Aprendendo a Dizer Eu te amo
5 Uma sensação, uma corrida e um desafio
Notas iniciais
Já estava virando rotina. Todos os sábados eram a mesma coisa. Eu acordava, comia alguma coisa, ia para o meu quarto e ligava para Marcelle, perguntando se poderia ir para a sua casa. Ela dizia que sim, eu olhava para os meus pais, eles diziam que sim, bagunçava meu cabelo e pegava a bicicleta. Então pedalava lentamente, e sem superar a ansiedade que tomava conta de mim antes de tocar a campainha. E eu tocava e aquele som ressoava nos meus ouvidos e tinham aqueles longos segundos em que eu a esperava aparecer, todas as vezes radiante e quase me fazendo babar.
E, mesmo sendo repetitivo, eu não me cansava. Eu gostava de admirá-la na frente do portão e enfim entrar. E irmos para o seu quarto, fazer coisas estranhas que crianças de doze anos não-comuns gostam de fazer.
Quando não era sábado, conversávamos online ou por telefone. E nunca queríamos acabar. Era algo especial, sempre que tínhamos algo para falar. E, mesmo que não tivéssemos, fazíamos algo para ficarmos juntos. E eu gostava de ver que ela se esforçava para ter algum motivo para me ligar. Uma vez, ela me ligou e, como sempre ocorria, meu coração voou ao ler “Marcelle” na tela. Esperei um pouco, apreciando aquele momento, ouvindo Something e lendo seu nome.
– Alô? — falei.
– Victor – mesmo acostumado a ouvir sua voz, aquilo me fez sentir um frio. Não era apenas seu som, era ele pronunciando o meu nome.
– Marcelle.
– Marcy.
– Marcy. Tudo bem?
– Sim. Te liguei porque... Queria te lembrar que prefiro ser chamada de Marcy, e não Marcelle.
Comecei a rir em silêncio. Não é todo dia que a “Marcy Da Sua Vida” te liga apenas para ouvir o som da sua voz.
Desde que conheci a Sara, eu não gostava mais dos sábados. Eles eram como um motivo para eu não vê-la, para não podermos conversar de verdade, olhando uns nos olhos do outro. Mas, depois de ter começado a visitar a Marcelle, eu os ansiava. Quando terminavam, eu ficava maluco, querendo pelo mais um segundo daquele dia.
Parecia que ela não gostava daquele nosso pequeno ritual. Parecia que ela queria algo de diferente. Não sei porque, eram perfeitos. Na verdade, eram perfeitos apenas pelo fato de nos vermos.
Naquele sábado, depois de respirar fundo dez vezes antes de tocar a campainha, ela não apareceu como aparecia normalmente. Sim, ela estava radiante, mas não era aquela maneira angelical de sempre. Ela estava ainda mais bonita, com o rosto manchado de alguma coisa e as mãos sujas segurando uma bicicleta e uma pequena bolsa de lado, pendurada no ombro.
– Vamos para o parque? — foi a primeira coisa que falou.
Concordei com a cabeça, sem dizer nada. Subi na minha e a segui.
Fui atrás dela. E não me incomodei com isso; muito pelo contrário. Eu poderia observá-la em paz, sem ninguém para acabar com isso. Eu poderia admirar seus fios escuros voando para trás, balançando com o vento encantadoramente. E a maneira como guiava a bicicleta, de maneira tão delicada. E como pedalava, tão rapidamente e levemente... Eu podia vê-la voando e meu coração disparou.
Era muito engraçada aquela sensação. Eu me sentia bem quando a observava. Eu esquecia de tudo, e só conseguia me concentrar nela e em sua beleza, e na maneira como fazia isso tão naturalmente. Aquilo me enlouquecia, e me enlouquece até hoje.
No instante em que aquela ideia chegou à minha cabeça, ela parecia ótima. Não posso negar que ainda é, pois é verdade. Eu era um garoto de doze anos atrás de uma garota da mesma idade, onde estava a minha dignidade? Mesmo que fosse muito bom observá-la, eu precisava fazer algo a mais. E acelerei até chegar ao seu lado.
