Notas iniciais
Disclamer: Saint Seiya não me pertence, o que é uma pena realmente XD Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens, se você não gosta, não leia.

Milo POV

Alguns segundos se passaram sem que eu conseguisse esboçar qualquer reação. Eu apenas estava ali, parado, com a boca aberta, torcendo pra não ter um derrame ou algo do gênero.

Não que isso parecesse importar para os meus irmãos, é claro. Pelo menos não para o Kanon, já que ele simplesmente parou ao lado dos recém-chegados e, como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo, falou:

— Milo, essa é a oficial June, nossa assistente. – ele apontou para a mocinha de farda, que acenou com um sorriso — Ao lado dela nosso comandante, Shion – ele agora apontava para o homem com as pintinhas na testa, que fez uma inclinação de cabeça em um cumprimento não respondido por mim. Eu continuava incapaz de me expressar.

— Esse não é aquele tio do Mú? – eu ouvi a voz do Aioria de algum lugar em meio ao choque que estava sofrendo.

— É, sou eu – o tal Shion respondeu.

'Aquele que tinha um trabalho esquisito', uma parte do meu cérebro, uma bem pequena, pensou. A outra continuava em pane, olhando fixamente o chinês à minha frente.

— E o Dohko é claro — o Kanon continuou, como se não fosse nada -, que dispensa apresentações.

Sério, qual era o problema do meu irmão, afinal? Será que na hora lá da divisão dos genes todo o bom senso tinha ficado pro Saga?

— O... O que... — Eu tentei mais uma vez forçar minhas cordas vocais. – O que diabos esse cara está fazendo aqui?

Finalmente eu reencontrava minha voz. Mas ela saiu falha, estranha, como se eu não fosse mais capaz de controlá-la.

Uma espécie de silêncio incômodo se espalhou pela sala.

Percebendo minha situação, o Saga se aproximou e, apoiando ambas as mãos nos meus ombros, fixou profundamente seus olhos nos meus antes de dizer pausadamente:

— Milo. Respira.

Eu fechei os olhos, e puxei o ar com força, tentando fazer como ele me dizia.

— A primeira coisa que você tem que saber – ele continuou — é que o Dohko está do nosso lado. Ele é parceiro do Shion há anos, desde que se formaram na academia de polícia, e atua como um infiltrado pra Interpol há cerca de dezoito.

— Um infiltrado? – Agora era a voz do Shura que chegava aos meus ouvidos.

— Interpol? – Deba falou.

Ambos também pareciam bastante assustados. Bem, é claro que eles estavam assustados. Quem iria imaginar que depois de tudo o Dohko... Deus, era melhor eu continuar respirando.

— Isso – o tio do Mú confirmou, e então se pôs e explicar naquela voz calma e pausada dele, tão parecida com a do sobrinho -. Interpol, para os que não sabem, é uma organização internacional que ajuda na cooperação de polícias de diferentes nações. Como agente eu atuei junto à polícia de vários países até assumir o comando da Divisão de Investigações Especiais de New York em prol da luta contra o terrorismo após os atentados de 2001. Também fui eu que arranjei a transfêrencia dos gêmeos pra cá, quando as atividades ilegais do Milo começaram a chamar atenção demais, e comprometer a posição do Dohko.

— Verdade – o Dohko tomou a palavra. De alguma forma ouvir a voz dele só contribuía pra tornar a coisa cada vez mais surreal -. Na época eu já estava infiltrado no Bronks, e, vocês sabem, a Interpol não se envolve na investigação de crimes comuns. Nosso alvo são crimes internacionais, como tráfico de drogas, terrorismo e contrabandos. Mas, garoto, você realmente estava chamando atenção demais.

— É claro que na época a gente também não sabia de nada – foi a vez do Saga falar -. Nós só recebemos nossa transferência pra cá, e fomos colocados no caso. Óbviamente o Comandante presumiu, acertadamente, que acabaríamos chegando ao Milo.

— Depois disso — o Kanon completou -, ele nos ajudou a enterrar o caso e desde então passamos a integrar a equipe dele.

— Mas... — eu ainda não conseguia desgrudar o olhar do Dohko — Ele... Ele me ameaçou, ameçou vocês, ameaçou o Camus! – Eu começava a entrar no que muitos chamam 'o segundo estágio do choque': a surpresa e a prostração dando lugar à negação e à raiva. Muita raiva, é bom salientar.

— Ele tinha que fazer isso, Milo. – o Kanon falou, tentando soar complacente.

— Nós vamos explicar tudo e você vai entender – Saga disse no mesmo tom.

— Ele apontou uma arma pra minha cabeça! – Eu só conseguia esbravejar e gesticular em direção ao Dohko, os olhos queimando, fixos nele.

— E levei um bom sermão dos seus irmãos por isso – ele explicou, benevolente -. Mas eu repito: A arma estava travada, não havia risco. E você avançou pra cima de mim do nada. O que mais eu podia fazer? Foi a única forma que eu pensei pra tirar você de cima de mim sem nos machucar e nem expor minha posição.

— Você fez isso duas vezes – eu estreitei os olhos ao acusar.

— Foi — ele assentiu -. Mas na segunda vez a arma nem estava carregada. Eu passei a levar uma arma descarregada comigo por garantia depois que descobri sua inesperada inclinação à violência.

Minha inclinação à violência? – Eu gritei. Não dava pra acreditar naquilo — Você ameaçou o Camus!

— Sim — ele confirmou sem se abalar -, e ameacei os seus irmãos durante quase dois meses também e você nunca partiu pra cima de mim à socos. Eu realmente não esperava por isso.

— Ei, eu não gostei de saber disso! – o Oria se manifestou.

— E quanto a isso aqui? – Eu apontei o corte no meu pescoço — E quanto à perna do Shura? À agressão ao Afrodite? Foi tudo pela causa? Os fins justificam os meios, é isso?

— Normalmente eu diria que sim, justificam – o tal Shion se meteu -. Mas não, não foi o Dohko o responsável por esses atos, Milo. Ele jamais seria capaz disso. Quem ordenou tudo isso foi Pandora.

— Quem? – Tudo bem, agora eu estava positivamente confuso.

— Pandora é uma organização terrorista que estamos investigando desde 2001 – o Kanon fez o favor de explicar. Não que isso tivesse realmente contribuído pra amenizar minha confusão.

— Nós vamos explicar com calma – o Saga prosseguiu, provavelmente pela cara idiota que eu devia estar fazendo — Então, por favor, vamos tentar esfriar os ânimos e nos sentar, pode ser?

Eu respirei fundo outra vez – aquele negócio de respirar realmente estava funcionando – e me joguei no sofá. Eu começava a entrar no terceiro estágio: resignação e apatia.

— Eu acho que preciso de uma bebida – disse vencido.

— Dois – o Shura concordou, sentando-se ao meu lado. Eu nem tinha reparado quando ele se levantara.

— Três – foi a vez do Aioria.

— Eu vou pegar – o Deba disse, virando-se pra caminhar até o bar no canto da sala.

Quando todos já estávamos devidamente acomodados – algumas cadeiras arrastadas da sala de jantar. Uma dose de wisky nas mãos – o Saga começou:

— Esse e-mail – ele atirou uma folha de papel sobre a mesinha de centro da sala — foi interceptado pelo sistema de segurança do governo algumas horas após os atentados ao Pentágono e às Torres Gêmeas em 11 de Setembro de 2001.

Eu, o Shura, o Deba e o Aioria nos debruçamos sobre o papel para ler.

"Caro camarada,

Somos Pandora.

Começou.

Tudo pelo que trabalhamos, tudo para o que treinamos, tudo pelo que nos sacrificamos está pronto. Uma alvorada depois da longa escuridão. Os objetivos definidos enfim serão alcançados. As promessas feitas serão cumpridas.

Sabemos de sua preocupação. Sabemos de sua cautela. É isso o que o torna um sábio general. Pois pode acreditar que ouvimos seus conselhos e encaramos seus alertas com seriedade. Não vamos sair das sombras para lutar essa guerra amarga e justa em batalhas que possamos perder. Estamos bem equipados, nossa causa está bem financiada e todos os passos e opções foram considerados.

