oi... – June falou, e mesmo a distância dava pra ouvir que ela engoliu em seco – Legal ver você de novo, chefe... Isto é... como vai?

– Kanon – eu dei um longo suspiro, já perdendo a paciência -, dê um tempo pra garota, e vá vestir alguma coisa, tá legal.

Ele riu, mas obedeceu dessa vez.

– Nossa! – Ela disse com a voz rouca, quando meu irmão saiu da vista. – Meu Deus! — Então seu olhar se fixou em mim – E vocês são gêmeos em tudo, tipo tudo, tudo, mesmo

Eu lancei um olhar severo pra ela, e o Shion suspirou.

– Controle os hormônios, oficial. — ele disse — E tente manter o foco, está bem?

– Estou tentando Comandante. – ela respondeu antes de suspirar outra vez – Por que será que a maioria dos homens bonitos preferem a companhia de outros homens igualmente bonitos?

– June! – ele ralhou.

Ela levantou as mãos.

– Tudo bem, tudo bem, já parei. – e então continuou, voltando no assunto — E quanto a essa nova república, o novo mundo?

– Será o deles, é claro. – eu respondi — Uma ordem estabelecida sob os princípios deles, suas regras e sua gente. Na verdade, é o tom do discurso que me preocupa, mais até do que o conteúdo. Por trás de tudo eu sinto a alegria deles em dizer: 'Somos Pandora'.

– Observem o uso constante do pronome no plural. – nosso comandante falou — As frases declarativas curtas, sempre seguidas pelo jargão político, pela propaganda e pelas acusações. Não há nada de novo aí, nada de original. São declarações recicladas, muitas delas de décadas atrás. Mas não imaginem que isso significa que eles não estejam mais avançados nas formas de operação. A fundação pode estar desgastada e ser pouco original, mas creio que as intenções do grupo e sua capacidade operacional estão vivas e em boa forma.

– Nós precisamos saber qual será seu próximo alvo. – eu ouvi a voz do Kanon dizer ao meu lado, agora já devidamente vestido.

Todos concordamos.

– Os secretários de segurança dos países aliados se reuniram ontem em Paris – o Shion disse — e estiveram conosco na sede em Lyon, nós estamos com prioridade absoluta nesse caso. A mídia está caindo em cima, mas nossa ordem é pra manter o código 5, o que significa...

– Sigilo absoluto. – a June copletou — Nada entra e nada sai dessa sala.

Ele assentiu.

– O governo francês está pressionando, querem um relatório sobre a Operação Caterine de Médice e querem colocar gente deles no caso.

Eu notei o momento em que os olhos do Kanon se acenderam para logo em seguida se estreitarem, e admirei o controle que ele demonstrou. Aparentemente o comandante também notou, porque logo em seguida disse:

– Vocês não gostam muito disso, não rapazes? – ele respirou fundo — Eu posso entender.

– Não sei se você pode, — meu irmão replicou. Ainda havia raiva nos olhos dele. — Afinal você tirou seu homem de campo quando a coisa esquentou, mas nosso irmão continua na berlinda, não é? – ele usou um tom enfático e malicioso pra dizer 'seu homem'.

– Eu só tirei 'meu homem' de campo – Shion respondeu usando a mesma ênfase de Kanon — pq não havia mais nenhuma utilidade pra missão em mantê-lo onde estava. Pandora ter sido capaz de chegar até seu irmão é uma mostra de que a posição do nosso agente estava comprometida.

– Pandora nunca devia ter chegado até o Milo. – eu disse desanimado.

– Não, não devia, — o comandante concordou — eu sinto muito por isso.

Ele baixou os olhos e suspirou. Nós suspiramos também. Sentir muito não era o suficiente.

– Mas agora nós temos o Shiryu pessoalmente encarregado da proteção dele, — contiuou, olhando pra frente, pra nós, outra vez — e destacamos quase uma equipe inteira pra ficar de olho no rapaz e no tal ruivo. Não se preocupem, Pandora não vai conseguir chegar a menos de dez metros dele outra vez.

Assim eu esperava, ou não seria capaz de me perdoar.

Como que adivinhando o tema da conversa o telefone começou a tocar. Eu me aproximei do aparelho e olhei com estranheza para o nome no identificador de chamada antes de atender. Não era comum ele estar acordado aquela hora da manhã, ainda menos telefonando pra gente.

–Milo? – disse.

ooOOoOOoo

Camus POV

Na tarde do dia seguinte eu tentava revisar os contratos pra reunião com os brasileiros na Segunda feira. Era a distração ideal pra mim, que preferia fazer absolutamente qualquer coisa, qualquer coisa, que não fosse pensar obssessivamente naquele grego.

Será que eu fizera a coisa certa dando a tiara pra ele? Ou tudo aquilo teria sido só mais uma manobra bem articulada dele pra consegui-la de mim?

Qualquer que fosse a resposta, agora não importava mais. Ele conseguira a droga da tiara – que meu pai me perdosse por tê-la entregue -, e se realmente se importasse comigo, voltaria algum dia e tentaria recomeçar as coisas entre a gente outra vez. Do contrário, que ficasse longe. Ao menos eu teria minha resposta. Saberia se ele realmente gostava de mim, ou se me levara pra cama apenas por ganância e um pouco de luxúria. E se fosse esse o caso eu estava suspirando à toa por ele, como um colegial idiota. Ia procurar me refazer da decepeção e tocar a vida. Não tinha expectativas de que isso fosse ocorrer da noite para o dia, mas sabia que ia acabar passando. E ele podia simplesmente ter acreditado que eu tinha falado sério quando lhe pedira que se afastasse de mim, afinal.

Na verdade, depois que ele fora embora eu simplesmente me deixara desabar sozinho na poltrona da biblioteca, me sentindo fraco e tremendo descontroladamente.

Estava errado em mandá-lo embora? Queria desesperadamente parar de lutar com minhas dúvidas e simplesmente abraçá-lo, dizendo que tudo estava bem, mas não podia fazer isso. Seria uma mentira. Não estava tudo bem. Eu o havia amado, disso estava certo, mas amara o homem que ele fingia ser. Eu precisava descobrir quem ele realmente era antes de definir meus sentimentos.