– Aposto que consigo chegar mais rápido que você! — falei.
– Aposto que não!
Suspirei.
– Se eu chegar primeiro – comecei – ganho um beijo.
Aquela palavra saiu tão rapidamente da minha boca que fiquei assustado. Eu não podia mostrar que queria um beijo, mas... ora, era apenas um beijo.
– Se eu chegar primeiro – ela disse – vai ter que escrever uma música para mim.
– Fechado.
– Vai pensando nos versos!
E passou à minha frente.
Pedalei rapidamente, deixando tudo para trás. Eu queria aquele beijo, e eu o conseguiria. Minhas pernas estavam doendo, mas apenas a ideia de que era possível foi o bastante para me fazer ir até o fim.
Andar de bicicleta era um dos meus passatempos favoritos. Andar de bicicleta com Marcelle era especial. Porque, eu não apenas me sentia livre, como também estava com ela. Logo, minha felicidade estava garantida.
Consegui alcançá-la e fiquei ao seu lado por um tempo, tentando ir ainda mais rápido. Pude notar que ela não estava se esforçando tanto para ficar na minha frente, e isso não parecia nada na época, mas percebi o que estava acontecendo um segundo depois.
Ela também queria que eu ganhasse. Por algum motivo estranho, ela também queria um beijo. E, se nós dois queríamos, nós dois iríamos ter. E ponto final.
O suor escorria pelo meu rosto, mas eu estava continuando. Eu não poderia desistir, a praça estava a poucos metros. Olhei para o lado e ela continuava ali, andando rapidamente, mas sem vontade de ir em frente. Como um desafio, fiquei ao seu lado, mas não por muito tempo.
Em um segundo, fui ainda mais rápido e passei Marcelle, com felicidade.
Eu vou conseguir. Eu vou conseguir.
Por nós dois.
Eu tenho que conseguir.
Eu consegui.
Quando cheguei na calçada da praça, pulei da bicicleta e a deixei cair no chão, com um ar de vitorioso ao meu redor. Marcelle chegou logo depois e, assim como eu, pulou da bicicleta. Então me olhou com os braços cruzados e as sobrancelhas erguidas.
– Não acredito que você conseguiu – ela disse.
– Pois acredite.
Assim como ela me olhava, eu a olhei e tentei permanecer firme. Esperei em pé enquanto ela se aproximava de mim, lentamente.
– Ainda não acredito que você conseguiu – seu rosto estava a centímetros do meu e eu estava pálido.
Eu estava prestes a conseguir um beijo. E não seria um beijo comum, ele viria de Marcelle.
Péssima hora para revelar que eu nunca tinha beijado ninguém antes?
Ela segurou o meu rosto e ergueu-se um pouco nos pés. E, assim como no casamento, tocou no meu nariz e sorriu. Sorri para ela de volta e começamos a rir, juntos. Aquele momento estava bizarro (e romântico) demais para um beijo.
E, repentinamente, ela virou meu rosto e beijou-me.
Pude sentir seus lábios na minha bochecha por mais alguns segundos, e perguntei-me como seria a sensação deles na minha boca, mas não por muito tempo. Eu já estava querendo demais.
– Primeira regra das apostas: especifique o que você quer, quando você quer, onde você quer. Não deixe faltar nenhum detalhe, pois eles são os mais importantes.
Marcy bagunçou meu cabelo de novo e correu para o balanço. Sentei-me ao seu lado e fizemos aqueles bancos de madeira irem alto.
E percebi os olhares das pessoas sobre nós dois. E soube porque olhavam-nos daquela maneira. Porque éramos grandes demais para corrermos em uma praça de um lado pro outro como crianças de seis anos. Mas eu sabia que era apenas inveja da nossa liberdade, nossa felicidade, nossa paixão. Porque nós dois estávamos bem um ao lado do outro e não iríamos parar com isso.
O cabelo dela voava quanto mais alto ela balançava, e vi que eu estava quase parando de balançar apenas para observá-la.
É incrível ter doze anos. E é incrível se apaixonar.
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