Enviamos essa mensagem ao senhor, velho camarada, enquanto nos preparamos com alegria para dar continuidade à nossa missão. Os clarins da batalha já soaram. O primeiro golpe já foi dado. Os primeiros alvos já cairam, e nos regozijamos com isso.

Seu sábio aconselhamento nos dirigiu até aqui. Convivemos com estes peões patéticos criados por uma sociedade fraca e sem fibra, exibindo para eles a nossa máscara sorridente de puro escárnio não só pela sociedade, mas também pelo seu sistema repressor e decadente. Fingimo-nos de cegos para nos tornarmos como eles. Ninguém nos questiona enquanto nos movemos por essas ruas imorais e sujas. Somos invisíveis, sombras entre as sombras, como o senhor nos ensinou a ser: soldados ardilosos.

E quando destruirmos, um por um, os símbolos dessa sociedade superalimentada, demosntrando nosso poder e nosso hábil plano para a nova ordem das coisas, eles tremerão.

Acredito que os informes que lhe enviamos já tenham chegado e que sejam do seu agrado. Os próximos passos do nosso plano estão em seu curso. Como nos jogos de xadrez que costumávamos jogar naquelas noites longas e silenciosas, os peões às vezes são sacrificados pela rainha.

Devemos ser breves em nossos contatos. Lembre-se de nós na reunião desta noite. Cite o nosso nome.

Somos Pandora." (1)

Por algum tempo nossos olhos apenas continuaram presos àquele papel, estáticos, passando e repassando cada palavra.

— Infelizmente não foi possível rastrear o destino ou origem da mensagem – a voz do Shion se fez ouvir, tirando-nos daquele quase transe.

— Por mais que tentássemos – o Kanon explicou, devolvendo a folha ao Saga — tudo a que conseguimos chegar foi a um emaranhado de códigos e becos sem saída.

Meu cérebro ainda estava lento. Atentados de 11 de Setembro? Era sério aquilo?

— Espera – eu respirei fundo mais uma vez tentando organizar as idéias -. Vocês estão querendo me dizer que esse grupo, Pandora, ou sei lá o quê, foram os responsáveis pelos atentados de 11 de Setembro?

Eu estava perplexo. Pra dizer o mínimo.

Shion assentiu.

— Nós estamos quase certos que sim.

— Eu... – minha voz tremeu.

Inspira. Expira.

— Eu... Acho que vou precisar de outra dose.

— Dois – o Shura falou outra vez.

— Três – mais uma vez o Oria repetia.

— Eu vou trazer a garrafa. – O Deba concluiu.

— Mas e os muçulmanos, o Bin Laden, e aquela coisa toda que passam na TV? – O Aioria não ficou quieto enquanto o Deba ia buscar a garrafa.

— Cortina de fumaça – Dohko explicou -. Pandora é boa nisso. Bin Laden provavelmente foi mais um instrumento deles. Um bode expiatório.

— Embora pelo que pudemos perceber de Pandora — o Kanon entrou no assunto -, provavelmente nem o próprio sabia disso.

— Como 'soldados ardilosos', Pandora age nas sombras – Saga explicou -. Elege pseudo líderes, que nada mais são do que instrumentos da sua causa. São uma espécie de 'organização por trás da organização'.

— Nessa época eu investigava um caso de tráfico de mulheres no Leste Europeu — o Shion começou a contar, percebendo-nos já mais calmos depois das bebidas -, e o Dohko atuava infiltrado na máfia chinesa. O secretário de segurança nos trouxe de volta, remanejou o Dohko pro Bronks, infiltrado entre as quadrilhas que assolam o cais, e eu assumi o comando do Departamento de Investigações Especiais, agindo com carta branca e sob o código 5 pra investigar Pandora.

— Código 5? – O Shura perguntou.

— Sigilo absoluto até segunda ordem – A garota, June como havia sido apresentada, que se mantivera em silêncio até então, respondeu.

— Mas e o FBI? A CIA? Não deviam ser eles a investigarem essas merdas? – O Aioria perguntou outra vez.

— O FBI e a CIA estão investigando também, é claro – Saga falou -. Mas em outra 'frente', por assim dizer. O FBI e a CIA são órgãos exclusivamente americanos que não compartilham informações. Como o exército, eles acreditam que isso comprometeria a Soberania do Estado. Já a Interpol é um órgão inernacional que age com a cooperação das polícias de vários países.

— É uma questão bem estúpida de politicagem e conflitos de ideologias, se vocês querem saber – o Kanon tinha que dar sua opinião -. Mas o fato é que Interpol, FBI e CIA não se bicam. Então às vezes a gente meio que tem que usar de 'subterfúgios' pra conseguir algumas informações dos caras, sabe – Ele sorriu de forma marota e ganhou um olhar torto do Saga em resposta.

— Como eu ia dizendo — o Shion pigarreou antes de continuar -, por quase um ano, com a colaboração da Divisão de Inteligência Eletrônica, do Esquadrão Anti-bombas, e das polícias de vários países, nós corremos atrás de Pandora. Sempre nos deparando com muros e becos sem saída. Até finalmente conseguirmos uma pista, ou melhor, um nome: Radamanthys Wyvern, o Juiz.

— É claro que esse não é o nome verdadeiro dele — o Kanon se meteu outra vez -, mas 'o Juiz', como é conhecido, era, e ainda é, uma figura bastante respeitada no dito 'submundo'.

— Aparentemente ele possui contatos e goza de muita influência junto à máfia de diversos países – o Saga disse -. Parece até que chegou a trabalhar como asassino de aluguel por algum tempo. E, óbviamente, também ajuda a mover as cordas de Pandora.

— Diziam por essa época, à boca pequena — foi a vez do Dohko tomar a palavra -, que ele andava fazendo perguntas e parecia bastante interessado na receptação de jóias francesas, e antiguidades roubadas. De olho nessa pista eu logo dei um jeito de entrar no 'ramo', por assim dizer. Foi também quando eu conheci o Milo.

— Na época – o Shion retomou — nós não fazíamos idéia, mas hoje estamos quase certos de que esse era já o primeiro passo de um plano que Pandora colocaria em prática apenas anos mais tarde.

— Nós tentamos fechar o cerco — Dohko falou outra vez -, mas Radamanthys parecia pressentir nossos passos. O 'Juiz de Wyvern' era como uma sombra, e do mesmo jeito que surgiu pareceu desaparecer no ar outra vez. Foram precisos quase seis anos pra que ouvíssemos falar dele novamente.

— Em 2008, pra ser exato — Shion falou -, um dos nossos contatos na polícia japonesa atuava infiltrado na Yakuza investigando crimes ligados ao tráfico internacional de armas e entorpecentes. Havia então a suspeita de que a Corporação Kido, responsável pela Fundação Graad, uma mega empresa de destaque na ecônomia do Japão, pudesse estar envolvida em negócios ílicitos e dívidas com a máfia desde o afastamento de seu patriarca e principal acionista Mitsumasa Kido. A morte trágica do filho e da nora de Mitsumasa em um acidente de carro, colocavam seu neto, o jovem Seiya, na linha direta de sucessão, e a polícia japonesa logo tratou de manter um olho no garoto.

— Foi nesse contexto que Radamanthys reapareceu – Saga se manifestou -. Eu e o Kanon já integrávamos a equipe de Investigações Especiais sob o comando de Shion por essa época e recebemos o contato do agente infiltrado na Yakuza. Ao que tudo indicava Wyvern estava usando de sua influêcia na máfia daquele país pra se aproximar do garoto. E o boato que parecia correr entre os homems era de que o Juíz andava bastante interessado nos herdeiros Kido.

— Nós obviamente não fazíamos idéia, então, de qual poderia ser o interesse de Pandora nos garotos Kido — Shion disse -, mas uma pista de Pandora é sempre alguma coisa. Logo, tratamos de colocar um dos nossos na cola dos irmãos. Na época ambos, Seiya e a irmã, Saori, cursavam Harvard, em tempo integral, e moravam em fraternidades nos alojamentos. Por isso nossa opção foi por infiltrar Shiryu, um dos nossos melhores garotos e sobrinho do Dohko, na universidade com objetivo de se aproximar dos irmãos.

— Nós fomos felizes na infiltração — Dohko falou -. Shiryu se aproximou dos meninos, assim como de alguns outros rapazes de seu grupo de amigos, e nós mantivémos esse arranjo por mais de um ano sem, no entanto, conseguir qualquer avanço sobre Pandora.