Droga, a quem eu estava querendo enganar com esse absurdo de definir meus sentimentos? Eu o amava, fosse ele quem fosse. E o amava tão certamente quanto respirava. Mesmo assim, por mais que me doesse, não estava disposto a pôr a vida de ninguém em risco por causa desse sentimento. Já bastava o que o Afrodite tinha sofrido.

Além disso, eu não me sentia capaz de perdoá-lo completamente ainda. Mesmo que ele não tivesse tido a intenção de me magoar, que não tivesse planejado tudo desde o começo, como afirmava, devia saber que seus atos me magoariam, que eu suspeitaria que seu real interesse era a tiara, e que ele não queria dizer nada daquilo que me dissera.

Eu havia acreditado nele todas as vezes que falara o que sentia por mim. Acreditara quando ele dissera que me queria. Sim, ele ferira meu orgulho. E esse, ifelizmente, era um grande obstáculo para que o perdoasse.

Não que eu me achasse melhor do que ele, ou que merecesse mais confiança ou compreensão. Era tão tolo e inseguro quanto ele, mas por motivos diferentes. Ele parecia não querer confiar nas pessoas e entregar seus sentimentos por sentir-se mais seguro desse jeito. Eu não conseguia confiar nas pessas, mesmo querendo, porque não conseguia acreditar que pudessem gostar de mim.

Ele havia começado a mudar isso. Tinha conseguido fazer com que eu me sentisse melhor em relação a mim mesmo. Ele fazia com que eu me sentisse interessante e atraente, e não mais aquele cérebro flutuante, desprovido de um corpo físico. Ou, de um corpo físico que valesse a pena, pelo menos.

Quando ele estava por perto, eu não me preocupava com o que as outras pessoas pensavam. E não porque só me importasse a opinião dele. Não. Minha própria opinião sobre mim mesmo havia começado a mudar.

E então ele me tomara tudo. Fazendo com que eu voltasse a me sentir o mesmo ruivinho magricela, esquisito e sem graça. O 'dicionário ambulante', o 'cenorinha quatro olhos', que era sempre alvo de chacota no colégio.

Eu não sabia se as coisas que ele me dissera eram realmente verdade, mas minha reação à elas sem dúvida havia sido. Levaria algum tempo, mas eu queria, mais do que qualquer coisa, recuperar aquela sensação perdida. Aquele sentimento de ser apreciado, o conforto de estar em minha própria pele. Um dia eu me sentiria assim novamente, embora fosse levar algum tempo. E isso não se daria porque um cara – ou qualquer outra pessoa – tivesse me proporcionado essa sensação, mas porque eu acreditaria em mim.

Não que eu não soubesse o que era me sentir amado. Meu pai e o Hyoga óbviamente me amavam. O Dite me amava, e Brigitta acolhera a mim e ao meu irmão como se fôssemos seus filhos. Sim, eu sabia o era ser amado e ser aceito, só que não da maneira a como eu queria ser amado pelo Milo. Não de uma forma passional. Nem mesmo a Saori fora capaz de me proporcionar tal conhecimento.

Sim, ainda tinha mais isso. Pensar na Saori me fez lembrar no tamanho do meu problema. Eu óbviamente precisava resolver minha situação com ela, já que me parecia bastante claro que não teria mais como haver um casamento. Só que os problemas não paravam de surgir e eu não conseguia encontrar ânimo ou cabeça pra isso. A verdade é que por mais cruel que pudesse parecer eu mal havia lembrado da existência da minha noiva nos últimos dias.

Eu desviei os olhos mais uma vez para os papéis a minha frente, balançando a cabeça pra afastar aqueles pensamentos.

Depois de terminar de revisar os contratos, fui ver como o Dite estava. Eu ficara ali, sentado ao lado dele, quase todo o final da madrugada e a maior parte da manhã, descansando de vez em quando numa poltrona. E não fora só a cadeira desconfortável que me fizera ficar acordado. Eu ficava repassando sem cessar os acontecimentos daquela noite, especialmente o beijo que eu e Milo haviámos trocado.

Mon Dieu, por que eu não conseguia controlar as coisas que se relacionavam com aquele homem? Ele me beijava e eu enlouquecia completamente, esquecendo cada coisa ruim que ele havia me feito. Qual era o meu problema, afinal? Enquanto meu amigo dormia, com o corpo todo ferido e cheio de hamatoma por causa da minha relação com um ladrão, eu estivera a ponto de transar loucamente em cima da mesa da biblioteca com esse mesmo ladrão!

O rosto do Dite estava em paz quando eu espiei pela porta entreaberta do quarto. Estava ainda mais inchado do que na noite anterior, e os hematomas mais escuros, de um verde-arroxeado, mas ele não parecia estar sentindo dor, e isso era bom.

Na verdade, tirando a pequena crise histérica que ele havia tido ao olhar sua imagem no espelho, o Dite até que estava lidando muito bem com a situação toda. Quem não estava lidando tão bem assim era Brigitta, que quase havia tido uma ataque quando olhara o estado da sua 'Pétala de Rosa' – pasmem, era assim que ela chamava o Dite -, e agora estava dormindo sob efeito de calmantes, e o Máscara, que só faltou colocar toda a máfia italiana atrás dos caras que haviam atacado o namorado.

Tá, tudo bem, ele não era um mafioso de verdade. Mas isso não o impediu de quase arrombar a porta da minha casa, nem de ameaçar de morte lenta e dolorosa os policiais que estiveram ali pra fazer o boletim de ocorrência caso não encontrassem os malditos miseráveis que haviam ousado tocar no 'seu Bello' — só que ele não disse miseráveis.

