Aprendendo a Dizer Eu te amo

6 Uma aula, uma chuva e uma coisa nova


Notas iniciais
Tá, eu nem demorei muito. Mas, se acharem que sim, o motivo é a minha falta de inspiração e de tempo. De verdade, desculpem-me. Mas aí está um capítulo pronto e eu espero que gostem :3

Abri a porta e senti o ar gelar o meu rosto, o que me fez tremer. A sala estava cheia e barulhenta e notei que estava atrasado. Procurei meus amigos com os olhos e encontrei uma cadeira disponível. Corri até lá e joguei minhas coisas em cima da mesa.

– Victor! — gritou David – Como vai a Sara?

– Estou bem, obrigado – respondi.

Ele começou a rir e eu consegui abrir um sorriso. Batemos as mãos e começamos a falar sobre One Piece. Alguns minutos, outros garotos se reuniram a nós na conversa e mudamos de assunto repentinamente.

Fazemos isso praticamente o tempo inteiro. Começamos falando de uma coisa, depois de outra e acabamos em algo completamente diferente. Naquela hora, terminamos em como nosso professor de história era chato.

E ela abriu a porta.

Geralmente chegava mais tarde do que eu, e, antes, eu a esperava com os olhos vidrados na maçaneta. Sempre que alguém abria a porta, eu olhava para ver se era ela e, quando era, ficava feliz, tipo, muito feliz.

Naquele dia foi diferente.

Não senti aquela felicidade nem meu coração acelerar ao ver seus olhos verdes. Não consegui ver nenhuma graça na maneira que seu cabelo liso – que era castanho escuro a maior parte mas ficava avermelhado na altura da cintura – voava para trás quando encontrava o vento que circulava pela sala. Sim, eu ainda a achava linda, mas não era a mesma coisa.

Na minha mente, a comparava com Marcy. Por exemplo, seus olhos não tinham aquele brilho de quem não se importa e mal era possível ver suas espinhas por causa da camada de maquiagem que cobria seu rosto. Tinha alguma coisa em Marcelle que me fazia perceber que ela diferente.

Acho que é porque ela era.

David me deu uma cotovelada nas costas e saiu do meu lado.

– Sua namorada chegou – sussurrou.

E, como meu amigo esperava, ela se sentou no seu lugar. Naturalmente, fiquei nervoso. Mas não da maneira de antes, em que eu ficava me perguntando o que poderia falar ou fazer, hesitando antes de qualquer coisa. Naquele momento, eu estava me perguntando se ela ainda sentia alguma coisa. Esperava que não, de alguma forma.

Não é muito fácil explicar o que tivemos. Não ficávamos, não dávamos as mãos, eu nem tinha lhe pedido em namoro ou algo parecido. Somente trocávamos olhares e tentávamos ficar perto um do outro no máximo de tempo possível, e nossos amigos nos ajudavam com isso.

Não olhei para seu rosto nem ergui a cabeça. Fitei o caderno sobre a mesa e assim continuei até ouvir a saudação do professor. Então peguei meu livro e o meu estojo e lhe desejei um bom dia.

As aulas decorreram lentamente, deixando meus olhos cada vez mais pesados – ainda mais com o fato de a voz dos professores serem monótonas. Quando ouvimos o sinal do intervalo, bocejei e descemos, eu e a garota, juntos e sozinhos. E nos sentamos em um banco no pátio.

– O que foi? — ainda era estranho ouvir sua voz suave e não sentir nada na barriga.

– O que foi o quê?

Ela suspirou e me olhou. Olhei de volta e ficamos nos encarando até eu começar a me sentir mal e desviar os olhos. E Sara ergueu o braço, tocando o meu rosto.

– Você...

Puxou minha face para ficarmos cara a cara e não parou de me encarar. E aquilo ainda doía. Se aproximou lentamente e acariciou meu cabelo. Abaixei a cabeça e recuei.

– Você – sussurrou – tem me evitado, né?

Passei a mão nos meus olhos e respirei fundo.

– Desculpa, Sara – e me levantei – De verdade.

Ela me olhou, estática. Não se moveu, apenas ergueu as sobrancelhas, deixando seus olhos ficarem ainda mais verdes do que o normal. Ergui levemente o canto da boca.

– O que eu fiz? — perguntou.

Respirei fundo.

– Nada. É sério. Não foi você.