— Nesse interim – Shion observou — as cartas ameaças começaram a chegar. Não só aqui como junto a Iteligência de diversos países.

— Cartas ameaças? – Eu realmente não havia entendido.

— Cartas eletrônicas com ameaças de Pandora, onde o grupo apregoava sua ideologia, gabava-se de seus feitos e algumas vezes faziam exigências. Seguidas por explosões e atentados – Kanon explicou.

— Não apenas os EUA, como a Inteligência francesa recebeu várias delas, e em menos de cinco meses duas ameaças de bomba foram controlodas no Louvre – Saga contou.

— A dita 'Guerra ao Terror' – era Shion outra vez — ficava cada dia mais acirrada, e com o advento 'Bin Laden' e a exploração massiva da mídia sobre o assunto, os governos não paravam de pressionar, exigindo resultados.

— Nós, no entanto, continuávamos no escuro — Kanon falou -, e já estavamos começando a achar que Radamanthys desaparecera de novo, quando aquele garoto surgiu na delegacia.

— Quase como um presente dos céus — Saga continuou -, Hyoga Chevalier apareceu com o namorado pra prestar depoimento sobre um atentado que ele sofrera em Boston alguns meses antes.

— Hyoga, o irmão do Camus? – Eu não pude me conter.

— O próprio – Kanon afirmou -. O garoto fazia parte do grupo de amigos de Seiya na faculdade, e nós meio que já sabíamos do ocorrido por meio dos relatórios de Shiryu. Mas não víamos ligação disso com as atividades de Pandora... Até então.

— De acordo com o garoto – Saga explicou -, e diferente do depoimento que ele havia prestado em Boston por ocasião dos fatos, ele fora capaz de reconhecer seu agressor. Radamanthys era o nome do homem que o atacara, ele dissera. Eles foram apresentados por seu amigo Seiya Kido em uma boate alternativa em que fora levado pelo rapaz.

— É claro que o menino afirmava que seu amigo era inocente – Kanon salientou -. Afinal, 'Seiya não podia imaginar que tipo de homem era Radamanthys', ele declarara. Mas nós certamente tínhamo uma opinião bem diferente sobre o assunto.

— O garoto Kido óbviamente estava metido até o pescoço na história – Shion concordou -. Mas ainda ficava a pergunta: O que Pandora poderia estar querendo com o mais jovem dos Chevalier? E por que atirar no rapaz?

— Essa é fácil – eu esbocei um sorriso cruel. Normalmente eu era contra bater em mulheres, mas estava pensando sériamente em abrir uma exceção -. Foi uma armação pra que a vaca da Saori conseguisse fisgar o Camus. Ela deve ter tentado outras coisas antes, mas o Camus... – eu hesitei — Bom, digamos que ele seja meio difícil de se aproximar.

— Tendo problemas nessa área, maninho? – O Aioria debochou.

Eu lancei uma olhar motal a ele e logo o Shion recomeçou a falar.

— Sim, nós também descobrimos isso mais tarde. Na verdade, alguns dias depois, quando Seiya procurou pelo Dohko no cais. Parecia que o destino finalmente conspirava a nosso favor.

— Ele tinha ouvido falar da minha antiga ligação com o Milo – o Dohko contou -. Ou melhor, com o 'Ladrão Fantasma', visto que o garoto não tinha qualquer idéia de quem ele fosse. O rapaz queria que o Fantasma roubasse uma jóia, uma tiara de diamantes, que fora dada a sua irmã pelo noivo dela: Camus Chevalier. Ele disse que o objetivo do roubo era um golpe no seguro, e podia até ser, em parte, mas eu sabia que tinha o dedo de Pandora nessa história.

— Posteriormemte – Saga disse -, investigando sobre a jóia que tanto parecia interessar à Pandora, nós descobrimos que acima de seu valor material, que não era baixo, seu valor histórico era ainda mais notável.

— A peça havia pertencido à rainha Catarina de Médice – Shion explicou -, esposa do rei Henrique II da França. A jóia, 'Les Larmes de Marie', As Lágrimas de Maria, como é conhecida, é parte do acervo da coroa francesa, e estava entre àquelas com que o rei Henrique havia presenteado sua amante, Diana de Porties, sendo posteriormente recuperada por Catarina, pra vir adornar a fronte de várias rainhas depois dela.

— Era tradição na casa real francesa – Saga continuou — que o primogênito de cada geração deveria herdar a Les Larmes de Marie para oferê-la àquela que seu coração escolhesse como futura consorte.

— E como ela acabou nas mãos do Camus? – Eu estranhei.

Saga suspirou antes de responder:

— Camus, assim como seu pai e Hyoga, são descendentes diretos, em linha reta, da extinta casa real francesa.

Descendentes diretos? Espera aí, isso queria dizer... Eu pisquei incrédulo. As informações tentando se encaixar de uma forma que fizesse sentido na minha mente.

— Mas se o Camus descende da casa real então ele é... – as palavras meio que saiam sozinhas dos meus lábios

— Um príncipe, é claro – Kanon deu de ombros, como se aquilo não tivesse qualquer relevância -. Sem título, óbviamente, já que a monarquia na França foi abolida há mais de duzentos anos, mas ainda assim um príncipe.

Eu olhei pra ele com as sobrancelhas levantadas por um momento e então deixei que um pequeno sorriso se formasse em meus lábios.

— Isso... É algum tipo de piada, né?

Ele balançou a cabeça em negativa.

— Não dessa vez. Sinto muito.

Eu estava perplexo demais pra dizer qualquer coisa. De repente eu me dava conta de que não sabia nada sobre o Camus. Nada mesmo.

— Logo – Saga continuou -, seguindo a tradição, como primogênito, Camus deveria herdar a jóia pra ofecê-la aquela que escolhesse como consorte.

Imediatamente a frase de Camus naquela hora em que ele havia me entregado a tiara me veio à mente: 'Ela é sua por direito de qualquer forma, eu acho'. Ele havia dito, e a lembrança não pode deixar de fazer meu coração disparar. Como um idiota apaixonado, eu lamentei. Um idiota apaixonado e, naquele momento, bastante iludido.

— Saori Kido! – O Aioria constatou, me fazendo cair na real outra vez. Porque, claro, ela havia sido a escolhida.

— Exato – Kanon confirmou -. Pandora óbviamente também sabia disso, por isso toda aquela armação pra induzir o ruivo a tomar a Saori como noiva.

— Pra que ela colocasse as mãos na jóia – Foi a vez do Shura falar.

Kanon de um sorriso, assentindo.

— Isso. Radamanthys é um exímio atirador, já trabalhou como assassino de aluguel e, como viemos a descobrir recentemente, também atuou durante dois anos como atirador de elite para CIA. Se ele quisesse Hyoga morto naquela noite em Boston, acredite, o loirinho não estaria mais aqui pra contar a história.

Todos nos entreolhamos em um terror mudo, até que o Deba suspirou ruidosamente.

— Tá, tudo bem, essa parte eu já entendi – ele disse -. Mas por que Pandora quer tanto essa tiara, afinal? Pra vender ou algo assim?

— Duvido muito – Saga respondeu -. A Les Larmes de Marie, é uma jóia catologada, dificilmente se conseguiria mercado pra algo assim, tão marcado. Seria arriscado demais. A jóia é artigo de museu.

— E justamente por isso – Kanon emendou -, o curador do Louvre anda louco atrás dela. Nós acabamos descobrindo que ele já tentou de todas as formas convencer o Sr. Gustave Chevalier, pai do Camus, a doá-la ao Louvre. Ou ainda, mantê-la em exposição permanente como parte do acervo da família. Mas a jóia pertenceu a sua primeira esposa, e o francês se recusa a concordar com isso.

— Espera aí – o Oria interrompeu -, vocês não estão querendo dizer que o curador do Louvre armou isso tudo, estão?

Antes mesmo que ele terminasse de falar, Saga já estava balançando a cabeça.

— Deus, não! É claro que não – disse -. No entanto, como dissemos, a polícia francesa vem recebendo cartas de Pandora, e pelo menos dois ataques frustrados foram tentados contra o Louvre nesse período.