Bom, pelo menos minhas suspeitas não estavam corretas, e o corpo do italiano não estava jogado sem vida em um beco escuro. Aparentemente, na noite passada, ele e o Dite haviam discutido por algum motivo estúpido qualquer — como sempre eram os motivos das discussões deles — e o Dite o largara na festa em que estavam e dirigia sozinho de volta pra casa quando foi fechado por dois carros. Ele não conseguiu ver a placa dos carros, ofuscado pela luz dos faróis, e os homens que o renderam usavam máscaras de esqui sobre o rosto. A idéia de que eles estivessem todo o tempo o seguindo, só esperando pela oportunidade certa, me causava estranhos calafrios.

– Estava me perguntando quando você ia aparecer – ele sussurrou, abrindo os olhos claros quando eu entrei. – Estou precisando muito ir ao banheiro, e receio que você tenha que me ajudar.

Ele estava sozinho no quarto. Depois de muita insistência, havíamos conseguido mandar o Máscara de volta pra casa pelo menos pra tomar um banho e pegar uma muda de roupas limpa.

– Também estou feliz de ver você, mon ami – eu disse, aproximando-me pra ajudá-lo.

Com outra pessoa qualquer eu talvez tivesse me sentido um pouco constrangido, mas não com o Dite.

Eu me inclinei sobre ele e puxei as cobertas para um lado. Ele estava nu, e eu relanceei os olhos pelas bandagens em volta de suas costelas antes de desviar o olhar novamente para o seu rosto. A culpa inquietava minha consciência. Era por minha causa que acontecera isso com ele. Se eu não tivesse me rendido a atração que sentia por Milo...

– Pare de se culpar – ele ordenou, parecendo ler meus pensamentos. – E me dê um robe, por favor. Estou com frio.

Eu nunca tinha visto o Dite de mau humor. É claro que eu também nunca o vira naquele estado, então isso não deveria me surpreeender. Eu lhe passei o robe que uma das criadas havia deixado pendurado no cabideiro ao lado da cama. Vestí-lo foi uma tarefa lenta e dolorosa, mas com muita obstinação consegui fazê-lo. Então, apoiando-se nos meus ombros, enquanto eu lhe envolvia as costas com o braço, ele ficou de pé.

– Tem certeza de que non quer uma comadre? – Eu perguntei, enquanto ambos fazíamos força pra nos equilibrar. – Posso te arranjar uma.

– Posso fazer isso no vaso, maldição! — ele se exasperou.

E fez como disse. Levou quase quinze minutos para que eu o levasse e trouxesse de volta, e ele estava sem fôlego e transpirando ao ser de novo acomodado na cama, mas estava aliviado. Eu registrei mentalmente que seria conveniente contratar uma enfermeira para ajudar nos próximos dias.

Depois que ele se ajeitou nos travesseiros novamente, — ainda vestindo o robe – eu senti a culpa voltando a corroer minha consciência.

– Pardon, mon cher – eu não pude me impedir de dizer. – Eu... eu sinto muitíssimo.

Ele me olhou com ar zangado – ou assim me pareceu. Era muito difícil saber, pois seus olhos de tão inchados, estavam quase fechados.

– Já te disse pra não se culpar.

– Como posso non fazer isso? – Eu falei. Estava muito aborrecido comigo mesmo.

Aparentemente ele também notava isso, porque estava positivamente irritadiço.

– Porque isso não tem nada a ver com você.

– Claro que tem. – Era hora de confessar tudo e acabar de uma vez com aquilo. – Foi tudo por causa daquela maldita tiara!

– Eu sei – ele disse, me olhando com o olho bom.

Eu congelei.

– Vous savez? (1)

– Sim. – Ele deu um arremedo de sorriso com os lábios repuchados. – Eles queriam garantir que eu soubesse que isso era uma mensagem para o seu grego.

Eu senti um gosto amargo na boca.

– Mas você não contou isso pra polícia... – não era uma pergunta.

– Não. – ele sorriu.

De alguma forma, eu me senti grato a ele por isso. Não conseguia lidar com idéia do Milo sendo preso. Mesmo sabendo que não devia me sentir assim.

Como se lesse meus pensamentos, ele suspirou, ficando sério outra vez.

– Olha, o que o Milo fez foi errado, não tenha dúvidas. Ele mentiu, te magoou, e feriu seu orgulho, mas ele se importa com você também.

Eu senti aquele já conhecido estremecimento no peito à menção do nome dele, mas continuei apenas olhando pro Dite demosntrando incredulidade.

– Quando eu estava estendido naqueles degraus no limiar da inconsciência,- ele continuou ante o meu silêncio — ouvi sua voz. Ele pedia a Deus e a quem pudesse ouvi-lo que me mantivesse vivo. E disse que ia me trazer pra você, porque se alguém podia me salvar era o 'nosso ruivo'.

Eu trinquei os dentes para tentar controlar as coisas estranhas e convulsas que estava sentindo. Meu lado mais fraco e rebelde – aquele que insistia em acreditar na inocência do grego — iniciando um verdadeiro motim dentro de mim.

– Isso simplesmente siginifica que ele sabe como amo você. – Eu falei, no entanto, tentando soar indiferente.

– Diga o que quiser. – ele molhou os lábios, estremencendo quando sua língua tocou no corte do lábio inferior. — Ele provavelmente salvou minha vida ao me trazer pra você.

– Como pode dizer isso? – eu tentava desesperadamente apelar pra razão — Isso aconteceu com você por causa dele! – Quanto mais eu pensava nisso, com mais raiva ficava. Mas a raiva me fazia bem. Era preferível à confusão e à miséria que andava sentindo.

– Também não é culpa dele. – Ele lançou um olhar pra jarra de vidro que estava na mesa de cabeceira ao seu lado. – Seja um amor e me dê um copo dessa água, sim?

Eu me levantei para pegar a água.

– Como pode perdoá-lo quando sabe que o homem que o contratou é quem está por trás dessa agressão contra você?

– Admito que fui escolhido por que somos próximos, e que, seja quem for que esteja por trás disso, conhecia este fato. – Seu rosto se contorceu de dor quando ele se mexeu pra ficar numa posição mais confortável. – Mas eles também sabiam que o Milo assumiria que você seria o alvo seguinte. Fizeram isso pra exercer seu controle sobre ele. Ele é tão vítima quanto eu, Camus.