Com as costas eretas, afastei-me lentamente e, depois de um tempo, corri. Meu coração acelerado, sentia alguma coisa se mexendo dentro de mim. Mesmo daquela maneira, eu não queria fazer nada a Sara. Ela é uma pessoa boa, realmente.

Mas, no fundo, eu estava ansiando para ver Marcy.

***

Acordei com um vento frio entrando pela janela. Olhei para o relógio e vi que eram quase dez horas. Ergui-me lentamente e abri ainda mais as cortinas, tremendo. O céu estava coberto por uma camada de prata e eu estava incapaz de definir o sol até notar a bola esbranquiçada que subia muito lentamente. Era possível ver alguns rastros do azul que existia no dia anterior, mas não eram muito grandes. Percebi que estava prestes a chover. Fechei as cortinas e saí do quarto.

Depois de me alimentar, troquei de roupa e joguei o cabelo para trás com os dedos. Fiquei me olhando no espelho, prestes a dormir novamente e ouvi meu celular tocar “Somethings”. Aquela música me animava pela manhã e eu gostava de ouvi-la. Me lembrava demais a noite em que conheci a cunhada da minha irmã, e tinha sido uma das melhores noites da minha vida. Depois de cinco notas, atendi.

– Alô? — falei.

– Hey! — ouvir a voz da Marcelle pela manhã era outra coisa que me animava.

– Brother!

– Pera, está me chamando de irmão?

– Desculpa, vamos de novo.

– Hey!

– Sister!

– Melhorou agora.

Eu já estava sorrindo de orelha a orelha. Apenas imaginar uma conversa minha com ela me deixava feliz.

– Tudo bom, Marcelle?

– Marcy.

– Marcy. Tudo bom?

– Ah, sim, tirando o fato de que talvez chova.

– E daí?

– Daí que você não vai poder vir.

Não tinha pensado nessa possibilidade. Era só um dia normal, mesmo que fosse frio.

– Eu vou.

– Victor, não precisa – eu gostava de quando ela resmungava.

– Mas eu quero ir.

– Aí no meio do caminho começa a chover...

– E daí? Eu não me importo, vou mesmo assim. Além do mais, se eu não for, meu sábado vai ser entediante.

Ouvi seu suspiro do outro lado da linha e aquilo só me motivou ainda mais.

– Seus pais deixam? — perguntei.

– Cara, nem precisa mais se preocupar em perguntar para eles. Você pode?

– Acho que sim. Minha mãe vai resmungar e bater o pé, mas meu pai vai deixar.

– Okay, estou te esperando.

– Tchau.

– Tchau.

– Até.

– Até.

– Até.

– Até.

– Até.

Comecei a rir.

– Sério, já vou.

– Tá bom. Até.

– Até.

– Ah, até.

– Até.

Esperei ela falar algo, mas tudo o que ouvi foi sua respiração. Então, desliguei.

Saí do meu quarto e encarei meus pais sentados no sofá. Ela olhou para mim com os lábios rígidos e meu pai demorou a erguer a cabeça. E disse:

– Pode ir, mas não demore muito. Deve chover.

Agradeci e fui para o jardim. Peguei a bicicleta e voltei a pedalar, rumo à casa dela.

Como de costume, respirei fundo dez vezes com a ponta do dedo na campainha, esperando aquela coragem aparecer. E, quando chegou, ele a apertou. Ficou dois minutos na porta daquela vez e quem apareceu foi a mãe dela.

– Acho que a Marcy não escutou a campainho – falou.

– Tudo bem. Posso entrar?

– Claro.

– Obrigado, tia.

– Ela está no quarto.

Sorri e caminhei devagar, me controlando. Subi as escadas e abri a porta, ouvindo o suave ranger que me tranquilizava.

Marcelle estava deitada na cama com os fones de ouvido e o cabelo espalhado pelo travesseiro de uma maneira encantadora. Fechei a porta e deitei ao seu lado, roubando um fone da sua orelha. Ela se virou e me deixou ouvir suas músicas favoritas.

Ficamos apenas ouvindo aquelas sintonias e eu gostava daquilo. Depois de um tempo, ouvimos gotas de água baterem na janela e murmurei:

– Acho que não posso voltar para casa com toda essa chuva.

Ela riu e desligou o som. Sentou na cama e pegou seu violão.

– Eu peguei seus versos e fiz a música. Quer ouvir?

– Claro.