— Há fortes suspeitas – Shion explicou -, não só nossas como de toda a Inteligência, de que depois das Torres Gêmeas e do Pentágono em 2001, o Louvre seria o próximo grande alvo de Pandora. A próxima grande catástrofe da História Moderna.

— Na verdade – Dohko falou -, nós suspeitamos que os dois primeiros atentados frustrados fossem apenas um ensaio. Uma maneira de Pandora avaliar o potencial do sistema antiterrorista francês, pra poder melhor calcular o verdadeiro ataque.

— Tá – eu interrompi -, e onde entra o raio da tiara nisso?

— A tiara é o 'passaporte' deles – Kanon ditou. E ante o meu olhar confuso Saga explicou:

— Pandora precisa de uma forma pra plantar a bomba lá, não é?

Eu o encarei.

— Vocês estão dizendo que eles pretendem usar a tiara pra colocar a bomba dentro do museu? – Aquilo era meio absurdo, não era?

Aparentemente não, porque o Kanon logo assentiu contente.

— É isso aí, maninho –disse -. Pandora está muito bem financiada e conta com recursos técnicos e tecnológicos íncriveis. Uma perícia em um prédio industrial que eles colocaram abaixo na madrugada do útimo dia 31, revelou resquícios de um tipo desconhecido de explosivo. Nossos técnicos estiveram trabalhando nisso durante toda a semana e a suspeita é que Pandora esteja investindo no desenvolvimento de uma nova espécie de explosivo. Algo com um poder de destruição nunca visto. Apenas uma pequena quantidade disso unida a um micro detonador, acionado via celular e camuflado na jóia, e boa parte do Louvre iria pelos ares com seus milhares de turistas dentro.

— Mas e os detectores de bomba e essa coisa toda? – Deba franziu o cenho — Digo, por mais que o curador do museu esteja doido atrás da tiara, se do nada a jóia aparecesse lá, eles iam passá-la pelos sistemas de segurança e tudo o mais, não iam? E mesmo com o dispositivo oculto a parafernalha ia acusar que tinha caroço naquele angu, certo?

— Provavelmente – Saga condordou, reprimindo um risinho pela maneira tão 'abrasileirada' do outro se expressar -. Mas eles não veriam necessidade de submeter a jóia aos procedimentos de segurança padrão se ela fosse doada ao museu de maneira limpa e ídonea, por uma pessoa legitimada pra tal e conhecida na sociedade francesa.

— O que você quer dizer com isso? – Shura ecoou minha própria dúvida

— O que o Saga quer dizer – Kanon veio em socorro do gêmeo — é que provavelmente os procedimentos de segurança seriam dispensados em uma doação feita diretamente pelo Sr. Gustave Chevalier, pelo seu primogênito, ou pela esposa dele.

— Por 'esposa dele', você quer dizer a Saori, né? – Esse simples pensamento me fazia ferver.

Kanon assentiu.

— Entendi – o Aioria se manifestou -. Então eles iam 'turbinar' a jóia, e depois pretendiam que a própria Saori a entregasse ao Louvre, é isso?

— Exato – Shion confirmou -. A jóia óbviamente teria que desaparecer por um tempo. Tempo esse que Pandora levaria pra 'aperfeiçoá-la', por assim dizer.

— E é aí que o Milo entra, não é? Digo, o Fantasma? – Shura deduziu.

— Sim – o Comandante falou -. Nada melhor pra justificar o período de desaparecimento da jóia do que um roubo por um homem sem rosto e sem nome, e já com um histórico famoso em atividades da mesma espécie.

— Depois, a jóia poderia ser milagrosamente recuperada por algum bom samaritano anônimo qualquer, e a Srta. Kido agradecida a doaria ao Museu como patrimônio cultural da humanidade, ou algo do gênero — Saga continuou -. Ainda não estamos bem certos dessa parte.

— Mas isso não tem importância – Kanon dispensou a especulação do gêmeo com um gesto de mão -. O fato é que quando o Louvre finalmente fosse abaixo ela poderia alegar inocência, dizendo ter sido tudo obra da pessoa que a roubou. E como se não fosse o bastante, ainda sairia dessa com uma indenização milionária da seguradora nos bolsos. Pelo que pudemos apurar, a Les Larmes de Marie está segurada em algo na casa dos milhares de Euros.

— Entendo... – Deba falou — por isso eles queriam o Milo, digo, o Ladrão Fantasma.

Os gêmeos assentiram.

— E por isso eu voltei a procurá-lo – Dohko tomou a palavra outra vez -. Mas o Milo se recusou a voltar à ativa – Ele fez uma expressão desolada, ao que Saga e Kanon sorriram.

— E nós ficamos muito orgulhosos disso, maninho – o mais novo dos gêmeos falou -. Até então a gente ainda não tinha certeza se você tinha mesmo tomado jeito.

— Por favor! – Eu fiz uma careta.

— Na verdade – Saga disse -, nós não fomos exatamente 'a favor' de envolver o Milo nessa história toda, mas não teve muito jeito. E acho que querendo ou não ele já estava envolvido mesmo, não é?

— Além disso, nossas ordens vieram de cima, sabe? – Kanon lançou um olhar severo para o Comandante.

— Era uma chance em um milhão de pegar Pandora – Shion retrucou, enfrentando o olhar do gêmeo -. Foram quase dez anos de investigação, e nós não íamos por tudo a perder por que o Milo resolveu tomar jeito e vocês queriam proteger seu irmão.

— Então nós inventamos aquela coisa toda das provas contra os gêmeos pra chantagear você – Dohko interrompeu a discussão.

Eu o encarei. Inventaram? Que ótimo! Eu estava realmente adorando saber disso.

— E você diz isso assim? – O Aioria também parecia indignado.

Dohko, no entanto, não pareceu se incomodar.

— Nós tínhamos que nos manter um passo a frente de Pandora – disse -. Não podíamos deixar que suspeitassem que estávamos na pista deles, ou poderiam desaparecer de vista. Não seria a primeira vez que isso aconteceria.

— Então optamos por fazer o jogo deles – Shion falou -. Milo roubaria a tiara e a entregaria ao Dohko, que, por sua vez, a levaria até o Kanon, que junto com Julian e o pessoal da Inteligência Eletrônica, implantariam um micro rastreador na peça.

— Pandora provavelmente faria uma varredura na jóia e descobriria o dispositvo – disse Kanon -, mas até que isso acontecesse nós esperávamos conseguir por as mãos em uma boa cambada da gente deles.

— Eu e os garotos ficaríamos vigiando a paisana, em um furgão de monitoramento, na hora da entrega da tiara – Shion continuou -, então seria só seguir o rastro eletrônico emitido pelo aparelho e armar o flagante por roubo.

— Com alguns de seus homens em nossas mãos – Saga falou — estaríamos mais próximos de Pandora. Depois, com o interrogatório certo, e os meios de persuasão adequados, acreditávamos ter boas chances de cavar mais informações sobre sua estrutura, seus planos, seus líeres. E quem sabe conseguir chegar ao homem por trás de tudo.

— Talvez não fosse o resultado ideal – Shion observou -, mas certamente seria o mais perto que alguém já teria conseguido chegar dessa organização.

Outro silêncio se fez enquanto nós processávamos todas aquelas informações. Eu respirei fundo, soltando o ar antes de dizer:

— Bom, parece que vocês pensaram em tudo, afinal...

— Nem tudo – o Kanon ditou, com outro de seus sorrisos debochados no rosto -. Certamente ninguém poderia prever que você iria se emrabichar logo pelo legítimo herdeiro da tiara.

O Aioria riu.

— O Milo nunca se apaixona, mas quando o faz tem que ser em grande estilo, né?

— Calem a boca, sim? – eu ditei, amuado. O que só serviu pra fazê-los rir ainda mais.

— Então vocês já sabiam de tudo sobre o Camus? – Eu quis saber, sério outra vez.

— Mais ou menos – Kanon respondeu -. No começo a gente não sabia que o ruivinho que você estava secando no teatro e andava se pegando no escritório, era Camus Chevalier. Depois, no restaurante, quando ele nos foi apresentado, eu meio que não associei o nome a pessoa, por assim dizer. Porque não me lembrava do primeiro nome do primogênito de Gustave Chevalier. Só saquei que ele era da família, que devia ser algum parente do Sr. Gustave e tal, mas até aí...