Eu segurei o copo com mais força do que o necessário tentando controlar a irritação enquanto o estendia pra ele.

– Você está sendo muito complacente.

Ele me olhou com seus olhos azul-piscina desfigurados.

– E você está irritado porque não consegue perdoá-lo, não importando o quanto deseje isso.

Eu respirei fundo, desviando o olhar.

– Non o perdôo porque ele non merece ser perdoado.

– Por que não?

Eu o encarei outra vez.

– Porque ele me usou.

– E você também não o usou?

Eu o olhei com incredulidade. Não conseguia acreditar que tivesse dito aquilo.

Ele mudou de posição nos travesseiros novamente, gemendo quando as costelas doeram. Devia ser muito difícil pra ele achar uma posição confortável

– Milo te usou pra conseguir a tiara, — ele tomou outro gole de água — e você o usou pra seduzir sua noiva. Acho que isso foi razoavelmente mútuo, não?

– Não se trata da mesma coisa! – Como ele podia sequer sugerir tal coisa? – Ele... ele traiu minha confiança.

Ele revirou o olho bom.

– Ele não precisava se tornar seu amante pra roubar você, Camus. Poderia ter seguido com a história do patrocínio, como aparentemente era seu plano original... ou poderia simplesmente ter esperado o dia do casamento, entrado na festa e levado a tiara sem que ninguém nem percebesse, que é como agem os ladrões competentes.

Eu inspirei fundo de novo.

– Talvez ele non seja tão competente, afinal.

– Discordo. Ele roubou seu coração, e achei que ninguém jamais fosse capaz de conseguir isso.

Eu fechei o rosto, preferindo ignorar a última afirmação dele.

– Talvez ele estivesse sem tempo pra seguir com a história do patrocínio, ou pra esperar pelo casamento. – eu sugeri.

– E então ele te usou pra conseguir se aproximar da Saori e pegar a tiara? – ele disse ironicamente, e continuou, sem me dar tempo pra responder: – Claro, porque se tornar amante do noivo dela era mesmo o melhor jeito de se aproximar da garota. Acorda, Camus!

Eu suspirei frustrado, levantando-me da cadeira ao lado da cama pra me atirar na poltrona em frente a ela. Mesmo contra a minha vontade eu tinha que admitir a lógica daquele raciocínio.

– Como queria não tê-lo conhecido!

O Dite agora sorria com ar bondoso.

– Em vez de se arrepender do que não pode ser desfeito, seria melhor que você lhe perguntasse por que esperou tanto tempo pra trair você.

Meus olhos se estreitaram.

– O que você está querendo dizer?

Ele teria dado de ombros se pudesse fazer isso sem gemer de dor.

– Eu estive pensando, Camie... e essa história, tudo isso, não faz sentido algum. Se ele queria se aproximar de você pra por as mãos na tiara, por que nunca quis saber nada a respeito da jóia antes? Por que nunca mencionou nada sobre a Saori, mesmo que desinteressadamente? Por que esperar ser flagrado ao telefone pra expor tudo? Não. Não faz sentido, à menos...

– À menos...?

– À menos que ele esteja falando a verdade.

Eu arregalei os olhos e depois sorri secamente.

– Acho que te bateram realmente forte. Você provávelmente está sofrendo algum tipo de febre cerebral.

Ele ignorou meu sarcasmo.

– Você lhe perguntou por que ele queria a tiara?

Eu assenti.

– Disse que tinha que entregá-la pra alguém.

– Quem?

– Não tenho idéia. Non quis me dar mais nenhuma informação.

Ele franziu o cenho.

– Talvez você devesse perguntar isso a ele.

Eu revirei os olhos.

– Agora sei que você está mesmo com febre. Primeiro: eu já perguntei, ele non quis me dizer, provavelmente por non ter conseguido pensar numa mentira suficientemente convincente. Segundo: mesmo que ele dissesse, que garantia eu teria de que ele estaria me dizendo a verdade?

– Você poderia confiar nele – ele sugeriu simplesmente.

– Ah sim, porque tenho sido muito bem sucedido nesse particular ultimamente.

De repente eu já não estava mais me sentindo tão culpado em relação aos ferimentos do Dite – a culpa estava dando lugar a uma sensação esquisita de... contrariedade?

– E por que você o está defendendo tanto, afinal? Será que já caiu de amores por ele, depois dele ter representado o cavaleiro que o resgatou. – Eu falei sem conseguir me conter. Não entendia o que era aquele sensação, nem sabia por que estava falando daquela forma com ele.

Em vez de se ofender, no entanto, o Dite sorriu.

– Eu não acredito, eu não pensei que fosse viver pra ver isso... Você está sendo ciumento, Camus!

A súbita compreensão da veracidade daquelas palavras me fez querer afundar a cabeça com força na parede. Nem eu acreditava em mim. Eu estava mesmo tendo uma crise de 'ciuminho' ridícula daquele grego maldito. Eu não era apenas um idiota. Eu era o rei deles.

– Não... non é o que... – eu gaguejei.

Ele me interrompeu com um gesto de mão.

– Nem se dê ao trabalho de tentar negar, mon ami. – ele disse rindo um pouco, com dificuldade, então sua expressão ficou séria. -Sei reconhecer um homem bom quando vejo um, Camus, e não preciso 'cair de amores' por ele pra ver se tem valor.

Eu lhe devia desculpas por ter sido estúpido e por tê-lo insultado, é claro, mas simplesmente não conseguia deixar aquilo passar. Depois de tudo, o Dite era definitivamente a última pessoa que eu esperava que fosse defender o Milo.

– Mon Dieu, como é possível que seja justamente você a dizer isso?

– Porque você o ama, — ele respondeu, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo — e ele não ia merecer isso se não fosse.

Àquela altura eu já não me incomodava mais em tentar negar meus sentimentos pelo Milo. Nem sequer discutiria isso. Que diferença faria?