Começou a tocar com um ritmo agradável, não muito lento nem muito rápido. E então ouvi sua voz entoando as palavras que eu havia escrito, porém em inglês. E gostei de saber que ela havia se preocupado em traduzir.

Parece que algo mudou

Mas parece que está tudo normal.

As pessoas agem como agiam ontem

Mas sinto a diferença.

O sol está prestes a aparecer

E eu sou capaz de sorrir.

O vento volta a bater

E a tensão está a diminuir.

***

Só preciso aprender a viver

E eu vou saber o que é a vida.

Para isso eu preciso de coragem

E ter auto-confiança.

Nesse mundo,

Tudo tem um fim.

Exceto algumas coisas que são eternas

E conseguem ser perfeitas.

Marcelle entoou a última nota suavemente e tirou o braço de cima do violão. Segurei seu pulso, tão magro que podia sentir o osso sob sua camada de pele. Mas logo desci para seus dedos e os entrelacei nos meus. Estavam muito quentes em comparação aos meus, e eram macios.

– Por que você é tão... magra? — perguntei, baixinho.

Ela me olhou e suspirou.

– Promete que não conta para ninguém? Tipo, de verdade?

Aquilo me fez perceber que era algo sério. E estava com medo do que poderia ser.

– Sim, Marcy.

Marcelle deitou a cabeça no meu ombro e olhou nos meus olhos. Precisei abaixar um pouco a cabeça para poder observá-la também.

– Meu sonho é ser modelo, você sabe disso, né?

– Sei...

– Uma vez, na escola, uma garota me falou que eu não poderia ser modelo porque era... gorda demais. Então eu faço uma dieta desde então.

– Que tipo de dieta?

– Digamos que é meio difícil você me ver comendo...

Segurei sua cabeça nas minhas mãos de maneira tão rápida que ela se assustou.

– Há quanto tempo?

– Um... um ano.

Suspirei.

– Marcy, você é anoréxica?

– Não gosto dessa expressão. Prefiro falar que faço dieta rígida.

– Muito rígida, né?

– Não precisa se preocupar, Victor.

– Anorexia leva à morte. Não quero que você morra.

– Victor, eu não vou morrer. É só até achar uma agência.

– Pare. Você não é gorda.

– Porque a dieta funcionou, ora.

– Para com isso, por favor.

Ela deitou de novo no meu ombro, fixando o chão.

– Está bem, vou voltar a almoçar...

Passei uma mão na sua orelha.

– Obrigado.

Ergueu a cabeça e ficou me olhando. Voltou a cantar a música que fizemos juntos e eu a observava.

E conseguem ser perfeitas – sussurrou.

Empalidecendo, puxei seu rosto para junto do meu e fechei os olhos. Meu coração já estava acelerando.

Então a beijei.

A beijei. De maneira rápida e leve, mas foi considerado um beijo. Não era daqueles que se vê em filmes, mas era um beijo. E foi o melhor beijo do mundo. Eu me sentia como se estivesse alcançando as estrelas e vivendo junto a elas.

Mas eu rejeitaria as estrelas pela Marcy.

Seus lábios eram quentes e macios, e as pontas dos nossos narizes se encontraram de modo engraçado. Seus dedos estavam atrás da minha orelha e brincavam com os anéis do meu cabelo.

Quando senti o ar frio tocar minha boca novamente, conseguia ouvir meu coração bater aceleradamente. Passei a mão no seu cabelo e me perguntei o que queria naquele instante.

Eu sabia o que queria. Eu tinha certeza. Mas tinha um problema: eu não tinha coragem suficiente para dizer aquelas palavras. Eu tinha medo de que a resposta me machucasse mais do que eu já estava machucado.

Eu precisava de coragem e auto-confiança.

E, olhando nos olhos dela, eu sabia que poderia ter. Marcy foi a garota que me mostrou que o sol pode voltar depois de um dia chuvoso. Eu sabia que podíamos ser felizes, juntos.

Então por que eu hesitava?

Aquelas palavras saíram da minha boca tão rápido que mal pude escutá-las. Mas elas tinham saído.

– Marcelle, você quer namorar comigo?

Notas finais
Como eu avisei nas notas da história, depois que eu avisasse só iria postar o próximo capítulo quando o último recebesse pelo menos um review. E isso vai começar agora, okay? Sempre vou avisar, como em CDETA. 1/+ reviews = Próximo Capítulo. Obrigada por ter lido :3