— Eu lembrava – Saga falou.

Kanon balançou a cabeça concordando.

— É, o Saga lembrava o nome dele e sacou na hora. Eu só fui perceber depois.

— O Kan teve um insight bem no meio do jantar – Saga disse -, deu a maior bandeira, e teve que usar a desculpa de que tinha visto o nome dele em uma revista qualquer.

— Mas eu tinha mesmo – Kanon reclamou.

Eu me lembrava daquele episódio. Também estranhara toda a empolgação do Kanon apenas por ter visto o nome do ruivo em uma revista. E ainda mais pelo fato dele estar lendo a Money. Quer dizer, desde quando o Kanon se interessa por econômia? No entanto, a expressão adorável de constrangimento do ruivo ao se saber reconhecido me tirou qualquer fluxo coerente de pensamento.

— Vocês poderiam pelo menos ter me contado, né? – Eu protestei, muito arrazoadamente a meu ver -. Teria me poupado muita coisa — Afinal se eu sobesse sobre o Camus antes... Bem, no mínimo eu não iria estar sentindo metade da miséria que sentia agora.

Os gêmeos trocaram olhares, e o Kanon se adiantou:

— Maninho, não leva a mal, mas nós realmente não pusemos a menor fé que o seu lance lá com o ruivinho fosse sério.

Saga concordou:

— E com o seu histórico, você nem pode nos culpar, né?

Eu baixei os olhos. Infelizmente tinha que reconhecer a verdade daquelas palavras.

— Depois – Kanon explicou -, quando a gente meio que percebeu que a coisa era pra valer... E, cara, foi duro de acreditar, você nunca havia se apaixonado na vida e quando resolve fazer isso tinha que ser justo pelo primogênito dos Chevalier? Parecia piada, sabe. Você não poderia ter escolhido alguém menos complicado, não?

É, eu vivia me perguntando a mesma coisa.

— Enfim – Saga continuou -, quando o Dohko falou sobre a sua reação quando ele resolveu começar a ameaçar o ruivo, e depois, com o que o Oria nos contou da conversa que vocês tiveram no Natal, e ainda com tudo que houve em seguida... – ele encolheu os ombros — bem, digamos que não restavam mais muitas dúvidas, e o Kan começou a querer abrir o jogo com você. Nós estávamos então sob o código 5, com ordem de sigilo total, mas você sabe que o Kanon nunca foi muito bom em seguir regras.

Saga lançou um olhar severo ao gêmeo mais novo, que apenas deu ombros, displicente, antes voltar os olhos pra mim outra vez pra dizer:

— Nós discutimos muito sobre isso, mas no fim, e eu odeio admitir isso, o Saga tinha razão. Você é impulsivo demais, Milo. E ridiculamente transparente quando a coisa envolve sentimentos pessoais. Você tem...

— Olhos inúteis, eu já sei. – Eu suspirei. Era a verdade, afinal. E se eu soubesse da história antes estava certo de que aquele ruivo teria facilmente conseguido ler ali a coisa toda.

Então eu me lembrei de algo.

— Mesmo assim – eu ergui os olhos para o Kanon novamente -, você me entregou aquele envelope com o convite de casamento naquela tarde no Red House Coffe. Você sabia do que se tratava, não?

Ele assentiu.

— Sabia. Mas achei que você tinha o direito de saber também... Pelo menos disso. – Ele se referia ao conteúdo do convite, claro.

— Kan – Saga ralhou surpreso -, você burlou as regras!

— Não burlei, não – ele balançou a cabeça muito trânquilo -. O próprio Dohko havia entregado aquele convite ao Milo, então era suposto que não havia risco pra missão ele ter conhecimento disso. Eu só dei um empurrãozinho em algo que ele, em tese, já deveria saber.

— Eu pensei que nós tínhamos combinado de não nos meter – Saga insistiu.

— Minhas ordens eram pra não me meter como policial – o outro falou -. Ninguém pode me impedir de me meter como irmão.

Saga apenas olhou pra baixo, balançando a cabeça, como se achasse que fosse inútil discutir com o gêmeo. E, sinceramente: era.

— Sem querer interromper o drama pessoal de vocês – Shura interveio erguendo a mão -, mas eu tenho uma pergunta.

Nós olhamos pra ele em expectativa.

— O tal cara que eu estava seguindo quando fui atacado – ele logo soltou -, o 'Senhor das Sombras', cúmplice do Dohko, quem era ele, afinal?

— 'Senhor das Sombras'! – Kanon repetiu, rindo alto. Saga e a tal June logo o acompanharam, e mesmo Dohko teve que levar uma mão à boca pra se segurar.

Shion apenas fechou o rosto.

— Era eu – ele afirmou, ignorando os demais.

— E o cara na sua cola – era o Deba quem falava agora -, o que deu a facada no Shura, era da parte de Pandora, presumo?

Shion assentiu.

— Pandora é cautelosa, devia saber que eu estava encarregado das investigações sobre ela aqui em New York, e colocou alguém pra me seguir.

— E o sujeito deve ter levado um belo susto quando topou com você no caminho – Dohko voltou os olhos para o Shura outra vez.

— Então você sabia que estava sendo seguido? – Eu perguntei para o Shion novamente.

— Por vocês? – ele respondeu — Sim. Por pandora? Suspeitava. – ele respidou fundo — Mesmo assim acabei sendo descuidado.

— O que você quer dizer? – o Oria perguntou.

Os olhos azuis-violetas se fecharam por um tempo antes de voltarem a se abrir.

— Nós não sabemos ao certo como foi que isso aconteceu – ele disse -, mas penso que Pandora deve ter me visto na companhia do Dohko em algum momento. E a partir dele conseguiram chegar ao Milo.

— Então foi muito fácil pra eles – Dohko completou -, somar dois e dois, e entender qual a participação do garoto nessa história.

— Por isso eles se meteram no meu apartamento naquele dia... – Eu concluí.

— Mas então eles descobriram que o Dohko joga no outro lado? – o Aioria perguntou.

A expressão do chinês ficou pensativa por um momento, e ele balançou a cabeça antes de responder.

— Difícil dizer, mas provavelmente não. Ou o garotão aqui – ele sorriu dando palmadinhas no meu ombro — não teria saído vivo de seu encontro com Valentine pra contar a história, não é mesmo?

A curiosidade me fez ignorar as palmadinhas.

— Valentine? – Aquele nome era novo pra mim.

— Um cipriota que suspeitamos ter sido o responsável pelo seu ataque e, óbviamente, pelo ferimento em seu pescoço – Saga explicou.

Sim, eu me lembrava de ter notado um sotaque das ilhas no invasor que até então eu acreditara ter sido mandado pelo Dohko. Se bem que pensando melhor agora seria mesmo estranho se esse fosse o caso, não é? Afinal eu acabara de informar ao Dohko que desistira de roubar a tiara, e o tal cara parecera completamente desinformado sobre o assunto.

— O sujeito é mortal com lâminas – Kanon falou -, e é bem possível que tenha sido ele quem atacou o Shura também. Ele parece ser o obraço direito e esquerdo de Radhamantys... se é que vocês me entendem — ele sorriu malicioso.

O Aioria fez uma careta de desagrado.

— Não, eu não entendo, mas tudo bem.

— O mais certo – Dohko optou por ignorar os dois, voltando ao assunto — é que Pandora tenha pensado que eu estava encrencado com 'os caras' – ele estava se referindo a polícia, usando a forma como ela é chamada na bandidagem — ou coisa do tipo. Mesmo assim o Shion cismou em me pôr de molho.

Ele não parecia muito contente com a situação. Shion, no entanto, tampouco pareceu se importar com esse fato.

— É melhor prevenir do que remediar – o loiro ditou -. E o fato deles terem chegado até o Milo provava que você vinha sendo seguido.

O chinês fez um gesto de impaciência.

— Eles deviam estar desconfiando que eu pudesse estar passando eles pra trás e foram pescar informações sobre o andamento da operação com o Milo. Cobrando o paradeiro da tiara pra ver se a gente não estava enrrolando eles.

— Pra mim – Saga se meteu -, eles estavam é jogando verde pra confirmar se o Milo estava mesmo no 'esquema' como eles pensavam.

Kanon assentiu, concordando com o irmão.