Eu o encarei. Ele sorria satisfeito, o suor formando pequenas gotículas em suas sobrancelhas claras. Aquela conversa estava exigindo muito dele, parecia que cada movimento, por menor que fosse, piorava seus ferimentos. Eu não devia têlo deixado se esforçar desse jeito.

– Pardon, Di. – eu murmurei mais uma vez, incapaz de pensar em qualquer outra coisa pra dizer. Parecia que tudo que eu conseguia fazer aquele dia era me desculpar.

– Só se você também me perdoar – ele disse, apertando minha mão – Sei o quanto você odeia que se metam nos seus assuntos, e mesmo assim eu não paro de fazer isso, não é? – ele sorriu divertido.

Eu retribuí o aperto, sorrindo-lhe de volta.

– A essa altura eu acho que estranharia se você non o fizesse.

Ele riu, pra depois voltar a ficar sério, fixando firmemente seus olhos nos meus.

– Ele é um homem bom, Camie. – disse. — Sinto isso em meu coração, e acho que você também.

Eu fui poupado de negar ou confirmar minha opinião por uma batida na porta. Era Brian, o mordomo, que entrou com um sorriso alegre.

– Como está se sentindo, Sr. Afrodite? – ele disse abrindo mais as cortinas — Precisa de alguma coisa?

– Não, eu estou bem, Brian, obrigado. – o Dite respondeu com um sorriso.

– Que bom, — o sorriso do mordomo pareceu se ampliar — porque o carro do Sr. Di Agelis acaba de cruzar os portões. Achei que gostaria de saber.

Os olhos do meu amigo brilharam e ele os voltou pra mim, radiante.

– Bem, — o criado suspirou enquanto ajeitava melhor os travesseiros sob as costas do paciente — nem vou perguntar se devo mandá-lo subir, pois dificilmente seria capaz de detê-lo.

Nós rimos daquilo e logo o Dite me lançou um olhar nervoso, enquanto Brian, após ter convenientemente ajeitado os travesseiros, saía pela porta do quarto pra receber o Italiano.

– Como estou?

Eu sorri, levantando-me, e me abaixei pra tocar sua testa com os lábios.

– Uma linda desordem.

– Oh, Deus! – ele disse sorrindo enquanto tentava ajeitar os cabelos com as mãos.

Eu saí do quarto do Dite, e continuei meu caminho pelo corredor em direção ao meu próprio, já sem sorrir.

Será que o Milo era mesmo um homem bom? Eu devia saber. Afinal, tivera a sorte de compatilhar grande parte da minha vida com um dos melhores.

ooOOoOOoo

Milo POV

– Vocês sem dúvida devem estar se perguntando por que pedi que viessem aqui hoje.

Sentado na sala do meu apartamento, eu olhava para cada uma das pessoas ali presentes. Deba e Shura, acomodados em duas poltronas mais a frente, pareciam apreensivos, Kanon e Saga, no sofá ao lado, se entreolhavam de maneira significativa, e o Oria, sentado de esgueio na cadeira que havia arrastado da sala de jantar, apenas me olhava em expectativa.

Foi ele quem falou primeiro.

– Bem, como isso não me parece uma festa, e como você nunca nos convidou para vir aqui assim, estou bastante curioso.

Era final de tarde de uma terça feira nublada e fazia pouco mais de uma semana desde aquela manhã em que eu ligara pros gêmeos depois do que acontecera com o Afrodite na passagem do ano. Fora esse o tempo que levara pra conciliar a agenda e os compromissos de cada um. Sim, eu havia decidido contar toda verdade a eles. E já que ia fazer isso, preferia fazê-lo à todos, e de uma única vez.

– Estou precisando da ajuda de vocês. – eu falava como se estivesse angolindo lama, mas estava contente de me livrar daquilo. – Alguém do meu passado voltou a entrar na minha vida, e não estou conseguindo lidar com isso sozinho.

O olhar dos gêmeos agora estava apreensivo e Deba e Shura me encaravam com uma expressão parecida com horror. Sabiam onde eu estava querendo chegar.

– Talvez seja melhor que você nos diga quem é essa pessoa – Aioria sugeriu, o único ali que não fazia qualquer idéia do que estava de fato acontecendo.

Sim, esse era um bom plano pra começar – do príncipio, sem esconder nada.

Eu tomei fôlego antes de falar:

– Como alguns aqui já sabem, há alguns anos, quando cheguei aqui depois de fugir de casa, eu não sabia muito bem como me manter no país e acabei procurando um meio não muito digno de fazer isso.

– O que você quer dizer? – o Oria indagou erguendo uma sobrancelha.

– Eu... – eu gaguejei — ...eu praticava pequenos furtos.

Os olhos verdes do meu irmão passearam do meu rosto meio desconcertado para os dos demais, que não demontravam nenhuma surpresa, voltando para o meu outra vez, para então franzir o cenho, cruzando os braços sobre o peito.

– E pelo jeito eu era o único aqui que não sabia, não é? – Acusou.

Eu suspirei, tentando ignorar aquela reação, que afinal, eu já esperava, e continuei:

– Uma vez nesse meio, — disse — eu fiz algumas amizades e conheci um homem.

– Milo... – a voz de Shura tinha um tom de advertência.

Eu o interrompi com a mão levantada.

– Tenho que fazer isso, Shura. Você logo vai entender.

Ele se calou, com uma expressão entre duvidosa e preocupada. O que eu estava pra revelar o afetava, e ao Deba também, eu sabia, mas não havia como evitá-lo. Eu não pretendia expô-los se pudesse evitar, mas precisava fazer aquilo; era a única maneira de pôr fim a esse pesadelo e de ter uma chance de talvez reconquistar meu ruivo.

– O tal homem, Dhoko como me foi apresentado, logo percebeu o meu, digamos, 'talento natural', e me colocou sob sua proteção. Assim comecei a trabalhar pra ele. Ele era bem relacionado, me apresentou para as pessoas certas e logo eu só circulava pelas altas rodas. Eu era jovem, tolo, e cheio do fervor típico da idade me deixei seduzir por aquele mundo, pelo desafio, pelo brilho, pelo risco. Era tudo como um jogo excitante pra mim.