— E o estúpido vai e entrega o ouro – ele me olhou com uma expressão desolada, antes de voltar os olhos pros demais novamente -. E ainda diz pro inimigo que tinha desistido de por as mãos na jóia. Ninguém merece, viu!

— Ei, ei... – eu protestei — será que dá pra máfia aí parar de discutir suas teorias tenebrosas, e de me avacalhar no processo de preferência? Eu não tinha como saber, tinha?

Porque eles fizeram questão de me deixar de fora, caso não se lembrassem.

— Não, não tinha – Shion falou -. Mas Pandora queria a tiara e se sentiu compelida a te mandar um aviso, depois disso. Por intermédio do melhor amigo do seu namorado.

Melhor amigo do meu namorado?

— Você está se referindo ao ataque que o Afrodite sofreu? – Tudo bem, agora eu estava começando a me sentir culpado.

Ele assentiu.

— Pandora deve ter investigado você – Saga explicou -, e descoberto sua relação com o ruivo. Afinal, e aqui eu tenho que concordar com o Kan, você não andava sendo muito discreto sobre esse assunto, não é?

— Sua sorte – Kanon continuou — é ter adotado publicamente o sobrenome Scorpion, e que Pandora não tenha investigado mais a fundo, ou teria descoberto seu parentesco com a gente e tudo estaria perdido.

— Mas por que escolher o tal Afrodite pra isso – Shura indagou -, não seria mais efetivo atacar logo o próprio Camus?

Sério, eu agradeceria se ele parasse de dar idéias, sabe.

— Bem – Shion respondeu -, se eu tivesse que apostar em alguma coisa, eu diria que eles até pensaram em tentar isso. Mas desde o episódio da invasão no apartamento do Milo, nós destacamos uma parte significativa do nosso pessoal pra fazer a proteção de ambos. Do Milo e do ruivo. Pandora também deve ter percebido isso, e não quis arriscar.

— Deus! – Eu não pude deixar de exclamar, sentindo um súbito estremecimento, como se alguma coisa gelada tivesse se alojado no meu estômago. A simples idéia de que alguma coisa mais séria pudesse acontecer com o Camus... Era melhor nem pensar nisso. Isso só me fazia doer o peito e arder os olhos. Mesmo que as coisas nunca se acertassem entre a gente, mesmo que eu nunca mais voltasse a sentir o prazer de estar em seus braços, não poderia suportar nem o pensamento de que ele não mais existisse. A dor de não voltar a vê-lo seria infinitamente pior do que a de vê-lo e não poder tê-lo.

— E como vocês sabem de tudo isso? – o Aioria de repente perguntou.

— Do ataque ao Afrodite? – Saga respondeu confuso.

O Oria bufou, balançando a cabeça.

— Não. Isso é bem óbvio. Alguém da família deve ter registrado alguma ocorrência, e como vocês são policiais... Enfim, nem tem muito mistério nisso – ele fez um gesto de descaso com a mão -. Eu estou falando do que vocês estavam discutindo antes. Sobre o que o Milo falou ou deixou de falar pra tal cara que entrou no apartamento dele. Que eu saiba ele não contou isso pra ninguém, contou? – Seus olhos se voltaram pra mim em busca de confirmação.

Eu fiz que não com a cabeça, agora também bastante curioso.

— Então como vocês poderiam saber? – Ele interrogou os gêmeos mais uma vez.

— Ah, isso – o Kanon suspirou -. Bom, na verdade não foi difícil já que o apartamento do Milo vem sendo monitorado desde que essa coisa toda começou.

Espera. Eu realmente tinha escutado o que eu achava que tinha escutado?

— Vocês... Vocês estão querendo dizer que grampearam meu apartamento? — Eu olhei pra ele com uma mistura de espanto, confusão e terror etampados no rosto.

— Hum... – ele assentiu — Só por garantia.

Lentamente meus olhos desgrudaram dos de Kanon e passearam por cada um sentado naquela sala.

— Então vocês – eu olhava para os policiais -, essa garota... Estavam assistindo à tudo? Tipo, tudo, tudinho mesmo?

Eu não me considerava uma pessoa tímida, ou reservada. Ao contrário, normalmente eu diria que era bem extrovertido e expansivo, até um tanto quanto exibicionista se vocês querem saber. Mas aquilo realmente era demais. Mesmo pra mim.

Aparentemente não era demais pro Kanon, já que ele apenas deu de ombros, e sorriu displicente em concordância.

— Meu Deus! – eu não pude deixar de exclamar — E vocês viram... O quê exatamente vocês viram?

E tudo bem, eu até que havia me comportado nos últimos tempos — desde que conhecera o Camus, pra ser mais específico — e isso de certa forma era um alívio, mas sempre era bom ter certeza.

— Nada – a garota, June, suspirou frustrada -. Infelizmente. Eu bem que fiquei na torcida pra que você e o ruivão se acertassem logo pra termos um pouquinho de 'ação' por aqui. Mas vocês são tão complicados...

Meus olhos se arregalaram um pouco mais, se possível.

— June! – o Shion ralhou.

— O quê? – ela fez um muxoxo — Uma garota também precisa se divertir! — E então gemeu quando o Dohko deu um tapinha na cabeça dela.

Eu respirei fundo, ainda descrente de tudo aquilo.

Mas, pensando bem, eu não deveria estar tão supreso. Meus irmãos trabalhavam com a Interpol, o Camus era um príncipe, o Dohko era da polícia, e eu estava metido com os caras que explodiram o Old Trade Center... Qual o problema do meu apartamento estar grampeado?

Meu Deus!

— Isso significa que tem alguém nos assistindo agora também? – o Aioria perguntou empolgado. Ele parecia estar lidando bem melhor com tudo isso do que eu.

O Dohko assentiu.

— O Shiryu, no apartamento ao lado. Ele ficou encarregado da proteção pessoal do Milo desde que eu tive que sair de cena.

Você fazia a proteção pessoal do Milo? – Foi a vez do Shura se indignar.

— Irônico, não? – O Dohko comentou — Mas sim, esta era também uma das minhas funções. Agora ando servindo de babá do Hyoga – ele fez uma careta.

— Como assim do Hyoga? – Eu estranhei. Mais essa agora.

— Nós colocamos o garoto em uma espécie de 'programa de proteção à testemunhas' desde que ele literalmente desabou na frente da delegacia no Natal depois de ter escapado de outro atentado – o Saga explicou.

— Outro? – Será que o Camus estava sabendo disso?

Kanon assentiu.

— O moleque fez o favor de dar com a língua nos dentes para o amiguinho, Seiya, contando que havia reconhecido Radamanthys no primeiro ataque que sofrera em Boston, e, claro, acabou se tranformando em um alvo de Pandora.

Eu soltei o ar... Caramba!

— E esse Seiya e a irmã... Saori, né? — o Shura disse — Eles também são parte dessa organização? De Pandora?

— Não – Shion respondeu -. Segundo nosso infiltrado na Yakuza, por conta de antigas dívidas de seus pais os garotos estão nas mãos da máfia. Vêem sendo manipulados por Pandora pra se verem livres de seus débitos.

Ele assentiu.

— E o que eles querem afinal? – Deba indagou — Pandora, eu digo.

Saga suspirou.

— Quem sabe? Causar o terror... Insanidade... Poder... Glória... O que leva uma pessoa a explodir inocentes em nome de um Deus, ou a entrar em aviões bombas e dar a vida por uma causa? O que move todas essa organizações como Pandora? — ele encolheu os ombros — Acho que nós nunca seremos realmente capazes de responder a essas perguntas.

Eu concordei. Era verdade. O que levava um homem a matar outro homem? O que levava alguém a extirpar milhares de vidas? Um desequilíbrio bioqímico no cérebro? Loucura? Sujeição a uma ideologia ou doutrina? Revolta? Setenta e duas virgens para cada homem do reino dos céus? Vingança? Nada me parecia justificativa suficiente, motivo o bastante. Mas será que realmente importava o motivo?

Um silêncio, cortado apenas pelo barulho da neve na vidraça, e dos carros nas ruas lá fora, pairou na sala. Havia algo como uma tristeza contemplativa enquanto todos pareciam absorvidos em seus próprios pensamentos.

Foi a voz do Aioria que mais uma vez quebrou o momento.

— Tá, tudo bem — ele foi logo soltando, ao mesmo tempo em que espalmava com um estalo as mãos sobre os joelhos -. Está tudo muito bom, a conversa está legal, mas e o que nós vamos fazer agora? Digo, Pandora está ameaçando o Milo, a tal Saori está com a tiara...

— Na verdade... – eu o interrompi, imediatamente me lembrando do episódio na biblioteca de Camus na passagem do ano.

Eu mordi os lábios me levantando, e, sob os olhares curiosos de todos, atravessei a sala, pegando de uma gaveta na minha escrivaninha fechada à chave, a caixa de carvalho que Camus me dera. Voltei para o meio da sala, depositando a caixa sobre a mesinha de centro e abrindo a tampa.

Shion e Dohko olharam estupefatos para a jóia ali dentro. Os gêmeos pareciam confusos. June soltou uma exclamação em apreço. Deba assobiou. Shura aparentemente não se impressionava com essas coisas brilhantes. E Aioria praguejou.

— Pensei que você tinha dito que não a tinha roubado – meu irmão caçula acusou.

— E não roubei – eu falei -. Camus a deu pra mim no Reveillon.

Oito olhares penetrantes me alfinetaram, mas só Saga falou:

— Ele fez o quê?

— Como isso é possível? – Shion não esperou que eu respondesse — De acordo com todas as informações Les Larmes de Marie pemanece guardada em um cofre no banco no nome da Srta. Kido. Eu saberia se a peça tivesse sido movida de lá.

— Sim, você está certo – eu confirmei -. Ninguém mexeu no cofre. A tiara guardada no banco pela Saori continua onde sempre esteve. No entanto, ela não passa de uma réplica da original diante de vocês.

Agora o olhar de assombro era geral.

— Uma réplica? – Shion ecoou.

— Milo – Saga me olhava como se outra cabeça estivesse crescendo no meu pescoço -, você está nos dizendo que aquela jóia que está no cofre não é a Les Larmes de Marie?

Eu assenti, sem conseguir esconder minha satisfação. Podia parecer infantil, mas era bom estar no controle de novo.

— O Camus pensou que seria arriscado permitir que a noiva usasse a jóia verdadeira na cêrimonia de casamento – eu expliquei -. Por isso mandou fazer uma réplica perfeita da peça. É esta réplica que está agora no cofre no banco. Também seria ela que a Saori usaria no casamento, acreditando se tratar da original. O Camus disse que lhe entregaria a verdadeira, óbviamente, mas apenas depois que já estivessem casados. Até agora só ele e o pai sabiam da existência da réplica.

Outro silêncio se fez enquanto todos se esforçavam pra assimilar aquela nova informação.

Uma gargalhada explosiva tirou todos de sua meditação.

Kanon, com a mão sobre a barriga, se dobrava de tanto rir. Ele balançava a cabeça de um lado pro outro, e, com a mão que não segurava a barriga, dava pequenas pancadinhas no joelho. Ele aparentemente conluíra que alguma coisa naquilo era muito, muito engraçada mesmo.

Eu fechei o rosto.

— Posso saber o que é tão engraçado? – Eu odiava não entender a piada.

Ele ainda levou algum tempo tentanto controlar o riso antes de responder:

— E não acredito! Quer dizer que o 'cunhadinho' ludibriou toda a polícia secreta, além de uma das organizações terroristas mais bem estruturadas da história? – ele voltou a rir outra vez, dessa vez sendo acompanhado por Saga.

— Imaginem a cara a de Pandora – o mais velho ditou sem fôlego — se o esquema deles funcionasse e no fim de tudo aquilo, a jóia fosse falsa?

Agora a gargalhada era coletiva.

Com o rosto ainda contorcido de tanto rir, Kanon inspirou fundo e se levantou, aproximando-se de mim e apoiando ambas as mãos nos meus ombros.

— Milo... – ele disse tentando ficar sério — Eu aprovo. Depois dessa, no que depender de mim, seu ruivinho é mais do que bem vindo à família.

Eu soltei um muxoxo.

— Idiota.

O que, claro, só provocou mais risos.

— Mas por que ele fez isso? – Shura perguntou depois que os risos se acalmaram — Digo, por que depois de tudo ele simplesmente entregou a tiara pra você assim?

Eu fechei a tampa da caixa, colocando-na na mesinha de canto ao meu lado.

— Depois do ataque que o Afrodite sofreu, ele disse que não queria que ninguém mais se ferisse.

— Inclusive você? – O Aioria indagou em voz alta.

— Aparentemente, até eu – eu falei dando de ombros.

— Bem, isso mostra que ele é uma pessoa melhor do que eu. – Kanon falou. Sua expressão era compreensiva, até um pouco zombeteira.

— Que eu também – Oria logo acrescentou.

Saga apenas esboçou um meio sorriso dirigido a mim.

— Bem, creio que estamos todos de acordo que acabaríamos com ele, mas essa não é a questão.

— O fato – Shion falou mais sério — é que agora temos o que Pandora quer. Apenas temos que decidir como faremos pra que eles pensem que vão conseguí-la.

— E como faremos isso? – Aioria perguntou. Sempre o primeiro se voluntariar.

Você não vai fazer nada – eu disse, antes que os outros pudessem falar. – Você está noivo. Tem uma mulher em quem pensar, e vai ficar em casa, pra que eu não tenha pesadelos por ser o responsável por ter deixado minha cunhada viúva e meu futuro sobrinho sem pai.

Ele franziu a testa, pronto pra contestar, mas estava em desvantagem numérica. Saga e Kanon rapidamente concordaram comigo. Aioria poderia participar da criação do plano, mas não se envolveria em sua execução, e ponto final.

— A primeira coisa que temos a fazer – Shion começou, andando de cá pra lá – é que Pandora pense que o Milo não desistiu do roubo. Depois temos que arranjar um lugar seguro pra guardar a jóia. Pra segurança dos envolvidos é aconselhável que Pandora não saiba da história da réplica. Nós também precisamos determinar o lugar da entrega... June, me arrume um papel, por favor, e um lápis.

E então a coisa começou.

Nós falamos, discutimos e conspiramos durante horas, elaborando cada detalhe do plano.

No final não seria nada muito diferente da idéia original da polícia: Eu fingiria que sucumbira à coação de Pandora e voltara ao esquema deles, a fim de tranquilizá-los. Os gemêos guardariam a tiara original em lugar seguro e nada seria dito sobre a existência de uma réplica. Seguindo os planos originais, eu usaria o convite pra entrar no casamento de Camus e pegar a réplica – e, claro, trataria de arrastar o ruivo de lá nem que fosse à força. Não que alguém precisasse saber disso – Depois entregaria a peça ao Kanon que daria seguimento ao antigo plano deles. Dohko faria a entrega – fora difícil, mas ele conseguira convencer Shion disso -, os outros estariam por perto e seguiriam os sinais eletrônicos emitidos pelo rastreador escondido na jóia. Esperavam conseguir prendê-los antes que percebessem o que estava acontecendo.

No fundo até que seria bem simples. Tudo dependia de que eu fizesse bem a minha parte, e que o Dohko se mantivesse bom longe da polícia e recuperasse sua confiança no submundo — Shura e Deba o ajudariam com isso. Provavelmente a parte mais difícil naquilo tudo seria ter que me manter longe do Camus nesse período. Eu não queria, mas todos foram unânimes, e, mesmo eu, tive que concordar que seria mais seguro desse jeito. Fora ingênuidade da minha parte achar que poderia me envolver com ruivo sem que isso representasse um risco pra ele. Pandora não era boba, e óbviamente manteria alguém na minha cola.

Uma vez que já estava tudo acertado, Dhoko, Shion, a garota e os gêmeos foram os primeiros a ir embora. Precisavam repassar alguns detalhes do plano com o pessoal deles. Deba saiu pouco tempo depois. Estava ansioso para ir para casa e se encontrar com Tessa. Aioria, embora fosse óbvio que quisesse ficar e debater o assunto mais um pouco, também foi forçado a ir. Marin estava esperando por ele também.

Quando já estávamos sozinhos, Shura se acomodou melhor na poltrona, esticando as pernas sobre o pufe, antes de perguntar:

— O que há com esse seu ruivo?