Saga ergueu os olhos, mas não disse nada. Kanon levantou do sofá indo até a janela, abrindo o virdo e acendendo um cigarro. Eu me encolhi quando o vento frio daquele início de Janeiro entrou na sala e pensei em protestar, mas fiquei quieto. Sabia que ele ia precisar de bem mais do que um cigarro quando eu terminasse tudo o que tinha pra dizer.

Tomei fôlego de novo antes de continuar:

– Não demorou muito pra que eu estivesse bem conhecido no ramo, e acabei me especializando em jóias. Meu trabalho era tomar posse desses itens pra que Dhoko e seu pessoal os transformassem em fundos. Eu não via problema em aliviar um pouco os bolsos das socialites por uma boa causa. Principalemtne porque Dhoko me dizia que parte do dinheiro seria usado pra fins assistenciais.

– E você acreditou nisso? – É claro que o Aioria não podia ficar calado por mais tempo.

Eu olhei pro meu irmão com um ar que significava que sabia como tinha sido idiota.

– Eu era muito jovem nessa época, e Dhoko me tratava como um homem feito. Ele se tornou um pai pra mim.

Pela primeira vez Saga se manifestou, assentindo.

– E com isso você quis substituir seu pai de verdade, que já não podia mais estar com você.

Talvez o raciocínio dele estivesse certo, mas eu fiquei irritado com ele, por ser capaz de ver tão facilmente o que se passava comigo.

– É, acho que foi isso. — concordei — De todo modo, fiz o que achei que devia fazer. Tornei-me um ladrão, e como eu já disse, dos muito bons, foi só quando dois detetives da divisão de investigação especial assumiram o caso e se aproximaram de mim que me dei conta da verdade. Eu era então um garoto estúpido que havia sido enganado e me tornara nada mais que um criminoso comum.

Os demais desviaram os olhares para os gêmeos.

– Detetives da divisão de investigação especial? – o Aioria perguntou. – Há quantos anos isso aconteceu?

Kanon deu as costas pra janela, recostando-se na mesma, e, de braços cruzados no peito, olhou pra todos.

– Sim, eu e o Saga éramos os detetives. Nós tínhamos acabado de ser transferidos de Atenas e assumimos a investigação. Quando descobrimos quem estava por trás dos roubos demos um jeito de abafar e arquivar o caso. — ele suspirou — Qualquer um teria feito o mesmo pra evitar que seu irmão fosse preso como o ladrão que toda cidade já começava a chamar de 'Fantasma'.

Com a surpresa estampada no rosto, os olhos verdes do meu irmão caçula se voltaram para mim.

Você era o Fantasma? – Seu tom de voz de era de incredulidade. – Deus do céu, Milo!

Eu assenti. Em outro tempo, muitos anos atrás, teria ficado orgulhoso da expressão dele. Minha perícia e reputação eram coisas que eu usava como um manto invisível, mas agora não. Não depois que eu me dera conta que isso não era algo de que eu devesse me orgulhar.

– Era – eu respondi simplesmente, relanceando um olhar de agradecimento ao Saga, por se manter em um silêncio compreensivo. – Se não fosse pelo Kanon e pelo Saga, teria ido pra prisão ou fugido do país em desgraça.

– Isso certamente teria superado qualquer escândalo em que eu pudesse ter me metido – Kanon observou irônico, acendendo outro cigarro.

Por Deus, será que nada perturbava equele cara? Agora estava fazendo piadas?

– Por que você nunca contou isso? – o Aioria perguntou, agora num tom mais curioso do que ferido.

– Ou melhor, – acrescentou Saga, com uma expressão astuta — por que está contando agora?

Eu engoli o que restava do meu orgulho.

– Desculpa, Oria, nunca te contei, ou pro Aioros porque me senti um completo idiota. Se pudesse não teria contado a ninguém. Não queria que soubessem que estúpido eu havia sido.

Ele me olhou como se momentaneamente tivesse ficado perplexo. Então acenou levemente com a cabeça, como se aquela explicação tivesse um sentido perfeito.

– Estou lhes contando agora – falei, respirando profundamente e olhando pra todos na sala – porque preciso da ajuda de vocês.

– O que aconteceu? – o Aioria me dirigiu um olhar tenso — Alguém descobriu a verdade?

– Pior. – o Deba finalmente se pronunciou — o Dohko voltou.

A notícia não era novidade pro Shura e provavelmente não significava muita coisa pro Oria, mas os gêmeos sabiam do que se tratava e entendiam todas as suas implicações. No entanto, diferente do que eu pensava, não se mostraram surpresos. Saga apenas baixou o rosto soltando um suspiro entre resignado e culpado, enquanto o Kanon se voltava mais vez pra janela soprando a fumaça do cigarro.

Eu franzi a sombrancelha sem entender o que aquela atitude significava.

– E o que ele quer? – a voz do Aioria se fez ouvir outra vez

– Uma tiara de diamantes. – o Shura respondeu dessa vez — Ele mandou que o Milo a roubasse.

– E você roubou? – O Kanon perguntou ainda de costas pra sala, era impossível saber o que se passava pela sua cabeça.

Eu olhei de um gêmeo à outro antes de responder.

– Falhei.

– E a quem pertence essa tiara? – É claro que a pergunta só poderia ter vindo do Aioria.

Eu baixei o olhar, fixando-o no cadarço dos meus sapatos.

– A Camus Chevalier.

Um coro de imprecações se ergueu entre meus dois amigos e meu irmão caçula, mas a do último certamente era a mais alta.

– Você o usou? Seu canalha! Ele é chefe da minha mulher. Como vou explicar isso pra Marin?

E mais uma vez todo o mundo do Aioria se resumia a Marin. Formavam um casal perfeito, eu tinha que admitir. Perfeitamente à vontade um com o outro, e a emoção que os unia era tão forte que transparecia. Isso era amor, eu supunha. Será que algum dia as pessoas pensariam a mesma coisa de mim e do Camus? Se dependesse de mim, com certeza, sim.