— O que há com ele? – Eu repeti, sentando-me também no sofá outra vez.

— É evidente que ele se interessa por você – ele respondeu.

— Você está enganado. Ele me disse que estaria mais seguro se eu ficasse longe dele – Eu falei, esboçando um sorriso triste.

— É claro que sim – ele disse, como se eu fosse um idiota por acreditar nisso.

Eu franzi o cenho ante seu tom de superioridade.

— E o que você sabe disso? – eu retorqui, irritado. — Você nunca nem se apaixonou antes, não é mesmo?

— Já sim, uma vez. – Seus olhos verdes se tornaram distantes — Ou pelo menos achei que estava. Ela me abandonou, lembra?

Eu lembrava. Aquilo havia acontecido na época em que éramos garotos, ainda. Perdidos no Bronks. Batendo as carteiras dos turistas no porto.

Marina era o nome dela. Uma negra linda. Brasileira – entrara no país ilegalmente junto com Tessa -, postura perfeita, tranças descendo pelas costas, pernas muito compridas e um bumbum de responsa empoleirado em cima delas. Ela nunca tentava esconder o bumbum. Tinha orgulho dele. Eu achava isso fascinante. A vida das garotas americanas que eu conhecia era uma busca constante por métodos pra disfarçar o bumbum e por roupas pra diminuir o bumbum. Outra coisa que me fascinava era forma que ela e Tessa tinham de diminuir os nomes das pessoas. Milo, era Mi; Marina, era Má; Tereza, era Tê. Adorável. A gente aprende muito com outras culturas.

Mas no final o namoro não deu certo. Marina acabou voltando para o Brasil.

— Você era um bohêmio incorrigível – eu falei, sendo sincero -. Fico surpreso por se lembrar dela.

— Nunca a esqueci. Você também não esqueceria. – ele disse, sorrindo tristemente.

Não mesmo. Eu sabia disso.

— Não sei o que posso fazer. – eu suspirei desanimado.

— Diga-lhe a verdade quando tudo isso chegar ao fim – espreguiçando-se pra esticar as costas, ele ficou novamente em pé –. E você pode tentar lhe devolver a tiara também quando for seguro. Ele vai apreciar seu gesto. Agora seja um bom anfitrião e me acompanhe até o elevador, sim?

Eu o acompanhei. Quando voltei à solidão do apartamento, servi-me de outra dose de wisky e me estendi no sofá com o copo na mão.

Minha cabeça dava voltas. Ainda estava confuso com todas as informações e descobertas daquela noite. Certamente ia levar algum tempo pra que eu conseguisse assimilar tudo aquilo. Mesmo assim sentia-me bem por ter confessado tudo aos meus irmãos. Era como se tivessem retirado um fardo de cima de mim. Só esperava que nosso plano funcionasse e eu pudesse finalmente deixar o passado no seu devido lugar.

E quem sabe então Camus permitisse que eu lhe explicasse as coisas. Ele poderia até pensar em me aceitar outra vez e talvez começasse a me perdoar. Mas se o Shura achava que a simples devolução da tiara ia fazer com que tudo isso acontecesse... Bem, eu só podia lamentar seu engano. Ele óbviamente não fazia idéia do quão teimosa aquela cabeça ruiva poderia ser.

Notas:

1 — Alguns trechos e termos dessa mensagem, foram retirados da série 'Mortal' de J.D. Robb.

Notas finais
Olá outra vez, rapidíssimo dessa vez, né? Nem eu tô acreditando, fui ninja XD. É que vcs ficaram aí falando que iam morrer, que sofriam do coração, que iam pular da ponte *tá, ng disse isso XD* daí fiquei com medo de ser processada por assassinato, sabe u.u... Não, não foi nada disso XD, mas foi sim o carinho, o incentivo e todo apoio que recebi de vcs que me estimularam. Vcs nem tem idéia de como me fizeram felizes ^^. Mas então, vamos aos comentários: *olha pra cara de quem caiu do caminhão de mudanças e deu de frente com o fantasma do Elvis dos leitores* Ok, ok, eu sei, tá bom? EU SEI! Mas o que eu posso fazer se adoro uma teoria da conspiração? É, eu sei que ng esperava por essa, mas eu juro, EU JURO, que as pistas estão todas lá, bonitinhas, desde o segundo ch da história u.u. É tá certo que algumas eram meio que impossíveis de pegar (tipo: o comentário do Milo de que o Mú vivia mudando de país porque vivia com um tio que tinha um trabalho em que ele vivia sendo transferido e que ninguém sabia do que se tratava; ou quando eu fui descrever a arma do Dohko na primeira vez que ele puxa ela contra o Milo e eu perguntei pro meu marido qual arma um policial infiltrado supostamente portaria, e ele disse que uma Gloke com ferrolho oxidado seria uma boa opção; ou o fato da Interpol ter sede em Lyon e o Shion dizer no ch passado que havia tido uma reunião na sede em Lyon, etc), mas outras até que estavam bem claras, vai u.u. E sobre o Dohko, gente, lembram o que eu disse no segundo ch, sobre, pelo fato da fic ser estruturada em POVs, ser importante não se deixar envolver pelo discurso dos personagens, porque não necessariamente o que eles achavam do que estava acontecendo era realmente o que acontecia? *ou algo nesse sentido XD* Então, é isso aí. Vcs se deixaram levar pela opinião do Milo XD. Mas se vcs pararem pra reparar o Dohko realmente nunca fez nada com Milo além das ameaças. Sim, tiveram os episódios com a arma, que já foi explicado. De resto, gente, tudo suposição do Milo. Todas as características de personalidade que foram descritas do Dohko eram características boas, se vcs não repararam. O Milo sempre falava que o Dohko era um homem de palavra (por isso ele ACHAVA que ele ia cumprir as ameaças), bom, ser um homem de palavra é uma coisa boa, não é? XD Milo tb dizia que costumava gostar do Dohko antes, que o Dohko fora como um pai pra ele, e que o Dohko nunca havia se mostrado violento até então (ele começou a, mais uma vez, ACHAR que o Dohko tinha ficado violento por causa das ameaças e do episódio da facada do Shura. Aliás, muita burrice do Milo concluir que o Dohko pudesse estar por trás disso. Afinal o suposto cúmplice do Dohko estava sendo seguido pelo cara que atacou o Shura. Por que uma pessoa que estaria do lado do Dohko e, por lógica, tb do seu cúmplice, seguiria ele? Não faz nenhum sentido, Milo, sinceramente. XD) No mais, eu espero que esteja tudo explicado ao logo do ch, eu tentei ao máximo não deixar nenhum brecha, mas se ainda restar alguma dúvida, algo que eu esqueci de falar, podem perguntar que eu respondo, ok? ^^ Sobre a trama maluca que eu criei, algumas coisas e acontecimentos são reais, outros foram inventados por mim. Tudo em uma equilibrada miscelânea XD. Eu fiz uma pesquisinha básica na hora de criar, mas não foi 'a' pesquisa, então qualquer erro apenas encarem como liberdade artística da autora, ok? XD Bom, acho que é isso, praticamente tudo já foi revelado agora, falta só uma coisinha ainda, mas nada de muito importante. E como eu disse qualquer dúvida, perguntem. Eu sei que vcs vão demorar até assimilar tudo isso, mas depois eu quero reviews, ok? XD Não, eu não sou de cobrar, mas puxa, estou curiosa demais pra saber o que vcs acharam da trama toda ^^. Enfim, muito obrigada mais uma vez por acompanharem, por chegarem até aqui comigo, apesar de todas as demoras e percalços, e, claro, meus agradecimentos especiais aquelas pessoas especiais que deixaram seus reviews, pra que eu não me sentisse abandonada, e soubesse que vcs estão sempre comigo (cada review que chegava era um: 'Oh, ela não me abandonou XD') . Então muito, muito, muito obrigada: Mel Dark, Sarah, Shall, Minos de Griffon, YukiSaiko, Kamy Jaganshi, Hatake Sayuri, ddkcarolina, Chidori, e stocking; Obrigada mesmo, meninas, eu estou viciada nas reviews de vcs, sabe? Mas um vício bom. Que nem chocolate. Só que chocolate engorda XD. Bjos PS: Créditos devidos a: Kathryn Smith, Marian Keys, J.D. Robb.