Eu lancei um olhar duro para o Aioria.

– Em primeiro lugar, você não vai dizer nada pra sua mulher. – disse, e, desviando o olhar pro Deba, acresecentei — Isso serve pra você também. Nada de abrir a boca pra Tessa. Quanto menos pessoas souberem disso, mais seguros estaremos.

– Mais seguros? – o Oria perguntou em um tom de crítica.

Eu tirei o suéter de gola olímpica que escondia o ferimento no meu pescoço.

– Um dos amiguinhos do Dohko me deixou isso. O Shura foi ferido na perna enquanto seguia uma de seus cúmplices, e creio que o Dohko também está por trás de um ataque ao Afrodite, o tal amigo do Camus.

O Oria passou a mão no cabelo soltando imprecações que fariam queimar as orelhas do próprio diabo.

– O Afrodite foi atacado? É agora mesmo que a Marin me castra.

Eu lancei outro olhar firme a ele que suspirou resignado se calando.

– Você procurou a polícia? – O Deba quis saber.

Eu neguei com a cabeça.

– Mas é provável que o Camus tenha registrado alguma ocorrêcia.

– Eu não consigo acreditar que você deixou as coisas chegarem a esse ponto – o Shura interveio. — Devia ter nos contado...

Eles sabiam sobre meu passado — mesmo porque eram parte dele -, sobre a volta do Dohko, e a tiara, mas eu não tinha lhes falado nada sobre os outros ataques. Em parte porque eu não queria preocupá-los, e porque falar sobre isso implicaria contar sobre eu ter desistido do roubo e óbviamente sobre todos aqueles sentimentos desconcertantes e confusos que eu havia descobeto sentir por um certo ruivo.

– Dohko ameaçou revelar que o Saga e o Kanon me deram cobertura quando me envolvi com aqueles roubos. – eu falei — Disse que tinha provas que podem arruiná-los. Eu não podia me arriscar a provocar um escândalo que destruiria a carreira deles.

Eu olhei mais uma vez para os gêmeos que permaneciam estranhamente silenciosos. Kanon, ainda de frente pra janela, parecia alheio a conversa, e Saga continuava ali, sentado, agora digitando algo no celular.

O comportamento deles não podia deixar de me indignar. Eu esperava surpresa, receio, gritos, idignação. Talvez até preocupação e conforto – menos provável. Mas eles simplesmente agiam como se eu tivesse dito que comera bolo no café da manhã.

– Escândalo? – o Oria ecoou, cortando o fluxo dos meus pensamentos. – Quem se importa com escândalo quando há vidas em perigo?

Eu me virei pra olhá-lo.

– Não sabia que isso chegaria a esse ponto. – disse — De qualquer forma, acredito que Dohko cumprirá suas ameaças. Ele é esse tipo de homem. Pelo visto também se tornou violento desde que falhei, não lhe entregando a tiara.

Um músculo se mexeu no maxilar de Saga, e ele deixou o celular de lado, olhando pra mim.

– Então você chegou a tentar roubá-la?

Eu o encarei. Será que ele estava pensando que eu era tão estúpido a ponto de voltar à vida do crime? Teria tão pouca fé em mim?

– Na verdade... – eu desviei os olhos — desisti.

Ele assentiu.

– Por Deus, Milo! – o Aioria continuva indignado — Como pôde fingir interesse pelo ruivo apenas pra roubá-lo?

É claro que ele ia pensar que fosse assim.

– Não fiz isso. – eu repliquei — Meu... interesse por ele é genuíno. Quando nos aproximamos, eu nem sabia que a tiara pertencia a ele.

Todos pareceram me olhar com desconfiança. Bem, acho que isso também era compreenssível.

– No começo, — eu continuei, inspirando fundo mais uma vez — acho que o Dohko também acreditou que eu estivesse usando o Camus pra chegar na tiara. Mais tarde, quando ele começou a perceber que eu podia estar gostando mesmo do ruivo, passou a incluí-lo nas ameaças. O ataque ao Afrodite é um claro aviso de que Camus ou sua família poderão ser atacados também se eu não lhe entregar a tiara. Ele não tem intenção de me deixar em paz. Isso não vai acabar até que eu lhe consiga o que quer.

Fez-se um silêncio incômodo enquanto todos provavelmente pesavam as implicações daquela ameaça. Para mim, para eles mesmos, e pra todas as pessoas que me rodeavam.

– E o que o fez desistir? – o Saga finalmente perguntou.

Eu fechei os olhos por um instante, tentando não pensar naquela noite horrível em Paris. Não, horrível não. Aquela certamente fora a noite mais incrível da minha vida. O que aconteceu depois dela é que fora terrível.

– Camus me descobriu. – eu disse simplesmente, mesmo sabendo que não fora só isso. Depois daquela noite eu já estava decidido a desistir mesmo que ele não tivesse me descoberto.

–Descobriu você? – Kanon jogou o que restava do cigarro pela janela e se voltou pra mim, olhando-me de um modo que parecia que ia ter um ataque, ou começar a rir.

– Ótimo. – Saga suspirou — Então agora ele também conhece o seu passado?

Eu balancei a cabeça.

– Não totalmente. Não lhe disse nada sobre vocês. Ele pensa que sempre fui um ladrão. Ele acha que o usei desde o começo.

– E você não lhe disse a verdade? – Quem falou agora foi o Deba, que era de poucas perguntas.

– Não achei que devesse contar-lhe sobre meus irmãos – disse, negando também com a cabeça. – Além do mais, é melhor assim.

Eu não podia lhe dizer. Se dissesse ele iria querer se envolver e até poderia fazer alguma tolice pra tentar me ajudar. Algo que poderia comprometer a carreira dos meus irmãos, ou, o que era pior, sua própria segurança.

Eu sabia que o Camus era um homem inteligente e racional, mas também sabia como ele era protetor em relação às pessoas com quem se preocupava. E, ainda que eu não tivesse a sorte de ser amado por ele, sabia que ele ao menos se preocuva comigo. Por isso já fizera a tolice de me dar a tiara. E mesmo que eu não pudesse negar que o gesto me comovera, não ia deixar que ele fizesse mais que isso. Especialmente arriscando a própria segurança. Se o Dohko pusesse as mãos nele... Bem, Dohko poderia se considerar um homem morto, mas isso não garantiria que Camus ficaria protegido. E eu não ia arriscar perdê-lo. Não quando nem o havia reconquistado ainda.

– Ah, sim – o Aioria não podia ficar quieto –, é muito melhor você estar com essa aparência infernal e ele se sentindo traído. Melhor para todos os envolvidos.

– Você preferia que eu tivesse lhe contado toda a verdade? Que arriscasse sua segurança? Que ferrasse com a vida dos nossos irmãos – eu sentia que o fio frágil que mantinha meu controle estava perigosamente perto de arrebentar. – Eles têm uma sólida carreira na polícia agora. Acha que eu me arriscaria a arruiná-la?

– Não. Você prefere arruinar a si mesmo. – O tom de Saga soou calmo na pesada tensão da sala. — Você preferiria magoar a pessoa que ama a fazer isso com qualquer um de nós.

Aquilo não deixava de ser verdade, mas dito assim, em voz alta, soava tão... suave!

– Vocês são meus irmãos. – Eu disse, e, caso não fosse explicação suficiente, acrescentei — Eu faria qualquer coisa por vocês.

A sala mergulhou no silêncio mais uma vez.

Os gêmeos trocaram olhares, comunicando-se sem palavras, antes de voltarem o olhar para mim outra vez.

– Nós também temos algo pra contar – o Kanon anunciou misterioso, recostando-se no braço do sofá ao lado do gêmeo.

– Mas antes, – o Saga prosseguiu – tomamos a liberdade de convidar algumas pessoas que acreditamos também deveriam tomar parte nessa reunião.

Kanon assentiu.

– Já era pra eles estarem aqui na verdade. – ele disse, voltando o olhar para o seu gêmeo.

– Eu recebi uma menssagem do Comandante no celular. – Saga informou — Eles já estão a caminho. – E então parou, pensativo. — Só não sei como vai ser quando chegaram aqui. O acordo de quebra do código não envolvia toda essa gente. – ele fez um gesto abarcando o Aioria, o Deba e o Shura, que, como eu, apenas assistiam curiosos àquilo a tudo.

O Kanon bufou exasperado e levantou-se do braço do sofá encarando o irmão.

– Oras dane-se a porra do código 5, Saga! — ditou, como se aquilo fosse algo que eles já tivessem discutido exaustivamente antes — A gente já devia ter quebrado essa merda há muito tempo. Eu não...

Mas ele não pode concluir o que ia dizer, pois naquele mesmo momento a campainha tocou. Eu me precipitei em direção a entrada, mas o Kanon me impediu, tomando a dianteira.

Não demorou pra que a porta fosse aberta e três pessoas entrassem na sala. Na frente vinha uma jovem loira metida em uma farda policial meticulosamente arrumada e coturnos negros lustrosos. Mais atrás dela eu podia avistar um homem alto de olhos azuis — violeta, e curiosas pintinhas na testa que me parecia estranhamente familiar. Mas foi quando meu olhar caiu sobre o homem que caminhava ao lado dele que meus olhos verdadeiramente se arregalaram e minha boca se abriu de surpresa.

Por um momento eu parecia incapaz de dizer qualquer coisa, então, reunindo toda minha capacidade pulmonar eu puchei o ar e soprei com força:

– D... Do... Dohko?


Notas

1 — Você sabe?

Notas finais
Olá todos, enfim, depois de uma eternidade, eis eu aqui com um novo ch. E bom, à essa altura duvido que ainda tenha alguém acompanhando essa história, mas se tiver algum gato pingado persistente o bastante por aí, desculpe-me sinceramente a demora. Muitos problemas pessoais consumiram não só o meu tempo, como minha inspiração, e foi só com muito esforço que retomei tudo. De qualquer forma, prometi que não desistira da fic, e não vou. Então pode demorar mas o final há de ser postado custe o que custar.
Sobre esse ch, foi um ch que por mais custoso que foi pra sair me agradou o resultado final. Adoro as cenas de Camus e Dite, a mizade deles é muito fofa, assim como também gosto muito do Milo com os irmãos. Tentei explicar um pouco da coufusãoe dos sentimentos do Camus no POV dele, achei que devia isso a ele XD, espero que tenha dado pra compreender um pouco melhor as atitudes do ruivinho com isso ^^. E Milo, finamente jogando a merda no ventilador huauhauuau. Por fim, Kanon... ah Kanon.. Sério, se alguém quiser me matar pela demora na postagem e eu tiver direito a um último pedido, por favo me dêem o Kanon de presente! XDD
Enfim espero que apreciem o ch, e normalmente eu respondo a todas as reviews antes de postar o ch, mas como eu estou absurdamente atrasada na postagem desse, estou optando por postar o ch e ir respondendo aos pouco as reviews. Mas não se preocupem que todas serão respondidas, afinal todas elas são mais do que inportantes, queridas, e o que ainda me dá algum ânimo pra continuar ^^. E, paroveitando o ensejo, deixo já aqui antecipadamente meu muito, muito obrigada a todos que comentaram no ch passado, e tb aqueles que me mandaram pm cobrando a postagem:Mel Dark, Kamy Jaganshi, Sarah, Chakal_Maldito, ddkcarolina, Kassiminha, PapillonBleu, sashinha, Tomb_Raider, stocking, Alexia-Black, Adrih e Shall. Obrigada mais uma vez de coração, amei cada uma de suas reviews e como eu disse irei respondendo-as aos poucos dessa vez ^^
Bjos
PS: Quem acompanha a história pelo ffnet, eu ainda estou tentando me entender com o site, que está todo mudado, então a postagem lá talvez demore mais alguns dias.